Nosso objetivo foi investigar a possibilidade de uma noção de crença, para lá da religiosidade, por meio de um diálogo entre Sigmund Freud e Oskar Pfister, através de uma pesquisa teórica. A partir de algumas obras dos autores, discutimos sobre uma noção de crença que não se restringisse à religiosidade, sem romper com a fundamentação psíquica estabelecida por Freud. Concluímos que uma noção geral de crença atenderia a realização de um desejo inconsciente, o que a tornaria também uma ilusão, rompendo necessariamente em algum nível com a realidade. Desse modo, a crença seria um mecanismo inconsciente, podendo estar além daquilo que conscientemente declaramos crer ou descrer, o que chamamos de crença por trás da crença.
A crença tem sido discutida no contexto da Psicologia, onde, habitando em meio a invariáveis críticas e controvérsias, autores têm abordado esse tema por se tratar de uma dimensão subjetiva muito presente em nossas vidas (Albuquerque, 2017; Ceccarelli & Franco, 2014; Clifford, 1877/2010; Freud & Meng, 1963/2009; James, 1897/1912; 1897/2001; Maciel, Rocha & Sá, 2008; Novinsky, 2013; Pfister, 1928/2003; Veliq, 2017; Wondracek, 2009).
Um dos precursores na busca por uma compreensão da crença para lá da religiosidade, no campo da Psicologia, foi William James (1897/1912), tecendo de forma reflexiva uma defesa do direito de crer, mesmo em meio ao contexto positivista de sua época. James (1897/2001) traçou o embate entre a crença religiosa e a ciência, mas sua luta era em defesa do profundo respeito e do tratamento sensível na discussão desse tema. Sua discussão sobre a crença religiosa e a ciência parecia antever o que foram os diversos diálogos entre Sigmund Freud e Oskar Pfister . Ambos tinham posicionamentos opostos, discutiam energicamente, mas o respeito e a sensibilidade prevaleciam e os levavam a uma farta produção de conhecimento.
Pfister era pastor religioso, psicólogo, educador e tornou-se «um dos mais curiosos e instigantes personagens» (Gomez, 2000, p. 35) no campo psicanalítico. Ele teve a oportunidade de conhecer Freud através de Carl Gustav Jung , mas seu interesse pela psicanálise e seu criador já antecediam esse primeiro contato pessoal (Freud & Meng, 1963/2009). Freud teve papel decisivo na trajetória psicanalítica de Pfister, pois o acolheu aberta e afetuosamente, o que culminou em uma amizade íntima e constante por três décadas (Freud & Meng, 1963/2009).
O presente artigo resulta da dissertação de Mestrado «Crença e Psicanálise: um diálogo entre Sigmund Freud e Oskar Pfister», defendida pela primeira autora e orientada pelo segundo autor, no Programa de Pós-graduação em Psicologia, da Universidade Estadual de Maringá, Brasil.
Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia — Linha de pesquisa: Psicanálise e Civilização — da Universidade Estadual de Maringá, Brasil. E-mail:
Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, Professor e Pesquisador no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, Brasil. E-mail:
Essa relação nos chama atenção, pois durante toda a sua vida Freud enfatizou seu posicionamento ateísta em relação à crença religiosa, construindo críticas e desconstruções sobre o tema. Mas é importante percebermos que Freud nunca ignorou a crença religiosa enquanto importante fenômeno pessoal, social e cultural, estando frequentemente presente em seus casos clínicos; e, por isso, esse assunto perpassa por diversas de suas obras. Entretanto, embora amigo de um crente religioso, Freud discordou até o fim de sua vida quanto a veracidade da crença religiosa, mas essa divergência não fez com que seu laço afetivo com Pfister se rompesse ou fosse enfraquecido.
Embora Freud muito tenha produzido sobre a crença religiosa no decorrer de suas obras, ele não se debruçou sobre uma perspectiva de crença para lá da esfera religiosa. Esta parece ser uma lacuna na investigação freudiana dos fenômenos psíquicos, uma vez que a crença pode ser direcionada a outras áreas e dimensões, além da religiosa. Portanto, por essa perspectiva, a noção de crença ainda nos parece pouco explorada. Desse modo, nosso objetivo foi investigar a possibilidade de uma noção de crença, para lá da religiosidade, por meio de um diálogo entre Freud e Pfister.
Partimos das proposições da psicanálise freudiana sobre a crença religiosa para irmos além dela, buscando algo mais geral. Selecionamos três obras como nossos objetos de estudo. Nos detivemos, primeiramente, na leitura das correspondências entre Freud e Pfister, na obra Cartas entre Freud & Pfister : Um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã (1963/2009). Depois, por ordem cronológica, as obras O futuro de uma ilusão (Freud, 1927/2018) e «A ilusão de um futuro» (Pfister, 1928/2003). Nosso contato com tais obras se fez pelo exercício de sucessivas leituras de modo que, progressivamente, se destacassem elementos que possibilitassem a identificação das caraterísticas inerentes à crença religiosa apresentadas nos posicionamentos dos autores, para, depois, pensar a partir disso na possibilidade de uma noção de crença em sentido mais amplo.
A relação entre Sigmund Freud e Oskar Pfister foi de grande riqueza teórica e pessoal para ambos, como faziam questão de enfatizar em suas cartas constantes e recíprocas, trocadas durante as décadas de amizade (Meng, 1963/2009). Foi buscando compreender a alma humana, objeto de seu trabalho pastoral, que Pfister teve contato com a psicanálise e, posteriormente, por intermédio de Jung, passou a comunicar-se diretamente com o Freud (Meng, 1963/2009).
O que parecia um encontro entre opostos, tornou-se numa amizade afetuosa e pacífica, que se perpetuou até o fim da vida de Freud. Segundo Wondracek (2009), Freud e Pfister partilhavam de uma caraterística, que excedia as suas diferenças: a «busca pela compreensão do homem» (p. 7). Ambos tinham sede pelo conhecimento da alma humana e o desejo de oferecer aos seus pacientes e fiéis aquilo que pudesse libertá-los de seus males. Essa busca recíproca fez com que a psicanálise se tornasse no elo entre essas duas personalidades, e tanto um ateu convicto quanto um religioso por ofício contribuíam com o universo psicanalítico.
Na carta de 9 de fevereiro de 1909, Freud se dirigiu a Pfister alegando que:
A psicanálise em si não é religiosa nem antirreligiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico poderão servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores. Estou muito admirado de que eu mesmo não tenha me lembrado de quão grande auxílio o método psicanalítico pode fornecer à cura de almas, porém isto deve ter acontecido porque um mau herege como eu está distante dessa esfera de ideias (Freud & Meng, 1963/2009, p. 25).
Meng (1963/2009) destaca caraterísticas que possibilitaram a fecundidade da relação entre Freud e Pfister, a qual não foi somente flores, pois ambos discordaram até a última correspondência a respeito da veracidade e da credibilidade da religião. Entretanto, segundo Meng, «pelo temperamento, pela honestidade e pela descompromissada busca da verdade de ambos, digladiavam-se muitas vezes com espadas afiadas, mas do mesmo modo mostravam autêntica tolerância e empatia recíproca» (1963/2009, p. 16).
A boa relação entre Freud e Pfister perpetuou-se mesmo em meio aos conflitos individuais e interpessoais que ambos passaram, e o primeiro se satisfazia no fato de poder manter a honestidade e a amizade, inclusive quando suas opiniões divergiam. Em 20 de março de 1921, Freud expressa isso: «Realmente tem de ser possível, entre nós, que possamos dizer verdades, isto é, rudezas, e que assim permaneçamos de bem um com o outro, como nesse caso» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 107). Em diversos momentos, Freud mostra o quanto Pfister se tornou parte de sua vida, como quando diz que o pastor já era de longa data considerado parte de sua família (Freud & Meng, 1963/2009). Ainda, em 3 de novembro desse mesmo ano, o pai da psicanálise comenta sobre seu amigo pastor: «sempre gosto de ler suas cartas; tudo nelas é vida, calor, êxito» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 109).
Na carta de 16 de outubro de 1927, Freud (Freud & Meng, 1963/2009) anuncia a Pfister o lançamento de sua obra O futuro de uma ilusão (1927/2018), referente ao seu posicionamento
sobre a crença religiosa, afirmando que, por algum tempo, evitava essa publicação temendo a reação do amigo religioso, ainda que esse assunto nunca tivesse sido um tabu entre ambos. Mas a declaração de Freud não intimidou seu amigo pastor; pelo contrário, parece tê-lo incitado a também publicar o seu posicionamento sobre a crença religiosa. Pouco tempo depois, em 21 de outubro de 1927, sua resposta foi: «O senhor sempre foi paciente comigo, e eu não seria com seu ateísmo? Certamente o senhor também não vai levar a mal se eu oportunamente expressar com franqueza minha posição divergente» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 143). Sem nenhuma surpresa quanto a reação de Pfister ao assunto, Freud escreve, em sua carta de 22 de outubro de 1927: «Da sua magnanimidade eu não esperava outra resposta à minha “declaração de guerra”» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 146).
A partir da leitura que Pfister fez do ensaio freudiano sobre a crença religiosa, na carta de 24 de novembro de 1927, ele considerava que Freud tinha o pleno direito de se posicionar em relação a forma com que via o homem e o mundo, mas parecia temer que tal posicionamento, sendo o criador da psicanálise, extrapolasse sua esfera pessoal e se referenciasse diretamente a teoria por ele concebida. Caso isso acontecesse, a autonomia que lhe fora dada para praticar a análise, sem renunciar a sua crença religiosa, seria requerida (Freud & Meng, 1963/2009).
Pfister escreve a Freud sobre não haver a possibilidade de existir uma experiência pura, inclusive na ciência, o que torna tudo que podemos conhecer como uma «mistura de ilusão e verdade» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 148). Expõe ainda a distinção que faz em relação à ciência e à crença (ou descrença) de Freud em relação a vida: «Eu considero uma sorte que o senhor tenha tido de se privar de tanto para depois criar algo tão grandioso na sua ciência (sua crença de vida — e descrença — não têm nada que ver com ela)» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 151). Essa diferenciação parece soar como um apontamento inovador, no sentido de ampliar a concepção de crença para lá da religiosidade, pois embora Freud tenha afirmado com todas as letras não acreditar em nenhuma religião, ainda assim Pfister assinala que ele possuía algo que extrapolava a teoria psicanalítica, o que chamou de «sua crença de vida» (p. 151).
Na perspectiva do pastor, a discussão sobre crença religiosa parece ir muito além do crer ou não crer em uma religião. Isso porque ele ressaltou caraterísticas pessoais além do que poderia ecoar do ateísmo ou da fé de ambos, trazendo à tona o que os aproximava, embora por denominação na esfera da crença fossem considerados extremos opostos (Freud & Meng, 1963/2009). O que tem de peculiar é que tais distinções são esclarecidas e discutidas por ambos e não se tornam barreiras para seu crescente relacionamento. Pelo contrário, a aceitação de Freud do pastor parece que o levou a abraçar a psicanálise com força suficiente para torná-lo também um psicanalista; e parece que a presença de Pfister na vida de Freud nos revela a existência de uma esfera psíquica presente nos seres humanos que os fez, pessoalmente, grandes amigos.
Em sua obra O futuro de uma ilusão, Freud (1927/2018) procura entender o surgimento da cultura e sua configuração, enquanto um fator regulador dos impulsos que constituem a psique. Para o autor, é em meio a essa necessidade de regulação que a crença em uma entidade sobrenatural e a religião nascem, operando como um fenômeno criado pelo homem para lidar com o indomável e, de certa forma, com o trágico curso natural que a vida toma, tendo em vista as frustrações, a morte e a força maior da natureza, ao mesmo tempo que também opera como uma forma de controlar e dar sentido às relações interpessoais.
A tese freudiana é de que todo indivíduo está imbuído de impulsos, que são parte da sua constituição, e que, dessa forma, a cultura se torna opressiva por tentar regular estes impulsos. Com isso, Freud pontua que o foco da cultura deixou de estar majoritariamente relacionado ao domínio da natureza e passou a se centralizar no homem, em suas relações e em sua vida psíquica. Assim, a cultura adota um papel proibitivo que tende a gerar frustrações nos indivíduos, por privar a realização de seus impulsos, proibições estas que se iniciaram a fim de afastar o homem de seu instinto animal. De forma mais específica, as proibições inferidas se contrapunham aos desejos primitivos de incesto, canibalismo e de matar outro indivíduo (Freud, 1927/2018).
Entretanto, mesmo diante da possibilidade hipotética de uma sociedade com liberdade absoluta para que seus membros não tenham nenhuma provação em satisfazer os seus impulsos, Freud (1927/2018) nos mostra que, de fato, a cultura ainda é a forma mais viável e mais vantajosa de se relacionar com o outro e de viver em sociedade. Isto se deve ao fato de que, em sua concepção, se um sujeito age com liberdade completa, podendo matar a quem quiser, ele também coloca qualquer outro indivíduo no mesmo direito, e isso põe a humanidade em risco. Com tal cenário, Freud (1927/2018) expõe a essencialidade e a preferência pela manutenção da cultura, onde as regras são criadas para a convivência em grupo, mesmo existindo resistência. Contudo, ele aponta para um fator como o mais cruel e inexplicável, se referindo à natureza.
Como a cultura protege o homem contra as ameaças que a natureza produz? Ou melhor, como
a cultura explica a fúria da natureza? Certamente que não por meio dos homens, os quais podem ser controlados, mas, sim, por entidades muito mais fortes e superiores, que se assemelham com a figura paterna, forte e autoritária (Freud, 1927/2018). Estas entidades, por sua vez, são transformadas em deuses que desempenham não somente o papel de proteger os indivíduos contra estas forças superiores da natureza, mas de dar entendimento ao homem sobre a crueldade da vida e da morte e, por fim, recompensar todo o sofrimento e a injustiça que a vida proporciona aos sujeitos (Freud, 1927/2018).
Nesse processo, Freud (1927/2018) chama de unificação aquilo que foi feito por uma cultura específica e que corresponde à união de diversos deuses em apenas um Deus, facilitando a visão paterna e o estabelecimento de uma relação infantil, que nos coloca na posição de filhos amados. O autor relaciona essa busca pela figura paterna com a impotência humana, que defende contra o desamparo e leva o ser humano a criar esta entidade poderosa para ampará-lo, protegê-lo e dar sentido às coisas que a ciência ainda não conseguiu explicar, tendo, dessa forma, a criação da religião.
Freud (1927/2018) chama atenção para a origem psíquica das crenças religiosas, que não está em experiências ou racionalizações, mas na ilusão. Em suas palavras, as ideias religiosas «são ilusões, são realizações dos desejos mais antigos, mais fortes e mais prementes da humanidade, e o segredo de sua força está na força desses desejos» (p. 85). Segundo o autor, esses desejos estão enraizados no desamparo infantil que permanece para lá da infância, criando a constante necessidade de proteção amorosa, que é, então, satisfeita pela imagem paterna, e representada, na religião, por Deus, um pai ainda mais poderoso. Freud mostra a dimensão daquilo que a crença religiosa sacia quanto aos desejos da humanidade:
Através da ação bondosa da Providência divina, o medo dos perigos da vida é atenuado; a instituição de uma ordem moral universal assegura o cumprimento da exigência de justiça que com tanta frequência deixou de ser cumprida na cultura humana; o prolongamento da existência terrena através de uma vida futura prepara o quadro espacial e temporal em que essas realizações de desejo devem se consumar. As respostas de questões enigmáticas para a curiosidade humana, como as da origem do mundo e da relação entre o físico e o psíquico, são elaborados sob os pressupostos desse sistema; para a psique individual, significa um imenso alívio que os conflitos da infância que se originam do complexo paterno, nunca inteiramente superados, lhe sejam tomados e levados a uma solução aceita por todos (Freud, 1927/2018, pp. 85–86).
Toda essa gama de fatores é considerada ilusão pelo autor, uma vez que são ideias que surgem do desejo humano. Ainda que tais ideias em alguma medida possam ser possíveis e realizáveis, por serem fruto do desejo humano, são consideradas ilusões. Isto é, «chamamos uma crença de ilusão quando se destaca em sua motivação o cumprimento do desejo, ao mesmo tempo em que não levamos em conta seu vínculo com a realidade» (Freud, 1927/2018, p. 88). Com isso, o autor ressalta que os conteúdos religiosos são distantes daquilo que já se pode conhecer sobre a realidade, tendo caráter contraditório com a mesma. Além disso, estes conteúdos são também categóricos, diferentemente da ciência, que, na concepção freudiana, é o único meio que poderia nos levar a conhecer a realidade do mundo.
Antecipando o questionamento do porquê, então, não crer na religião se a mesma apresenta argumentos tão favoráveis aos desejos humanos, Freud (1927/2018) considera que: «Da mesma forma que ninguém pode ser forçado a crer, ninguém pode ser forçado a não crer» (pp. 89–90). Ou seja, não é possível forçar a razão a favor da crença, ainda que ela seja racionalmente conveniente ao desejo humano, assim como não se pode forçar a descrença, uma vez que a fé está ancorada em fortes desejos que extrapolam a consciência. Porém, o autor critica o homem racional que insiste em afirmar uma crença religiosa, pois este estaria negando seu intelecto ao ser conivente com a pobreza dos argumentos religiosos.
Freud (1927/2018) vai além, por meio de uma analogia com a neurose infantil, chegando à máxima de que a «religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade e, tal como a da criança, teria sua origem no complexo de Édipo, na relação com o pai» (p. 111). Ele supõe que nas épocas mais remotas, em que reinava a pobreza e a fragilidade intelectual, as renúncias necessárias para a vida social só foram possíveis por meio de ações afetuosas. Posto isso, assim como a superação da neurose infantil se dá a partir do processo de desenvolvimento e crescimento, o mesmo caminho Freud traça para a religião.
Freud (1927/2018) rebate a perspectiva de que o seu pensamento seja ilusório, tal qual a religião. A diferença que ele destaca de seu pensamento em relação à crença religiosa é a possibilidade de erro, a abertura à correção, além de não possuir caraterísticas alucinatórias. Para o autor, a ciência tem mostrado, de inúmeras formas, que não se trata de uma ilusão. Embora ainda seja muito jovem e se encontre em fases diferentes de evolução, o que varia de acordo com a área de conhecimento científico, Freud (1927/2018) mostra que a ciência é alvo de ataques e resistências de diversos inimigos. Em meio às tentativas de questionar sua consistência, ele defende a ciência em reação e como solução à crítica da crença religiosa, pontuando que:
Tentou-se, por fim, depreciar radicalmente o esforço científico através da observação de que ele, preso às condições de nossa própria organização, não pode fornecer outra coisa senão resultados subjetivos, enquanto a natureza efetiva das coisas fora de nós permanece inacessível. Essa observação desconsidera vários fatores decisivos para a concepção de trabalho científico: que nossa organização, quer dizer, nosso aparelho psíquico, se desenvolveu precisamente no esforço de explorar o mundo externo, ou seja, de que ele deve ter concretizado uma parcela de adequação em sua estrutura; que ele próprio é um elemento desse mundo que devemos investigar, e que ele admite essa investigação muito bem; que a atividade da ciência está plenamente circunscrita se a limitarmos a mostrar como o mundo nos deve aparecer em consequência da particularidade de nossa organização; que os resultados finais da ciência, precisamente por causa da maneira como foram obtidos, não são condicionados apenas pela nossa organização, mas também por aquilo que agiu sobre essa organização; e, por fim, que sem levar em conta nosso aparelho psíquico perceptivo, o problema da constituição do mundo é uma abstração vazia, sem interesse prático. (Freud, 1927/2018, pp. 134–135).
Com essa argumentação, Freud (1927/2018) apresenta a ciência como solução, afirmando: «Não, nossa ciência não é uma ilusão. Seria ilusão, porém, acreditar que pudéssemos conseguir em outra parte aquilo que ela não pode nos dar» (p. 135).
A crítica de Pfister aos escritos de Freud sobre a crença religiosa não tinha o objetivo de contrapor a psicanálise; pelo contrário, ele afirmava estar lutando por ela e, como consequência, também por seu criador, embora discordasse dele. Em primeira instância, Pfister (1928/2003) questiona se seria apenas quanto à crença religiosa que o desejo prevalece sobre os pensamentos realistas, isto é, se somente a crença religiosa estaria no âmbito da ilusão, conforme a fundamentação teórica de Freud. Em seguida, afirma que não, uma vez que o desejo e o pensamento realista estão intimamente relacionados e extrapolam o campo religioso. Sendo assim, o pastor questiona se a ciência é completamente bem-sucedida em eliminar o desejo do pensamento de realidade, chegando a uma objetividade pura.
Pondo isso em questão, Pfister (1928/2003) perpassa pelas diferentes críticas freudianas sobre a crença religiosa, defendendo a sua visão quanto a sua crença pessoal, a saber: o cristianismo a partir da ótica do protestantismo. Sob essa perspectiva, primeiramente, ele contrapõe o argumento da crença religiosa enquanto uma obsessão neurótica universal da humanidade, derivada da relação com o pai. O pastor aponta para que a obsessão não constitui a essência da religião, embora não negue que seja uma caraterística participante de um primeiro estágio da mesma, postulando que «renúncias às pulsões precedem a religião» (p. 22). Tais renúncias são consideradas caraterísticas de todas as culturas, pois para os seres humanos não é possível existir de forma unicamente pulsional.
O protestantismo, segundo Pfister (1928/2003), é a crença religiosa que tem se destacado na representação de um individualismo livre de compulsão, uma vez que tem uma função social relevante que é considerada também por outras ciências, assim como também tem se engajado no trabalho científico crítico. O pastor explica que os comportamentos de caráter obsessivo neurótico, manifestado por cristãos, não eram coerentes com os próprios princípios religiosos, não podendo ser configurado enquanto um sintoma da crença religiosa.
O segundo tópico de defesa que Pfister (1928/2003) faz da religião corresponde à afirmativa freudiana de que esta seria uma configuração do desejo. Ele não nega que o desejo esteja presente na formação das religiões, mas discorda de que isso fosse capaz de explicar a totalidade da crença religiosa. Assim, o desejo está presente em nosso ser, mas não enquanto uma força que aniquila a razão. O próprio Pfister (1928/2003) expõe que, em uma conversa com Freud, se dispôs a abandonar o pastorado, caso percebesse que sua crença era incoerente com a verdade que estava desvendando em sua trajetória intelectual. Sendo assim, embora o desejo esteja nas crenças religiosas, ele não se resume a elas, estando presente também na descrença e em qualquer tipo de crença, como exemplifica o autor: «Que analista não encontraria com frequência ateus, cuja descrença era uma camuflada eliminação do pai? Contudo, eu consideraria errado comprimir toda a rejeição da religião no esquema do desejo» (p. 27).
Pfister (1928/2003) não descarta o argumento de Freud sobre a configuração do desejo enquanto correspondente a alguns tipos de crença religiosa; mas critica a generalização feita pelo psicanalista. O pastor assume que algumas manifestações religiosas são, inclusive, reféns de confusão alucinatória e podem ter sido movidas exclusivamente pelo desejo. Entretanto, na sua compreensão, isso não se refere ao todo, não engloba a complexidade da crença religiosa, uma vez que não corresponde à forma com que ele mesmo acreditava e exercia a sua fé.
Outro ponto contestado por Pfister (1928/2003) é que a religião seja hostil à razão, como postulado por Freud. Ele mesmo mostra que sua forma de lidar com a fé passa pelo mesmo rigor crítico com que ele estuda a própria literatura e a filosofia. Pfister (1928/2003) insiste que o pensamento crítico era exigido daqueles que estavam em formação para exercer o pastorado, assim como
grandes intelectuais que não abriram mão da religião, mas, pelo contrário, em sua maioria a tratavam com mais devoção do que a ciência, e se destacaram sobremaneira nas mais diversas áreas do conhecimento. Por outro lado, o próprio pastor afirma que ter sido ensinado com base em preceitos religiosos não o poupou de conflitos internos, que o moveram a estudar e a criar a sua própria crítica sobre o assunto.
Por último, Pfister (1928/2003) se detém sobre o argumento freudiano que vislumbra a religião como uma proteção da cultura. Ele concorda que a religião pode ter feito papel de «polícia cultural» (p. 39), mas nega que essa fosse a sua missão primordial. O pastor aponta que levar a sério o cristianismo culminaria em inspirar mudanças culturais profundas, sobretudo em relação a valores de caráter. A própria psicanálise cooperou para que ele formulasse esse pensamento e compreendesse que a «religião não deveria tornar-se para nós uma polícia conservadora, mas guia e luz para a verdadeira cultura, retirando-nos da nossa cultura de aparências» (p. 40).
Tendo esses argumentos quanto às críticas de Freud sobre a crença religiosa, o pastor lança mão de seu posicionamento sobre a relação de Freud com a ciência:
Não será que, por trás da crença de Freud no triunfo final do intelecto, está o desejo, e que sua profecia do fim de uma ilusão engloba o surgimento de uma nova ilusão, a saber, a ilusão científica? Combina com a humildade de Freud que o desfile não venha precedido de fanfarras e bandeiras, mas aconteça de modo bastante abafado e com passos tateantes. Contudo, não consigo aderir, justamente porque o princípio da realidade se interpõe como advertência (Pfister, 1928/2003, p. 48, itálicos do autor).
A partir disso, Pfister (1928/2003) aponta não somente para a crença de Freud na ciência, mas para algo além, que seria a crença de que a ciência é suficiente para a humanidade, sendo capaz de substituir completamente a crença religiosa. O pastor assinala que Freud confessa sua fé na ciência ao ceder ao intelectualismo, levando Pfister (1928/2003) a considerar que seu amigo foi tomado pelo êxtase de suas conquistas intelectuais, deixando de lado seus próprios limites.
Assim, Pfister (1938/2003) conclui que Freud foi ingênuo ao pensar que seria possível haver um futuro sem religião. Ele também considera que, mesmo em meio a tantas divergências, seu objetivo se une ao de Freud. Ambos, em sua concepção, estão em busca do «amor humano e da diminuição do sofrimento» (p. 56, itálicos do autor), de criar «valores internos e externos positivos» (p. 56), e de que a verdade tem o poder de libertar a humanidade.
Quando estamos no campo científico, e da própria psicanálise, a impressão que temos é de que a crença permeia em terreno espinhoso, perigoso e arriscado. Sabemos que a noção de crença sempre apareceu na psicanálise freudiana relacionada às questões religiosas, habitando, por isso, um campo repleto de críticas e desconstruções, no qual a postura mais inteligente parece nos conduzir a uma distância segura do tema.
Como vimos anteriormente, Freud não se esquivou da crença religiosa, não sendo este um assunto que ele temia ou do qual fugia. Pelo contrário, encarou o desafio e argumentou com todo o vigor sobre o assunto, mesmo sabendo que seu posicionamento ateísta certamente causaria desconforto e repúdio em muitos quanto à própria psicanálise. A necessidade imprescindível de ele expressar-se sobre a crença religiosa só tardou devido ao seu relacionamento com seu amigo Pfister. Este último, por sua vez, não abria mão de sua religião, considerando-a uma esfera vivificante e cheia de sentido, mesmo em meio aos seus estudos psicanalíticos. Nos meandros dessa amizade, ambos discutiam sobre a crença religiosa com toda a honestidade e autenticidade que o assunto lhes requeria. Eles reconheciam que, em três décadas de amizade, havia entre eles mais similaridades do que desarranjos, o que lhes garantia a segurança necessária para preservarem sua diferença acentuada quanto à religião, de forma sincera e amigável.
Expondo esse panorama, pretendemos discutir uma possível noção geral de crença, a partir dos posicionamentos de Sigmund Freud e Oskar Pfister sobre a crença religiosa. Tentaremos fazer o caminho contrário ao dos autores, já que ambos não abordaram essa noção para lá da religiosidade. Tirar o aspecto religioso da noção de crença, ou ir além dele, poderá ser para nós uma possibilidade ou uma limitação diante dos materiais que nos dispusemos a analisar, e é isso que discorreremos aqui.
Em primeira instância, na perspectiva freudiana, a crença religiosa passa a ser discutida a partir das reflexões sobre o surgimento da ordem social que fora estabelecida no decorrer da história; ou seja, da própria cultura que construímos. O fundamento para o surgimento de tal ordem na sociedade, por mais distintos que sejam os formatos em que aparece, tem em vista o mesmo objetivo: a contenção dos impulsos que constituem o psiquismo. A vida psíquica e o comportamento humano se baseiam nos desejos e na busca pela satisfação desses impulsos. Sendo assim, os indivíduos formularam princípios, regras e costumes opressivos para si mesmos, mas com o objetivo de manter a vida e o convívio humano.
Entretanto, existiam aspectos que os próprios indivíduos, por meio da cultura, não foram capazes
de justificar e conter no homem. Faltavam-lhes explicações sobre aquilo que fugia ao seu controle, como, por exemplo, as inúmeras intempéries da vida, a fúria da natureza, a morte, etc. Foi a partir disso que surgiu a profunda necessidade humana de criar uma resposta que correspondesse ao desejo do homem de compreensão do mundo, de ser protegido, de obter consolo e amor constante, etc. Existia um desejo por sentido e uma necessidade de resposta veemente, e a crença religiosa solucionou essas questões, uma vez que ofereceu ao homem aquilo que a cultura e a ciência ainda não podiam fornecer.
Podemos, nesse raciocínio, afirmar que a manjedoura da crença religiosa é o desejo, o qual visa atender as mais tenras e diversas necessidades do homem. Freud vai além em seu pensamento sobre a crença religiosa ao também conjecturar que temos desejos e necessidades inconscientes que cooperam a tal ponto com a crença religiosa, que o homem chegou a criar um Deus Pai para que o desamparo infantil fosse amenizado. Uma vez que compartilhamos desse desamparo, que nos torna carentes de amor e de sentido, carregamos uma sede de satisfação dos desejos infantis e de respostas sobre as grandes questões da vida e do mundo. A crença religiosa foi ao encontro dessas demandas, mas não foi considerada eficiente pelo criador da psicanálise, uma vez que ela nunca foi capaz de exercer completa e totalmente sua dupla função na sociedade, que seria, por um lado, junto à cultura, a contenção dos impulsos e, por outro, a satisfação do desejo de ser amado pelo pai.
Se podemos aprovar essa primeira instância, admitimos que a crença religiosa também é considerada por Freud uma ilusão. Seu conceito de ilusão abarca toda e qualquer preposição que esteja fundamentalmente ancorada na realização de um desejo. A ilusão não corresponde a um erro, mas a uma crença que tem no cerne de sua motivação a realização de um desejo; e a força desse desejo opera de tal forma que as relações entre a crença e a realidade chegam a ser desprezadas, assim como no senso comum a ilusão desconsidera a realidade dos fatos.
O que mais parece ser problemático para Freud não é o desejo como ímpeto da crença, até porque este é considerado a própria força propulsora da vida psíquica. O que fere os princípios freudianos é o rompimento com a realidade, o abraço forte do psiquismo ao seu desejo a ponto de deixar de lado a razão. Entretanto, seria possível haver crença, ainda que movida pelo desejo, sem que fosse completamente anulada a razão e o nexo com a realidade? Segundo Pfister, sim. Ele acusa Freud de generalizar a crença religiosa, elevando todo e qualquer tipo de crença ao nível de uma «confusão alucinatória» (Pfister, 1928/2003, p. 34). Ele próprio, estudioso da psicanálise, reconhecido intelectualmente com grande estima por Freud, buscava contrapor que a crença limita, necessariamente, a racionalidade.
Seria, então, possível crer e manter-se racional? Talvez, agora, Pfister relativizasse a questão. Ele assume que, em meio à crença religiosa, muitos não se detêm sobre o estudo teológico e atuam sem coerência em relação à fé e a sua prática, quadro que para ele é considerado uma pré-religião. Esse conceito de haver um estado anterior à religião não fica esclarecido. Somente é dado a entender que corresponde a um nível de crença que tende a uma neurose obsessiva, isto é, que tende a romper com a realidade. Freud, por sua vez, afirma que a crença religiosa suspende a eficácia da razão, devido às suas teses absurdas, que diretamente não correspondem à realidade, ou, também, em outros casos, pelo intelecto se render ao pragmatismo da crença, ainda que discordando de seu conteúdo. Para ele, a crença religiosa seria, no mínimo, um limitador da razão, uma vez que concebe respostas ilusórias, satisfazendo desejos que, de outro modo, poderiam levar o homem a desenvolver sua racionalidade por meio da ciência, a fim expandir o conhecimento de modo coerente com a realidade.
Em confronto com a crença religiosa, Freud também considerou um erro que qualquer indivíduo intelectualmente consciente dos avanços científicos e do conhecimento já conquistado até então pela ciência continuasse sustentando uma crença que colocasse suas expectativas de compreensão da realidade para lá dessa forma de saber. Ao mesmo tempo, admitiu que a descrença não poderia ser forçada, a partir de seu próprio fundamento sobre a força ligada ao desejo de crer. Contudo, ele insistiu na tese de que o homem racional negaria seu intelecto ao afirmar uma crença religiosa, pois estaria, necessariamente, tirando sua razão de campo.
Esse pensamento freudiano, que colocava a ciência enquanto a máxima forma de escapar à ilusão, foi apontado por Pfister, levando-o à conclusão de que a ciência havia se tornado na própria crença de Freud. Ao colocar a crença na ciência no lugar da crença religiosa, Pfister dá um passo importante para pensarmos em nosso objetivo, uma vez que nesse momento ele aborda essa noção para lá da esfera religiosa. Como já citamos anteriormente, a crença na ciência também corresponderia a um desejo que, consequentemente, traz consigo «a ilusão científica», conforme destaca Pfister (1928/2003, p. 48, itálicos do autor).
Diante disso, será que podemos compreender que a natureza psicológica da crença, para lá da religiosidade, também é a ilusão? Aquilo que acreditamos, por acreditarmos, já limitaria, pela força do desejo, uma percepção mais abrangente da realidade? Pfister aponta que Freud é tão enfático
em sua crítica sobre a ilusão religiosa, movendo todas as suas expectativas para o saber científico, que perde de vista que a religião envolve outras inúmeras questões das quais ele passará ao largo. Quando um conteúdo não é objeto de nossa crença, somos mais lúcidos para criticar, mas também mais cegos para compreender. Talvez, por isso, a relação entre Freud e Pfister nos mostre tanta riqueza. Eles expõem, sem serem tomados por moções emocionais, aquilo que podiam enxergar enquanto realidade a partir da perspectiva de mundo que possuíam.
Freud, por vezes, negou conceder à psicanálise uma visão de mundo, tratando-a como instrumento laico, como método de saber acessível para todos. Mas, em outros momentos, não conteve o ímpeto de afirmar que sua ciência se desenvolveria melhor nas mãos de estudiosos que, assim como ele, não trouxessem consigo a crença religiosa ou o caráter médico. Que isso tem que ver com a crença? De certa forma, Freud está moldando sua ciência a partir de uma perspectiva que ele julga, por seus próprios parâmetros, a única (e a melhor) forma de se conhecer a realidade. Não consistiria em uma ilusão acreditar que seria possível limitar a ciência psicanalítica aos seus moldes ou, ainda, pressupor que os intelectuais tenderiam a se tornar cada vez mais céticos quanto à religião?
Freud criticava a exclusão que a crença religiosa provocava ao satisfazer apenas os desejos de seus fiéis e, também, conter os impulsos somente daqueles que se submetiam às suas leis. Com isso, ele entendia que a crença religiosa era ineficaz, pois, ao mesmo tempo que fortalecia uma parcela de pessoas, deixava as restantes à margem. Por isso, também era tão importante para ele que o modo de lidar com a realidade, com os desejos e com os impulsos, fosse substituído pela ciência, que em sua concepção não era uma crença, mas a única maneira de obter um conhecimento real. Ele acreditava que o avanço na busca do conhecimento científico levaria, progressivamente, ao abandono da crença religiosa, sobretudo em meio aos intelectuais.
A intenção de Freud de substituir plenamente a crença religiosa pela ciência foi considerada por Pfister como a declaração de fé do psicanalista. O pastor enfatizou que: «Aqui o brilhante intelecto de Freud excede-se num intelectualismo, o qual, extasiado pelos seus sucessos, esquece seus limites» (Pfister, 1928/2003, p. 48). Será que o limite aqui seria considerar a ciência uma crença, isto é, considerá-la tão suficiente ao ponto de romper os laços com a realidade de suas limitações?
A partir disso, vamos recuperar, agora, nossa reflexão sobre a noção de crença. Partimos da noção de crença religiosa postulada por Freud, e vimos que, em seu diálogo com Pfister, este último considerou a crença, tal como fundamentou o psicanalista, mas para lá da religiosidade, afirmando que até a ciência poderia se tornar em uma crença. Unindo essas duas contribuições, podemos compreender que a crença, para lá da religiosidade, estaria também fundamentada psiquicamente no desejo. Isso nos leva a inferir que, por se tratar de um desejo, também existe uma grande tendência de que toda crença seja uma ilusão, isto é, que em algum nível desconsidere a realidade. Talvez, nesse momento, tenhamos chegado ao ponto de questionar: afinal, que estamos considerando enquanto realidade no contexto da crença?
Widlocher (2006) pode contribuir com a nossa discussão a partir de suas elucidações sobre a realidade psíquica e a realidade material. Esse autor explica que o conceito de realidade psíquica foi elaborado por Freud (1913/1996) em «Totem e Tabu», considerando que a mente possui uma capacidade primitiva de colocar a realidade psíquica à frente da realidade factual, ao ponto da reação de uma pessoa tratar seus pensamentos de forma semelhante se comparado a uma outra pessoa lidando com uma situação real. O autor julga muito importante elucidar que, «ao opor realidade psíquica à realidade material, Freud se opôs não a realidade interna e externa, mas a duas formas divergentes de pensar; realidade psíquica é outra representação que apresenta consistência e resistência comparáveis às mostradas pela realidade material» (Widlocher, 2006, p. 318).
Segundo Widlocher (2006), a psicanálise permite o estudo do aparato psíquico formador das ilusões, e era exatamente com a explicação do funcionamento psíquico em relação à crença religiosa que Freud afirmava ter contribuído com algo novo para a sua compreensão. Entretanto, o trabalho de apenas discernir o mecanismo do pensamento inconsciente não é capaz de desvincular, ao menos o psicanalista não conseguiu quanto à crença religiosa, da análise e do julgamento dos conteúdos ali encontrados. Por isso, além de um método de investigação do mecanismo inconsciente, a psicanálise se detém sobre o conteúdo dos pensamentos que estão na mente inconsciente.
Contudo, Widlocher (2006) afirma que a diferença entre o conteúdo religioso e o conteúdo da psicanálise está em que o primeiro se preocupa com verdades, que por sua vez demandam fé, enquanto o segundo lida com uma realidade psíquica que é expressa por meio de conteúdos que são manifestos e que não precisam de ser considerados verdades. Reconhece que a psicanálise, em certa medida, carece de crença da parte do analista, o que significa confiar, acreditar na experiência inconsciente, uma vez que ela não se refere a uma realidade material. Entretanto, ele argumenta que, embora não possa ser vista, a realidade psíquica pode ser experimentada por meio de sentimentos, não se constituindo um
artigo de fé, como a religião, mas um fenômeno experienciável.
Por que é importante vislumbrar essa diferença para podermos compreender a crença? Talvez porque haja uma tendência de generalização quanto ao que chamamos de verdade ou realidade. A crença religiosa necessita de verdades, enquanto a ciência, por exemplo, não carece delas. Todavia, o conteúdo científico muitas vezes é encarado por seus cientistas enquanto verdade, e é nesse ponto que precisamos de atentar-nos. Isso porque, caso haja o teor de verdade, a ciência se assemelharia à crença religiosa, seria tomada pelo desejo e se distanciaria da realidade. Contudo, não podemos considerar a ciência como crença tal qual é a crença religiosa, mas, se considerarmos os critérios freudianos, em alguns momentos a ciência pode também ser considerada como tal.
Nos embates entre Freud e Pfister sobre a crença religiosa, o primeiro se posicionou tão fortemente a favor de seu desejo pela ciência que, em algum nível, parece ter se distanciado da realidade material. Isso nos ajuda a pensar na crença para lá da religiosidade, pois ela também estaria sujeita aos cientistas e a qualquer outro ser humano tomado por desejos inconscientes que culminariam em alguma crença, seja de que tipo for. Todos somos cheios de desejos, com mecanismos inconscientes que podem, em alguns assuntos e situações, suspender nossa racionalidade e iludir-se, rendendo-nos à crença. Podemos, então, considerar a crença como uma espécie de mecanismo inconsciente? Além daquilo que dizemos ou não acreditar, além do que queremos racionalmente e verbalizamos, será que ali, no inconsciente, se escondem desejos, ilusões e, por consequência, crenças que nos escapam a razão?
A amizade entre Freud e Pfister parece nos ajudar a fundamentar esse caminho, pois ainda que racionalmente ambos fossem opostos quanto à crença que professavam ou negavam, existiam também fortes desejos que os uniam em um relacionamento duradouro e generoso. Será também que havia, tanto no pastor quanto no psicanalista, crenças por trás da crença (ou da descrença), isto é, crenças inconscientes? Wondracek (2009) identificou que, apesar das diferenças denunciadas por suas próprias profissões, Freud e Pfister tinham em comum o desejo ardente pelo conhecimento. Esse desejo compartilhado os uniu na psicanálise, ainda que a realidade material indicasse uma grande contradição pelo que ambos representavam. Será que essa seria uma crença comum? Isto é, a crença no conhecimento psicanalítico? A resposta parece óbvia. Certamente, a admiração de Pfister pela psicanálise e seu intenso interesse os uniu nesta jornada. Mas quando Freud se posicionou contra a crença religiosa, e, de certa forma, quis limitar a psicanálise aos religiosos, houve um conflito de crenças, pois tal ciência havia tomado uma dimensão para Freud que no caso de Pfister estava ocupada pela religião.
Meng (1963/2009) também aponta para profundas semelhanças entre o pastor e o psicanalista, que diziam respeito ao «amor à verdade, principalmente amor como fator central para a compreensão das pessoas, não contemporizar quando estão em jogo valores mais elevados e não se deixar subornar por louvor ou censura» (p. 17). Tais semelhanças fizeram com que eles criassem um vínculo peculiar no campo científico: a amizade entre um ateu e um cristão protestante. Amizade esta que os levou a partilhar de cientificidades à pessoalidades, de manuscritos psicanalíticos à visitas familiares, de elogios à críticas.
Pfister, em diversas circunstâncias, considerou a conduta e os pensamentos de Freud superiores aos de muitos religiosos, pois a sua busca por bem–estar humano e sua forma de lidar com a vida não eram incompatíveis com o cristianismo. É claro que Freud não tinha essa mesma perspectiva e até achava exagerada a forma com que era considerado pelo pastor, mas, por outro lado, respondia quase com a mesma veemência aos seus elogios.
O fato de Pfister considerar Freud desse modo pode nos revelar um aspecto da crença, algo que está além do que é dito, declarado, racionalizado. Sabemos que para seguir a religião cristã é preciso crer nas verdades por ela declaradas, e o pastor sabia disso e, mais ainda, conhecia o ateísmo pungente de Freud. Entretanto, que o levou a fazer essa consideração tão, aparentemente, contraditória? Ele considerava Freud «bem melhor e mais profundo que seu ateísmo» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 154); e quanto a si mesmo, «bem pior e mais superficial que [sua] fé» (p. 154), de modo que a distância entre ambos não era tão significativa quanto o abismo entre aquilo que professavam sobre a crença religiosa. Existiria, então, uma dimensão da crença para lá do que é dito, que se mostrava no relacionamento, no comportamento, no modo de pensar, e também, talvez sobretudo, em uma esfera inconsciente. Aqui, não queremos dizer que inconscientemente Freud era um cristão, mas que possuía propósitos que iam ao encontro dos de um cristão — mas não de todo cristão, e é aqui que está a questão.
Freud rejeitou a inferência de Pfister, que o considerava um cristão, mostrando que quando chegava a Deus e a Jesus Cristo, eles rompiam enfaticamente suas concordâncias. O psicanalista desejava se abster da crença, dessa dimensão ilusória, de qualquer rompimento com a realidade e com a racionalidade que tanto defendia. Mas Pfister declarou sobre o posicionamento de Freud que «a descrença é simplesmente uma crença negativa» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 164), isto é, Freud não estaria se abstendo de crer, mas
crendo que a religião não faz parte da realidade mediante a racionalidade. Sendo assim, o ateísmo freudiano não escaparia da crença em sentido amplo, mas somente da crença religiosa. Pensar na crença para lá da religiosidade é pensá-la também nas demais áreas da vida, entendendo que a força de nosso desejo pode nos levar a romper (em diferentes níveis e medidas) com a realidade, criando uma ilusão e, com isso, a crença.
Podemos considerar, então, a crença uma espécie de mecanismo inconsciente, ao qual todos, do religioso ao cientista, do cristão ao ateu, estão sujeitos? O ateu, com sua racionalidade operante, nega a crença religiosa, mas pode, com isso, crer negativamente e, talvez, positivamente em outros conteúdos. Até a ciência, que não tem como objetivo romper com a realidade, mas, pelo contrário, deseja conhecê-la de forma sistemática e racional, pode tornar-se crença à medida que extrapola seu alcance na vida de seus estudiosos. Assim como também, dentro de uma mesma religião, pode haver diferentes crenças, diferentes tipos de cristãos, por exemplo, como defendeu Pfister.
O pastor insistiu com Freud, até as últimas correspondências, que «no fundo o senhor serve ao mesmo sentido de vida que eu, e age “como se” houvesse um sentido de vida e de mundo» (Freud & Meng, 1963/2009, p. 165). Já o psicanalista negou insistentemente, declarando que não acreditava que se comportava de tal forma, mas reafirmava não conseguir deixar de ser «“bom”» com Pfister (p. 167). Essa amizade, contraditória e afetuosa, nos levou a analisar a crença para lá do que era discutido; tentamos expandir para um cenário mais amplo, que vai além do dito e do esperado, e psicanaliticamente sabemos a que isso corresponde. O inconsciente também pode ser o lugar da crença, não somente daquelas que declaramos, que conhecemos e afirmamos, mas daquelas que silenciamos, e que não se calam ao olhar atento da psicanálise.
Por fim, diante dessa discussão, será que a noção de crença, para lá da religiosidade, por meio de um diálogo entre Sigmund Freud e Oskar Pfister, seria uma possibilidade ou um limite? Compreendemos que seria uma possibilidade, dentro do limite desse diálogo. Como assim? O diálogo entre Freud e Pfister nos permitiu abstrair fundamentos da crença religiosa e os direcionar para uma noção de crença mais geral, tornando-a também fundada psiquicamente em desejos inconscientes, que, por sua vez, dão origem a ilusões, rompendo com a realidade. Podemos compreender que a crença, nessa perspectiva, vai além da religiosidade, pois vai além do que se professa de forma consciente, vai além do cristão e do ateu. Sua nascente está no inconsciente, no que poderíamos chamar de «crença por trás da crença», a qual saltou aos nossos olhos no diálogo entre ambos, e, por isso, por meio deles, chegamos até aqui.
Iniciamos este artigo citando brevemente a perspectiva filosófica de William James sobre a crença, e chegamos ao fim podendo também refletir nesse tema na abordagem psicanalítica, por meio de um diálogo entre Sigmund Freud e Oskar Pfister. James teve o ímpeto de escrever sobre a crença a partir do racionalismo científico de sua época, que buscava tirar a legitimidade da crença, do direito de crer. Foi isso que o motivou a fazer uma investigação mais profunda sobre o tema, uma vez que identificou ser uma esfera subjetiva mais complexa do que parecia ao olhar dos cientistas. Vimos que o embate entre a crença religiosa e a ciência também percorreu a psicanálise, sobretudo nos diálogos entre Freud e Pfister. Embora tenhamos vislumbrado que a crença religiosa foi um tema recorrente na obra freudiana, falar de crença em sentido amplo, sem restringi-la ao âmbito da religião, nos pareceu uma lacuna deixada pelo autor.
Foi a partir disso que nos propusemos a investigar uma noção de crença, para lá da religiosidade, por meio do diálogo entre o ateu psicanalista Sigmund Freud e o pastor psicanalista Oskar Pfister. Pudemos observar, por meio de suas correspondências, que embora existisse uma gritante diferença quanto às suas concepções acerca do assunto, ambos cultivaram uma amizade muito produtiva, que se perpetuou até a morte de Freud. Foi nos meandros dessa amizade que as suas respectivas obras aqui estudadas nasceram. Essas obras compilaram a crítica e a defesa da crença religiosa, e foi a partir de suas correspondências e desses materiais que vislumbramos a possibilidade de abstrair uma noção de crença, conforme nosso propósito.
O caminho que percorremos para pensarmos em uma noção de crença mais geral foi a partir da fundamentação psíquica da crença religiosa postulada por Freud. Essa contribuição nos mostrou que a crença religiosa estava fundamentada no desamparo, em nossos desejos inconscientes por amor, proteção e completude. A busca pela realização desses desejos foi ao encontro das crenças religiosas, que, por sua vez, são consideradas ilusões, por terem o desejo enquanto motivação e por desprezarem as relações com a realidade. Também vimos que a organização social foi ao encontro desses desejos ao instituir as religiões na cultura, com o objetivo de conter nossos impulsos. Entretanto, a proposição freudiana apontou a recorrente falha da religião enquanto forma de contenção de impulsos, pois nunca foi capaz de suprir os desejos de todos, e também retardou a busca pelo conhecimento científico.
Em seguida, nos detemos na resposta de Pfister à crítica freudiana da crença religiosa. Foi interessante perceber que os autores discutiram
essa resposta em uma de suas correspondências, e que ela era permitida e ansiada pelo próprio Freud. O pastor, por sua vez, além de se posicionar em defesa de sua crença, inferiu que a ciência havia tomado o lugar de crença na vida de Freud. Essa percepção nos ajudou a expandir o alcance da fundamentação psíquica da crença religiosa para uma noção de crença que não se limitasse ao conteúdo religioso. Tal expansão nos levou a pensar que a crença em geral poderia se constituir em um mecanismo inconsciente, ao qual todos podemos estar sujeitos. Aquilo que é alvo da realização de um desejo pode se tornar uma ilusão, pela força inconsciente desse desejo, ainda que seja um alvo racional, como a ciência.
Investigar a possibilidade de uma noção de crença para lá da religiosidade foi, para nós, um desafio, com o risco de nos perder nele ou de não chegarmos a lugar algum. Contudo, vimos uma possibilidade, dentro de um limite. A possibilidade foi pensar em uma noção de crença, para lá da religiosidade; o limite foi nos deter sobre o diálogo entre Freud e Pfister. Sendo assim, podemos concluir que nosso estudo de uma noção de crença para lá da religiosidade é apenas uma contribuição em um campo de investigação que ainda precisa ser muito explorado, com novos estudos e pesquisas que propiciem novas contribuições.
ABSTRACT
Our goal was to explore the possibility of a notion of belief that extends beyond religiosity through a dialogue between Sigmund Freud and Oskar Pfister, conducted through theoretical research. Based on some of these authors' works, we examined a notion of belief that is not limited to religiosity, without breaking up with the psychological foundation established by Freud. We concluded that a broader understanding of belief would serve the fulfillment of an unconscious desire, which would also make it an illusion, necessarily breaking with reality to some extent. Thus, belief would be an unconscious mechanism, which may extend beyond what we consciously declare to believe or disbelieve, what we refer to as “belief behind the belief”.
KEYWORDS: belief, Sigmund Freud, Oskar Pfister, psychoanalysis.