Fábio Herrmann, em seu livro Andaimes do Real: Psicanálise do Quotidiano, de 2001, diz, no prefácio à terceira edição, que muito mais se escreve sobre o tratamento analítico do que sobre o humanístico dia a dia, e que seu livro pretendia analisar as regras de constituição do cotidiano, pois a psique, o objeto da Psicanálise, ocorre essencialmente na vida cotidiana dos homens, e voltar ao cotidiano é voltar à casa paterna (Herrmann, 2001, p. 9).
Nada mais cotidiano, neste momento, do que as pessoas, de várias idades, nacionalidades e classes sociais rolando feeds de redes sociais e sendo impactadas por elas, ao mesmo tempo que as produzem e alimentam (gerando conteúdo e engajamento).
A Teoria dos Campos, de Herrmann, pretende exorcizar a dicotomia entre fantasia interna e realidade externa. Na definição do autor, a psique do real é um conjunto de pressupostos inconscientes que determina formas possíveis de ser em uma determinada época. Segundo esta compreensão, o inconsciente individual não foge ao inconsciente geral da época em que está inserido. Realidade e identidade são ideias gêmeas, sendo a primeira designada como a representação do mundo que toca o sujeito, e a segunda, a representação do sujeito para si mesmo.
O real, como produtor de sentidos, é inacessível de maneira direta, e apenas apreensível «na atividade de seus campos particulares, isso é, na medida em que funda formas de relação determinadas, provê-las de sentido, fá-las funcionar… o quotidiano é o lugar onde o real se transforma em realidade» (Herrmann, 2001, p. 34).
Dessa maneira, não há representação da realidade que exclua sua matriz; por exemplo, não existe uma peça de plástico que exclua a extração do petróleo, a máquina que a fabrica e o sistema de distribuição que a faz chegar até nossa casa. Dessa maneira, o autor diz que qualquer conjunto de relações capazes de estabelecer uma realidade abarcativa configura-se como um cotidiano, sendo este constituído de tal maneira que qualquer parte sua seja também o todo. Nesse sentido, «podemos cavar nossos poços de prospecção onde quer que nos apeteça, certos de encontrar uma jazida de realidade e um campo do real» (Herrmann, 2001, p. 36).
Este cotidiano supõe um campo do real a produzi-lo e sustentá-lo; no entanto, essas relações e sentidos não são evidentes, sendo apenas revelados pelas suas representações. Herrmann ressalta o perigo de criarmos cotidianos psicanalisáveis, isso é, que tomemos porções de mundo condizentes com nossas teorias.
Pois bem, cavemos nossos poços de prospecção onde quer que nos apeteça, seja nas redes sociais, nas análises online, e, por que não, no clássico sofrimento que nos apresentam os pacientes dentro do consultório.
Seguindo o pensamento de Herrmann, para escutar os pacientes em nossos divãs, ou pelo fone do celular, é necessário que lancemos nosso olhar sobre esse campo do real que produz e sustenta realidades e identidades.
Uma paciente diz, deitada no divã:
«Meu feed do TikTok é muito parecido com esse sonho.»
«Como assim?», pergunto.
«Meu feed tem dois tipos de conteúdo principais, um é assim: como Paris aparece no meu sonho, com um filtro de luz maravilhoso, mais bonito do que o normal, são casais viajando ou passeando;
Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Co-host do podcast: «Lá Fora, coisas do mundo pelo olhar da psicanálise». E-mail:
o outro são vídeos de pessoas mostrando seu processo de depressão, o quarto ficando bagunçado, a pessoa emagrecendo.»
Essa paciente acabava de relatar, em sessão, um sonho no qual ela estava em Paris, e era uma Paris «instagramável»2, com filtro de luz, onde tudo era mais bonito do que a cidade de verdade (a paciente havia ido a Paris durante o processo de análise). Porém, no sonho, em paralelo à beleza da cidade, a paciente se percebia sem dinheiro. Estava em Paris sem nenhum recurso. Interpretei esse sonho como uma imagem condensada e útil para pensarmos aspectos internos dela. Ela tinha dentro de si um aspecto Paris e tinha também outro sem recursos, pobre, desvalido. O sonho trazia a ambivalência e aspectos cindidos de si mesma.
Achei curioso ela associar a interpretação do sonho com seu feed do TikTok; é como se ela dissesse que o algoritmo do TikTok havia captado — talvez antes do sonho — esses dois aspectos de identificação, um da esperança, espetacularizado em imagens de casais jovens descobrindo juntos o mundo (Paris instagramável), o outro, um aspecto melancólico desvalido.
É exatamente esse o argumento do artigo de Pedro de Souza Leite, de 2022. O autor apresenta a ideia de que a hiperconectividade contemporânea seria a base para um fenômeno sem precedentes: a captura e a simbolização de nossa vida inconsciente a partir do trabalho conjunto entre big data e inteligência de máquina.
Souza Leite apresenta, nesse texto, o argumento de que nós, enquanto usuários da Internet, estamos alimentando a rede com uma infinita porção de dados que os algoritmos, a partir da tecnologia de machine lerning, compilam à semelhança de uma função simbolizadora feita pelo inconsciente, ou pelo analista.
Em outras palavras:
«Meu feed do TikTok é muito parecido com esse sonho.»
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que despontou como uma voz interessante ao articular a nova economia do trabalho e condições contemporâneas de sofrimento mental, diz que «a psicanálise não oferece nenhum acesso a elas» (2010/2017, p. 88), referindo-se ao que chama de «doenças psíquicas de hoje», tais como depressão, burnout, déficit de atenção. Ouso discordar do filósofo coreano. Apesar de compreender bem o seu ponto, parece-me que ele faz afirmação tão contundente apoiando sua análise exclusivamente nas teorias metapsicológicas da psicanálise, e não no método. Se usarmos a psicanálise — como método proposto por Herrmann — como instrumento para arar o terreno infinito dos feeds de redes sociais e sua relação com a subjetividade e sofrimentos contemporâneos, notamos que o mundo com certeza mudou, mas o método psicanalítico segue operando.
Instagramável é o termo que as pessoas vêm usando para designar coisas, situações, objetos, receitas, decoração suficientemente bonitas para se postar no Instagram.