Ao apresentar esta obra da minha querida amiga Maria José, não posso deixar de pronunciar algumas das minhas reflexões prévias:
a) É verdadeiramente uma grande alegria e honra estar aqui neste lugar a apresentar uma obra notável, um trabalho profundo e longo que a psicanalista Maria José de Azevedo nos oferece.
É incontornável a sua dedicação à Psicanálise, a disponibilidade e cuidado para com os pacientes que acolhe, bem como a sua disponibilidade para o seu processo de formação continuado e bem assim à elaboração clínico-teórica que demonstra nas suas várias publicações científicas e na lealdade e devoção ao Outro, o que se reflete neste livro vivo e dinâmico.
Ao longo deste escrito revela-se o seu princípio da teoria da técnica: vive-se, depois compreende-se, analisa-se e conceptualiza-se.
b) Saliento, desde já, os aspetos inovadores deste trabalho científico: a psicanalista Maria José de Azevedo faz, de forma admirável, uma proposta de integração dos contributos das correntes da psicanálise libidinal com a da psicanálise das relações de objeto, conseguindo uma perspetiva integrativa nova no campo relacional. Esta visão agregada e coerente responde não só às exigências de uma clínica contemporânea, como ainda torna favorável a sua aplicação aos casos ditos difíceis, que, outrora dir-se-ia, não terem indicação para os processos de psicanálise.
Nesta obra, Maria José de Azevedo desenvolve conceitos pré-existentes e propõe outros, inéditos em psicanálise, como o de Dimensão de Futuro e de Função Esperançadora do Objeto que
Psicanalista SPP/IPA. Psicanalista de Casal e Família; Doutorada em Psicologia Clínica e Professora no ISPA - Instituto Universitário. E-mail:
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brilhantemente ficam ilustrados ao longo das dez vinhetas clínica, as quais acompanham toda a obra.
c) O seu título, sendo bastante apelativo: Ressurreição – O lugar do futuro e a função esperançadora do objeto, no meu sentir, representa não só uma obra de criação pessoal como um manifesto de gratidão que a autora apresenta nesta bela publicação, como uma dádiva generosa para o leitor, que acima de tudo é produto das vivências da longa e intensa viagem de aprendizagem nacional e internacional realizada. Destaca-se neste percurso a proximidade e amizade com a pessoa do grande psicanalista Prof. Doutor Coimbra de Matos, enquanto seu professor na Faculdade de Psicologia em Lisboa, nas formações que foi realizando com ele, bem como nos encontros de supervisão e de diálogos sábios e amistosos que mantiveram, bebendo desses momentos, inspiração e conhecimento, que tão bem se refletem neste trabalho metódico e aprofundado.
Já Coimbra de Matos escreveu e homenageou o trabalho da autora, no prefácio de uma outra referência científica da autora, publicada em 2017, que recomendo vivamente: A Oficina da Psicanálise, Ensaios sobre a experiência psicanalítica, em que ele escreveu:
(…) verdade universal para toda e qualquer terapia, a centralidade da aliança no trabalho não escapa à autora desta coletânea de artigos - não fora ela uma investigadora atenta e uma executante hábil. (p.13)
Da minha leitura e releitura desta obra, apraz-me admirar, felicitar e agradecer à psicanalista, a sua subjetivação clara e livre e, enaltecer o grande e extenso valor científico, didático e estético do seu trabalho.
Cientificamente, trata-se de uma obra densa, bem organizada em termos estruturais e formais. Inicia-a por uma resenha histórica do pensamento psicanalítico a partir do seu fundador, Sigmund Freud, destacando-se uma visão detalhada da literatura psicanalítica, de diversos autores clássicos, dando enfâse a Mélanie Klein, Winnicott e Bion, até aos mais contemporâneos como Meltzer, Bollas e Ogden. Partindo destes contributos, Maria José de Azevedo desenvolve quer os conceitos de nova relação e de empoderamento, operacionalizando-os na clínica e dando-lhes um novo fundamento científico, como nos propõe os seus próprios conceitos, inovadores.
Quanto a estes últimos, Maria José de Azevedo apresenta-nos os conceitos de lugar do futuro na relação transfero-contratranferencial, de função esperançadora do objeto e de ressurreição, os quais ilustra na prática clínica no campo da intojecção do objeto inconsciente esperançador co construído no interior do processo de cura do paciente com o seu analista. Isto é: o analista vivica-se na dinâmica inter e intrasubjetiva com o inconsciente do paciente, comunicando, como objeto esperançador, numa posição de resgate do seu passado e oferecendo-se como écran de mecanismos, que se repetem nas sessões, em que o analista se torna sujeito-objeto transformador, catalisador do sofrimento emergente. O material exposto nas vinhetas clínicas oferece ao psicoterapeuta, ou psicanalista, os fundamentos clínicos, os conteúdos elaborados a partir da sua investigação e do seu aprendizado psicanalítico, os quais alicerçam o desenvolvimento concetual.
Maria José de Azevedo na sua experiência de formadora e de supervisora alerta para os perigos e riscos de determinados processos psicanalíticos e realça a importância do trabalho psíquico que o próprio analista deverá realizar consigo próprio, atento aos seus mitos, estereótipos e nós cegos, que perturbam ou enviesam a prática deste ofício impossível.
Transmite-nos claramente, pela sua capacidade negativa, perlaboração e ressonância psíquica, a sua experiência clínica vivida e, o modo como se desenvolve a nova relação da dupla.
Para mim foi fascinante e admirável o modus operandi e a sensibilidade intuitiva e criativa que a psicanalista revelou ao longo da exposição dos casos clínicos. Mas a última vinheta, a que dá o título ao livro, Ressurreição, e que constituiu a III Parte do livro, revela-se como o apogeu de um trabalho psicanalítico profundo. Demonstra bem como ocorrem os processos transferenciais
e contratransferenciais num campo emocional muito adoecido, bem como o resgate, mediante os conceitos propostos pela autora nesta obra…
A psicanalista e a paciente Kelly – que procura pela terceira vez um tratamento psicanalítico, fechada numa tristeza encapsulada, quase sem esperança de viver, num estado de quase morte psíquica, atormentada pela vergonha da ideia constante da irmã falecida e, pela projeção dos fantasmas do luto patológico dos pais – enlaçam-se num processo transferencial-contratransferencial de sintonia empática, implicando-se na pró-cura dos nós-problemáticos actuais e transgeracionais (Lito, 2013) vínculos patológicos intrapsíquicos que sustentaram aquelas dinâmicas narcísicas e perversas, que empurraram a paciente a não desistir de encontrar uma outra ajuda psicológica, psicanalítica!
É um retrato vivo de um verdadeiro calvário que ambas viveram, embora de natureza distintas.
A paciente, apesar de tudo, não se resignou à sua condição de não existir para as figuras parentais, de não ter sido investida como filha viva e única, e, na falta desse amor primordial, de ter sido votada ao abandono.
Pró-cura-se num novo processo psicanalítico com a psicanalista Maria José de Azevedo.
Acreditando na Psicanálise, como processo de conceptualização da investigação clínica, a dupla desenvolve-se num processo dinâmico de encontros regulares, intensos, dolorosos e turbulentos com muito sofrimento mental e quiçá físico para analista e, não menor para a paciente. A presença idiossincrática do analista, na sua função epistemofílica e esperançadora, com a capacidade simbólica de sonhar-vivendo, acreditando na verdade última (O) Bion, proporcionou e co-construiu uma nova relação naquele campo emocional intersubjetivo de toxicidade e, com persistente endurance de tolerância à frustração e à dor mental e física progrediram para um futuro melhor.
Perante as múltiplas doenças orgânicas que a paciente ia revelando naquele calvário, naquele suplício psicossomático de desembaçamento e desembaraço dos objetos fantasmáticos, de não querer desistir de viver, foi a relação com o objeto esperançador, a ênfase no papel do futuro, bem como a sua dimensão estética, incluo aqui as melhorias da paciente na reorganização da sua vida, o aclaramento dos processos psíquicos no seu interior e a análise contratransferencial no espaço intrasubjetivo e intersubjetivo do par, que permitiu à analista encontrar sentido e beleza num percurso psicanalítico tão duro, árduo e impossível de suportar.
A coragem e a luz renascida que a paciente foi encontrando resultou pois dessa combinação de Amor, (L) Odio (H) e Conhecimento (K).
Para aqueles, não clínicos, aqui presentes, gostaria de realçar que este ofício impossível, porque sempre incompleto ou insuficiente no conhecimento e na técnica sobre a abordagem do paciente, no dizer de Freud, acontece quando um analista se compromete num acordo psicoterapêutico ou psicanalítico, inscrevendo nesse pedido, um compromisso ético de corresponsabilidade com o empenhamento psíquico e mental. Assemelha-se a uma paixão: resgatar a vitalidade interna do sujeito e o verdadeiro self, tornando-o objeto dinâmico e criativo, protagonista dos seus próprios projetos de vida até então suspensos ou obscuros ou ainda por concretizar; é a paixão do analista que provoca o esperançar novos sonhos!
Paixão surge, não no sentido religioso do termo, nem no sentido de deslumbramento amoroso, mas no sentido sensorial e alucinatório, com efeitos na identidade do psicanalista, no seu estilo pessoal de funcionamento inconsciente e pré-consciente, que se vai revelando no “aqui e agora” e no “après-coup”, em que os registos que o analista vai reunindo, bem como, com as diversas supervisões ou intervisões que realiza com outros psicanalistas-pares, se pondera em detalhe.
Não só as práticas da técnica dão azo à rêverie conjunta, naquele campo emocional intersubjetivo de expansão do mundo interno fantástico e poético, para se transformar nas, e pelas, interpelações-interpretações, que se oferecem ao paciente, tal como se desenvolve uma nova narrativa dos factos analíticos da historicidade emergente – lembremos que a minha amiga é filha do
poeta reconhecido António Vera, que tendo tido o prazer de conhecer, aqui aproveito para homenagear publicamente.
Portanto, no meu entender, paixão aqui quer dizer abraçar simbolicamente a paciente, investir o campo emocional intersubjetivo emergente na relação terapêutica no setting analítico, com a atenção flutuante e o pensamento onírico, desprovido de pré-concepções, sem memória e sem desejo, como Bion sugere.
E, igualmente, dedicando-se ao analisando com a preocupação materna primária (Winnicott) de bem cuidar com paciência, com lucidez, assente no seu corpo teórico e metapsicológico que, tal como os pais promove o espaço-tempo necessários para que ambos, em movimentos ondulantes e em espiral crescente, naveguem nas águas da vida, sem medo de enfrentar os terrores, medos, fantasmas e as fantasias inconscientes.
Assim, desenvolve-se um campo emocional genuíno e libertador, verdadeiro, mas por vezes sublime, quiçá com ideias hologramáticas, com metáforas, com pensamentos e conhecimentos não saturados, que vão desembaraçando e aclarando em extensão e profundidade a complexa aventura do crescimento humano…
Nesse lugar de escuta a Maria José de Azevedo não se conforma com as verbalizações stritu senso dos pacientes, nem com as mensagens latentes decorrentes; vai muito mais além, sem cair numa posição de “cavaleira andante” animada em salvar ou renascer pacientes.
Partilha a sua experiência clínica, o corpo teórico que a tem sustentado no saber-ser, no poder-ser, colocando-se numa posição esclarecida de fazer-saber.
Como já anteriormente escrevi,
…o saber do analista resolve-se num saber analisar, isto é: oferecer-se como um ser pensante capaz de amparar, conter, introjetar, digerir e transformar no seu interior, com benevolência, com a sua psique e com o Outro, como sujeito total em sofrimento, com os seus objetos internos e externos, que connosco se comprometeu nesta busca sistemática da decifração do seu texto inconsciente: analisar é um fazer-saber e não um saber fazer.
Enfim, fazer-saber não se concretizará sem uma busca sistemática, permanente e interrogativa do conhecimento teórico e clínico, que o progresso da Psicanálise tem demonstrado e que convoca a identidade evolutiva do Ser Psicanalista, do seu espírito criativo, crítico e autónomo, em constante atenção aos “velhos do Restelo” reprodutores de discursos e de práticas fechados e dogmáticos.
Para terminar agradeço vivamente à Maria José a sua amizade e aqui reitero a minha grande estima e admiração, pela sua bravura e aptidão em transmitir sabedoria, ao presentear-nos, mais uma vez, com uma escrita harmoniosa, consistente e poética pelas referências literárias e culturais.
A sua acentuada tonalidade imagética e a alma de psicanalista apresentam-na pois como escritora e literata incontornável. Já se lançou na ficção e na literatura infantil, tendo já publicado em 2016 As transgressões do amor e, em 2018 O complexo de Lúcifer – Ensaio sobre a condição do homem contemporâneo: civilização e barbárie e, agora, As aventuras da Tininha na pandemia.
Muito OBRIGADA querida amiga e muitos Parabéns!
Ficamos a aguardar por mais e boas surpresas…