Comprometido com uma incessante investigação acerca de Bion e Green, dos estados não representados da mente e seu tratamento, Howard Levine tem desenvolvido uma intensa produção escrita e uma profícua atividade científica. Através delas, promove o encontro de psicanalistas de todo o mundo, com diferentes níveis de experiência, marcando uma presença ativa na dinamização do debate psicanalítico. O autor tem contribuído igualmente para uma reflexão analítica não solipsista sobre algumas das mais destrutivas questões humanas, como o Holocausto ou a atual ameaça de guerra nuclear.
Podemos dizer que deste modo muito peculiar Howard Levine perturbou, em muitos de nós, o universo das integrações que tínhamos como seguras, e que, de resto, também elas foram outrora revoluções de controversa aceitação. Na atmosfera do seu trabalho, interioriza-se a atitude de caesura perante o desconhecido, imprescindível ao avanço do conhecimento psicanalítico. A sua presença tem sido um permanente convite à turbulenta postura de movimento direcionado ao emergente, ao que virá no momento seguinte, à indagação e à dúvida, contrárias ao abrigo em portos confortáveis, solicitando-nos para o livre fluxo do pensamento, ampliando o seu leito.
A obra que agora nos apresenta, The Post-Bionian Field Theory of Antonino Ferro. Theoretical Analysis and Clinical Application, é um livro de psicanálise contemporânea acerca da natureza intersubjetiva e inconsciente da mente. Um vívido exemplo do trajeto do autor, e coerente com ele. Coordenado por si em coautoria com diversos nomes do Boston Group for Psychoanalytic Studies, está integrado nas The Routledge Wilfred R. Bion Studies Book Series, das quais é diretor.
Deixando-nos uma «pincelada» da sua marca, Levine refere que esta assenta numa longa e calorosa relação com Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese e com o braço de Pavia da Sociedade Italiana de Psicanálise. E ao longo destas páginas,
Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
dá-nos a sentir uma espécie de produção «em residência» entre o grupo de Boston e Ferro, um dos grandes expansores da herança de Bion e concretamente da noção bioniana do campo. Com os coautores, oferece-nos uma estimulante exploração das várias dimensões da Teoria do Campo Pós-Bioniana, de Antonino Ferro, alicerçada na visão transformacional que este tem da psicanálise — das raízes, origem e delimitação epistemológica, passando pelas suas características, assunções e ética, até ao «Campo do futuro e ao futuro do Campo», defendendo uma teoria psicanalítica aberta.
No plano teórico, encontramos no livro o exemplo de um campo — o encontro entre a fase mais tardia de Bion, com raízes já no seu período inicial dos grupos, e uma versão contemporânea da Teoria do Campo de Antonino Ferro, integrando ainda os contributos da teoria kleiniana, do pensamento de Winnicott e da psicanálise francesa, sem ser o somatório de cada um deles. E como o subtítulo indica, além da fundamentação teórica, apresenta-se uma sofisticada sustentação em material clínico, tanto ilustrando, de forma muito dinâmica, conceitos tão inovadores quanto complexos, como mostrando a necessidade de constante afinação dos instrumentos analíticos — sempre com a ideia de que o crescimento mental do paciente será a melhor validação, com repercussão epistemológica. Através destes exemplos, podemos ver como se pode trabalhar, clinicamente, nesta proposta. O contributo da e para a psicanálise da criança é também aqui, imprescindivelmente, contemplado, num dos capítulos.
O leitor perceberá, assim, que esta obra se revela de uma extrema utilidade para todos os que se implicam no tratamento do sofrimento psíquico para lá do método clássico — em crianças, adolescentes ou adultos —, uma vez que ela se foca no modo como os estados primitivos da mente emergem, se revelam e transformam no encontro analítico, através da rêverie e da figurabilidade psíquica, deixando o foco na psicopatologia do paciente em segundo plano e libertando-se de posições dualistas. Antes, mudando o modo como escutamos e interpretamos. O que significa abandonar a exclusiva escuta do decifrável reprimido para a alargar às manifestações dos inesgotáveis recursos do paciente — as vagas sensações somáticas, que poderão ganhar forma na mente do analista através da figurabilidade psíquica. Passar a interpretar não como um destino em si, mas como um ponto de partida para gerar sonhos não sonhados, ou seja, novos significados subjetivados que constituirão novos territórios na mente do paciente. Essa é, aqui, a essência do processo analítico — um sistema gerador de novos pensamentos.
Poderemos ver também que o livro está estruturado de forma que cada capítulo nos ofereça um vértice diferente sobre o campo e o momento analítico, permitindo-nos interiorizar no fim uma constelação que nos proporciona a perceção de uma unidade suficientemente sólida desta teoria, e sua aplicação clínica, para que cada um possa fazer caminho próprio.
Seguiremos então um percurso de apresentação que evidencie estes contributos individuais, em torno de alguns pontos transversais a todos eles e que constituem os pilares desta área conceptual: a dimensão onírica; a ideia do desenvolvimento de ferramentas para pensar, através da variedade transformacional; o pressuposto de assimetria defendido por Freud; uma dialética continente-conteúdo plástica, coconstrutiva, coinibitiva e cogenerativa; a existência de pluralidade de universos, tensão e instabilidade.
É importante começar por evidenciar que somos postos perante um olhar despojado do conceito de campo analítico. É-nos apresentado como uma hipótese, devidamente definida e delimitada ao mundo da realidade psíquica — de resto, como todas as teorias psicanalíticas —, inseparável da lógica de um espaço transicional. Somos convidados a suportar a ideia da sua imaterialidade, ressalvando as importantes diferenças epistemológicas da realidade social validável, sendo destacada a intuição analiticamente informada como o veículo para a possibilidade de compreensão metapsicológica da existência desta dimensão, além do empiricamente observável, além dos sentidos. A comparação de que para a psicanálise o intuir é o equivalente ao ver, tocar e cheirar, instrumentos utilizados pelo físico, surge a dada altura, num dos capítulos, para que melhor se perceba a abstração.
Um dos aspetos centrais da Teoria do Campo — o conceito de pictograma — é trazido por Dolan Power. Sendo considerada a primeira representação das impressões sensoriais, é uma ferramenta no trabalho da rêverie, por sua vez parte da função alfa, de grande utilidade para a integração, construção e reconstrução do começo da vida psíquica. Nesta perspetiva, esta criação de imagens mentais, a partir da dimensão não sensorial, é a primeira das transformações mentais de elementos não pensáveis em elementos pensáveis, pois é ela que vai permitir a atividade onírica diurna e noturna, povoar a vida fantasmática, dar capacidade imaginativa e criar fluidez à identificação projetiva na sua vertente mais positiva.
E vai mais longe, convocando o contributo de Aulagnier. A formação constante destas imagens mentais inconscientes gera a descoberta da capacidade para sentir prazer, aqui sinónimo de o self poder experienciar o self e poder experienciar-se como prazeroso, criando assim as bases da subjetivação e da vivência estética, autónomas de um impingement do objeto, que precisa de saber ser simultaneamente presente e ausente. Transposto para a relação analítica, não se poderá ver aqui um
exemplo do espaço para a elaboração individual no campo, contrariando leituras da intersubjetividade que o questionam com ceticismo?
Outra especificidade do campo analítico é a sua estrutura aporética. Um outro coautor, David G. Power, caracteriza-a como uma perene contradição interna irresolúvel, decorrente do encontro com a diferença de um outro. Para ele, a tensão provocada por esta contradição é a essência da dinâmica para pensar na experiência que não pode ser representada — modo como também define o trauma. Uma rutura na cadeia de simbolização, próxima do soma e que persiste através de acontecimentos somáticos não integráveis na rede de significados, símbolos, associações, ou narrativas oníricas, mas que de alguma forma transporta sempre um apelo à presença, profundamente implicada, de um outro.
Sendo esta também a já conhecida condição bioniana para pensar e o terceiro intersubjetivo de que Ogden já nos falou, o que Power parece aqui querer salientar é a disjunção radical existencialmente presente entre a mente traumatizada e a mente do que cuida. Poderemos também questionar se a dimensão paradoxal, dissonante, criada por esta diferença não será a força que desencadeia a transformação, apontando para a empatia continente, que narcisa e apazigua, como manifestamente insuficiente para o processo de simbolização. De acordo com Power, só estes bons níveis de pressão no campo, resultantes da diferença irresolúvel, que o analista deve saber manter e suportar, podem responder ao imperativo representacional, aumentar a capacidade de rêverie no paciente e a sua vida fantasmática, contrariando a evacuação, clivagem, forclusão ou negação. Esta última mesmo em personalidades ditas neuróticas. Parece-nos que este nível ajustado de turbulência salvaguarda, afinal, a não alienação do self das suas próprias experiências — a essência de uma autonomia. Acrescente-se que na ética do campo o peso desta pressão desproporcional cai, obviamente, sobre o analista.
Num cruzamento com a estratificação do pensamento de Bion, temos ainda a interligação, feita por Rodrigo Barahona, com a teoria bioniana das transformações, elas próprias a expressão mais viva da expansão da subjetividade, através dos conceitos de invariância, alucinação e alucinose, que ganham aqui uma importância-chave, enquanto alerta acerca do que se passa ao nível do incognoscível e que não tem palavras para se dizer.
Enquanto espaço transicional, o campo é visto como uma realidade hipotética que pressupõe ainda uma pluralidade de universos coexistentes. Cada personagem que aqui se apresenta pode ser multirreferencial, pode condensar algo no passado, no presente, no futuro, algo consciente ou inconsciente, algo do paciente ou do analista, ou indicadores da sua qualidade. E estas condensações são afinal produtos de vários níveis de transformações, incluindo em forma de alucinose. Assim, carregam também material não digerido que se faz presente pela pressão para o aprofundamento e para a elaboração. De modo harmonizado, o campo oscila entre momentos coinibitivos de contração e cogenerativos de expansão. Contrai, plasticamente, e por isso não sucumbe, quando é invadido pela violência de um absolutismo de ideias; expande quando daí podem nascer, pela função alfa do analista, múltiplos pontos de vista.
Segundo este autor, esta oscilação articulada é conseguida pela capacidade de o analista estar em contacto inconsciente com o evento percetual agudo, evocativo das impressões sensoriais que carregam apenas sensações somáticas de prazer ou sofrimento — a alucinação do seu paciente, produto do estado mental de alucinose, normal ou patológico, captado através do reconhecimento das invariâncias que virão, elas próprias, a constituir o facto selecionado da sessão.
E sobre as raízes da intersubjetividade psicanalítica, o conceito que sustenta a noção de campo? Lawrence Brown vem escorá-las, por um lado, nos pressupostos básicos de Bion, enquanto fantasias inconscientes partilhadas pelo grupo; por outro lado, nas teorias de Freud acerca do modo como os sonhos são formados. O autor acredita que a formação da intersubjetividade psicanalítica segue um caminho similar ao da criação intrapsíquica do sonho, mas que os fragmentos deste tecido são provenientes de um inconsciente do grupo organizado através da condensação.
No seguimento desta fundamentação, com a apresentação de material clínico, Brown contribui para uma reflexão algo diferente acerca do trabalho de supervisão — como um grupo muito específico, constituído pelo analisando, analista e supervisor.
Um domínio onde o campo pode adquirir ainda uma maior densidade fantasmática e complexidade, no contexto dos objetos arcaicos dos intervenientes, pela oscilação entre a dimensão bipessoal e grupal, é a psicanálise da criança. Daí ser considerada uma área de onde provêm valiosos contributos. Há uma multiplicidade de bicampos e intensificação de combinações inconscientes: as projeções da mãe na criança, no pai e no analista; as projeções do pai naqueles outros três; aquela criança em si mesma; as alianças inconscientes; as fantasias partilhadas que se transformam numa «mente unitária»; a desconstrução de tudo isto; etc. — muitas vezes, sobre pressão parental de alívio de sintomas com manutenção de homeostase e do transgeracional não pensado. A inevitabilidade de vetores externos aumenta a permeabilidade do campo, por forma que a contratransferência seja inexoravelmente moldada pelos conflitos dos pais, ideais e transferências, começando logo pela dependência da criança,
perante estes, para o estabelecimento e continuidade do setting. Neste cenário, devido ao risco de agido sobre o mais frágil, o pequeno paciente ou de rutura, a análise da contratransferência negativa impõe-se a qualquer tentativa inconsciente da sua negação.
E daqui, podem surgir possíveis ligações: não será este um bom exercício de barreira de contacto? Uma boa experiência para a compreensão do estado mental sem memória, sem desejo, sem conhecimento? Ou seja, sem constelações dos aspetos parentais, ao iniciar cada sessão com a criança, mantendo, no entanto, a permeabilidade para a emergência e mobilização destes ao longo dela. De resto, um padrão que poderá ser aplicado na psicanálise do adulto quando nos referimos à abstinência de constelações teóricas, mantendo a abertura para que surjam, entretanto, estimuladas pelo material clínico.
No contexto do campo bipessoal criança-analista, há, paralelamente, aportes muito particulares. A criança associa livremente em ação, exigindo destreza não só do radar intuitivo que tem de captar as identificações projetivas a este ritmo, mas também da rêverie que é processada de acordo com ele. O facto de o trabalho de sonho do analista ter de ser feito a partir de uma «figurabilidade material», assente no desenho e no jogo, podendo mesmo envolver o próprio corpo do analista e consequentemente a contratransferência corporal, pode ser bastante didático para uma melhor compreensão da técnica de produção de pictogramas e do sonhar diurno, a ser utilizada mesmo com adultos, sobretudo em áreas não simbolizadas ou deficitariamente simbolizadas da mente.
Noutro contexto, decorre ainda junto dos pais uma «pedagogia», para expansão continente da sua capacidade de receber e metabolizar as identificações projetivas do filho ou da filha.
Com este aporte, da psicanálise da criança, apresentado por Allen Palmer, «jogando em campos separados e sobrepostos», podemos ter outra clareza sobre a Teoria do Campo, como enquadramento e instrumento que permite a alfabetização do mundo interno, mesmo quando impera o concreto protoemocional — sem dúvida de extrema utilidade também no trabalho de criação de pacientes para análise, proporcionando-lhes este acesso.
Com esta publicação, Howard Levine dá início à realização de uma tarefa pedida por Antonino Ferro: a exploração e o desenvolvimento de hipóteses novas e próprias da sua Teoria do Campo — numa das conferências online em 2020 organizadas pela Antonio Santamaria Foundation, na Cidade do México, onde apresentou as suas mais recentes ideias, relembrando como Freud nos ensinou a reconhecer outros mundos, e Bion, infinitos universos. Assim, para o campo do futuro, Levine deixa-nos impactantes questões acerca da construção de uma menos Grelha ou de uma Grelha «negra». Poderemos nós mapear o território da Grelha negativa? Ou o da capacidade negativa? Se e quando o continente não puder conter as forças presentes, se entrar em rutura, que poderemos encontrar? Que se passa no plano das transformações quando não há ou se perde a capacidade de sonhar?
Este trabalho coloca-nos perante um forte desafio. Abre mais um facho de escuridão para o lado negro da mente do analista, aumenta a inquietação sobre o tão enigmático domínio da impossibilidade de sonhar e deixa-nos com a questão interminável: que subjetivo é este?