A equipa editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise tem o prazer de apresentar o presente número, o qual reflete uma linha concetiva orientadora baseada em três aspetos fundadores da contemporaneidade.
O primeiro é relativo ao modo como o corpo, a memória, a conceção do objeto, da relação analítica e do laço social têm sido transformados e enriquecidos pela revolução digital. Referimos o facto de os objetos de estudo da psicanálise terem transitado de um modo existencial relacional — no qual a presença física era uma constante — para um modo existencial que incluiu o virtual, em diversas dimensões. O virtual é considerado de modo alargado, uma vez que afeta a experiência subjetiva, interna, relacional e social de ambos os parceiros da análise, em virtude de estarem imersos na nova cultura. Surgem diversos desafios, de entre os quais elencamos a transitoriedade — com as suas implicações nos processos mnésicos e representacionais —, o imediatismo e a urgência. É sob a regência do algoritmo que podemos ver colapsar os processos psíquicos e ameaçadas as condições da criatividade, factos que poderão estar na origem da turbulência, da raiva e da polarização a que se assiste no mundo atual.
O segundo aspeto norteador da contemporaneidade encontra-se em estreita relação com o primeiro. Referimos a «complexidade», conceito desenvolvido por Fiorini a partir da dialética, na perspetiva de Morin, que implica a consideração tríplice da sexualidade, do inconsciente e do corpo biológico. Nesta complexidade, surgem as questões das subjetividades plurais (problemáticas ou não problemáticas), com as suas implicações sobre uma perspetiva — que pretendemos cada vez mais ultrapassada — de uma psicanálise construída não segundo o modelo do oráculo (conceções de origem e de explicação últimas), mas, sim, de uma psicanálise multideterminada e pluricausal. É ainda nesta complexidade que o lugar de Eros se reafirma, nas problematizações da atualidade: o Zeitgeist da psicanálise, a cuja determinação não se escapa à influência.
O terceiro e último aspeto é consequência lógica das premissas anteriores, ou seja, a intenção clara de, neste número, dar espaço à polifonia criativa de saberes e de olhares.
É deste modo que convidamos à leitura dos artigos selecionados, começando, desde logo, pela secção Fundamentos, por três artigos que estiveram na base da passagem a membros titulares.
No primeiro, de Ana Catarina Duarte Silva, «Estados adolescentes da mente no processo analítico de pacientes adultos», é desenvolvido o conceito que deu origem ao título. A autora extrapola o conceito para uma parte processual do percurso analítico presente em todos os pacientes adultos. Contempla ainda os quesitos da atitude clínica do analista perante a dispersão do sentimento de identidade, a confusão de papéis, a confrontação e a oposição emergente na relação. É apresentada uma vinheta clínica.
O segundo, da autoria de Carla Cruz, intitula-se «A intersubjetividade na díade: fonte de intuição do analista». A autora interroga-se quanto ao facto de o conceito de «intuição» não constar da metapsicologia de Freud, propondo que tal se deveu à preocupação do fundador da psicanálise de a tornar numa ciência, segundo os critérios da época. Com base na revisão da literatura, a autora coloca a hipótese da intuição como um mecanismo inconsciente, resultado da intersubjetividade na díade. A análise da temática é acompanhada de uma ilustração clínica.
No terceiro, Manuela Harthley apresenta-nos «A influência da Bilógica na teoria e clínica psicanalítica» e mostra-nos, com ilustrações clínicas, como o trabalho de Ignacio Matte Blanco, psicanalista e matemático, amplia e clarifica a intuição fundamental de Freud, segundo a qual o funcionamento inconsciente se rege por uma lógica não aristotélica. A compreensão de outras lógicas ajuda o psicanalista a aceder às camadas mais profundas da vida psíquica.
Na secção Clínicas, encontramos três artigos.
Em «Do amor (e do ódio) na contratransferência às violações dos limites sexuais na relação analítica», Orlando von Doellinger reflete no amor contratransferencial e em alguns aspetos da teoria e prática psicanalíticas que podem contribuir para as transgressões sexuais na relação terapêutica. Reflete ainda nas estratégias preventivas dessas ocorrências.
No artigo intitulado «Três conceções da memória na psicanálise», Maria José de Azevedo propõe três conceções da memória, as quais designa por: «memória-lembrança», «memória-reconstrução» e «memória-integração». Embora surgidas no decurso da evolução da psicanálise, estas três conceções mantêm-se, na sua opinião, atuais. Ilustra com três vinhetas clínicas: de uma criança, de um adolescente e de um adulto.
No artigo «Palavra e corpo transcritos no espaço virtual», Nadja Tröger traz-nos uma reflexão acerca do impacto da mudança para o trabalho online durante a pandemia, a partir de um caso clínico com história de abandono numa fase precoce da infância. Com a passagem para o setting virtual, Nadja Tröger observou na paciente o surgimento de uma necessidade de escrever durante a sessão, que previamente à pandemia não existia. Os possíveis significados desse movimento para a escrita são explorados neste trabalho.
Na secção Auditório, Elsa Couchinho, com base na comunicação apresentada no V Congresso de Psicanálise de Língua Portuguesa, dedica o texto «A terra morta do colonialismo português» ao trauma e à violência sociopolítica, abordando a fantasia de um colonialismo português brando e a negação de um racismo estrutural.
Apresentamos ainda nesta secção uma entrevista inédita realizada a Mariano Horenstein por Sílvia Acosta: «A psicanálise nos interstícios da contemporaneidade». Uma breve apresentação de Horenstein inclui a extensão da sua produção escrita, bem como o alcance do seu auditório. Possui uma perspetiva que resgata o valor da mistura, das margens e dos interstícios, como núcleos de produção e da criatividade psicanalítica. A sua condição de origem latino-americana acrescenta, no plano mundial, e concretamente no público português, traços, significantes e condições que enriquecem o debate sobre a psicanálise contemporânea.
Na secção Formação Contínua, encontramos o artigo de Marcela Bispo Fratus e Paulo José da Costa: «Crença para lá da religiosidade: um diálogo entre Sigmund Freud e Oskar Pfister». Trata-se de um trabalho que explora as relações entre a psicanálise e a religião através da análise do pensamento de dois homens que, divergindo quanto à religião, se uniam pelo amor à psicanálise e por uma amizade duradoura. O autor explora a noção de crença como algo que assinala a presença do desejo inconsciente, tanto na crença religiosa como na científica.
Na secção Poéticas, encontramos o artigo «Identificação projetiva, função objetalizante e narratividade — après-coup da psicoterapia psicanalítica de um adolescente», no qual João Mendes Ferreira se debruça sobre a construção de um espaço intersubjetivo na relação terapêutica com um adolescente, cuja história de vida, repleta de eventos traumáticos, foi trabalhada até à emergência da elaboração criativa, propiciadora de maior liberdade e autonomia.
Esta secção encerra-se com o texto de Fabiano Veliq, intitulado «A contemporaneidade e a busca de um Pai que não existe: considerações psicanalíticas». Nesta dissertação, o autor debate relações entre a psicanálise e a sociedade contemporânea brasileira (caso da ascensão da ultradireita nesse país). A partir dos fundamentos freudianos, de Lacan e da proposta atual de Massimo Recalcati, elabora o que resta do Pai na época atual, salientando a tentativa desesperada de reaver o Pai perdido, morto.
Na secção Vertigem, aborda-se a forma como os espaços virtuais e as formas de comunicação paralelas, lugares e relações que o sujeito não habita fisicamente provocam mudanças nos processos de subjetivação. Marielle Kellermann Barbosa evoca as dificuldades e controvérsias que criam tensão entre várias definições de realidade. Rita Marta oferece-nos um «manifesto» contra uma hiperconectividade dessubjetivante. Marco Posadas elabora a habitabilidade e o potencial de encontro que as redes sociais proporcionam às subjetividades marginalizadas e híbridas. Finalmente, Inês Ataíde Gomes salienta os benefícios e as dificuldades que as redes sociais trazem à nossa vida quotidiana.
Terminamos, desejando ao leitor uma boa leitura.
A equipa editorial da RPP