Como psicanalistas, por definição, observamos as várias dimensões do ser humano no mundo em constante mudança que nos rodeia. Este mundo é ontologicamente diverso e inclui cada vez mais espaços virtuais e formas de comunicação paralelas e complementares aos lugares e relações que o sujeito habita fisicamente. Isso tem provocado uma série de mudanças, ganhos e perdas para os processos de subjetivação que nós, psicanalistas, focamos na nossa própria reflexão disciplinar. Qual é a constituição atual da nossa realidade quotidiana?
É indiscutível que as redes sociais e o espaço virtual fazem parte integrante da subjetividade dos indivíduos contemporâneos, sobretudo daqueles nascidos a partir da década de 1980, que são uma boa parte da nossa clínica atual. Qual o impacto das redes sociais nas diversas dimensões subjetivas?
Como se dá a entrada, direta ou indiretamente, das redes sociais e do mundo virtual na sala de análise e que aspetos novos pode trazer? Tem-se falado muito do aspeto potencialmente traumático da violência no espaço virtual, da qual são exemplos o cyberbullying e o ghosting, e muitas vezes são levantadas críticas à hiperconectividade (o facto de estarmos sempre ligados); mas será que também tem aspetos positivos, que poderemos usar em nosso favor na clínica?
E qual o impacto das redes sociais na subjetividade do analista em particular? Também o analista faz parte da cultura contemporânea e não está imune ao poder da virtualidade. Como é que este se posiciona entre a tecnologia, a cultura e a psicanálise? Será que os analistas contemporâneos têm formação suficiente para compreender as novas patologias que aparecem, algumas delas ligadas à virtualidade e às suas consequências, e para integrar novas ferramentas na sua prática?
Estas questões foram lançadas como um estímulo aos nossos interlocutores, psicanalistas de diferentes origens, nacionalidades e línguas: convidámo-los a participar porque se dedicam e se concentram na reflexão sobre a vida virtual e subjetividade, abrindo desta maneira um espaço de debate sobre um tema que inevitavelmente entra nos nossos consultórios.
Marielle Kellermann Barbosa é membro associado da Sociedade Psicanalítica de São Paulo e evoca as dificuldades e controvérsias que criam tensão entre as várias definições de realidade dentro da psicanálise, resgatando o valor do método psicanalítico como forma de abordar os caminhos da constituição subjetiva, mesmo quando os suportes vivenciais são diferentes dos que estávamos habituados.
Rita Marta é membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e, enquanto psicanalista de crianças e adolescentes, oferece-nos um texto contundente, que ela própria designa como um «manifesto» contra uma hiperconetividade dessubjetivante. Exprime claramente a sua perspetiva sobre o impacto disruptivo dos excessos e das desconexões no território das redes sociais.
Marco Posadas, psicanalista mexicano e membro associado da Canadian Psychoanalytic Society, avança sobre a habitabilidade e o potencial de encontro que as redes sociais proporcionam às subjetividades marginalizadas e híbridas, que encontram nas plataformas virtuais espaços de ligação e de pertença. Como ligar estes territórios virtuais à clínica psicanalítica? E simultaneamente, como conter as condições de opressão sobre certos sujeitos, a violência emocional típica de fenómenos como o cyberbullying?
Finalmente, Inês Ataíde Gomes, membro candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, salienta os benefícios e as dificuldades que as redes sociais trazem à nossa vida quotidiana. Como as redes sociais atravessam todas as esferas do sujeito, a psicanálise tem a responsabilidade social de ser capaz de diversificar os pontos de vista de observação dos fenómenos. É importante sublinhar que a emergência, tão rápida e exponencial, de tantas formas novas de comunicação e inter-relações inevitavelmente provoca angústia. Mas é preciso dar-nos a oportunidade, no espaço público e na esfera das sessões individuais, de tirar partido das ferramentas que temos à nossa disposição.
Desejamos-vos uma leitura estimulante, cheia de concordâncias e de divergências que nos permitam debater e desenvolver ainda mais a nossa plataforma de juízo crítico e plural. Muito obrigado aos autores por aceitarem participar nesta secção.