De facto, hoje não precisamos de uma revista de Psicanálise apenas como meio de divulgação de conhecimento, embora possa assumir esse propósito.
No princípio do século XIX, Freud soube usar a escrita acerca dos casos que ia acompanhando, das suas memórias pessoais ou dos seus próprios sonhos como uma função determinante no seu processo de auto-análise. Foi algo fundamental, mesmo que inicialmente realizado sem grandes desígnios de difusão alargada do seu pensamento.
Cedo se apercebeu de que o esforço autorreflexivo da escrita do psicanalista o obriga a colocar um distanciamento relativo para procurar imaginar alguém, talvez um leitor potencial, capaz de o «escutar» (através da leitura), facilitando-lhe assim o refazer de uma história vivida que procura uma representação comunicável. Ou, de forma mais simples, como nos diz Joseph Joubert: «ao procurar palavras, encontram-se pensamentos».
Se o que tem lugar na sala de análise é essencialmente uma situação emocional, para a qual falta uma terminologia adequada para a descrever, como defende Bion (1970), então o psicanalista necessita de uma escrita para se procurar aproximar da realidade última, do «unknowable». Penso que seria isto que Bion teria em mente quando referiu (1978, p. 195 apud Ogden, 2005, p. 16): «if we want to make a scientific communication, we shall also have to make a work of art».
Desta forma, o analista poderá também criar uma ligação simbólica com outros analistas, expondo-se a medos inconscientes de retaliação, de perda do objeto, ou a sentimentos de humilhação, associados à experiência de não ser aprovado ou severamente criticado. Necessita de estar confiante no valor da sua contribuição apesar da exposição a que se obriga.
Os psicanalistas devem estar preparados para tal. Porque é também o Outro que encontramos no leitor quem permite que nos escutemos (Ogden, 1994).
As revistas de Psicanálise são um lugar privilegiado de um encontro imaginado. Acompanham-se da mágica deformidade das sombras convocadas pelos intervenientes desse encontro.
Por isso, é inevitável haver revistas de Psicanálise. Elas vão existir enquanto houver psicanalistas!
Presidente da Comissão de Ensino e Psicanalista Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: