Continuidade é a tarefa ou função que visa estabelecer consistência, ligação e coerência entre diferentes elementos. A continuidade é uma qualidade que inspira esta nova equipa, a fim de nos mantermos numa relação viva de diálogo com o pensamento analítico. Também a tenacidade nos serve de guia na missão de apostar na continuidade da Revista, pesem embora os saltos qualitativos que um progredir evolutivo impõe.
Hoje, inauguramos a nova direção com uma equipa formada e fundada no desejo de sustentar a escrita psicanalítica a partir deste projeto que é, do nosso ponto de vista, uma forma de criar espaços para a escuta e para o pensamento psicanalítico.
Como qualquer equipa que inicia a sua viagem, num processo em desenvolvimento, mantivemos nesta edição os artigos que foram aceites pela direção anterior, mas acrescentando-lhes a nossa perspetiva.
Foi esta a forma que encontrámos, quer de dar continuidade, quer de agradecer à equipa editorial cessante. Sublinhamos as contribuições dadas para a divulgação da visão científica e institucional da SPP; o esforço empreendido na criação de um território, no qual as contribuições dos nossos analistas sejam divulgadas para lá da nossa instituição; as realizações relativas à indexação da RPP em diferentes redes; bem como a modernização das plataformas de acesso ao seu conteúdo — de entre outras, todas contribuições substanciais para o apoio à disciplina da escrita, um exercício incontornável para o psicanalista.
Uma das inovações que propomos para esta nova fase é a simplificação das secções da revista — um total de sete. O nosso desejo é reorganizar as secções de modo que possamos acrescentar conteúdo a cada uma delas em cada edição e assim estabelecer uma continuidade na estrutura, que nos permita recordar facilmente as suas dimensões e áreas de interesse.
A secção Fundamentos incluirá os escritos teóricos, metapsicológicos e epistemológicos que publicamos em cada número. Acreditamos que os diferentes níveis teóricos psicanalíticos estão interligados e que o diálogo entre eles é enriquecedor, pelo que os organizaremos na mesma secção.
Clínicas será uma secção destinada à publicação dos relatos clínicos e investigação sobre psicanálise de adultos, crianças e adolescentes. A clínica psicanalítica tem pressupostos comuns e diferenças técnicas que se enriquecem mutuamente.
Teremos também uma secção chamada Auditório, que permitirá convidar colegas de renome a expressar as suas ideias através da publicação de entrevistas, apresentações em congressos e conferências.
A secção Poética é reservada ao encontro entre a psicanálise e as artes e humanidades — escritos sobre literatura, cinema, arte e música. Aqui, serão reunidos textos que levem a nossa disciplina a dialogar com os diferentes discursos teóricos dentro das humanidades e artes.
Em Pesquisa, reuniremos artigos que se referem a todas as formas de investigação em psicanálise segundo os critérios da IPA: clínicos, empíricos, conceptuais, de processo, resultados, estudos sobre psicanálise aplicada e outros documentos que descrevem processos de investigação.
A secção de Formação Contínua incluirá publicações relacionadas com aspetos do tripé de formação e do seu conteúdo relacionado. Resenhas críticas de livros clássicos, obras sobre formação e supervisão, publicações sobre a história da psicanálise; em suma, documentos que exploram, discutem e divulgam debates e propostas sobre a educação psicanalítica nos dias de hoje.
Finalmente, daremos continuidade a uma seção de intercâmbio e de diálogo que chamaremos de Vertigem. Aí, convidaremos os colegas a dar a sua opinião especializada sobre questões urgentes, atuais e debatidas num formato mais flexível e com uma curta duração — por vezes, da nossa realidade diária, outras vezes da nossa disciplina. A ideia central é promover o intercâmbio, diferentes vozes, diferentes perspetivas sobre questões que nos desafiam, que estão abertas e em processo, para recriar um espaço de diálogo.
No presente número, priorizamos a inclusão dos artigos que, aptos a publicar, recebemos no dossiê de 2022, honrando o compromisso assumido de o fazer; bem como incluímos outros que, tendo concluído o processo de revisão e edição atempadamente e possuindo critérios de elegibilidade, representavam valor acrescentado ao presente número.
No que respeita à organização das matérias que compõem a revista, o leitor passará a encontrar um novo índice, respeitante aos artigos que adiante se apresentam.
Na secção Fundamentos, António Mendonça investiga os obstáculos ao processo psicanalítico de uma perspetiva tanto clínica, quanto teórica. A partir das ideias de um amplo conjunto de autores, salienta a interação entre partes construtivas e destrutivas da mente, procurando avaliar a forma como conceções teórico-clínicas mais recentes abordam e propõem reposicionamentos perante a atividade do psicanalista.
Pedro Salem traz-nos uma vivência emocional — a solidão — que, não configurando um conceito psicanalítico, tem muita prevalência na clínica e na experiência humana. O autor procura distinguir diferentes formas de solidão e em que movimentos inconscientes têm origem, ilustrando com vinhetas clínicas as várias situações.
Interessada sobretudo nos processos de mudança psíquica, Ana Mónica Dias debruça-se sobre a conceção de temporalidade em psicanálise. Servindo-se da noção de tempo oriunda de diferentes disciplinas, persegue o que é próprio ao tempo psicanalítico e às formas como se manifesta no processo analítico. Com esse intuito, descreve as conceções mais significativas de temporalidade em Freud e outros autores, ilustrando-as clinicamente.
Na secção Auditório, encontramos o artigo de Anna Maria Nicolò, em que o brincar é visto como movimento criativo, espaço potencial e de ilusão, onde pode acontecer o encontro com o outro. Numa espécie de sonho a dois, analista e paciente constroem um espaço de liberdade onde injetam aspetos dos seus mundos internos, espaço em que encontramos a repetição, mas também a inovação, pela possibilidade criada de elaboração e pensamento.
Seguidamente, encontramos o comentário de Luísa Branco Vicente ao trabalho anterior, que se debruça sobre a importância do espaço transicional no trabalho do analista e do supervisor e a função do brincar no desenvolvimento da criatividade, fonte do pensamento e da vida psíquica.
Civitarese, no seu trabalho, apresenta o brincar como uma aproximação à verdade emocional, também relacionando o trabalho psíquico envolvido no brincar com o trabalho psíquico do sonho. O autor procura ilustrar os vários sentidos do brincar em psicanálise e como podem aparecer na sessão analítica, o que implica que o analista tente estar o mais possível no espaço de sonho ou de ficção. Então, brincar serve para fazer crescer a mente nesta dança entre os dois membros do par analítico.
No seu comentário, Conceição Melo Almeida e Bruno Ferreira procuram sublinhar pontos de concordância e descontinuidades entre os dois artigos, auxiliando o leitor na sua compreensão deste tema.
Na secção Clínicas, Rita de Araújo Gameiro traz-nos os pais para a sala de análise de crianças e como é que o analista pode «pôr os pais a brincar». Neste artigo, a autora debruça-se sobre as transferências que os pais fazem com o analista do seu filho(a) e que lugar é que o analista irá ocupar na mente dos pais à medida que o trabalho com a criança se desenrola. No caso da psicanálise de crianças, a contratransferência é dirigida não só ao pequeno paciente, como também aos pais, o que torna os movimentos transfero-constratransferenciais bastante complexos.
Pedro Almeida, por sua vez, reflete na ansiedade de morte partindo da aproximação entre o pensamento psicanalítico e a Psiquiatria de Ligação com atuação nos Cuidados Paliativos. Apresenta-nos o caso clínico de uma paciente tratada em Hospital Geral, por meio do qual ilustra o impacto da ansiedade de morte na paciente, bem como os efeitos da sua presença na relação com os demais profissionais de saúde. Argumenta que, nesses casos, tanto a relação terapêutica quanto a prática da supervisão cumprem um papel fundamental na possibilidade de contenção desse tipo de ansiedade.
Na secção Formação Contínua, Alexandra Coimbra, Ana Catarina Duarte Silva e Isabel Prata Duarte refletem na atividade clínica do Instituto de Psicanálise, apresentando uma síntese histórica das entrevistas de triagem e primeiras entrevistas nos 40 anos da sua existência. Desenvolvem uma rica reflexão acerca das vicissitudes do pedido nesse período — atualmente mais orientado para a psicoterapia psicanalítica do que para a psicanálise —, examinando, a partir das suas experiências, os critérios de analisabilidade e os desafios implicados na construção de uma experiência analítica.
O ensino da psicanálise nas universidades é o tema sobre o qual se debruçam Marcos de Moura Oliveira e Lauro Take Tomo Veloso. Através da análise das ideias de Freud sobre o assunto, questionam-se sobre a dificuldade colocada pela ausência de algo que compense o efeito de uma análise didática no contexto universitário. Propõem, nesse sentido, pensar a presença do professor-analista como dotada de uma função particular no ensino de psicanálise no meio universitário.
Na recensão do livro The Post-Bionian Field Theory of Antonino Ferro. Theoretical Analysis and Clinical Application, coordenado por Howard Levine, Conceição Melo Almeida faz-nos navegar pelas várias secções do livro, em que os autores procuram afinar novas ferramentas, aplicáveis quer na psicanálise de crianças e adolescentes, quer na psicanálise de adultos, com o intuito de entrar em contacto com as partes primitivas da mente.
Na secção Vertigem, uma questão foi lançada: «Para quê uma Revista de Psicanálise?» Por meio de um convite à reflexão acerca da função de uma revista de psicanálise, Rui Aragão procura ir além do seu propósito de transmissão de conhecimento. Nesse sentido, aborda o esforço autorreflexivo implicado na escrita do analista e a forma como este dialoga com o Outro, fonte de ligação simbólica ou por vezes de afetos persecutórios, provocados pela exposição a que se obriga e que tem início já no momento do encontro imaginado com o leitor.
Para Maria Fernanda Alexandre, a escrita tem a função de ajudar a representar o inominável, de dar forma ao negativo que circula no campo analítico e que é dificilmente acessível. A construção de elos e a transformação dos afetos e das representações são então as funções principais da escrita.
Finalmente, nunca é demais sublinhar que nesta nova etapa da RPP a nova equipa pretende desenvolver um trabalho colaborativo com os autores, os quais em primeiro lugar oferecem as suas perspetivas férteis através de artigos, testemunhos, entrevistas ou sugestões de leitura. Pretende solidificar esse trabalho colaborativo com os membros da equipa, vindos de diferentes países, com os quais estamos a construir uma linguagem comum e a partilhar os desafios da exigente tarefa de publicação.
A nossa linha editorial pretende empenhar-se num trabalho de colaboração com os leitores — com as suas ideias, com as suas críticas, com as suas observações e sugestões, relativas a cada edição que publicamos. É desejo dos editores, no desempenho deste mandato, que cada edição seja um manuscrito onde cada leitor possa deixar a sua marca. Boas leituras!