Apresentar um livro da Teresa Sá sem falar da autora, conhecendo-a, é difícil. Por isso não o farei. Quando a Teresa me convidou para a acompanhar, no contexto das atividades de Outreach da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, na formação do Grupo de Reflexão e Supervisão em Educação e Relação Educativa, aceitei com entusiasmo e verdadeiro prazer. O grupo, que integrava educadoras, professores e psicólogos a trabalhar em contexto educativo, esteve ativo durante três anos, com renovada vitalidade, e a sua extinção não ocorreu por causas naturais: foi salutarmente decretada, em nome do mesmo princípio que determina substituirem-se, na primavera, os gerânios nas floreiras – por já ser tempo.
Por falar em gerânios – plantas pelas quais já fui discretamente obcecado – este livro constitui-se como um florilégio, isto é, uma antologia, uma coleção de textos, reunidos tendo como critério o universo a que reportam: o diálogo entre psicanálise e educação. O termo em latim florilegium também designa os tratados ou livros antigos com representações de flores e plantas ornamentais, diferentes dos herbários, dedicados às plantas utilitárias ou medicinais. As belas e as úteis. Nos escritos sobre educação abundam os herbários, pródigos em receitas úteis, e escasseiam os textos dedicados às flores – as estruturas mais belas, complexas e evoluídas do reino das plantas, aquelas em que reside a diferença e onde são formados e acolhidos os gâmetas, os agentes da continuidade e da transformação, da diversidade e da mudança.
Inspirada – matricialmente, diria – em João dos Santos, mas também em Jacques Lévine, Jeanne Moll, Mireille Cifali, entre outros e no trabalho que desenvolve na sua participação nos grupos AGSAS, de apoio ao apoio, de diálogo entre a pedagogia e a psicanálise, os grupos Balint para a Educação que a Teresa Sá coordena, constituem, nesse sentido, jogos florais, não enquanto competições poéticas, mas – numa
Texto de apresentação do livro na Livraria Almedina Rato, em Lisboa, no dia 11 de março de 2022
Psicanalista, Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
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acepção winnicottiana – como encontros transformadores e geradores de áreas intersubjetivas de criatividade e de pensamento. Uma poética do encontro, no contexto de grupos de trabalho (em sentido bioniano), que procuram, pela contenção e elaboração de conteúdos proto-mentais, evitar um funcionamento a partir de pressupostos de base patologicamente defensivos; podendo, assim, transformar criativamente, dissipando bloqueios mentais e ansiedades escotomizadoras.
Por isso, decretar o fim do grupo não foi uma Teresa-Rainha-de-Copas-da-Alice-de-Lewis-Carroll a decretar uma decapitação: representou, sim, a possível e desejada continuidade, em cada cabeça-floreira dos participantes do grupo, das flores-objetos gerados nesse encontro, evitando o anquilosamento do pensamento a que a idealização conduz. E também prevenindo o risco da dependência, do funcionamento em ataque-e-fuga face aos inimigos exteriores ao grupo, ou do emparelhamento messiânico dos líderes do grupo na resolução dos problemas – procedimentos em que o meio educativo é pródigo. Sobretudo, porque a não admissão do fim de algo que ameaça caducar resulta em hipertrofia da ilusão e da omnipotência, inimigas da fertilização de uma realidade que se reconhece, com um desejo que se afirma e cultiva. Afinal de contas, o luto é expressão de vida.
A escrita da Teresa Sá, culta e fértil, enriquecida com a arte do ensino e a experiência psicanalítica, tem como destino (não utilidade) principal a comunicação; o chegar ao outro, o leitor, em forma por ele manejável: é uma escrita ergonómica, com pegas macias a facilitarem a preensão dos conteúdos; sem arestas vivas, que pudessem arranhar ou cortar os significados tecidos, nem superfícies ásperas, a causarem escoriações e queimaduras por atrito nos pensamentos. É uma escrita mais vocal e metafórica do que conceptual; é dialógica e não sentenciosa. Coloquial, no sentido virtuoso do termo, e nela estão presentes, em partes iguais, ideias e voz – ao lê-la, parece-nos ouvir a Teresa, interpelando-nos, leitores-ouvintes; um singular e impossível audio-livro impresso – Teresa Sá, dita por Teresa Sá, na mente dos que a lêem. Creio que este aspeto apercetivo da escrita da autora brota, quase diretamente, da sua condição mais profunda (self-objetal, diríamos) de psicanalista – como uma ressonância metassensorial dessa área da sua personalidade: “um envelope sonoro, verdadeira melodia que acompanha o professor, constrói um espaço de intimidade e de segurança” (p. 41).
Ler os presentes textos da Teresa Sá é, pois, uma construção mais auditiva do que visual; sendo que ela tem vindo a expressar-se, cada vez mais, visualmente, pela pintura. Uma professora em processo de abertura e expansão dos canais de irrigação da aprendizagem – assim os cientistas da educação os definiram, dividindo os alunos em mais visuais e mais auditivos. Será a Teresa uma professora em processo de construção e integração como aluna?
A psicanálise de que a autora é porta-voz neste livro escrito em linguagem intermediária, é uma psicanálise enquanto Humanismo. E a Família surge, creio, como matriz fantasmática, simbólica, cultural e afetiva do Humano. A estrofe de T. S. Eliot a que Winnicott vai roubar e adulterar o primeiro verso, “Home is where one starts from” (e que Teresa Sá cita no Cap. 6. Escutando o que permanece), termina com os versos: “In my end is my beginning.” Diz-nos a autora:
O futuro de cada ser humano parece decidir-se num acordo de princípios (desde os princípios) entre o que a sociedade oferece ao indivíduo e aquilo de que o indivíduo necessita. Será certamente histórica e socialmente datado mas, no mundo em mudança, terão mudado assim tanto as necessidades das crianças e as respostas de que necessitam? Através da escuta particular na qual a Psicanálise me formou, que é a do mundo interior e do inconsciente, no encontro com as crianças e os jovens que recebo, e também com adultos, que vivem e se constroem em configurações familiares bastante diversas, creio ouvir algo que permanece, o indivíduo relacional e cultural que nos religa a uma humanidade comum (pp. 87-88).
E continuo, já no cap. 7. Uma Profissão do Humano, com o seguinte – longo – trecho:
Uma aula começa sempre por uma encenação de si próprio, depois joga-se na capacidade de utilizar e canalizar esta encenação de si ao serviço de uma situação pedagógica, quer dizer, de uma situação colectiva de aprendizagem. O primeiro problema do professor não é pois tanto o de gerir o grupo, mas de se gerir a si próprio frente ao grupo. O essencial da formação psicológica do professor, com vista ao estabelecimento da relação pedagógica, decide-se, antes do mais, em torno do que é necessário para lhe permitir conhecer-se e dialogar eficazmente com as suas emoções, as suas atitudes e os seus comportamentos. Trata-se pois de uma formação psicológica no sentido estrito da palavra, de uma ajuda à compreensão dos fenómenos intrapsíquicos e das experiências emocionais associadas ao acto de ensinar, aplicados antes do mais a si próprio. A ideia de que bastaria aos professores uma psicologia das superfícies, visto que o seu encontro com os alunos é temporário e contextualizado e que, como ouvimos com cada vez maior frequência, estão lá para ensinar, deixa-os frequentemente desarmados face a comportamentos indecifráveis, vindos de si próprios ou dos outros, comportamentos que precisam, para serem compreendidos e para que se construam mediações pedagógicas mais eficazes, de uma psicologia das profundidades, que esclareça as raízes pulsionais e conflituais que movem o comportamento humano e a relação com o conhecimento (pp. 110-111).
E – perdoe-se-me a inconveniência… – tivesse sido eu o editor, segue o trecho do cap. 3. Envelopes de Aprendizagem que teria sugerido para a contracapa, em alternativa ao que aí consta:
São muitas e complexas as variáveis que intervêm no processo de crescimento de uma criança e na sua aprendizagem escolar, variáveis de natureza biológica, psicológica, social e institucional, para além das intenções e das práticas dos seus professores. Crianças e jovens chegam à escola, ao conhecimento e a cada dia de aulas, com trajectórias de vida singulares. Algumas possibilitam boas intersecções e alargam o campo dos possíveis, outras estão marcadas por linhas quebradas, descontinuidades ou acidentes de percurso. Algumas mantêm confusões de planos que tornam improvável à criança saber com que linhas a vida se tece e qual o sentido para a sua vida dessa parcela do universo a que se chama Escola. Consciente do peso que têm todas as variáveis que se situam fora do campo escolar, a possibilidade de influência de um professor no crescimento, construção e reparação da vida psíquica de uma criança é, contudo, grande (pp. 32-33).
Creio que em Educação nada se ensina: tudo se transforma, tudo se constrói. E a posição do professor, como a do analista, tem que ser de renúncia ao poder sobre o Outro – que não é renunciar à autoridade e à preservação dos limites.
No encontro educativo, como no terapêutico, o Outro tem que ser respeitado, reconhecido e acolhido como sujeito desejante, dotado de linguagens próprias e de uma história pessoal e intergeracional. É acerca desta posição ética que a autora conversa connosco, apresentando-nos os seus textos como intermediários nesse diálogo.