«Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.» Esta célebre frase de Antoine de Saint-Exupéry, no seu livro O Principezinho, traduz numa linguagem poética a inevitabilidade do impacto que o encontro tem nos seus intervenientes. Publicado pela primeira vez em 1943, estava longe da vindoura transposição da comunicação para o espaço virtual.
Se olharmos para os processos comunicacionais a partir de uma perspetiva psicanalítica, estamos mais propensos a pensar no que está «entre», na intersubjetividade. Melo et al. (2017) dizem-nos que «A primeira menção à noção de comunicação na obra de Freud aparece no artigo “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1895). Nesse artigo, a comunicação é relacionada ao estado de desamparo primordial do bebé, à sua necessidade absoluta do outro e à rememoração por parte do adulto das experiências de seu próprio desamparo. Para ele, a «comunicação está no ponto de origem do mundo psíquico» (p. 237). O adulto identifica-se com o estado de desamparo do bebé, o que lhe permite responder com gestos espontâneos e eficazes às necessidades expressas. São estas respostas, e as experiências de satisfação e/ou insatisfação a elas associadas, que se constituem em protótipos para as relações objetais.
O outro como objeto de relação, a necessidade de tolerar a ausência/frustração, o «Fort-Da», o objeto transicional, a evolução da permanência do objeto: mas como aplicar estes conceitos numa era digital em que às vezes o «outro» está aparentemente ausente ou é um «outro-difuso»?
Que se passa nas redes sociais? A que nível de comunicação se referem?
As redes sociais, transversais a todos os universos — familiar, social, profissional, educacional, político —, têm sido utilizadas como veículo privilegiado de comunicação. A primeira rede social surgiu em 1994 com a denominação GeoCities e permitia que cada pessoa criasse o seu próprio site. Em 1995 nasceram novas plataformas que permitiam que as pessoas encontrassem outras pessoas com interesses comuns — The Globe —, ou antigos colegas de escola/universidade — Classmates. A rapidez com que novos produtos foram lançados e apropriados pelos seus utilizadores é vertiginosa. Desde blogues a plataformas profissionais como o LinkedIn foram surgindo vários aplicativos que encontravam um público recetivo, dando-se a grande explosão com o aparecimento do Facebook (2004), a que se seguiu o Twitter (2006), o WhatsApp (2009), o Instagram (2010) e o TikTok (2016). Todos estes aplicativos são meios de comunicação, socialização e acesso a informação, e inevitavelmente também veículos de violência e segregação social.
No artigo «Motivações psíquicas por trás do uso das redes sociais» (2021), publicado no seu blogue, Danila Kochenborger e Denise Zavatti constatam que «Da análise das repercussões das redes sociais na subjetividade dos usuários, notou-se que do ambiente das redes pode emergir elementos não ditos e não percebidos, tornando-se possível o acesso ao material inconsciente; “possibilitando oferecer um suporte para a elaboração de dificuldades pessoais, de luto e de situações difíceis (ROSA, 2015, p. 436). É possível publicar nas redes com a soltura de uma livre associação e de reagir a tudo o que é exposto, Queiroga et al (2016) afirmam que estas ”tornaram-se um ‘divã público’ (…) o que o sujeito publica adquire sentimentos, dele e daqueles que identificam-se com a postagem. (p. 112)».
Psicóloga clínica. Membro candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Membro aderente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. E-mail:
Se, por um lado, é verdade que muitas vezes há uma sobre-exposição nas redes sociais, em que o mostrado/partilhado corresponde apenas a uma parte favorável do próprio, que, na busca de gratificação narcísica traduzida no número de interações e seguidores (muitas vezes desconhecidos), se obriga a uma felicidade permanente; por outro lado, há que reconhecer que é possível fazer um uso diferente das redes, que estas permitem e promovem o contacto com pessoas significativas, que é possível manter a rede profissional ativa, e trocar impressões sobre as mais variadas temáticas. Tudo depende do «como» é usada a rede social. Este facto está patente na clínica: o sofrimento associado às vivências online surge não na sua utilização ou não, mas na transposição para as mesmas de funcionamentos psíquicos que ficam ampliados pelo desamparo da ausência de um outro que ajude a integrar a experiência.
Burke & Kraut (2016) concluem que dados recentes apoiam a ideia de que as interações online influenciam o bem-estar. No entanto, os efeitos dependem da forma como as pessoas utilizam os sites: «a receção de mensagens personalizadas e investidas de amigos próximos está associada a melhorias no bem-estar. As pessoas retiram benefícios da comunicação online, desde que esta provenha de outras pessoas de quem gostam e que seja um contacto personalizado» (p. 266).
Aaron Balick (apud MacRury & Yates, 2016), que escreveu extensivamente sobre culturas digitais numa perspetiva de relações de objeto, escreveu no seu blogue que, enquanto cultura, nós «reinventámos o objeto transicional — só que em vez de um cobertor ou de um ursinho de peluche, é um smartphone». Acrescenta um conselho que dá que pensar aos seus leitores: «Da próxima vez que, distraidamente, meter a mão no bolso para pegar no seu smartphone, pare por um segundo e pense. Que estou realmente a procurar? Talvez descubra que, no fundo, há um sentimento de insegurança — e que só quer ter a certeza de que mais alguém no planeta está a pensar em si» (p. 49).
A psicanálise tem uma responsabilidade social: poder diversificar os pontos de vista de observação dos fenómenos. O aparecimento tão rápido e exponencial de tantas formas novas de comunicar e interagir provoca inevitavelmente angústia. Especialmente se vividas como uma adição e sem espaço para serem pensadas. Mas há que dar oportunidade, no espaço público e no âmbito das sessões individuais, para que se tire proveito dos instrumentos que temos ao nosso dispor. Uma das vantagens inequívocas das redes sociais é a uniformização do acesso à informação. Transformaram-se, também para os psicanalistas, em meios privilegiados de partilha de saber, de divulgação de eventos, artigos, livros. O que estava ao alcance de apenas alguns está agora disponível e com acesso livre.
Novas e inesperadas evoluções irão surgir. Tenhamos a capacidade de acolher o novo e de o saber pensar.