Muito Obrigado, Anna Maria, por nos levares aos teus e aos nossos recantos do brincar. Sente-se o prazer que tiras neste brincar com os conceitos e com os pensamentos, na liberdade que só o afeto e a inteligência podem proporcionar. Liberdade certamente conquistada também do ponto de vista teórico, por te teres interessado pelos vários modelos psicanalíticos — interesse esse que também adveio certamente da importância e respeito que se sente teres pela posição científica do outro.
Anna Maria Nicolò relembrou-nos não só a arte de manter viva a criança que existe em cada um de nós, mas também a importância de continuarmos a desenvolver esta capacidade na continuidade do brincar, iniciada a partir de experiências transicionais, agora mais elaboradas do ponto de vista simbólico, e através das quais entramos em contacto com partes psíquicas do nosso self, do nosso Eu precocemente marcado, onde a «pele psíquica» toca na nossa mais íntima sensação de existência.
A autora levou-nos a revisitar não só Freud, Klein e Winnicott, mas autores mais contemporâneos, como Bollas e Levine, centrando a nossa atenção nas questões da importância da capacidade de brincar no evoluir saudável do ser humano e na sua extrema relevância no trabalho da díade analítica.
Fez-nos igualmente recordar o belíssimo texto de Freud O Poeta e o fantasiar (1972) e de como é o carácter lúdico da vida que tonifica a capacidade criativa, abrindo-nos as portas para a fantasia e para o sonho.
Trouxe-nos Donald Winnicott, e a sua contribuição para a técnica psicanalítica — inovadora, profunda e abrangente —, ao enfatizar a natureza processual, transformadora, evolutiva do jogo, experiência auto-criadora, área colocada no espaço potencial, lugar de ilusão, espaço de encontro com o Outro dentro de si e fora de si, fonte de criatividade, e não simplesmente enquanto expressão e representação dos conflitos e fantasias inconscientes da criança, como defendia Melanie Klein.
E, nesse sentido, trouxe-nos também algumas questões teóricas e técnico-clínicas muito importantes. Uma delas é a função do analista, não apenas como interpretante, mas também como participante num processo em que inevitavelmente age. Este agir, diferente do enactement e da contratransferência agida, emerge da sua própria identidade de psicanalista e do espaço de relação no qual se baseia a sua ação terapêutica. Assim, a função interpretativa além da palavra pode e deve ser feita através do próprio jogo, o que implica que o analista seja capaz de conviver com o turbilhão da comunicação inconsciente que emerge na vivência emocional do brincar.
A interpretação no jogo e no brincar permite, como tão bem nos mostra a autora, que o imaginário seja recriado numa relação restauradora. Contudo, como sublinhado, sendo a verbalização muito importante, esta faz parte de um todo que deve estar presente numa sessão. Efetivamente, acompanhar os conteúdos presentes num jogo, as suas dinâmicas inconscientes, não obriga a um movimento interpretativo por parte do analista. A interpretação é o recurso psicanalítico que ajuda a superar bloqueios e inibições, a ressignificar vivências, angústias e objetos; mas sem o holding que funciona como «colo» protetor, perde a sua função contentora.
Anna Maria Nicolò vai mais longe, levantando duas questões essenciais e controversas: o papel da interpretação e o do défice no ambiente primário da criança. Uma interpretação não surge separada de um analista/pessoa, com a sua área
Psiquiatra e Pedopsiquiatra. Doutorada em Psiquiatria e Saúde Mental. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. E-mail:
do brincar e de criatividade disponíveis para o contacto com o paciente. Como os Barangers conceptualizaram, a relação analítica é coconstruída a um nível profundo, sendo a aprendizagem da intimidade fundamental para a sua construção. Assim, a interpretação vista como um instrumento e conceito isolado pode ser transformada num agir das vivências de dependência e persecutórias da criança. Se assim for, ocorre uma inibição do desenvolvimento das suas potencialidades e não a desenvoltura nos seus processos de crescimento. A neutralidade do analista tem sido muitas vezes discutida, referenciada mais diretamente como actings outs; a subtileza de Anna Maria Nicolò traz-nos essa questão a um nível mais profundo, lembrando Bion e o seu conceito de «sem desejo e sem memória».
Um processo psicanalítico, ao ser transformador, conduz também a experiências de vivências novas que colmatam ausências, muitas vezes primárias, que bloqueiam os processos de criatividade na autoconstrução do ser humano.
Anna Maria releva a importância do espaço transicional, explicitando a forma como Winnicott foi levado a conceptualizá-lo: o espaço onde se encontram a realidade externa e a interna e onde a criatividade se pode realizar, alternando entre essas duas realidades. Podemos assim compreender como o brincar pode ser ou não um espaço transicional; quando o pensamento mágico, sob a forma de ilusão, predomina, assistimos a uma reclusão, a um fechamento que nos remete para um estado narcísico. Mas quando o brincar se constitui noutros imaginários, e pode ser partilhado, transforma-se num espaço transicional — «Eu e não Eu», «Nosso». Quando não há interlocutor externo que permita criar o interlocutor interno, é a ilusão.
Joga-se sempre com alguém e para alguém, mesmo quando se está só. A conceptualização geográfica das áreas mentais, de Donald Meltzer, toma maior acuidade se pensarmos que neste espaço transicional a sua riqueza provém precisamente do maior número de áreas que estão dinamicamente presentes.
Talvez todas as psicanálises sejam sempre uma mescla da análise do mundo interno e da resolução do défice: novas experiências emocionais, não necessariamente reparadoras de outras, e o encontro do significado do já vivido e repetido.
O espaço analítico deve tornar-se palco do brincar, onde a criança encene os dramas da sua vida interior e projete os seus desejos e esperanças. Deste modo, ela será ao mesmo tempo o ator (desempenhando os papéis que deseja e que a sua imaginação lhe permite), o encenador (a história tem o desenrolar e o fim que sente no controlo dos acontecimentos), e posteriormente, consoante a fase de desenvolvimento em que se encontra, o espectador (do seu mundo externo e interno). Assim sendo, o brincar não pode ser reduzido pelos terapeutas a um simples meio de repetir ou reencenar experiências traumáticas; deve, sim, ser valorizado como um meio privilegiado de as ir elaborando e transformando progressivamente, ao ritmo das potencialidades de cada criança.
Anna Maria Nicolò mostra-nos de forma muito clara, na senda winnicotiana, como o brincar é um espaço de criação e de transformação, onde a interpretação do psicanalista pode surgir tanto sob a forma da palavra, como da própria ação enquadrada no espaço transicional criado entre ele e a criança. Mais do que as palavras que o analista possa oferecer, o que realmente importa é que a criança encontre as suas próprias palavras com a ajuda do analista. Como diz Anna: «aquela experiência extraordinária que a criança faz de criar um objeto, que, por seu lado, a mãe faz encontrar».
Uma questão muito interessante que Anna Maria coloca é a diferença entre jogo e mentira, o que nos levou ao poema de Fernando Pessoa: «O Poeta é um fingidor/Finge tão completamente/que chega a fingir que é dôr/a dôr que deveras sente.» Efetivamente, no espaço criativo a mentira não é mentira e a verdade não é verdade, sendo ambas um pouco de si mesmas; o ator não é a sua personagem, e, no entanto, essa personagem é um pouco dele próprio. Esta paradoxalidade é o que torna revigorante e rico o jogo «como se», onde a ligação à realidade externa está mantida, os limites do próprio jogo estão garantidos e a liberdade imaginativa ganha asas na associação livre e espontânea do que vai surgindo.
Neste espaço transicional, o analista pode viver e acompanhar a criança nos seus andamentos em todas as dinâmicas psíquicas: as de proteção, as de transformação e as de destruição.
Uma outra questão muito importante é o lugar e a função da supervisão. O caso apresentado por Anna revela bem como uma supervisão atenta, respeitosa e «terna» permitiu à analista resolver o dilema que a criança trouxe e abrir novos caminhos na terapia. Se assim não for, as angústias persecutórias, inerentes à exposição do trabalho, são aumentadas pela crítica, pelo desrespeito e distanciamento afetivo, podendo impedir que a formação seja de facto contínua, no sentido de proporcionar um enriquecimento do percurso pessoal no desenvolvimento do pensamento psicanalítico.
Através de Donald Winnicott (1975), Anna diz-nos que a criatividade consiste em ser capaz de manter, durante a vida, algo que pertence à experiência infantil de criar o mundo; e nesse sentido, diria que cada um de nós, e, mais particularmente, as crianças e os artistas, (re)vivem essa experiência inaugural.
E levantou-se-nos a antiga questão: onde e quando se inicia esta capacidade de brincar? Onde e quando se inicia esta criatividade?
Ainda partindo da forma como podemos jogar e brincar com os pensamentos e as palavras e com o significado deste estar na vida, enquanto índice de Saúde Mental, Anna Maria Nicolò convida-nos a revisitar as nuances e potencialidades da capacidade de brincar e a sua articulação com a Criatividade Primária.
As brincadeiras e os jogos infantis são um substrato extremamente importante para a criatividade do futuro adulto. Já Freud (1972) via no brincar um equivalente infantil da fantasia. Ao brincar, a criança liga os seus objetos e situações imaginadas com as coisas visíveis e tangíveis do mundo real. O brincar permite regular as insatisfações e as frustrações, uma vez que todas a fantasias são a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória. Para Freud, a fantasia é o reencontro de três tempos: a elaboração do presente, o passado que guarda a realização do desejo infantil e o futuro que representa a realização deste mesmo desejo.
A fantasia permite ao indivíduo perceber, organizar e relacionar-se com o mundo, tendo como premissa o valor que atribui à relação objetal a estabelecer.
Como sabemos, Freud dizia que toda a Psicanálise é psicanálise da criança, porque constatou que as livres associações dos seus pacientes remetiam frequentemente para importantes acontecimentos da infância, tendo como tal colocado como núcleos primordiais dos seus estudos o infantil, o sexual e o inconsciente. Afirmava que, quando uma criança brinca, procura apoio nas coisas palpáveis e visíveis do mundo real. Donald Winnicott vai mais longe, postulando que essa atividade (playing) é também ela geradora de realidade, interior e exterior.
E foi neste sentido que Winnicott (1983) defendeu que um meio afetivo parental satisfatório e um ambiente dominado pela liberdade de expressão dão um impulso ao desenvolvimento da criatividade da criança, pois a assunção de um sentimento de segurança pessoal desenvolve nesta um estado de relaxamento tido como fundamental à emergência do impulso criador. Não menos relevante é o papel da criatividade infantil como principal instrumento de adaptação ao que na vida surge como adverso.
Winnicott (2000) considerou essencial o encontro entre o mundo interno do bebé e o mundo externo, mediado pela figura de uma «mãe suficientemente boa», num contexto que designou de «ilusão». O fenómeno de ilusão (que vem do latim ludere, ou seja, brincar), assim criado, tem como efeito que a criatividade primitiva do bebé coincida com uma perceção objetiva, sobrepondo-se objeto real e objeto subjetivo. É através desta experiência, do apropriadamente chamado «espaço potencial», que o self se constitui, permitindo que o indivíduo exista enquanto tal.
Mas como e quando se constitui este espaço?
Estará presente logo no início da vida do bebé, ou forma-se só a partir da separação deste com a mãe, isto é, quando ele começa objetivamente a perceber a mãe e a si próprio?
Este espaço potencial é, em si, transicional ou engloba toda a gama de experiências evolutivas onde se incluem os objetos transicionais? Possibilitando, assim, o brincar, o jogo, a imitação e todos os jogos identificatórios?
Ou este espaço potencial vai surgindo com o processo de separação e de desilusão pela omnipotência ilusória que a criança vai vivendo, à medida que desenvolve novas aptidões cognitivas e psíquicas que a fazem sentir a experiência de Ser um ser no mundo?
No recém-nascido, a estrutura sélfica é potencialidade pura, tendente à integração. Em suma, uma mãe suficientemente boa será aquela que é capaz de oferecer o mundo externo ao bebé, já capaz de o conter. O mesmo é dizer, em linguagem winnicottiana, já capaz de o criar. Há uma nova ideia, relativamente a Freud e a Klein, segundo a qual se dá um enriquecimento do mundo interno a partir do exterior, sendo precisamente isso o que permite ao bebé enfrentar o choque da perda de omnipotência. Nesta «criatividade primária», adquire novamente particular importância o brincar, pois só sendo criativo o indivíduo descobre o self.
Winnicott afirma mesmo que a psicanálise foi desenvolvida como uma forma especializada de brincar, ao serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. Desenvolveu a ideia de que o brincar na vida da criança tem uma importante função na constituição do sujeito, de que a brincadeira é necessária para a unificação e integração geral da personalidade; serve de elo entre a relação do indivíduo com a realidade interior, e também com a realidade externa ou compartilhada (Winnicott, 1975).
Pierre Fédida, tomando como referência a noção winnicottiana do brincar, vai mais além sobre as potencialidades do jogo na relação terapêutica, não apenas com crianças, mas também com adultos. Com frequência, é na análise de adultos que a infância e o brincar se evidenciam plenamente e se tornam no ponto que gera cura. A análise de crianças enriquece a criatividade e a mobilidade do analista que se dedica principalmente a adultos (Fédida, 1978).
Na sua conceção, para que o analista funcione na relação com o seu paciente, deverá descobrir em si próprio a «cena» ou a «área corporal do jogo» interligadas à sua própria infância. Escrever, assim como brincar e desenhar, é um acto de si para o outro; é o velar e desvelar de um objeto inominado e inominável (Fédida, 1978). Brincar
é o gesto da metáfora tornado visível, articulando a perpétua alternância entre a dessignificação e o surgir de sentido. O brincar não é suscetível de ser simplesmente narrado, pois participa de uma experiência de aesthesis que tem de ser transportada para a fala. Não pode ser reduzido ao expressar de uma linguagem simbólica, pois pelo brincar o mundo é simultaneamente criado e desnudado, escondido e trazido à luz, explorado como ausência e reencontrado como presença. No jogo como no humor, o sentido surge por dessignificação.
Os fenómenos transferenciais não farão parte deste jogo entre o que se mostra e o que se esconde, num espaço potencial onde a ressignificação na relação, ao mostrar a confiabilidade, cria o alívio da área de «descanso»?
Também o prazer de produzir palavras e fonemas dá à fala da criança, tal como à fala dos poetas, uma capacidade metafórica, que supõe um jogo entre as palavras e as coisas. A fala lança-se a si mesma em experiências de fruição e descoberta, atualizando as experiências inaugurais de reter e largar o seio materno, de separação e reencontro, de ação e passividade.
Brincando, a criança tem oportunidade de desenvolver a sua criatividade e de construir conhecimentos. Aprende não só a lidar com situações novas e a elaborar psiquicamente as vivências do quotidiano, mas também as dos seus conflitos internos. Os temas que surgem no brincar traduzem, é certo, a realidade interna e externa da criança, mas também algo que pertence a um campo intermediário entre o subjetivo e o percebido objetivamente. Ao brincar, revisita situações agradáveis e desagradáveis, e adapta-as à sua realidade e à sua necessidade emocional. Restabelece assim o seu controlo interior, a sua autoestima e desenvolve relações de confiança consigo e com os outros.
A brincar, aprende a criar e a construir. Experimenta o fracasso, e descobre saídas para o sucesso. Experiencia perdas e descobre que a partir destas se pode recomeçar. Experiencia riscos, e explorando o novo, vai descobrindo o seu próprio potencial. Espontaneamente (o spontaneous gesture winnicottiano), vai projetando os seus desejos e esperanças. Os conteúdos expressos no brincar têm relação com a sua história de vida e com a etapa do seu desenvolvimento emocional.
Anna Maria relembra-nos como as forças afetivas, o simbólico e a fantasia vivenciadas no brincar são de primordial importância para a formação do Eu como centro psíquico organizador. Efetivamente, brincar e fantasiar ajudam a criança a organizar a sua matriz de identidade, sendo nesta que os objetos internos e externos passam a ter um significado, ou seja, se assumem como referenciais para que o sujeito se perceba e perceba a sua relação com o outro; no dizer de Bion, assume-se como «conjunção constante».
As brincadeiras e jogos infantis têm um enorme valor como primeiro substrato da criatividade do futuro adulto. É o exercício infantil do carácter lúdico da vida que tonifica a capacidade criativa de cada um e lhe abre portas para a fantasia e para o sonho.
Donald Winnicott defendeu que um meio afetivo parental satisfatório e um ambiente dominado pela liberdade de expressão dão um impulso ao desenvolvimento da criatividade da criança, pois a assunção de um sentimento de segurança pessoal desenvolve nesta um estado de relaxamento tido como fundamental à emergência do impulso criador.
O trabalho clínico com crianças coloca-nos também, frequentemente, perante meios ambientais de enorme pobreza e patologia. Winnicott trouxe–nos pelo seu trabalho clínico a ideia, expressa de forma consistente, de que a criança é fruto do ambiente onde se desenvolve e que este estrutura o seu psiquismo de uma forma muito mais global do que o carácter inato das fantasias inconscientes, tal como era antes concebido. Assim, a questão da falta, do que não houve, surge sempre com muita insistência, levando-nos a acreditar que muito da falta pode ser vivido num processo psicoterapêutico com um analista que se permita viver essa aventura surpreendente, dolorosa e mágica com a criança.
Por outro lado, na minha perspetiva, esta questão da necessidade de olharmos o externo e o interno repõe a necessidade de sermos psicanalistas no mundo, participando na vida comunitária, não só como cidadãos com os nossas ideais, mas também como psicanalistas que podem contribuir para pensar nos problemas sociais e culturais.
Conscientes disto, enquanto seres humanos e enquanto terapeutas, não podemos nem queremos ter uma atitude alheada do sofrimento psicológico da criança ou de qualquer outro ser humano. Queremos intervir, atuar nos diferentes níveis. E acreditamos que a melhor forma de o fazer é investigando e refletindo nas questões que nos vão surgindo ao longo do nosso dia a dia, aprendendo e ensinando numa dinâmica partilhada de conhecimento e de vivências. Acreditando que assim podemos melhor contribuir para a elaboração da dor psíquica das crianças que nos procuram, permitindo-lhes o reequilíbrio do seu mundo interno, o desenvolvimento do seu «aparelho de pensar», de forma a permitir-lhes um crescimento mais harmónico, mais livre e, consequentemente, mais saudável.
Por outro lado, também por acreditarmos que esse conhecimento nos permite não só prevenir patologias futuras, mas também adquirir uma outra compreensão e consequente intervenção nos homens e mulheres que nos procuram, que confiam em nós, que pretendem, connosco, desenvolver um trabalho psíquico.
Alheio também não é o facto de a Sociedade Portuguesa de Psicanálise formar Psicanalistas de Crianças e Adolescentes, bem como o facto de muitos de nós trabalharmos com estes grupos etários em instituições de saúde ou escolares, nos nossos Institutos de Psicanálise ou nos consultórios.
No percurso terapêutico, nessa viagem feita de contínuos ajustes de caminhadas, ora tortuosas, ora tranquilas, defendo, como penso que a Anna Maria Nocolò também, que o lugar do analista deverá ser sempre o da conexão criada pela verdade relacional, não com a preocupação da descodificação ou da interpretação, mas com a liberdade fluida que tem como único limite a tolerabilidade temporal daquela vivência para o(a) paciente.
Com as crianças, saudáveis ou em contexto de terapia, na riqueza desse seu mundo imaginário impregnado de simbolismo, somos convidados a transitar para a tela do sonho; contemplamos imagens, seguimos as narrativas para os atores que nos trazem, assistimos a tranquilas ou inquietantes formas de existência partilhadas no prazer da intimidade em que o sentimento de pertença preenche espaços de desamparo e de vazio.
Também, e enquanto psicanalistas, através do espaço que permitimos à nossa criança interna, através de atividades criativas, claramente entendidas como a força motriz do desenvolvimento humano, tomamos consciência das nossas potencialidades, entendemos o valor e a extensão da liberdade individual e fixamos o horizonte da nossa própria autonomia e bem-estar.
Antes de terminar, quero enfatizar, enquanto psicanalista e com base na minha prática clínica, como considero que as nossas primeiras relações são tonificantes para a nossa capacidade de estar, de amar, de sonhar, de brincar, de fazer. Como elas nos abrem portas para a tolerância e apreço pela diferença. E mantendo os olhos na saúde, no desejo e no prazer, diria que além da partilha da nossa experiência da clínica e da teoria, deveríamos partilhar o humor, o lazer da arte e o prazer do brincar.
Deixo algumas últimas interrogações: Como não ligar o brincar à expressão criativa e artística? Como não o articular com a Saúde Mental? Como não o pensar no trabalho psicanalítico? Como não o associar aos temas que surgem nas obras de arte, que traduzem a realidade interna e externa, mas também algo que pertence a um campo intermediário entre o subjetivo e o percebido objetivamente?
Talvez esta questão contribua para a compreensão do porquê do coletivo fascínio por um Sorriso como o da Gioconda…
Mais uma vez, muito e muito obrigada, Anna Maria.