O tema da existência de uma narrativa adolescente no decurso de uma qualquer análise surge a partir do interesse teórico e clínico da autora sobre o processo adolescente. A autora constata que em certos momentos da análise de adultos se assiste a uma dispersão do sentimento de identidade, com uma confrontação e oposição dentro da relação analítica, e até a uma certa confusão nos papéis a ser desempenhados por cada um, dinâmica que exige o recentrar da postura analítica do próprio analista. Refletindo nestes movimentos, na concepção dinâmica do processo adolescente e nas qualidades requeridas do objeto contentor em todo este processo, a autora pensou na hipótese da existência de estados adolescentes da mente em qualquer análise de pacientes adultos, que requerem da parte do analista uma atitude clínica específica. Operacionaliza a sua hipótese com base nas ideias de Astor e Waddell sobre os estados adolescentes da mente como uma metapsicologia da adolescência, e nas conceções psicanalíticas do processo adolescente, nos objetos internos, nas teorias de Winnicott, na teoria do Campo e na escuta analítica. Por fim, recorre a uma vinheta clínica para a sua demonstração e reflexão.
O tema da existência de uma narrativa adolescente no decurso de qualquer análise surge a partir do meu interesse teórico e clínico sobre o processo adolescente. Ao longo de algumas análises de pacientes adultos, apercebi-me de que certos momentos da análise eram caracterizados por movimentos de dispersão do sentimento de identidade, com uma confrontação e oposição dentro da relação analítica, alcançando por vezes até uma certa confusão nos papéis a ser desempenhados por cada um, dinâmica que exigiu um recentrar da minha postura analítica. Se, por um lado, me era solicitada uma atenção não tão flutuante, com interpretações no aqui e no agora de forma que se mantivesse o rigor do setting, por outro, era-me requisitada uma maleabilidade e flexibilidade da minha própria função analista enquanto suporte contentor. Refletindo nestes movimentos, na conceção dinâmica do processo adolescente e nas qualidades requeridas do objeto contentor em todo este processo, pensei na hipótese da existência de estados adolescentes da mente em qualquer análise de pacientes adultos.
Na investigação sobre o tema, concluí que Astor (1988) e Waddell (2018) (ambos seguidores da obra de Meltzer) discutiram a ideia de estados adolescentes da mente, embora não a operacionalizando de forma concreta.
A partir daqui, considerei a sua exploração, mas ampliando-a para a perspetiva do analista, para aquilo que estes estados adolescentes da mente
Trabalho teórico-clínico para passagem a Membro Titular apresentado na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, 10 de janeiro de 2020.
Psicóloga Clínica, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Federação Europeia de Psicanálise (FEP-EFP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
exigem da parte do analista, isto é, como é que o analista acompanha estes momentos de modo que mantenha a sua atitude analítica. Neste ponto, encontro-me com Abram, com as conceções que tece sobre o objeto sobrevivente a partir da teoria do uso do objeto de Winnicott (1971).
Proponho então desenvolver em pacientes adultos a noção dos estados adolescentes da mente e a escuta da sua narrativa, e ainda a necessidade de o analista se construir enquanto objeto sobrevivente de forma que estes estados sejam elaborados e ultrapassados.
Para operacionalizar esta hipótese de trabalho, que os estados adolescentes da mente existem nas análises de pacientes adultos e requerem da parte do analista uma atitude clínica específica, apoio-me nas teorias dos objetos internos, nas teorias de Winnicott e na teoria do Campo. Considero, neste estudo, a adolescência sobretudo como um processo de transformação, na qual se observa um desdobramento e uma ressignificação das relações emocionais primitivas, pela formação de novos símbolos, novos objetos, no espaço transicional do setting analítico, numa relação continente/conteúdo atravessada por movimentos transferenciais e contratransferenciais, que permitem a coconstrução de uma nova narrativa. Nesta coconstrução, a reconstrução de símbolos é mediada pelo fantasma que atravessa esta fase do desenvolvimento emocional adolescente, o de matar os pais. É ainda a especificidade da escuta do par analítico que dá acesso a estas reconstruções, aos estados adolescentes da mente. Todavia, para que estas transformações ocorram, são necessárias características e qualidades específicas do objeto analítico, ou seja, a sua capacidade de sobreviver aos ataques do sujeito de forma que possa ser usado como objeto para a reconstrução de novos símbolos, novos objetos, com o objetivo de o sujeito se sentir inteiro, coeso e, por fim, subjetivado, como demonstrado na vinheta clínica de um caso de adulto em psicanálise.
Freud, em 1905, com a sua obra «Três Ensaios sobre a Sexualidade», altera definitivamente o discurso psicossocial sobre a adolescência ao colocar a ênfase na dimensão psicológica deste período, nos seus aspetos psicossexuais. Enuncia assim a transformação simbólica interna da adolescência: «Com a chegada da puberdade, têm início as transformações que hão de levar a vida sexual infantil à sua definitiva constituição normal. O instinto sexual, até então predominantemente autoerótico, encontra por fim o objeto sexual… surge agora um novo objetivo sexual, para o qual se dirigem todos os instintos parciais, ao passo que as zonas erógenas se subordinam à primazia da zona genital» (Freud, 1905/1948, p. 801).
A puberdade determina assim o fim da latência, reaparecendo as tendências e os conflitos infantis associados à cena primitiva, levantando-se as questões narcísicas com angústias sobre a autenticidade do próprio corpo e da identidade sexual. A emergência dos desejos sexuais nas suas formas infantis, perversas e polimorfas, para investir no novo objeto, mas agora total e genital, pressiona o eu de tal forma que este, numa tentativa de manter a sua consistência e coerência, reutiliza maciçamente o mecanismo de clivagem. Nesta oscilação dinâmica entre as posições esquizo-paranoides e depressivas (Klein, 1946/1991), neste vaivém de movimentos projetivos e identificatórios, gera-se a sensação de instabilidade adolescente, a ansiedade confusional típica do adolescente (o «pot-pourri» dos «estados sexuais da mente» de Meltzer). Esta agitação é centrada essencialmente no corpo, em que a atividade masturbatória e a sua «phantasia» têm aqui um papel central e justificativo deste agir corporal sem fim, onde a linguagem da ação substitui em muito a linguagem do pensamento, que a maioria dos adolescentes experiencia. Como diz Emílio Salgueiro: «Não podemos deixar de recorrer à teoria dos “objectos internos”, na procura de um entendimento do equilíbrio narcísico do adolescente» (Salgueiro, 1987, p. 71), do equilíbrio resultante de lutos, lutas e conquistas, e do jogo cruzado de espelhos de projeções e introjeções entre si e o outro, de olhar para o outro para que este o olhe, reconheça, valorize e o confirme pelo seu olhar, de modo que recupere a imagem de si. Por este meio, o adolescente consolida a sua autoestima e o sentimento de existir, inteiro, coeso e distinto do outro. Porém, esta coesão interna implica sempre a entrada do terceiro, e é esta «terceidade» (Green, 2000) que caracteriza o prisma mais simbólico, mais interno do processo adolescente.
Percebe-se então como do ponto de vista simbólico o tempo da adolescência corresponde a uma reedição da dramaturgia da infância, do Édipo: «terminado o período da latência, volta-se a formar a relação primitiva» (Freud, 1905/1948, p. 808), mas por cima do cadáver fantasmático dos pais (Winnicott, 1971), encenada no palco inquietante do corpo e da mente onde «Corpo/ /mente são o mesmo topos» (Lima, 2017, p. 27).
A sensação de desconhecimento do eu e do corpo faz com que tudo se pareça organizar de uma nova forma, onde os atores deixam de ser o pai, a mãe e o filho, mas o homem, a mulher e o adolescente. «O 2° conflito edipiano, o da adolescência, é vivido sobretudo fora de casa, com o investimento amoroso e sexual de figuras exteriores, com maior ou menor carga de idealização erótica ou agressiva, de acordo com as possibilidades narcísicas construídas ao longo da infância e da pré-adolescência» (Salgueiro, 1987, p. 72).
No entanto, para que surjam novas relações, é necessária a ressignificação das experiências emocionais e a sua transformação em símbolos, de forma que estes (símbolos) sejam passíveis de ser utilizados ao serviço dos reinvestimentos objetais, para dar azo à construção de novos objetos. Torna–se então importante perceber como se constroem estes símbolos, como é que ocorre a simbolização, o processo de subjetivação do sujeito (Penot, 2005; Roussillon, 2015). Ou seja, compreender a forma como o sujeito apreende as representações mentais das suas experiências emocionais (que lhe permitem reconstituir os factos da sua vida e narrar a sua história) é perceber o processo de formação de símbolos, é entender que tal como no bebé, no adolescente os símbolos (os pensamentos) se constroem a partir da transformação psíquica que decorre do encontro das vivências emocionais com o ambiente suficientemente adaptável e transformável, e que se ajusta às necessidades do seu bebé (do seu adolescente). O adolescente, todo ele em transformação interna e externa, revive na sua relação com o outro (numa relação protótipo continente/conteúdo) o colorido das experiências emocionais primitivas (que o deixam confuso, perplexo e instável), esbatendo-se as fronteiras e distinções entre o que é, o que foi e o que deveria ser. Cria-se um novo espaço psíquico, modulado por um jogo de identificações e projeções, com todas as suas vertentes de ligação e separação, que conduzem à construção e consolidação da sua identidade sexual e adulta.
Este espaço psíquico, este espaço transicional (central em toda a teoria de Winnicott), que apesar de não ser externo também não é interno, embora seja paradoxalmente concebido a partir do interno, do inconsciente, com vista a tecer o externo, constitui-se como um espaço intermédio que providencia ao sujeito, ao adolescente, o convívio simultâneo de duas realidades distintas, mas que se interligam. É o que está contido na belíssima frase de Winnicott: «it is joy to be hidden but disaster not to be found» (1963/2011, p. 191), em que o prazer de o sujeito/bebé/adolescente se manter no interior é configurado pelo encontro da realidade externa numa área da ilusão e do brincar, emergindo o sentimento de existir, de estar destacado e distinto da mãe. Ainda, a mãe, porque se encontra a viver no seu estado de preocupação maternal primária, integra a presença do pai na sua mente e também na do seu bebé («paterno integrado», Abram, 2015), dando-lhe a experiência que o objeto não é apenas do sujeito, mas também da díade.
Esta é a dinâmica que permite a inscrição do terceiro, a constelação edipiana e a integração da bissexualidade psíquica. Reeditadas agora as questões do materno e do feminino, bem como do paterno e do masculino, o adolescente integra a sua bissexualidade, a coexistência dos seus elementos femininos e masculinos na sua psicossexualidade (Perelberg, 2018). A partir daqui, constrói-se um objeto interno fiável, o objeto intrapsíquico sobrevivente total (aquele que sobreviveu à destruição do sujeito, que se moldou a partir da relação iniciada na realidade externa, que a seguir foi transposta para a realidade compartilhada), passível agora de ser usado para descobrir o desejo do outro, mas também do próprio, numa relação entre ambos, complementar e significativa, fundamentando assim a sua identidade.
Entende-se então como este conceito de espaço transicional se constitui como fulcral nestes desenvolvimentos, dado ser nele e por ele que se desdobram as variantes da relação emocional primitiva, mediada pela identificação projetiva ao serviço da comunicação (Bion, 1962/2014), no processo de formação de símbolos, no processo adolescente e também na relação analítica. Dito por outras palavras, o espaço transicional corresponde a uma matriz de significações (Penot, 2005) que conduz ao aparecimento e desenvolvimento dos processos internos tão presentes na adolescência, nos estados adolescentes da mente. Ou seja, é nele e por ele que ocorre a transformação do objeto subjetivo em sujeito objetivo, conduzindo aos objetos sobreviventes psíquicos de Abram (2012). Estes últimos (objetos) tornam possível a discriminação do outro como uma entidade separada, e não como o resultado de uma amálgama de projeções do sujeito, atingindo o seu ponto de maturação na adolescência, possibilitando a passagem do objeto transicional ao uso do objeto, e destacados na análise pela narrativa dos estados adolescentes da mente. Nesta conceção, a tarefa final da adolescência, bem como a sobrevivência psíquica do analista e a sua técnica estão no alcance deste objeto sobrevivente total, para poder ser usado na criação de novos símbolos, novos e renovados objetos.
Meltzer, na sua obra Sexual States of Mind, introduz a expressão de «estados mentais» no capítulo da adolescência, e na sequência do conceito de experiência da identidade. Ao longo da obra, vai clarificando a sua hipótese: «o termo adolescente deveria ser utilizado não como uma terminologia técnica, mas como uma metapsicologia, de forma que signifique um estado global da personalidade […] que, como qualquer organização do desenvolvimento, persiste até ser abandonada, quer por progressão quer por regressão» (1990, p. 58). No entanto, não chega a concretizar este conceito, apesar de o tentar definir quando coloca a seguinte questão: «Qual é a realidade psíquica destes grupos (das diferentes faixas etárias) ou os seus estados mentais?» (ibidem, p. 154). Na continuidade do
seu trabalho, James Astor e Margaret Waddell desenvolvem posteriormente estes conceitos dos estados adolescentes da mente, embora na minha opinião necessitem ainda de um estudo mais aprofundado, o que me proponho aqui a fazer.
James Astor é o primeiro autor a descrever a noção de estados adolescentes da mente. Refere-se a esta ideia da adolescência: «como um termo de referência da estrutura social do mundo adolescente, mas também como uma estrutura social da mente, no sentido em que o termo é técnico e metapsicológico» (1988, p. 67). Contempla a adolescência como: «um estado mental que não é particular da nossa cultura ou de uma faixa etária, e cuja característica principal consiste no sentimento de fluidez que envolve o sentimento de identidade […] e gerido dentro do grupo social» (1988, p. 67).
Porém, na minha opinião, é Margot Waddell quem constitui a contribuição mais nítida para a questão que pretendo estudar, quando descreve os estados adolescentes da mente como um modo de organização interna típica do período adolescente, em que o mais visível é a existência de uma estratégia defensiva, múltipla e variada de lidar com a confusão e dor mental típica deste período, no qual predomina a projeção de angústias e conflitos, como uma tentativa de não se pensar e de se evitar o contacto interno com estas emoções tão turbulentas (Waddell, 2018).
Para estes dois autores, o desenvolvimento do sentimento de identidade, com as angústias e os conflitos que suscita, é, por conseguinte, um processo complexo que impregna a mente, muitas vezes fora da idade adolescente.
Neste sentido, entendo que o conceito de estados sexuais da mente de Meltzer corresponde a um conjunto de processos intrapsíquicos que decorrem das pulsões e do desenvolvimento psicossexual dominante, da ligação entre sexual e inconsciente, o «objetivo da psicanálise» (Perelberg, 2018, p. 36); e o que melhor a caracteriza é: «esse real inconsciente no seu conteúdo “psico-sexual”» (Mijolla & Mijolla-Mellor, 2002, p. 779).
A partir destas premissas, a noção de estados adolescentes da mente pode ser considerada como uma «posição», no sentido kleiniano do termo. De acordo com o The New Dictionary of Kleinian Thought, o termo posição «descreve a postura característica que o ego assume em relação aos seus objetos» (Hinshelwood, 1989, p. 393), e que é caracterizado por um conjunto de pulsões, angústias, defesas e relações de objeto que predominam num determinado momento interior, e que se «agrupam em constelações que simultaneamente oscilam e se sobrepõem» (Spillius et al., 2011, p. 450), num movimento de vaivém (ao invés da ideia de fixação ou regressão a um determinado ponto do desenvolvimento), e sempre no interior de relações objetais.
No entanto, apesar da ideia de estados adolescentes da mente remeter para a constelação do conceito de posição, opto por não falar de «posição». Mantenho a expressão «estados adolescentes da mente», que defino como: o conjunto de processos intrapsíquicos que decorrem das pulsões, conflitos, angústias e das relações de objeto que predominam durante o desenvolvimento psicossexual da adolescência, do sentimento de identidade, e que podem surgir no decurso de qualquer relação analítica (e escutados pela díade através das suas narrativas).
A questão que agora se coloca é de como aceder a estes estados adolescentes da mente. Recorde-se aqui a voz de Seabra Diniz a citar Umberto Eco: «Aquilo que não se pode teorizar, deve-se narrar.»
Antonino Ferro (psicanalista que por excelência desenvolveu o conceito da narração em Psicanálise) define a narrativa como «uma maneira de estar em sessão, onde o analista e paciente partilham a construção de um sentido numa base de diálogo sólida sem grande participação de caesuras interpretativas» (Ferro, 2006, p. 1).
Diz Ferro: «Winnicott […] no seu livro do “squiggle”, foi o primeiro a conceptualizar, embora não a teorizar, o conceito do campo» (Ferro, 2015, p. 117), considerando nesta sua perspetiva a análise como a possibilidade da coconstrução de uma narrativa, a qual decorre do cruzamento de identificações projetivas das estruturas inconscientes em jogo, criando-se assim a transformação do sofrimento psíquico em sonho, em jogo ou em biografia. Esta transformação do sofrimento psíquico numa comunicação possibilita ao paciente ter acesso aos seus conteúdos mentais, encontrar-se consigo mesmo e alcançar a sua verdade, o «O» de Bion. «O nosso campo é o sofrimento mental de uma mente atormentada, para a qual certamente trazemos alívio e ajuda, e que nos acelera para o processo curativo.» A única ajuda que podemos oferecer àqueles que nos procuram é «inconsciente, inconsciente e inconsciente» (Ferro & Nicoli, 2017, p. 5).
Ferro preconiza assim a análise como um momento criativo e de brincadeira (no sentido de Winnicott), de ser autêntico e de viver livre num espaço transicional em que «há sempre a chance de estar mentalmente vivo e não permanecer paralisado por factos concretos da vida, nem que seja pelo mais trágico» (Ferro & Nicoli, 2017, p. 137).
Destaca o papel da rêverie neste modo de estar de escuta e acolhimento, neste clima de uma atenção-suspense, de limbo semiacordado, surgindo nos elementos da narrativa imagens, flashes visuais que abrem portas e iluminam a escuridão interior, indicando o que se está a passar no inconsciente. A partir daqui, espreita-se, adentra-se e resignifica-se: «Cada par analítico cria novas e inesperadas
narrativas, e é crucial que um dos vários diálogos que possam ser desenvolvidos providenciem o acesso ao desconhecido e às características inconscientes nossas e dos pacientes» (Ferro & Nicoli, 2017, p. 7).
Levanta-se agora a interrogação de cariz prático-clínico de como escutar as narrativas destes estados adolescentes da mente.
Haidée Faimberg, quando descreve a escuta analítica como «uma função realizada pelo analista durante a sessão de análise» (2005, p. 76), determina o inconsciente como o qualificador da escuta analítica. Desenvolve ainda o conceito de «escuta da escuta», definindo-o como: «A […] função do analista que permite atribuir um significado rectroativo à sua interpretação» (2005, p. 77). Trata-se de uma escuta enquanto processo de elaboração psíquica que ocorre no par analítico de elementos inconscientes, em que numa dialética em espiral de escuta da escuta da escuta se tenta compreender qual o impacto na díade do sentido retroativo da interpretação do analista que se seguiu à reinterpretação do paciente.
Nos seus estudos recentes, a autora clarifica a sua teoria e reitera que a função da escuta é sustentada pelos pressupostos teóricos básicos do analista (a relação dialética entre teoria e prática, o inconsciente e a sua escuta, e o setting), e termina com o que define como posição da escuta contratransferencial: «Sem teoria, não há escuta, e sem escuta não há modificação da teoria» (Faimberg, 2019, p. 452).
Em relação a este meu trabalho, penso que foram necessários uma experiência clínica com adolescentes e um conhecimento e interesse nas teorias psicanalíticas sobre a adolescência, para agilizar a minha disponibilidade interna para que estes fantasmas (dos estados adolescentes da mente) ecoassem no meu interior, para escutar e interpretar as narrativas dos estados adolescentes da mente durante a análise de pacientes adultos.
Como diz Fernanda Alexandre, esta escuta varia consoante os fantasmas inconscientes que revestem a qualidade transferencial, e a escuta do paciente que se segue à interpretação depende do estado mental do paciente, que «surge como uma necessidade vital de poder, por um lado, viver as diferentes qualidades dos objectos internos com que se identifica mas, por outro, também acalentar a esperança de “utilizar os objectos”» (Alexandre, 2014, p. 45).
Ou seja, o método da escuta da escuta é o que permite que na relação transferencial, no setting, possamos ser usados enquanto objetos, embora somente após nos estruturarmos como objetos sobreviventes dos ataques destrutivos do paciente. Somos seres pensantes, «atletas do assento» na modalidade específica da escuta. Este cordão umbilical, surdo ou inaudível, numa atenção flutuante sem memória, desejo ou compreensão, é o que nos mantém acordados e acesos na relação, numa atitude de uma imensa disponibilidade interior para escutar as narrativas coconstruídas na sessão de análise, sem preconceitos ou expectativas prévias.
Coloca-se de novo a questão da relação entre o processo de formação de símbolos, a construção da narrativa e o próprio processo adolescente. O paralelismo entre a formação de símbolos e a construção da narrativa é gritante; num primeiro tempo, quase idêntico. Parecem ser processos com o mesmo mecanismo de base, e, em termos de lógica, é como se se sobrepusessem por assentarem ambos no processo de construção de símbolos, na ressignificação de experiências emocionais mediadas por estruturas intermediárias (transicionais/setting analítico), atravessando barreiras e caesuras de forma que se chegue ao produto final, à narrativa e à integração da bissexualidade psíquica.
No entanto, enquanto no processo adolescente a sua construção simbólica é inconsciente, já a sua narrativa é mais pré-consciente/consciente. Na díade, a coconstrução da narrativa constitui uma mediação da vida psíquica realizada pela estrutura do pré-consciente, que através da rêverie, da figurabilidade das experiências emocionais em imagens, da escuta particular do analista, permite a transformação do vivido e não pensado numa linguagem palpável, acessível à construção de um discurso dotado de sentido. É da responsabilidade da estrutura do pré-consciente a transcrição deste processo adolescente inconsciente, desta realidade interna ainda indizível, para uma outra ressignificada, para a audição de uma narrativa dos estados adolescentes da mente dos pacientes adultos.
Dito de outro modo, o que acontece no processo adolescente, onde imperam as narrativas da identidade, do corpo e da autonomia, também pode ser observado aqui, no processo analítico de um adulto. Em determinados momentos do processo analítico, assiste-se na díade, na relação transferencial e sobretudo na contratransferência, a uma reverberação interna de uma agitação, de um desconforto, da sensação da ineficácia da interpretação, de esta não assentar e não modificar os conteúdos internos do paciente. Como se nestes momentos, que eu considero adolescentes da mente, o paciente não conseguisse integrar as interpretações dadas e reagisse a elas, ficando numa atitude pouco recetiva e elaborativa, agindo um discurso circular e repetitivo, reiterando o que o inquieta e não conseguindo sair dele. Esta atitude interna (e também externa) do paciente pode
deixar o analista por vezes desesperado, impaciente, e a colocar em causa a natureza do seu trabalho.
Coloca-se então a questão de se estar eventualmente perante um impasse, um bloqueio, uma reação terapêutica negativa, um ataque ao pensamento, ou mesmo uma incapacidade real do analista de perceber o que se está concretamente a passar com aquele paciente naquele momento da relação analítica. Distinguir estes movimentos não é evidente. Porém, com a ajuda da análise da contratransferência e da escuta da escuta (do paciente perante a interpretação do analista), pode considerar-se estar diante de um adulto cujo estado mental não é concordante com a idade real, mas que pertence a uma outra área mental (que também não é a da infância), e que precisa de ser elaborada. Aqui, a questão começa a clarificar-se e a ter outro eco na mente do analista.
Identificar estes estados adolescentes da mente na análise de adultos torna-se imprescindível. O analista, porque ciente das teorias psicanalíticas da adolescência e pela afinação da sua capacidade de escuta, atenta, disponível e paradoxalmente sem memória, desejo ou compreensão, consegue perceber que se trata de situações interiores relativas a este processo tão específico da adolescência. Entende que estes precisos momentos fazem parte do processo de crescimento e desenvolvimento, que, por uma razão ou outra, foram impossibilitados de serem vividos. Mas reemergem agora e precisam de ser entendidos, numa relação especular que reconstitua o narcisismo benigno para o sujeito se poder afirmar como é, com aquilo que é, que foi, e que imagina que gostaria de ser e de ter sido, de forma que ultrapasse este estado mental adolescente e entrar noutro mais concordante com a sua idade adulta.
O sujeito, ao sentir-se escutado, reconhecido e narcisado pelo objeto na sua individualidade e diferença, pode então usar o analista, a díade e o setting analítico como objetos da área da ilusão e da transicionalidade, para os interiorizar e conceber como objetos internos, para os habitar e construir: «a mind of one's own», como nos diz Waddell (2018).
Contudo, são situações exigentes do ponto de vista do tempo, da espera, da disponibilidade, da agilidade, da firmeza e da sobrevivência, para que as palavras lentamente impregnem a mente do paciente e o elevem a outro estado mental. Ou seja, o analista é tido como um objeto que recebe as angústias, as frustrações e os desejos do outro, acompanha estes movimentos e assume as suas variações, sem se deixar destruir ou querer retaliar. Institui-se como um objeto (sobrevivente) capaz de fornecer um alimento (teórico) e de ser representado como um alimento afetivo basilar, que depois pode ser moldado de acordo com as necessidades e prioridades emocionais do sujeito. Transforma o caldeirão pulsional adolescente (onde de facto impera a dispersão, oscilação, turbulência, agitação, mas também, integração, criatividade, inovação, mudança e transformação) em símbolos, em representações internas, em representações que deem conta das relações que o sujeito tem com os seu objetos internos libidinalmente catexizados, para que possa integrar a sua bissexualidade psíquica, com a consequente aquisição da identidade sexual definitiva e estável, ou seja, a sua subjetivação.
No entanto, como nada deste processo adolescente da mente se passa em águas do pacífico, mas antes em oceanos atlânticos impetuosos e ruidosos, ou índicos silenciosos, o analista tem também de suportar com paciência e espera este desassossego. Só assim pode sobreviver e constituir-se como um objeto sobrevivente, numa escuta que não é só passiva. O analista também faz parte desta dinâmica muito viva, sendo-lhe por vezes imposto contratransferencialmente acompanhar estes movimentos com energia, alternando entre uma posição passiva, de recetividade, espera e tolerância e outra ativa e reveladora. Por outras palavras, em determinados momentos, nos quais predomina a espiral hiperbólica da instabilidade e confusão dos estados adolescentes da mente, o analista vê-se pressionado a «agarrar» a situação, a ser compelido a dizer aquilo que está a sentir do que escuta do paciente, mas de uma forma enérgica e firme. Neste sentido, utiliza interpretações no aqui e no agora e também interpretações na transferência, para conseguir introduzir ordem no caos e possibilitar a transformação na mente do paciente, para um mundo mais ordeiro, e passível de ser pensado.
É como se a escuta destas narrativas implicasse a abertura para um outro vértice de interpretação analítica perante o adulto que se apresenta, o da existência de estados adolescentes da mente que imperam naqueles momentos precisos da análise, e que a vinheta clínica seguinte pretender ilustrar.
«Às vezes, parece que tenha 15 anos, mas não! Tenho quase 30. E quando acordo a perceber que tenho quase 30, sinto-me mais confiante. Talvez tenha que ver com o facto de estar em casa. Voltar para a escola também. Parece que estou em “pause”. E o vir aqui também amplia este sentimento de “pause”. […]
«Sair de casa dos meus pais também me obriga a mudar. Mas a mudança de que estou a falar tem que ver com uma coisa mais profunda, de uma confiança interior. Esqueço-me da minha bagagem do passado. E ela tem muitas coisas interessantes e positivas. E não interessa se estou a viver em casa
da avó, da mãe ou sozinho. O que seria errado era se eu estivesse sem fazer nada. E aquilo que sou em tudo se relaciona com o que passei e que vivi. Em pequeno, na primária, encenei todo um teatro do princípio ao fim; na escola, motivei uma manifestação que levou ao despedimento de professores que não prestavam. Na universidade, fui o único a levar trabalhos a congresso internacionais. Parece que desvalorizo os meus feitos, aquilo que alcancei. […]
«O sentimento de estar triste, de excitação e de confiança, sinto-os como pecaminosos. Domina uma culpa. A confiança é pecado porque deveria ser mais humilde, a excitação é pecado porque é pecado. E isto vem da minha educação católica. Se estiver triste, vale a pena, pois vou ser recompensado na morte. A confiança é o que dá origem à dissipação dos outros dois. E posso ter gozo com aquilo que vejo psíquica e fisicamente. Preciso de me sentir cheio de mim mesmo. Mas parece que não me consigo ouvir. Preciso de estar num palco onde todos me ouçam. E isto vem de uma falta de confiança. Gostava de me começar a “mancar”, que tenho valor e sou atraente. Pelo menos para mim. O que os outros me dizem, terá de ser supérfluo. Gostava de ouvir isso. Esta é a linha essencial de estar aqui. Se calhar, vai-me dizer que este momento é preciso. Mas se calhar não tenho tanto tempo. Parece que às vezes me distraio de mim, que não pego nos temas.»
(O que imagina que o leva a distrair-se de si?)
«É o não os querer ver. Como diz a música dos Godzilla, vou arrepender-me de ter seguido em frente. Em termos profissionais, estou onde gostaria de estar. Estou mesmo fixe. E parece que me esqueço. Parece que tenho de segurar isto porque se desvanece. São milissegundos que se evaporam. Gostava de ser Alberto Caeiro, como na Mensagem, como Fernando Pessoa, cantar sem razão. O Mad Men diz: “eu vejo-me a mim na minha vida e não consigo entrar nela”. É uma personagem que ainda não está completa!
«Fui a uma prostituta. O meu corpo estava a precisar e ela também gostou. Saí todo zen. A partir daí, fui ter com a Amélia e senti-me bem. Ser quem sou. Normalmente, sou quem não sou. Saí daqui com a noção de estar “todo juntinho”. Ser dono de mim mesmo, é esse o caminho.»
Esta é a narrativa de um adulto jovem que me procura na sequência de uma grande angústia decorrente da perturbação na relação amorosa e que se atravessa na questão da busca da identidade, que passa pelo corpo, pela sensação do corpo não lhe pertencer, de não estar «todo juntinho». O que escuto na minha contratransferência é que estar na relação analítica é estar em «pause», o equivalente ao estado sexual adolescente da mente de estar adormecido. Este entorpecimento como que se contrapõe a todo este discurso hiperbólico de andar para trás e para a frente, e que relembra a descrição dos estados adolescentes de «pout-pourri» da mente (Meltzer), estados confusionais que decorrem da utilização dos movimentos de clivagem, projeção e identificação. Talvez aqui, pela escuta da minha escuta, entenda que a proximidade com a analista desencadeie um fantasma incestuoso e dê azo a um reviver da dramaturgia edipiana. Este fantasma, em conjunto com esta turbulência de não saber acerca de si, da questão da sua identidade, constitui-se como uma aflição interior que não encontra expressão a não ser pela sua clivagem e projeção neste corpo, que se constitui, aqui, como um verdadeiro objeto interno.
A partir desta escuta da escuta e da análise da minha contratransferência, imagino um Édipo (agora adolescente) a reativar Narciso (também ele adolescente), e as questões do narcisismo a aflorar de novo, mas neste corpo já adulto de Afonso. A necessidade de se reconfirmar é imperiosa, refugiando-se no seu espelho, de forma que se reconstrua tudo de novo, a sua imagem especular através daquele que o sustenta, do que o sustém em «pause». Simultaneamente, o seu agir corporal, sexual, no qual a atividade masturbatória intrínseca (a este agir) passa por todo este discurso muito inflamado, como que corresponde a uma necessidade de se identificar a um novo objeto inteiro sexualizado, criado a partir das suas projeções e idealizações. Ou seja, há neste homem toda uma revisitação ao corpo relacionada com a reorganização corporal do processo adolescente, própria dos estados adolescentes da mente.
Nas sessões, Afonso oscila entre estados mais morosos e outros de maior intensidade, mas sempre com predomínio da sua narração, onde pouco espaço tenho para me exprimir, a não ser pelo pensamento. A sua voz, bastante audível, acompanha-se de muitos gestos, expressões e interjeições, enchendo o espaço todo com a sua presença, ao mesmo tempo que parece querer envolver-nos aos dois num só e aglutinar-se/me em mim/si. Recusa todas as interpretações na transferência, dizendo achar-me fixe, mas estar pouco interessado nas minhas considerações sobre a nossa relação, que as suas questões são com ele e que está comigo, na terapia, na análise, só para conversar consigo mesmo. No entanto, muitas das vezes acaba a sessão com o comentário: «Hoje não disse nada!»
Escuto este seu comentário como a representação latente da ambivalência típica dos estados adolescentes da mente, da instabilidade e incerteza em relação a si e também em relação ao objeto, e ainda da necessidade de ser independente em simultâneo com o depender de, do desejo de se separar em simultâneo com o sentir-se ainda dependente dos objetos parentais. Não sinto aqui, nas suas aparentes recusas às interpretações na
transferência, uma anulação da minha presença ou um ataque ao meu pensamento. De facto, sinto-me até bastante animada, impelida a estar ativamente passiva. Este fenómeno último, escuto-o como a necessidade de Afonso poder falar sem ter de se preocupar com o outro, mas apenas poder falar como «um estar», poder dizer sem ter de fazer, de saborear um tempo em que estou ali como um cordão umbilical auditivo fornecedor de um trampolim de espaço e tempo de relação interna e externa para amadurecer, para crescer.
Se, por um lado, esta narrativa evoca em mim a necessidade de Afonso reviver e superar as questões precoces da relação primária, de se sentir imerso no objeto, de precisar de mim/analista/objeto/m/ /other só para si numa relação de exclusividade onde é dono e senhor da situação (no sentido de Winnicott), numa fase de dependência máxima e de prepotência absoluta, «his majesty the baby», por outro, sinto que este não é o movimento principal neste momento, mas, sim, uma dinâmica adolescente da mente.
Ou seja, quando a prepotência do discurso de Afonso me reenvia para a frase de Oscar Wilde, quando diz qualquer coisa parecida com: já não somos suficientemente novos para saber acerca de tudo, entendo tratar-se então de uma questão adolescente da mente. Quem sabe tudo são os adolescentes e os jovens! A ignorância, o tolerar do não saber, estes só chegam com a idade, com a maturidade, quando já somos suficientemente velhos para não sabermos tudo. Assim, o que escuto na contratransferência não é tanto uma questão de reparação com o objeto primário, mas de um adolescente que precisa desta relação de exclusividade para instaurar o seu «phallus». Dito de outro modo, de um sujeito que precisa de reconstituir e confirmar a sua imagem falo-narcísica, sedimentar a ideia da sua masculinidade, a imagem de si inteira, coesa e sexuada, movimento característico do processo adolescente, correspondendo, por conseguinte, esta narrativa aos estados adolescentes da mente.
Narrativa de um sonho a seguir à morte do seu pai:
«Estava num quarto, num dormitório. Eu era o Harry Potter e tinha comigo uma bengala. Na ponta, uma cabeça de serpente de metal. Eu peguei na bengala e da cabeça da serpente saíram novas serpentes. Não tenho medo, apenas apreensão. Entretanto, elas começam a invadir-me os dedos e, de repente, sai uma serpente branca. Começo a falar com esta serpente branca, quando aparece uma figura de um homem velho e que me mete muito medo. Mas ele só me queria ensinar a falar com as serpentes, pois a serpente branca não me ouvia. Este homem queria ensinar-me a ter o poder de falar com elas, só que a cara dele transformava-se num monstro a falar muito alto. Há um momento em que entra uma elfa muito bonita e que vê o anel do poder. E quando ela põe o anel do poder na mão, também se transforma e vira um demónio. É como o homem. Quando ele começa a falar, desata a gritar e transforma-se em monstro. E eu fiquei com a boca seca, mas sem serpentes.
«É que da outra vez tive um sonho em que acordei a vomitar ratos. Eu acordei no sonho no parque de campismo e fiquei contente, mas desatei a vomitar ratos. A seguir, acordei mesmo e com a sensação de ter pêlos na boca. Lembro-me dos Incas em que os sonhos são mundo, o céu corresponde ao condor, a terra à puma e a serpente ao mundo subterrâneo e ao que está debaixo da terra, ao seu interior.»
(Ao seu mundo interno?)
«Será que tenho de me proteger do meu mundo interior, do meu monstro?»
(Proteger-se do monstro morte acordado pela morte do pai…)
«É que na realidade ele só me queria explicar qualquer coisa sobre as serpentes. Mas de repente, o homem transforma-se numa coisa feia…»
A escuta deste denso e complexo sonho situa-se no meu entender também em torno das questões adolescentes da reativação edipiana, que lhe parecem estranhas e inquietantes.
Se num primeiro tempo é ilustrado o desejo edipiano numa dinâmica triangular entre os objetos paterno/masculino, materno/feminino e adolescentes oriundos do encontro analítico, desta relação de proximidade e exclusividade que se encontra agora a viver na transferência no setting preciso da análise, num segundo tempo segue-se o medo da castração, da impossibilidade de chegar ao objeto materno sedutor, mas também, terrífico.
No entanto, a morte deste pai frágil por uma doença que o consumiu ativa igualmente o monstro, o fantasma adolescente de poder matar o pai, ao invés de ser morto por ele. Sente-se aflito e angustiado, pois o parricídio acorda a culpa e o remorso. No entanto, também torna possível a eminência do seu «phallus», instância que organiza a integração da bissexualidade psíquica, pois representa a combinação de ambos os sexos, «onde ambos se têm de entender na impossibilidade de se constituírem como o objeto do desejo da mãe» (Perelberg, 2018, p. 25).
Tempos mais tarde, conta que está bem, que a análise foi muito importante para se compreender e aceitar, que os três anos que passámos juntos o ajudaram a conhecer-se, a entender-se e a superar grande parte das angústias que o inibiam e impediam de progredir. No entanto, diz que ainda lhe falta trabalhar a sua imagem corporal e estar bem, sentir-se bem com o seu corpo. Estar em análise durante a doença e a morte do pai foi fundamental, pois ajudou-o a solidificar a sua identidade, a perceber a sua origem e a sua cultura familiar. Sentir-se fisicamente igual ao seu pai,
«da ponta dos cabelos até ao dedo mindinho dos pés», foi uma revelação importantíssima! Permitiu-lhe no discurso manifesto sentir-se reconhecido verdadeiramente como filho do seu pai, e no discurso latente identificar-se a ele, recuperar a imagem de si e solidificar a sua homo-objetalidade, a ideia de si enquanto homem, para progredir no seu caminho mais seguro e confiante na procura de um objeto de amor heterossexual e complementar.
Os estados adolescentes da mente de Afonso encontram-se ainda em concordância com o conteúdo manifesto desta narrativa, que escuto como um mandato de autonomia característico do processo adolescente: o tempo que pede é o tempo interno que sente ser preciso para poder viver despreocupadamente este momento precioso da sua vida. Ainda há trabalho para fazer, ainda há questões para elaborar. Agora, é a altura de viver a sua vida com a liberdade que os estados adolescentes da mente requerem, sobretudo quando sente que tem um objeto contentor ao qual pode recorrer.
Na minha opinião, as narrativas de Afonso ilustram como nesta análise, e pelas vicissitudes da sua própria relação terapêutica, se criou um espaço transicional e uma matriz de significações que possibilitaram a revisitação à relação com o objeto primário, à necessidade de experimentar a sua imersão nele sem aí se afundar (tal como outrora). A vivência destas experiências emocionais com um objeto sobrevivente às suas oscilações e variações conduziu, por sua vez, à reorganização da identidade corporal própria da adolescência, reconstruindo assim Afonso a sua subjetivação, a ideia de si, encerrando, e para já, o capítulo edipiano dos estados adolescentes da mente deste homem de 30 anos.
Em síntese, a continuação do trabalho analítico, da escuta da escuta dos inconscientes da díade que emergem nestas narrativas, permitiu entender a existência destes estados adolescentes da mente e perceber que eles tinham de ser revisitados durante a análise para poderem ser vividos, experimentados e superados. Sedimentar a imagem de si passou, neste caso de Afonso, pela revisitação do seu corpo e da sua integração na mente, mediada pela relação analítica entre os dois estabelecida, e tornou-se essencial para a reconstrução da sua identidade masculina, etapa do processo adolescente.
A narrativa descrita neste trabalho confirma a existência de estados adolescentes da mente no processo analítico de pacientes adultos. No entanto, estes apresentam-se em diferentes níveis de profundidade estrutural e dinâmica, sendo uns mais conscientes e pré-conscientes, e outros inconscientes.
Esquematicamente, pode-se pensar que os estados adolescentes da mente se manifestam sob as seguintes formas: questão da dependência/independência e aquisição da autonomia, reorganização da identidade corporal e reconstrução da identidade masculina adulta pela revisitação do corpo.
Embora com variantes, as narrativas exemplificam como através da relação analítica se reviveu a questão edipiana, nas suas vertentes (inquietantes) psicológica e corporal. A veemente procura da identidade própria na relação objetal parece-me ser aqui a questão central, dando conta da necessidade de a viver na análise para sair do seu universo narcísico.
Pode pensar-se que o reinvestimento e reobjetalização nos novos objetos decorre da dificuldade de elaboração dos trabalhos de luto do próprio processo adolescente. Na adolescência, o comprometimento da deslocação da idealização (e da transformação do eu ideal em ideal do eu) dos objetos primários para outras figuras leva a que se mantenha a ligação a este objeto inicial, não o substituindo por outros (objetos) a não ser por eles mesmos, pela relação com o seu próprio corpo. A acrescentar que o objeto paterno, por vezes, também não se mostra como indicador de uma diferença, de um terceiro que possa ajudar a esta inquietação. Eventualmente, até surge como um duplo do objeto materno, não possibilitando a passagem do «ser» para o «ser com», no sentido de Winnicott (1971). A suposta aquisição, neste período de desenvolvimento, da independência emocional dos pais pela desidealização das suas imagos parentais com uma apreensão mais realística dos mesmos (com todos os seus defeitos e qualidades) encontra-se assim comprometida, deixando fragilidades narcísicas na estruturação e enriquecimento da personalidade adolescente, desdobrando-se os conflitos emocionais para as novas e amorosas relações extrafamiliares.
Clarificando teoricamente as narrativas expostas, na transferência assistiu-se ao reviver de uma necessidade que não foi satisfeita pelo objeto inicial, a de não se poder identificar a um bom objeto interno inteiro, capaz, no sentido de Bion, de conter as suas comunicações, de articular o conflito entre o amor e o ódio e também entre o conhecimento, a capacidade para se conhecer e compreender. Sabemos que para o objeto sobrevivente se estabelecer, é imprescindível que as tarefas emocionais da adolescência estejam completas, que a batalha entre os vínculos L, H e K; -L, -H e -K (Bion, 1963/2014) termine. Ainda, que é no pico da adolescência, no desdobramento da primeira alimentação teórica (portanto, das experiências emocionais ressignificadas, raiz de todo o pensamento simbólico, Abram, 2012; Winnicott, 1988), o lugar onde este potencial
de ressignificação é desenvolvido, permitindo a passagem dos objetos não sobreviventes aos objetos sobreviventes. Para que isto aconteça, é necessário que exista no interior da mãe/analista(m/other) o pai enquanto objeto total, enquanto força vital e integradora no desenvolvimento do paciente/bébe, o qual é inscrito na mente do bebé como o pai integrado (na conceção de Abram, 2015) que promove o desenvolvimento dos objetos sobreviventes, construindo-se assim o terceiro e resolvendo-se a bissexualidade psíquica.
Todavia, não só com este paciente, a minha experiência clínica mostra-me que para os pacientes me poderem constituir enquanto objeto sobrevivente, tive, e tenho, de ser capaz de acompanhar o movimento presente, pela afinação da minha atitude técnica. Esta, por sua vez, varia consoante o meu método, o da escuta da minha contratransferência (o método analítico por excelência), e que me permite reconhecer estes estados adolescentes da mente. Se por vezes permaneço numa atitude predominantemente recetiva e passiva do lá e do então, para deixar que o tempo e a relação permitam o adentrar nestes estados mentais e a sua materialização, por outras (tal como já referido) sou compelida a adotar uma atitude mais ativa de interpretar o material inconsciente clivado, projetado e por vezes agido no aqui e no agora da sessão, de forma que se introduza ordem na desordem, e pensamento na confusão. A capacidade de me usar então enquanto objeto, porque eu, objeto analítico, na minha firmeza, na minha sobrevivência psíquica, não retaliei os seus ataques destrutivos, permitiu aos pacientes interiorizar esta experiência e identificarem-se a esta minha atitude, desenvolvendo os seus objetos sobreviventes psíquicos. Simultaneamente, a continuação do trabalho analítico possibilitou a coconstrução de narrativas que ressignificaram e ampliaram as experiências vividas, pelo desdobramento continuado no tempo e no espaço desta alimentação teórica, com identificação à minha imago paterna integrada e o alcance da terceidade. Com a entrada deste terceiro efetivo, foi-se materializando a bissexualidade psíquica e efetuando os lutos, começando os pacientes a libertar-se do enclausuramento destes estados adolescentes da mente, entrando noutros mais adultos.
Assim, a elaboração destes estados adolescentes da mente torna-se (à semelhança da revisitação analítica à infância) essencial no percurso de qualquer análise.
A patologia narcísica e borderline invade os nossos consultórios e as nossas mentes, o que acredito relacionar-se com a velocidade vertiginosa do mundo atual, andarmos à velocidade da luz, num funambulismo tão deslumbrante como aterrorizador, com a sensação de termos de nos reatualizar a todo o instante, de o chão nos fugir e de não termos tempo para nos agarrar à nossa tão preciosa escuta. As questões dos estados adolescentes da mente são por isso atualmente da maior importância, e interessa reconhecê-las e entendê-las. Não nos podemos deixar confundir por esta vertigem, não nos devemos deixar seduzir pela narrativa de cariz adolescente sem a interpretar quando temos diante de nós um adulto, mas que pode estar preso nestes estados adolescentes da mente, projetados no corpo, no espaço, no tempo.
O impedimento real ou imaginário de viver em plenitude estes estados deixa marcas profundas, conduzindo a realidades frágeis, a distúrbios e patologias graves repletos de angústias e estranhezas que impedem o verdadeiro crescimento mental, de chegar à verdade interna de cada um, à liberdade de se poder ser quem se é, objetivo último do processo analítico. Penso ainda que a estagnação nestes estados adolescentes da mente pode corresponder a uma fixação emocional, a uma impossibilidade de os pacientes irem mais além no seu desenvolvimento, ocultando e defendendo-se de uma perturbação mais precoce. No entanto, é a sua revivência e interpretação no setting que abre espaço à emergência destes conflitos mais antigos, para poder chegar à sua essência e libertação.
Mas tal como nos diz Winnicott, é essencial sabermos esperar pelo tempo, autorizar a passagem deste tempo inconstante, confuso e turbulento, mas também criativo e inovador, e ativar a (capacidade de) tolerância e paciência. Deste modo, eu/analista, pela minha capacidade de sobreviver à destruição do paciente, pude ser usada para ligar, unir, nomear, simbolizar e, finalmente, integrar estes estados adolescentes da mente, possibilitando ao paciente a sua subjetivação e consequente fortificação da sua identidade. Nesta rota da integração, de chegar a «O», à verdade psíquica, implode a vontade de saber mais acerca de mim, «Curiouser and curiouser», como exclamou Alice!
ABSTRACT
The theme of the existence of an adolescent narrative during the course of an analysis arises from the author's theoretical and clinical interest in the process of adolescence. The author notes that, at certain moments in the analysis of adults, there is a dispersion of the patient's sense of identity, resulting in confrontation and opposition within the analytic relationship. There may even be a certain confusion regarding the roles to be played by each person, a dynamic which requires refocusing of the analyst's posture. Reflecting on these movements, on the dynamic concept of the adolescent process and on the qualities required of the container object throughout the process, the author has thought about the hypothesis of the existence of adolescent states of mind in any analysis of adult patients, requiring from the analyst a specific clinical attitude. She operationalizes thishypothesis based on Astor and Waddell's ideas on adolescent states of mind as a metapsychology of adolescence, and on the psychoanalytic conceptions of the adolescent process, internal objects, Winnicott's theories, Field theory and analytic listening theory. Finally, a clinical vignette is presented for demonstration and reflection.
KEYWORDS: adolescent states of mind, adolescent process, adult patients, adolescent narrative, listening to listening.