O tema da sociedade contemporânea e a sua relação com a Psicanálise é objeto de debate há alguns anos e com muitas possibilidades de diálogo. O nosso texto tem como pretensão trabalhar alguns aspetos desse longo debate. Para atingir esse objetivo, caracterizamos de maneira sucinta a questão do Pai para a psicanálise freudiana e lacaniana. Após esse breve percurso, focamos a obra de Massimo Recalcati e sua proposta de repensar o que resta do Pai em nossa época. Se a proposta fundamentalista se mostra algo recorrente no cenário brasileiro, isso teria que ver com uma tentativa desesperada de reaver o Pai perdido que tanto Freud, quanto Lacan já apontavam como sendo um Pai morto. Ao final, levantamos a hipótese de que a ascensão da ultra-direita no Brasil pode ser lida sob essa chave hermenêutica.
Como é sabido por todos que praticam a psicanálise, Freud faz uma associação direta entre a figura do pai e a figura de Deus, pois para ele Deus seria basicamente a figura do pai idealizada, projetada em uma instância superior. Mesmo com todo o desenvolvimento proposto por Lacan, muito do que se pensa sobre Deus na psicanálise ainda se faz a partir da relação Deus-Pai, de forma que pensar a questão de Deus a partir da Psicanálise necessariamente passa por uma análise da figura do pai. Este ponto é interessante na obra de Recalcati, pois ele vai diagnosticar que o pai na contemporaneidade perde o seu status simbólico de autoridade, e o que sobra é nada além do pai fraco, fracassado.
Todo discurso da crise da função paterna se mostra bastante atual dada a nossa situação,2 em que se percebe cada vez mais uma espécie de «luto pelo pai», mas também porque toda humanização da vida exige ao menos alguém que exerça essa função paterna. No entanto, o «luto pelo pai» não implica o desaparecimento da sua função, mas indica algo como uma «evaporação» do pai, de tal forma que a função paterna não é mais uma questão de gênero ou de sangue, mas pode ser exercida por qualquer coisa na hipermodernidade.
Para que o sujeito se constitua como ser humano, é preciso que algo ou alguém lhe imponha limites, lhe introduza a lei da linguagem, que se lhe apresente a ele como um outro que o limita. Esse outro é condição da existência para o sujeito e dele não pode prescindir. Não existe um sujeito sem o outro, não existe um sujeito que seja autossuficiente, o homem não é ens causa sui.
Para Freud, o pai é aquele que faz a interdição entre o filho e a mãe, faz a interdição do incesto, ou seja, insere a lei, cerceando o gozo da criança. Segundo Dor, «o menino observa que o pai constitui um obstáculo junto à mãe; sua identificação com o pai assume agora uma
Doutor em Filosofia pela UFMG. Doutor em Psicologia pela PUC Minas. Professor Adjunto II do Instituto de Filosofia e Teologia da PUC Minas. E-mail:
Sobre a ausência da figura paterna na hipermodernidade, remetemos o leitor para: Recalcati, Massimo. Patria senza padri. Psicopatologia della política italiana (2013). O tema da função paterna é em si um tema central na teoria psicanalítica, principalmente após as formulações lacanianas. Dessa forma, devido ao escopo do nosso artigo, não cabe aqui uma teorização pormenorizada do tema da função paterna e todo o seu alcance tanto na dinâmica psíquica, quanto na dinâmica dos grupos. Sobre o tema da função paterna, remetemos o leitor para o nosso texto: Veliq, Fabiano (2016). Telêmaco. Hereditariedade e Testemunho. Considerações sobre a paternidade contemporânea a partir da obra de Massimo Recalcati. In Fábio Belo (Ed.), Íon de Eurípedes. Interpretações psicanalíticas. KBR Editora. (vol. 1, pp. 179–192).
tonalidade hostil e se torna idêntica ao desejo de substituir o pai junto à mãe» (Dor, 1991, p. 37). O pai remete diretamente à lei, e é exatamente essa relação que se perde na hipermodernidade. O pai, em nosso tempo, perde a sua representação edípica deixando o seu lugar, de certa forma, vazio.
O filme de Nanni Moretti, Habemus Papam, ilustra muito bem essa dinâmica. Nesse filme, Moretti nos coloca diante de um cardeal que é escolhido para ser o novo Papa após a votação da Cúria. No entanto, quando é anunciado ao povo e deve se dirigir à bancada da Basílica para a sua apresentação, é tomado de grande angústia e não se apresenta, mas foge. O balcão de São Pedro está vazio. O novo Papa não é capaz de assumir o peso simbólico de ser o representante de Deus sobre a Terra. Segundo Recalcati,
«Aquilo que Moretti nos mostra é a evaporação do pai como impossibilidade de sustentar o peso simbólico de uma palavra que gostaria de poder dizer ainda o sentido último do mundo, do bem e do mal, da vida e da morte»3 (Recalcati, 2013, p. 21).
O novo Papa que se recusa a assumir o seu lugar, que resta apenas como um ator que não carrega mais o peso simbólico que teria a sua palavra, ilustra muito bem a função paterna na hipermodernidade. Se a bancada de São Pedro, como mostra bem Habemus Papam, de Nanni Moretti, está vazia, a afonia que toma o padre-Papa resulta incurável; resta entretanto urgente a questão que qualquer um possa assumir a responsabilidade pública da palavra e todas as suas consequências.
O clima que isso gera na Praça de São Pedro, na população que aguardava o anúncio, é retratado por Moretti ilustrando a inversão dos papéis geracionais em nossa época. Aquele que deveria representar o peso simbólico de ter a palavra de Deus sobre a Terra se encontra perdido, em fuga, escondendo-se de todos pela cidade. O pai-Papa se transforma em uma criança atemorizada que busca consolo. Ocorre uma menorização da figura do adulto, a perda do referencial do pater familias tão caro à construção freudiana do ideal paterno. O seu lugar agora está vazio.
O próprio Freud coloca o conceito de pai sob uma certa ambivalência. De um lado, tem-se o pai que se representa na lei, o pai que exercita o seu papel castrador e que institui a lei na família, e, de outro lado, tem-se o pai humilhado, fraco. Um pai que goza de tudo e anula todo senso de limite e, por outro lado, o pai ausente, vulnerável e humano.
O pai de Totem e Tabu (1913/2006) ilustra o primeiro tipo de pai. Em relação ao segundo traço da ambivalência, ou seja, o pai fraco, é o pai do próprio Freud, Jakob, que aparece como essa figura em A Interpretação dos Sonhos, quando Freud relata um evento de sua infância. Nesse evento, Freud caminhava com seu pai, que lhe contava seus pontos de vista sobre o mundo em que viviam, tecendo algumas considerações sobre como os dias anteriores seriam piores do que os tempos atuais. Segundo Freud, seu pai lhe dizia que:
«Quando eu era jovem, fui dar um passeio num sábado pelas ruas da cidade onde você nasceu; estava bem vestido e usava um novo gorro de pele. Um cristão dirigiu-se a mim e de um só golpe, atirou meu gorro na lama e gritou: “Judeu! Saia da calçada!” — “E o que fez o senhor?”, perguntei-lhe. “Desci da calçada e apanhei meu gorro”, foi sua resposta mansa. Isso me pareceu uma conduta pouco heroica por parte do homem grande e forte que segurava o garotinho pela mão» (Freud, 1900/2006, p. 226).
Esse fato, sem dúvida, marcou a infância de Freud, que, rapidamente, no decorrer do livro, contrasta a história de seu pai com a história de Aníbal, o grande general romano. O pai de Freud, que aparece como passivo, castrado, um pai que não é objeto de medo, mas de vergonha, é contrastado com o grande herói para se ajustar melhor a seus sentimentos.
Há, portanto, uma passagem do pai ideal, herói, mítico, para o pai castrado, humano, impotente, que acompanha toda figura do pai. O pai sempre aparece dessa forma ambivalente, e isso já nos escritos de Freud, que enfatiza sempre as funções do pai com as funções da fala e a função do amor.
Sobre o semblante do pai ideal, sempre há o pai castrado: esta é a ambivalência que Freud pretende mostrar. O que caracteriza a neurose é, portanto, uma tentativa de fazer existir o pai ideal que não existe em lugar algum. O neurótico insiste em não acreditar que exista um pai que não seja castrado. É essa verdade estrutural que a neurose visa remover.
Da mesma forma, Lacan indica o declínio da função paterna em seus escritos, tanto que, em 1938, em «O complexo familiar», procura mostrar que a ditadura totalitária pela qual passa a Europa é uma tentativa de compensar patologicamente o «desaparecimento da figura paterna» (1938/1981, p. 56). Não seria aqui bastante similar o processo pelo qual passa o Brasil hoje com o governo de ultra-direita que constantemente traz a ideia de que é preciso um líder forte pra restaurar a ordem perdida?
Este texto nasceu a partir da percepção de Lacan do declínio da imago paterna na sociedade pós-moderna. Ao pensar na atualidade do tema família, Lacan antecede essa discussão para uma época em que as transformações na família eram vistas como exceções à normatividade da família nuclear burguesa. Dessa forma, o autor identifica o próprio advento da Psicanálise vinculado ao declínio do pai enquanto figura de autoridade e molde para a formação dos ideais; ou seja, o neurótico como
«Quello che Moretti ci mostra è la evaporazione del padre come impossibilità di sostenere il peso simbolico di una parola che vorrebbe poter dire ancora il senso ultimo del mondo, del bene e del male, della vita e della morte.»
sujeito de um embate entre o (Pai) real e o (Pai) ideal, buscando forjar uma resposta própria e única para seu conflito.
O pai na nova sociedade burguesa aparece como aquele que perde o seu domínio tanto pelo Estado quanto pelo declínio de sua própria função.4 Esse pai aparece como fragilizado e humilhado. Como afirma Lacan, «a nossa experiência leva-nos a designar aí a determinação principal na personalidade do pai, sempre faltando, de certo modo ausente, humilhada, dividida, ou artificial» (Lacan, 1938/1981, p. 43).
Sem a imagem de um pai capaz de se colocar como refúgio, o homem contemporâneo substitui o pai pelo líder da nação. Essa substituição garante uma espécie de proteção sob o preço de se abrir mão da sua razão crítica. Esse pai-Führer se coloca então como tentativa desesperada de preencher esse lugar simbólico; no entanto, a tentação totalitária que anula toda diferença se coloca como forma de tentar recuperar uma noção de «pai-ideal», que se encontra desaparecido e que não pode mais ser encontrado.
Novamente, em 1953, Lacan nos coloca já a noção de um pai discordante, humilhado e fragilizado dentro da sociedade atual. Segundo Lacan:
«A assunção da função do pai pressupõe uma relação simbólica simples, em que o simbólico recobriria plenamente o real. Seria preciso que o pai não fosse somente o nome-do-pai, mas representasse em toda a sua plenitude o valor simbólico cristalizado na sua função. Ora, é claro que esse recobrimento do simbólico e do real é absolutamente inapreensível. Ao menos numa estrutura social como a nossa, o pai é sempre, por algum lado, um pai discordante com relação à sua função, um pai carente, um pai humilhado, como diria o Sr. Claudel» (Lacan, 1953/2008, pp. 39–40).
Podemos perceber que em 1953 Lacan está reforçando a ideia já dita em 1938, mas ao mesmo tempo antecedendo algo que será retomado por ele um pouco mais tarde, que é a noção desse pai humilhado que cada vez mais vai perdendo a sua função normativa no seio da família contemporânea.
Em 1969, após a revolução de 1968 na França, Lacan afirmará que a «evaporação do pai» seria um traço constitutivo do nosso tempo, dominado pelo mercado comum. Segundo ele:
«Eu acredito que no nosso tempo a pista, a cicatriz da evaporação do pai, é o que nós podemos colocar sob a rubrica e o título geral da segregação. Nós pensamos que o universalismo, a comunicação da nossa civilização, homogeneíza as relações entre os homens. Pelo contrário, eu acho que o que caracteriza a nossa época — e não podemos deixar de notar — é uma segregação-ramificada, reforçada, que faz cruzamentos em todos os níveis, e que não faz nada a não ser multiplicar as barreiras»5 (Lacan apud Recalcati, 2011, p. 36).
O que Lacan nos indica nessa pequena nota é que a evaporação do pai coloca a sociedade de sua época em uma constante segregação que acaba por multiplicar as barreiras entre os homens, gerando em última instância um individualismo.
Esses dois momentos separados por trinta anos possuem, para Lacan, um mesmo motivo de fundo. Segundo Recalcati, «na afirmação do Pai-Führer e na contestação juvenil à sociedade patriarcal se pode encontrar um mal-entendido fatal da autêntica função simbólica do Pai»6 (Recalcati, 2011, p. 38).
O pai desaparecido que tenta ser encontrado no totalitarismo dos anos trinta do século passado aparece nos anos setenta do mesmo século como um pai que se evaporou, uma vez que os anos setenta marcam um processo de uma perda da autoridade simbólica. Essa mesma dinâmica se evidencia hoje no Brasil, em que procura-se de novo restaurar essa ideia do líder totalitário capaz de resolver todos os problemas.
Segundo Recalcati:
«Essas duas leituras do fenômeno da evaporação do Pai são na realidade duas faces da mesma moeda. O cinismo do discurso do capitalista que promete gozo democrático para todos anima o fantasma fundamentalista do pai totêmico, do castigo superegoico, e, por sua vez, segundo uma circularidade que mostra a convergência paradoxal destas antíteses, esse fundamentalismo hospeda em seu peito a obscenidade inconfessada de um gozo sem limite»7 (Recalcati, 2010, p. 39).
Os protestos de maio de 1968, assim como mais atualmente os protestos de 2013 no Brasil, nos dão um grande exemplo de uma juventude que se rebela contra um sistema patriarcal, exigindo reconhecimento de novas configurações familiares, exigindo novas formas de política, etc., fruto da evaporação da figura simbólica do pai.
Em maio de 1968, o que se constata é essa evaporação da figura paterna em nome de um novo ideal que tem como característica a tentativa de não vinculação a nada, exceto a própria revolução. O pai-fundamento, o pai-garantia, se encontra completamente evaporado.
O que se encontra em jogo, e maio de 1968 ilustra isso, é uma espécie de dissolução da lei da castração simbólica, que, segundo a teoria freudiana, tem a função de articular o desejo do sujeito e a experiência do limite. Sem essa experiência do limite, o gozo se impõe sem bússola e sem nenhum tipo de ancoragem simbólica.
Para uma abordagem histórica de como se dá tal processo da perda do domínio paterno na sociedade pós-industrial, remetemos o leitor para o trabalho de Rodinesco, Elisabeth (2003), A família em desordem (em especial o capítulo 5, intitulado «O patriarca mutilado»).
«Io credo che nella nostra epoca la traccia, la cicatrice dell'evaporazione del padre è quella che potremmo mettere sotto la rubrica e il titolo generale della segregazione. Noi pensiamo che l'universalismo, la comunicazione della nostra civiltà omogeneizzi i rapporti tra gli uomini. Al contrario, io penso che ciò che caratterizza la nostra era – e non possiamo non accorgercene- è una segregazione ramificata, rinforzata, che fa intersezioni a tutti i livelli e che non fa che moltiplicare le barriere.»
«[N]ell'affermazione del Padre-Fuhrer e nella contestazione giovanile alla società patriarcale si può ritrovare um fraintendimento fatale dell'autentica fuzione simbólica del Padre.»
«Queste due letture del fenômeno dell'evaporazione del Padre sono in realtà due facce della stessa medaglia: il cinismo del discorso del capitalista che promette godimento democrático per tutti anima il fantasma fondamentalista del Padre totemico, del castigo superegoico e, a sua volta, secondo una circolarità che mostra la convergenza paradossale di queste antitesi, questo fondamentalismo ospita nel suo seno l'oscenità inconfessata di un godimento senza limite.»
O que fará o discurso do capitalista é tentar tirar proveito desse novo cenário. A era do consumismo se mostra presente.
Em 2013, no Brasil o que se constata é o clamor por uma nova forma de fazer política por meio de pautas mais amplas e um maior acesso aos bens de consumo, assim como uma melhoria das condições de vida da população mais pobre. Há também em 2013 no cenário brasileiro uma forte onda progressista que se coloca como precursora de um movimento nos moldes de uma primavera árabe, ocorrida em 2011. No entanto, no desenrolar da situação, hoje olhando para dez anos atrás, percebe-se que o movimento foi cooptado por um discurso fundamentalista e deu origem a um governo neofascista no Brasil. O que nos atesta aquilo que Recalcati chama a atenção na citação acima, ou seja, que o fundamentalismo e o excesso de relativismo se mostram como duas faces da mesma moeda.
Atualmente, vemos a redução do sujeito a mero animal, que pode ser traduzida por uma redução do sujeito ao impulso mortífero do gozo. Segundo Soler:
«Que temos no lugar do espanto? Algo muito preciso — que pode nos espantar, mas não é o mesmo espanto —, no lugar do espanto temos o sem sentido [non-sense], o fático que tem evoluído através de toda a história da filosofia até Heidegger. Não temos o desejo, todo mundo se queixa disso. Temos em seu lugar, e retomo um termo que já havia utilizado, temos o narcinismo [narcynisme] que condensa o narcisismo e o cinismo»8 (Soler, 2000, p. 69).
Dentro da leitura de Soler, o narcinismo acaba por fechar as portas ao desejo e a vida aparece reduzida ao campo do gozo, mera vontade de gozar. Dessa forma, podemos entender o caráter cínico da hipermodernidade, que se caracteriza por uma tentativa de gozo ilimitado do indivíduo, não aceitando nenhuma forma de limite, e, ao mesmo tempo, o seu caráter narcísico, uma vez que tal gozo é sempre sem ligação com o outro, fechado em si mesmo.
O programa do «narcinismo» impera sobre o sujeito hipermoderno, que é sempre tomado pela angústia. Angústia essa de ser reduzido à vontade de gozo do próprio corpo. O caráter coletivo da angústia é um grande sintoma da precariedade simbólica da hipermodernidade.
Na época contemporânea, vemos a exclusão da coisa do amor; isso indica que o sujeito, ao invés de se aventurar no contato com o outro, prefere se abster disso elegendo um objeto como tentativa de se isolar. Ao invés do contato humano com esse outro, o sujeito se isola deixando a coisa do amor de lado.
Recalcati aponta que:
«A evaporação do pai coincide com a exclusão das “coisas do amor”. O esvaziamento, o desaparecimento, a queda de sua função simbólica correspondem a uma marginalização do discurso amoroso. Onde há triunfo da pulsão de morte, não se dá de fato possibilidade do amor»9 (Recalcati, 2011, p. 49).
A função paterna implica que o desejo se estabeleça a partir da castração simbólica. Se a função paterna se evapora, isso não acontece, e a lei não mais se articula com o desejo. O que se tem, portanto, é, de um lado, uma lei sem desejo, que se torna extremamente burocrática, que é vista como algo ruim, e, de outro lado, um desejo sem lei, puro impulso ao gozo, sem norte, sem horizonte, mortífero, pois não possui uma ligação com o Outro, gerando um excesso de individualismo que caracteriza a nossa sociedade.
Não é por acaso que Recalcati tentará mostrar que o discurso do capitalista é um discurso do «antiamor» e que a clínica contemporânea se caracteriza pela clínica do «antiamor».10 Nesse sentido, a Psicanálise aparece como tentativa de oferecer uma outra alternativa além do cinismo hipermoderno e de um fundamentalismo nostálgico.
A função paterna se coloca como uma função que provoca uma diferenciação no sujeito. Segundo Lacan:
«Para que o ser humano possa estabelecer a relação mais natural, aquela do macho com a fêmea, é preciso que intervenha um terceiro, que seja a imagem de alguma coisa de bem-sucedido, o modelo de uma harmonia. Não é demais dizer — é preciso aí uma Lei, uma cadeia, uma ordem simbólica, a intervenção da ordem da palavra, isto é, do pai. Não o pai natural, mas do que se chama o pai. A ordem que impede a colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência desse nome do pai» (Lacan, 1955–1956/2008, p. 118).
Esse terceiro, portanto, é aquele que se encontra capaz de introduzir uma lei, um limite. É por definição um lugar assimétrico que introduz uma diferença simbólica. Segundo Recalcati:
«A função lógica do Pai é homóloga àquela da linguagem que impõe ao ser falante o vínculo da palavra e, consequentemente, uma inevitável subtração de gozo como condição de entrada em seu campo»11 (Recalcati, 2010, p. 39).
Nesse sentido, a função paterna é homóloga à linguagem porque introduz uma falta no sujeito, limitando o gozo imediato da pulsão e gerando como efeito dessa limitação (castração simbólica) o movimento do desejo.
É essa dimensão de «terceiro», a dimensão do pai, que se perde na hipermodernidade mediante uma falsa simetria da relação entre os sujeitos. Nesse contexto, nega-se o contato com o outro,
«Qué tenemos en el lugar del espanto? Algo muy preciso — que puede espantarnos pero no es el mismo espanto — en el lugar del espanto tenemos el sin-sentido [non-sens], lo fáctico que ha evolucionado a través de toda la historia de la filosofía hasta Heidegger. No tenemos el deseo, todo el mundo se queja de esto. Tenemos en su lugar, retomo un término que ya había utilizado, tenemos el narcinismo [narcynisme} que condensa el narcisismo y el cinismo.»
«[L]‘evaporazione del padre coincide con l'esclusione delle “cose dell'amore”. Lo svuotamento, il tramonto, la caduta della sua fuzione simbolica corrispondono a un'emarginazione del discorso amoroso. Dove c‘è trionfo della pulsione di morte non si dà infatti possibilitá dell'amore.»
«Se il discorso del capitalista è un discorso al limite del discorso è anche perché è un discorso antagonista al discorso amoroso, è anche perché è il discorso dell'antiamore (Recalcati, 2010, p. 32). [Tradução do autor: «Se o discurso do capitalista é um discurso ao limite do discurso, é também porque é um discurso antagonista ao discurso amoroso, é também porque é o discurso do antiamor.»
«La funzione logica del Padre è omologa a quella del linguaggio che impone all'essere parlante il vincolo della parola e, di conseguenza, una invitabile sottrazione di godimento come condizione d'entrata nel suo campo.»
evidenciando o caráter do antiamor hipermoderno, mas ao mesmo tempo gera-se um discurso em que o sujeito se torna escravo do consumismo, cada vez mais fechado em si mesmo, cada vez mais individualista. Esse individualismo que emerge acaba por alterar a relação do sujeito com o mundo, gerando um discurso em que tudo pode ser consumido, até mesmo o Outro.
A resposta de Recalcati à questão «Que resta do pai?» é, ao mesmo tempo, simples e desafiadora. Recalcati nos propõe de forma simples:
«Eis minha tese: o que salvaguarda a função terceira do Pai, na época do seu declínio como função simbólico-normativa, é a dimensão ética do testemunho. […] Reside na responsabilidade ética de oferecer uma resposta possível sobre como se possa manter unido o desejo à Lei, sobre como se possa sustentar a aliança entre o desejo e a Lei. Esta resposta é a sua responsabilidade radical, e esta responsabilidade é aquilo que, em última instância, resta do Pai»12 (Recalcati, 2010, p. 42).
O Pai será aquele que se recusa à identificação com o consumo louco do discurso do capitalista, mas ao mesmo tempo se recusa a ser assimilado a um Deus ou a um líder totalitário. O Pai, portanto, mostra-se como uma encarnação singular. A sua resposta não tem mais o caráter de uma tentativa de ser exemplo universal, mas, sim, o de transmitir um testemunho sempre particular, um testemunho encarnado em sua ação. Dessa forma, a dissolução do Édipo em sua dimensão transcendental na hipermodernidade deve acentuar o caráter ético e não transcendental da função paterna, que se mostrará sempre como um testemunho.
A crise do Outro simbólico (a política, a religião, etc.) não deve gerar uma dissolução dos laços sociais, mas, sim, abrir para uma recomposição diferente de uma comunidade diante desse vazio criado pela crise desse Outro e a função simbólica do Pai.
Uma vez que o Pai não pode mais ser tomado como um lugar seguro da lei e nem ser tomado em sua existência transcendental como tentou fazer várias vezes a religião, corre-se o risco de que essa dissolução abra espaço para o poder anárquico do objeto de gozo, ou até mesmo gere uma nostalgia pelo Pai-padrão do autoritarismo. No entanto, essas não são as duas únicas alternativas. Essa nova configuração, para Recalcati, pode ser pensada como um lugar para gerar um espaço para o testemunho como encarnação singular de como é possível ligar a lei e o desejo.
A forma pela qual isso será feito não será por meio de uma pedagogia retórica, ou a partir da restauração de um pai que tem o conhecimento sobre a vida e a morte, mas será mostrado na carne do Pai. Será uma encarnação da lei. O que resta do Pai será sempre um testemunho particular da ligação entre lei e desejo. Apenas assim é possível fazer a transmissão do desejo de uma geração a outra. É uma tentativa de reativação singular do desejo que está em jogo. Segundo Recalcati:
«O guarda-chuva do Édipo em nossa época, que é a época da evaporação do Pai, não é mais suficiente para garantir essa reativação. O Pai edípico não detém a resposta acerca do enigma singular do desejo. Aquilo que resta do Pai pode apenas oferecer uma encarnação do desejo irredutível à vontade que anima o projeto de uniformização do discurso do dono/chefe/dominador/aquele que manda. Aquilo que resta é um testemunho ontologicamente enfraquecido, despotencializado, mas eticamente resistente, de como se possa manter a existência desejante não apesar, mas graças à falta que o atravessa»13 (Recalcati, 2010, p. 52).
Essa nova função do pai, essa encarnação, não visa apenas o pai real ou biológico, mas pode ser encontrada por outras vias, tais como um livro, um discurso, um amor, uma comunidade e até mesmo um psicanalista. Portanto, esse pai que encarna em si a aliança entre a lei e o desejo assume para si a responsabilidade de passar ao filho como isso é possível. Esse testemunho se mostra como encarnação do verbo. A partir do momento em que o filho é capaz de ver a lei encarnada nos atos do pai é que o testemunho ganha vida. O testemunho pressupõe sempre esse encontro que nem sempre se dá na relação familiar. O pai se mostra como aquele que é capaz de testemunhar sobre o seu desejo uma vez que é capaz de abrir mão de uma parte do gozo pulsional. Ao agir assim, o pai é capaz de mostrar em ato o que significa abrir mão do gozo em nome do desejo, permitindo que o filho passe a ver com os próprios olhos que isso é possível. O pai não visa ser aquele que detém todo conhecimento, mas permite ao filho agir a partir do seu exemplo. O filho pode agora ver, uma vez que o pai renuncia ao poder ver tudo. Dessa forma, é possível a filiação simbólica, é possível que o filho se torne herdeiro.
É nesse sentido que Massimo Recalcati vai propor o que chama de Complexo de Telêmaco, pois Recalcati pensa que Telêmaco pode ser uma figura mais interessante para pensar a relação pai–filho na contemporaneidade. Ao invés da figura do pai de Édipo, que aparece como um rival no acesso ao desejo, o pai de Telêmaco é aquele que o auxilia para colocar fim à noite dos pretendentes. Recalcati coloca que assim como Ulisses se apresenta como um mendigo para Telêmaco no seu reencontro com o filho, o novo pai que é necessário nos dias de hoje é um pai que tem apenas no seu modo de fazer e agir, no seu testemunho, uma possível resposta para a vinculação entre lei e desejo. O Complexo de Telêmaco, dessa forma, é a chave recalcatiana
«Ecco la mia tesi: cio che salvaguarda la funzione terza del Padre, nell'epoca del suo declino come funzione simbólico-normativa, è la dimensione etica della testimonianza. […] risiede nella responsabilità etica di offrire una risposta possibile su come si possa mantenere unito il desiderio alla Legge, su come si possa sostenere l'alleanza tra il desiderio e la Legge. Questa risposta è la sua responsabilità radicale, e questa responsabilità è cio che, in ultima istanza, resta del Padre.»
«L'ombrello del'Edipo nella nostra epoca, che è l'epoca della evaporazione del Padre, non è più sufficiente a garantire questa riattivazione. Il Padre edipico non detiene la risposta circa l'enigma singolare del desiderio. Quel che resta del Padre può solo offrire un'incarnazione del desiderio irriducibile alla volontà che anima il progetto di uniformazione del discorso del padrone. Quel che resta del Padre è uma testimonianza ontologicamente indebolita, depotenziata, ma eticamente resistente, di come si possa mantenere l'esistenza desiderante non nonostante ma grazie alla mancanza che l'attraversa.»
para ler a dinâmica contemporânea da época da evaporação do pai.
A partir desta proposta de Recalcati, podemos perceber como que o lema utilizado pela ultradireita, «Deus, Pátria e Família», acaba sendo uma tentativa de resgatar um tipo de vivência e experiência que não é mais possível na contemporaneidade. A tentativa de trazer de volta o pai da horda primeva se mostra fadada ao fracasso, mas, ao mesmo tempo, aparece como uma espécie de «tábua de salvação» em uma época sem referencial. Isso nos permite entender o porquê de sociedades da era da informação, que supostamente teriam acesso à verdade do projeto conservador, serem presas fáceis de discursos fundamentalistas. O Brasil não foge à regra contemporânea, e vive na pele essa busca por um pai capaz de resolver seus problemas, o que claramente se mostra uma busca ilusória.
ABSTRACT
The theme of contemporary society and its relationship with Psychoanalysis has been the subject of debate for some years now, with many possibilities for dialogue. Our text intends to work on some aspects of this ongoing debate. To achieve this goal, we provide a brief overview of the concept of the Father in Freudian and Lacanian psychoanalysis. Following this brief journey, we will focus on the work of Massimo Recalcati and his proposal to rethink what remains of the Father in our time. If the fundamentalist proposal is somewhat recurrent in the Brazilian context, this would have to do with a desperate attempt to reclaim the lost Father, whom both Freud and Lacan already pointed out as a dead Father. Finally, we front the hypothesis that the rise of the far-right movement in Brazil can be interpreted through this hermeneutical key.
KEYWORDS: father, contemporaneity, capitalism.