Não é fácil definir o que é a psicanálise. Como nasceu a psicanálise? Onde nasceu a psicanálise? São questões fundamentais que exigem uma resposta.
Afirmo que a capacidade psicanalítica, a psicanálise, é um dos modos mais fundamentais da vida mental de todos nós: nascemos com ele (será que não vem já da vida fetal?) mas não damos por ele. O transcurso da vida, o modo como o nosso socalco psicanalítico da mente se sente bem acarinhado ou maltratado por alguns outros, vem a determinar a pessoa em que nos tornamos, como somos. Melhor dizendo, como vamos sendo, como nos entendemos uns com os outros e, talvez sobretudo, connosco próprios.
A dimensão psicanalítica emerge do modo de estar com os outros: aproximemo-nos da Grécia, e do nascimento de tanta coisa, do teatro, do drama e da tragédia, da poesia, da música e da dança, da arte e da filosofia, da democracia. Em todos estes campos do saber o socalco psicanalítico é que forneceu a chama, o enriqueceu, e se constitui como o núcleo vivo essencial para a nossa humanidade.
Muito tempo depois, no século XIX, com os grandes avanços da ciência, do positivismo radical próprio do século, procurou-se retirar o saber psicanalítico do seu próprio campo, e reduzi-lo a uma ciência exacta.
Esqueceu-se, ou procurou apagar-se, o que já se sabia desde a Grécia, que há saberes irredutíveis a outras formas de saber. Mesmo agora se sabe que a força da psicanálise incomoda, a psicanálise magoa, e a psicanálise atrai como um objecto a destruir.
O incómodo e a mágoa levaram a que se procurasse, numa atitude “positivista” extremada, reduzir a psicanálise ao que permite que ela emerja: ao sistema nervoso, central e periférico. Em vez de se procurar dar nomes próprios, nomes novos ao ressuscitado, ao seu fulgor próprio, irredutível ao que permite que ela exista.
Imaginemos um piano de boa qualidade, pronto a tocar, e procuremos caracterizá-lo quanto às suas dimensões físicas: por mais que se procure defini-lo pela madeira usada, pelas teclas, pelas cordas, pelo verniz usado, nunca se chegará à caracterização e ao entendimento da música que dele poderá emergir. É outro o método para o estudo da música: por mais que se procure caracterizar o sistema nervoso, não se chegará, por aí, ao entendimento, à descoberta da psicanálise.
Pedopsiquiatra e psicanalista. Professor Catedrático jubilado de Psicologia e Psicanálise. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
© dos Autores 2021. Publicado online em , sob a Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.
Karl Popper, filósofo austríaco, com o seu conceito dos três mundos, o físico, o biológico e o psicológico, em evolução sucessiva, aponta para a necessidade da existência prévia de cada um dos mundos para que os outros possam emergir.
O mundo psicológico incluiria a psicanálise. No entanto, apesar do brilho e da profundidade das ideias de Popper, ele tem reservas a pôr à psicanálise, como a da não falsificabilidade possível dos dados da psicanálise, ou seja, todos os dados psicanalíticos poderiam ser aceites como verdadeiros, por definição. Tal não seria possível no campo da ciência dita exacta, única ciência ‘respeitável’.
Na realidade, nem todos os entendimentos e interpretações psicanalíticas são considerados aceitáveis pelos psicanalistas. Pretende-se uma aproximação de rigor, não de exactidão. Os esclarecimentos do campo psicanalítico e do processo psicanalítico, e da convicção na inseparabilidade dos conceitos de transferência e de contratransferência, ajudariam a entender melhor a riqueza e a autenticidade do que a psicanálise procura aprofundar e dar a conhecer, para benefício de todos. Da tentativa originária de empurrar a psicanálise para o campo de uma ciência objectiva como a neurologia, com separação completa entre o observado e o observador, à terapia psicanalítica actual, objectiva-intersubjectiva, vai uma distância quase infinita. Exige uma imersão temporária do psicanalista no mar do analisando, mapeando e transmitindo ao analisando detalhes dramáticos pertinentes do mapa.
Edgar Morin, filósofo, psicólogo, sociólogo francês, homem do saber, que recentemente, ao comemorar os seus 100 anos escreveu dois livros que merecem ser lidos (Leçons d'un siècle de vie, , Paris: Denoel e Penser Global: l'homme et son univers, , Paris: Flammarion), Morin foi aprofundando, ao longo do tempo, o que designou por pensamento complexo e hipercomplexo (Morin, 2008).
A complexidade incluiria uma componente dialógica (diálogo sem fim, não dialéctico), uma recursiva (o que é produzido é também causa da produção, em ciclo interminável), e uma hologramática (a parte está no todo, como o todo está na parte), ligados, inseparáveis.
São conceitos essenciais para a psicanálise.
Também os pequenos livros escritos e editados pelo psicanalista francês, Jean Bertrand Pontalis2, pelo calor humano que transmitem, merecem ser bem lidos, relidos e falados pelos psicanalistas ou, simplesmente, pelos interessados na psicanálise, os interessados na humanidade: Pontalis ajuda-nos a entender melhor o que é a psicanálise viva, a que nos “aquece a alma”.
A poesia também é outro bom “aquecedor da alma”, e é uma recomendação que faço a todos os que se sentem atraídos pela psicanálise: leiam poesia, muita poesia. E aqui, não posso deixar de sublinhar a importância dos escritos da nossa Sophia de Mello Breyner Andresen.
Pontalis e Sophia são de leitura obrigatória por todos nós.
(1993) Poesia. Lisboa: Assírio & Alvim.
(2008) On Complexity. New Jersey: Hampton Press Inc.
, & (1977). The self and its brain. Springer-Verlag.
(Sugestões de livros de J.-B. Pontalis: L'amour des commencements, , Gallimard; L'enfant des limbes, , Gallimard; Fenêtres, , Gallimard; En marge des jours, , Gallimard; En marge des nuits, , Gallimard.)
Discutidores
Conceição Tavares de Almeida 2
Se eu te pudesse dizerAquilo que nunca te direi,Tu terias que entenderAquilo que nem eu sei
Em hipótese alguma deve-se ter vergonha de reconhecer, sem restrições, os erros passados. Que nunca se esqueça que a análise não é um procedimento sugestivo, em que o prestígio do médico e sua infalibilidade devem ser preservados a qualquer custo.
A única pretensão levantada pela análise é a da confiança na franqueza e sinceridade do médico, e a esta, o reconhecimento sincero de um erro não ameaça.
“Todos os nomes”, de Saramago, é a história de um pacato funcionário da Conservatória Geral do Registo Civil que coleciona recortes de jornal sobre inúmeras pessoas famosas e inacessíveis, até que, impelido pela curiosidade sobre uma mulher em particular, é tentado a cometer pequenos delitos, sucumbindo aos seus desejos. Retira(n)do assim desse anonimato, numa espécie de trama kafkiana, abre-se ao mundo, na procura de uma verdade que dê sentido à sua vida.
Bolognini, no seu artigo “Todas as vezes que…: a repetição entre o passado, o presente, o futuro temido e o futuro potencial na experiência analítica”, desenvolve a ideia de Confluência e Consubstancialidade. Ele refere-se à experiência analítica como um quadro mútuo em que o tempo e a separação são entidades mantidas e respeitadas, mas onde, em simultâneo, o analista experimenta equivalência e consubstancialidade sem confusão. Tal experiência reporta ao aqui e agora, mas também ao interior e exterior. Essa é a dinâmica da relação de objeto que habita o paciente e dentro da qual ele vive nas suas profundezas interiores, i. e. existe, em qualquer caso, impressa dentro do próprio, viva e pronta para se reproduzir indefinidamente.
Num anúncio plasmado nos corredores do aeroporto, regressada a Lisboa de um congresso, deparo-me com a seguinte mensagem “In order to break the rules, first you have to master them”. Desde então aconteceu a pandemia, temos “viajado” em modo remoto, e o debate sobre (os limites) do setting alargou-se para além dos limites desta nova realidade. Atualmente membro eleito pela Europa na direção da IPA, tenho tido acesso privilegiado ao debate sobre a natureza e a relevância daquilo que é (e não é psicanálise), naquilo que serão os seus constructos conceptuais, técnicos, éticos, definidos através dos requisitos básicos, regulamentos de formação e transmissão.
À luz dos desenvolvimentos da psicanálise contemporânea, o encontro analítico é visto através das qualidades inerentes ao funcionamento do inconsciente, que se consubstanciam no quadro transferencial-contratransferencial experienciado e compartilhado, o que resulta na criação de uma área de intemporalidade e de criatividade, através da qual as mudanças a um nível mais profundo podem ocorrer. A plasticidade deste fenómeno sugere que, através dele, se acedam a todos os nomes, todos os lugares da realidade interna de cada um. O meu percurso psicanalítico denuncia o meu interesse por estes temas, esculpindo, moldando e consubstanciando a minha identidade a partir do estudo de autores clássicos e contemporâneos, refletindo sobre a importância da contratransferência em geral e do enactment em particular, na procura de entender
Membro titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
a psicanálise nas suas dimensões metapsicológica e clínica, mas também formativa, no seu valor poiético e terapêutico, mas também na sua vocação cultural e social. No texto “O efeito dos raios gama no crescimento das margaridas”, Almeida, C. T. (2012), proponho uma leitura metafórica sobre o tema inspirada numa obra cinematográfica, na qual os elementos gama são enunciados como a qualidade contida na dimensão contratransferencial da relação analítica, percebida enquanto potencialidade com valor evolutivo ou destrutivo, conforme o seu manejo e enquadramento.
Esta psicanálise atual, concebida como um corpo vivo, situado na interface entre o intrapsíquico e o intersubjetivo, adapta-se, reflete e promove (trans)formação. Dessa vitalidade, parte a noção de que o campo transferencial-contratransferencial funciona como uma espécie de observatório basculante em que as varáveis pessoais do analista se constituem como marca artesanal de um objecto de ressonância imperfeito e irreproduzível, cuja escuta e retorno preveem no erro e na falha, tanto a inevitabilidade da comunicação, como a oportunidade de transformação. Para Ogden, a identificação projetiva é uma dimensão de toda a intersubjetividade, às vezes como qualidade predominante da experiência, outras somente como um subtil pano de fundo (Ogden, , p.99). Defendo, como enuncia Zwiebel, R. (2019), a necessidade de se abraçar uma teoria do erro, onde a dimensão humana, plástica, criativa, evolutiva da nossa atividade, contemple tanto a estrutura como a abertura, como variáveis de uma equação onde o negativo e a incerteza se constituem como condição de compaixão para o conhecimento.
Este paradigma comporta necessariamente uma dimensão ética. A psicanálise partilha com outras atividades de prestação de cuidados, uma delimitação no que respeita à necessidade, dignidade, liberdade do outro, numa posição de vulnerabilidade e dependência. O problema da confiança é fulcral e, nessa medida, a assimetria e a complementaridade determinam graus diferentes de responsabilidade em relação a si próprio, ao outro, mas especialmente perante a situação que se constituí como um terceiro. Assim, os fenómenos que são gerados, reativados ou estimulados pelo encontro analítico, são sustentados pela própria técnica e visam alcançar relevância terapêutica. Nessa medida, o manejo da situação é particularmente sensível e faz apelo a mecanismos de compreensão, regulação, transmissão, que requerem rigor e delicadeza. Britton alerta que (…) “learning more about tigers doens't make them less dangerous.” (Britton, 2013, p.5).O ensino da psicanálise responsabiliza as sociedades e os institutos a praticar e promovê-la, assegurando critérios na formação e capacitação em matéria de conhecimentos, competências e valores. A inclusão do erro convoca a uma posição ética perante o objeto psicanalítico, tornando-o cada vez mais presente – previsto, reconhecido, nomeado, integrado – nos múltiplos momentos formativos, como seminários, supervisões, mas também nas atividades científicas, e nas próprias análises. A posição ética inerente à prática da psicanálise deve constituir-se como um bom objeto a ser internalizado, superego regulador porque protetor, instância funcional, compassivo perante a dúvida, o desconhecido e o negativo. A idealização, a clivagem, a negação, mas também o moralismo exacerbado e a rigidez persecutória por um lado, ou o laxismo permissivo, e o niilismo do politicamente correto, por outro, são modos extremos que a mente encontra para lidar com a dor mental, mas que tendem a funcionar como obstáculos à tomada de consciência das angústias implícitas, comprometendo uma melhor resolução e crescimento. Estas defesas narcísicas, como tão bem sabemos, operam tanto nos indivíduos, como nos grupos e os seus mecanismos de transmissão transgeracional podem perpetuar-se, afetando a cultura institucional. O conceito de enactment segundo Cassorla é legitimamente extensível ao campo alargado das instituições psicanalíticas. Na nossa história, forças repressivas tenderão a manter em enactment crónico algumas destas dificuldades e, em momentos críticos, poderão surgir episódios de aguda dramatização; importa no episódio agudo reestabelecer o sentido e recuperar verdade e emoção. Nós, os psicanalistas, somos particularmente vulneráveis a estes acontecimentos. A nossa responsabilidade decorre do
facto de fazermos uso do conhecimento sobre a natureza desses fenómenos, reclamando perícia quanto ao seu manejo, o que acresce e se traduz na necessidade de desenvolvermos formas mais saudáveis de os integrar, visando como superior interesse e benefício, a verdade interna e o crescimento emocional que potencialmente encerram.
Para uma ética da relação fundada na teoria do erro, importa a promoção de uma cultura de reflexão, de respeito e de humanização. Bollas usa a expressão regressão contratransferencial produtiva segundo a qual o analista é convocado, na sua contratransferência, a perder-se para que o paciente encontre o seu verdadeiro self, na sua ânsia de objeto e eventualmente de amor (Bollas, 1987, p.208). Nesta lógica em que o analista admite ser usado como objeto-afetivo, há que prepará-lo para o jogo de projeções que perturba o campo a um nível inconsciente. A prevenção das falhas técnicas e éticas será tanto mais possível quanto a negação das mesmas não for (inconscientemente) veiculada. Da mesma forma importa prever movimentos reparadores subsequentes aos percalços. Se errar é organicamente inevitável, é essencial acolher e integrar o erro para que, ao ser trabalhado, sejam encetados movimentos de luto e reparação.
Uma ética decorrente da teoria do erro reflete-se em flexibilidade e complexidade e introduz uma escala relativa que assenta na ideia de processo e de co-construção. Cada vez mais a contemporaneidade parece deslocar as questões fundamentais da psicanálise para o quadro interno, onde a identidade psicanalítica emerge tanto mais robusta quanto mais capaz de se adaptar, sem o sacrifício da sua essência: uma relação que reativa a verdade intrapsíquica de cada uma das partes para criar uma terceira fundada numa verdade intersubjetiva da qual resulte a possibilidade de expansão do autoconhecimento e a transformação decorrente da experiência emocional profunda.
Quando se trata de Contratransferência e Enactment, questões de ordem técnica e ética são necessariamente colocadas. A dimensão pessoal do analista está sempre presente no seu enunciado, o que o expõe inexoravelmente, mas abre-se também à possibilidade de aceder a áreas obscuras do outro e da relação. Na lógica do valor de comunicação e de transformação, a reflexão é reforçada e validada ou, em sentido inverso, é o facto disruptivo que criará o contraditório, suscitando a investigação. Para refletir sobre a natureza dos movimentos contratransferenciais ativados, é fundamental começar por saber reconhecê-los para depois manejá-los. Verdade em construção, numa lógica de insight e de metáfora que dê sentido à experiência emocional, a técnica possibilita ao analista o acesso a um outro ângulo sobre o facto, pelo que a contratransferência encerra em si esse carácter de potencialidade. Mas também de responsabilidade. Alargada a lente às instituições que formam psicanalistas, é absolutamente necessário que se caminhe para uma cultura que integre as dificuldades, onde os limites éticos sejam mais promotores e preventivos do que punitivos, para uma ética da relação através da qual é possível revisitar (todos) os nomes e os lugares do mundo interno para lhes devolver intimidade, alteridade, subjetividade e humanidade.
(2012). O efeito dos elementos gama no crescimento das Margaridas – Um olhar sobre a contratransferência. Revista Portuguesa de Psicanálise, Vol. 32 (2), p. 61-72.
(1987). A sombra do objeto. Rio de Janeiro: Tempo,1992.
(2006). Todas as vezes que...: a repetição entre o passado, o presente, o futuro temido e o futuro potencial na experiência analítica. Revista de Psicanálise da SPPA, 13, 2, 307-324.
(2013). The love that dare not speak its name. [Paper presented at Transference, Countertransference and Enactment]. London: University College London Conference.
(2009). Reflexões sobre não-sonhos a dois, enactment e função-alfa implícita do analista. Revista Brasileira de Psicanálise, 43, 91-120. [Versão reduzida in H. Levine & Brown, L. (2011), Growth and Turbulence in the Container and Contained. (pp. 149-176.) Londres: Taylor Francis/Routledge]
(1928). Elasticidade da técnica psicanalítica. In Obras completas de Sándor Ferenczi. São Paulo: Martins Fontes, 1992. v. 4, p. 25-36.
(2019). How to face ethics issues in training societies and institutes. [Paper presented for discussion at the Director of Training Institutes Meeting in the IPA London Congress].
Jorge Câmara 1
Ao ler o texto de Emílio Salgueiro em associação livre recordei um poema de Álvaro de Campos “A canção sobre a esperança”. Nesse poema o poeta escreve “Tudo na vida/se faz por recordação/ ama-se por memória”
Luís Buñuel no seu livro “Mon dernier soupir” diz-nos que o que o levou a escrevê-lo estava relacionado com a memória, mas que não iria contar a sua vida de uma maneira histórica. Diz Buñuel “eu não me apoiei em nenhuma nota, em nenhum livro, com as minhas afirmações e hesitações as minhas repetições, lacunas, com as minhas verdades, as minhas mentiras, para dizê-lo numa palavra – A minha memória”. É um livro em que ele se interroga “como é que nos tornamos no que somos?” O que o motivou a escrever este livro foram as visitas que fazia à sua mãe demenciada, onde a mesma revista era lida como se fosse sempre a primeira vez. Buñuel pensou que gostaria de apresentar as memórias antes que elas se diluíssem num quadro demencial, tal como o que experimentava com a sua mãe.
Qual o lugar da memória no pensamento psicanalítico? Sem memória, sem desejo e sem compreensão como nos diz Bion?
Estará Emílio Salgueiro a falar-nos de uma mentalização implícita, arcaica e pré-verbal, um complexo mecanismo de regulação psicofisiológico presente em tudo o que esteja relacionada com a vida mental, Intra e intersubjetiva?
A psicanálise poderá começar dentro da barriga da mãe, no invólucro sensorial do interior materno, universo complexo de marcadores biológicos, num acontecimento psicossomático único, onde as fantasias inconscientes interagem com o psicossoma, engramáticamente informando-nos e condicionando-nos? Essa memória nunca ficará perdida, que nos diga Proust, “A La recherche du temps perdu” Como nasceu a psicanálise e a capacidade psicanalítica? Reflectir sobre estas questões implica o recuar na memória do já pensado da psicanálise, ou como na “Thalassa ”de Ferenczi abandonar as formas habituais do pensar?
E o lugar da linguagem em todo o processo da transmissão de conhecimentos em que a psicanálise se apoia? Pensei na importância do pré-verbal, nas várias memórias, na memória implícita, e na linguagem verbal articulada, do que nos terá proporcionado nestes últimos 10 mil anos. Como seria o nosso conhecimento psicanalítico sem a linguagem? Um avanço cultural mais rápido do que nos milhares de anos anteriores aconteceu. Por outro lado, o advento da escrita permitiu a preservação e acumulação de conhecimentos para além da memória individual e do curto tempo de vida do individuo, como escreve Bizzacchi, linguista da Universidade de S. Paulo, no livro “O Universo da Linguagem”. Num momento indeterminado da nossa espécie a linguagem verbal
Médico psiquiatra e psicanalista. E-mail:
articulada emergiu como uma função biológica vantajosa à nossa sobrevivência, passando desde então a ser transmitida geneticamente, ideia defendida por Chomsky, para quem a aptidão linguística é inata, um atributo biológico. Esta aptidão do ser humano passou a um registo nas nossas mentes mesmo antes do nascimento. Estaria Emílio Salgueiro a colocar a hipótese de que o pensamento psicanalítico é inato e contemporâneo com a aquisição da linguagem articulada ao dar um sentido às emoções mais arcaicas e primárias? Será a linguagem humana uma invenção como defende o linguista Daniel Everett, que ainda que não desconsidere o valor da genética na linguagem defenda que é preciso considerar o papel da cultura humana no desenvolvimento de símbolos, que por sua vez levam às línguas Contudo os estudos mais recentes das neurociências e das ciências cognitivas dão ênfase ao “Inatismo linguístico” de Chomsky. Porquê incluir esta reflexão no debate que é proposto por Emílio Salgueiro? Uma parte importante da linguagem é a capacidade de repensar as coisas ausentes, passadas, presentes, futuras, hipotéticas ou abstratas.
Sobre o começo da função psicanalítica, da memória, transferência e contratransferência lembrei-me do cuidador ferido usando a imagem mitológica de Asclépio. Podemos pensar que o paciente tem um cuidador dentro dele e que o cuidador tem um paciente no seu interior Carl Jung interpretando o mito grego do cuidador ferido, enfatizou que “só o terapeuta ferido pode curar, seja o médico ou o padre.” A função psicanalítica da mente estará presente desde que alguém esteja para amparar as profundas feridas narcísicas, traumaticamente abertas perante o contacto com a força da pulsão de morte e reanimadas no acolhimento e contenção parental. James Knight, voltando ao mito, descreve o drama de Asclépio, filho de Apolo e da mortal Corónis, ferido antes de nascer. Corónis foi infiel engravidando de Apolo. Enquanto Corónis estava na pilha funerária, Apolo salvou das chamas o seu filho Asclépio e deu-o a um cuidador, Chiron, que o introduziu na arte de curar. O mito descreve a entrada de Asclépio no mundo como um nascimento miraculoso da morte. Chiron, que era meio humano meio divino, estava atingido por uma ferida incurável infligida por uma seta envenenada de Hércules. Deste modo, Chiron era um cuidador que necessitava curar-se a si próprio, transmitindo a Asclépio a arte de curar, a capacidade de estar em casa na escuridão do sofrimento e aí procurar a semente e luz da recuperação. Na tradição de Asclépio, da cura, um paradoxo encontra-se no coração do mistério. O cuidador cura, mas ao mesmo tempo o cuidador permanece ferido. Ninguém existe sem as suas próprias feridas, mas o princípio subjacente ao mistério está relacionado com a verdadeira consciência interna da ferida do cuidador. Ferenczi tinha abordado este estado de desamparo original no seu texto “A criança mal acolhida e a sua pulsão de morte ”em que nos coloca perante as forças inatas do feto e do recém-nascido que poderiam não ser suficientes para neutralizar a pulsão de morte, acaso não encontrassem um acolhimento contentor.
Qual o nosso contentor na ciência/arte psicanalítica? Emílio Salgueiro fala-nos dos filósofos da ciência, Popper e Morin. Sobre estes, considero que Morin sempre foi buscar a Popper o racionalismo neopositivista, a Khun o estruturalismo científico e as proximidades e descontinuidades quanto às conceções particulares acerca da natureza, da verdade e do progresso científico, avançando muito além dos outros pensadores. Penso que Morin está próximo da complexidade do pensamento psicanalítico., com o seu assistemático “pensamento complexo”. Morin aborda o actual status atribuído à ciência, da primazia da ciência sobre outras formas de conhecimento, em que a hiperespecialização do cientista, impossibilita a comunicação entre diferentes campos, mutilando o próprio conhecimento e sua função libertadora. É a dialética, a dualidade que possibilita a construção da ciência, bem como a percepção do cientista inscrito numa cultura.
Poderemos pensar que o pensamento iluminista com a rígida relação sujeito /objecto representou a emergência da natureza como algo a ser dominado? O fracionamento do homem, como homem-sujeito domina a natureza-objecto, agora também o intelecto-sujeito manipula o corpo-objecto. Como admitir o homem como uma
totalidade? Para Morin a objetividade está na intersubjetividade científica. Nega a existência da verdade, para ele a única verdade é o conflito, a pluralidade ideológica. Para Morin a descoberta é um momento da criação artística que foge às regularidades, que não pode ser explicado cientificamente. Parece-me que estas contribuições e diálogos dos diversos campos de saberes são um enriquecimento para o pensamento psicanalítico, entre a arte e a ciência.
A aparente simplicidade do texto de Emílio Salgueiro levanta importantes reflexões que me levaram novamente a articular com o pensamento de Morin e a psicanálise. Com efeito, o princípio dialógico de Morin permite toda a organização. A autonomia, por exemplo, só pode existir a partir da relação de dependência. Morin introduz o acaso e a desordem como agentes na produção da estabilidade e da organização. O pensamento de Morin é um apelo ao resgate do sujeito, mas um outro sujeito que se reconheça na multiplicidade da sua unidade, que não pressuponha que o real se pode esgotar no mental, como a racionalização iluminista. E, voltando aos pequenos livros, qual a nossa transferência com estes autores e qual o lugar na memória do futuro que eles nos despertam? A ciência em geral e a ciência psicanalítica são uma obra em aberto.
Mas não será esta a questão levantada por Emílio Salgueiro?
Maria José Martins de Azevedo 1
Emílio Salgueiro postula a existência de uma «capacidade psicanalítica» inata, universal, presente desde o início da vida. Desenvolveremos essa hipótese. A capacidade psicanalítica incipiente defronta-se, à partida, com idêntica força oponente: o ódio à realidade psíquica emergente. Este constitui uma defesa primitiva contra a angústia (Klein, 1932; Bion, 1962), com os correlatos mecanismos de clivagem, projeção e negação. Num ímpeto vital, o organismo repele a pulsão de morte no exterior. É aí, no continente-contentor de existência prévia à do organismo, que o traço mnésico primevo será rastreado na psicanálise. A capacidade psicanalítica incipiente do organismo, introjetada pelo meio, é depois reprojetada no organismo, o qual reintrojeta e reprojeta, numa complexificação interminável de ciclos («hipercomplexidade» de Morin) nos quais se transportam tanto a capacidade psicanalítica em crescimento, como os traços particulares do meio e do organismo.
Uma mulher desespera-se, solicitando explicações urgentes: o neto de três anos, quando sabe que vai sair consigo, fica ansioso, temendo que ela falte. O insight é de que este facto é da sua responsabilidade: – O que estará a causar-lhe sofrimento? O filho também a adorava assim, mas, agora, despreza-a. Na contratransferência/memória-induzida, sentimos o desconforto irrespirável de um amor sufocante e irrepreensível. Na transferência/memória-atuada, a analista representa uma mãe mimada por uma filha esforçada. Acaso assim não fosse, o ódio na sombra manifestar-se-ia. Assinalamos a repetição do passado: a sedução do bebé/paciente para ser amado, forçando o que não ocorreu. Transparece na transferência a incompreensão. A paciente justifica os seus cuidados: sempre foi cuidadora extremosa. Também à outra neta, triste porque vai ter um irmão, comprou um boneco com o tamanho e o peso de um recém-nascido. Ri-se: há mais loucos como ela.
Recém-nascido e pais, paciente e psicanalista, participam neste movimento de formação de uma capacidade psicanalítica. Diz Popper (1989, p. 37), a propósito da criação de uma realidade:
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista e escritora, Formadora na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Titular, Formadora e Supervisora na SPPC, colaboradora também na Formação na SEPEA (Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent), membro IPA (International Psychoanalytical Association), FEP (Fédération Européenne de Psychanalyse). E-mail:
[…] «Nós somos o autor da obra, do produto, e, simultaneamente, somos por ela moldados. Esta criatividade é especificamente humana: ao mesmo tempo que criamos, criamo-nos a nós próprios através da nossa obra. A formação da realidade é uma realização nossa». A capacidade psicanalítica é um produto da criatividade: podendo existir como potencial, só se torna realidade se tiver sido gerada na relação analítica, tal como o potencial herdado só se tornará bebé se encontrar a mãe suficientemente boa (Winnicott, 1960).
A analista pareceu incompreensiva por não sublinhar a reparação do passado infantil, pela qual a paciente cuida como precisaria de ter sido cuidada. Acrescentamos: algo correu mal: o filho evita a mãe, em adulto. O bebé real, o filho/neto, terá representado uma parte do self da paciente, carente por um renascimento, e a prestação materna/avoenga, uma nova mãe. Na contratransferência a opressão diminui, expectante, sem ódio, alguma tristeza. Uma conceção desponta: a perfeição maternal sufocou a expressão da agressividade natural da criança. A paciente para de chorar. A memória/ atuada, repetida, inconsciente, não fora aliada do processo.
Esta é uma verdade. Para o filósofo «[…] a verdade é algo de objetivo, a certeza, algo de subjetivo […], e o conhecimento, a procura da verdade, não de certezas […].» (Popper, 1989, p. 18); «[…] a certeza subjetiva representa um dogma […] e, a verdade, uma necessidade ontológica» (Morin, 2015, pp. 374-5). A psicanálise tornou o subjetivo objetivamente concebido. À busca do prazer (Freud, 1920, p. 20), Bion acresceu a procura pela verdade como corolário da capacidade de pensar. A verdade desponta com o sentimento de tristeza para alcançar nomeação e integração; desistiu-se do pensamento primitivo causal, indutor de erro, porque baseado na perseguição.
Uma lembrança emerge: colocava na mesa os talheres de brincadeira, quando a mãe pôs uma panela escaldante por cima, derretendo-os. Foi calada à força de tabefes. Na análise o ambiente é de ternura e tristeza; a lembrança nomeada, aliada, integrou-se numa constelação com significado. A verdade amanhecera: para além da reparação do par ideal mãe-bebé, a nova capacidade psicanalítica despontara com a emergência da lembrança e do afeto suprimidos. Algo impossível de ocorrer na infância, o ódio à mãe agressiva, dada a total dependência, pôde ser vivido no novo contexto.
Concluímos: a capacidade psicanalítica sem o amor, é uma realização impossível. Parafraseando Ferry (2014, p. 161): «l'amour est le problème, mais il est aussi la solution».
. (1962). «A theory of Thinking». The International Journal of Psycho-Analysis, 43, 06-310, in Second Thoughts, London, Karnac Books, 1987.
. (2014). De l'amour. Une philosophie pour le XXIe siècle. Paris: Odile Jacob.
. (1920). Além do princípio do prazer. Vol. XVIII, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, (pp. 11-75). Rio de Janeiro, Imago, 1996.
. (1997 [1932]). A psicanálise de crianças – Volume II das Obras Completas [The psycho-analysis of children, London, Hogarth, 1932], tradução , Rio de Janeiro, Imago Editora.
. (2015). O âmago da questão. Lisboa: Edições Piaget.
(1989). Em busca de um mundo melhor, [tradução ]. Lisboa: Fragmentos, Lda.
(1960). The Theory of the Parent–Infant Relationship. The International Journal of Psychoanalysis, 41, 585–595.
Roosevelt Cassorla 1
O estímulo de Emilio Salgueiro me conduz à questão da complexidade. A psicanálise contemporânea se afasta definitivamente de relações causais explicativas e se desenvolve através da complexa noção de campo analítico, espaço/tempo das trocas emocionais entre paciente e analista. As ideias sobre campo fazem com que o observador se interesse menos pelos fatos em si que pelas relações e influências que existem entre eles. Nada ocorre em um dos membros do campo que não repercuta no outro. As relações estão em constante transformação e é essa percepção que torna o campo dinâmico.
Sendo o campo produto da capacidade de observação do observador se torna evidente que este, o observador, influencia os fatos observados. Portanto, o observador faz parte do campo. A observação “objetiva” perde seu lugar e o observador, como participante do campo, terá que aprender a objetivar sua subjetividade.
Podem identificar-se regras que determinam o funcionamento dos campos. Os princípios da incerteza e da incompletude nos mostram que a observação será sempre provisória, incerta, parcial e transitória. Aquilo que é observado, enquanto é observado, já se transformou, tanto por estar em constante movimento como porque o próprio processo de observação já transformou o observado. Não será possível, tampouco, decidir sobre o grau de influência do observador no que é observado e vice-versa.
O psicanalista participa das experiencias emocionais que manifestam fatores do campo que estimulam os processos de simbolização, e que também os atacam. O modelo do sonho (“sonhar a sessão analítica”) se revela útil. O sonho acordado do analista, sua capacidade imaginativa, sua função de rêverie se confundem com a ideia de contratransferência. As rêveries, isto é, as imagens que vêm à mente do analista se ampliam para tudo o que o analista vivencia. A intuição analiticamente treinada - com obstrução ativa de memória, desejo e a intenção de compreender - permite que o analista se identifique com a verdade emocional do momento. Em outros momentos a capacidade de sonhar do analista é atacada, com o analista enganchado em partes projetadas do paciente. A nomenclatura psicanalítica, necessariamente pouco precisa, nomeará esses fenômenos como contratransferência patológica, contraidentificação projetiva, contratransferência complementar, atuação, descarga, não-sonho-a-dois, enactment etc. Sua identificação, que costuma ocorrer a posteriori, promove desenvolvimento.
Um exemplo, limitado pelo espaço. Inicialmente o fluxo emocional entre a paciente P. e a analista A. fazia com que A. gostasse de atender P. O termo “gostasse” mereceria investigação. A. imaginava que P. também gostasse dela e da análise, que parecia produtiva. A. se sentia fascinada pelos relatos de P, uma artista que compartilhava suas ideias, fantasias e sucessos.
Aos poucos, porém, P percebeu que os problemas de A. se conectavam a sua intensa necessidade de controlar o objeto. Quanto esse controle fracassava A., magoada, se tornava agressiva. A. percebeu que P. rivalizava com ela e o clima das sessões se tornou competitivo. No entanto, subjacente se mantinha a admiração e satisfação que os encontros proporcionavam a ambas.
Um dia A. recebe a notícia que sua vacinação contra Covid havia sido agendada para o mesmo horário da sessão de P. Envia-lhe uma mensagem comunicando esse fato e lhe propondo trocar o horário. P concorda.
Na sessão seguinte P afirma, transtornada, que vai encerrar o tratamento porque A é uma analista não ética. Como ela aceitou tomar a vacina sabendo que existe tanta gente necessitando vacinar-se? Gente pobre que sai para trabalhar e não como A. que trabalha em forma virtual. Mais
Membro Titular da IPA. Docente na Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil. E-mail:
ainda, A. é uma assassina, porque tempos atrás havia dito que voltaria a trabalhar presencial quando vacinada e a vacinação de P. ainda demoraria, por não ser profissional de saúde.
Durante semanas a dupla teve que haver-se com cobranças, ameaças e ataques violentos. Ficou claro que antes desse episódio o campo analítico escondia rivalidade e inveja, encobertas por exibicionismo e admiração.
Espero que a vinheta estimule os colegas leitores a aplicarem suas próprias ideias ao descrito. A psicanálise contemporânea tem se voltado para a imaginação e os sonhos do analista e do leitor para além da compreensão teórica que poderia saturar as experiências emocionais. As ideias expostas são aprofundadas nos textos: