O presente número inspirou-se no texto de Freud intitulado «Transitoriedade»1, no qual se aborda o poder destrutivo do homem em relação à natureza e aos seus semelhantes, sendo as vertentes de mudança e de aprendizagem tão presentes na sua condição quanto a vertente da repetição. Mais de um século passado sobre a primeira guerra mundial, as violências política e social continuam presentes nas diferentes formas de violação dos direitos humanos, nas guerras, no terrorismo, na violência de Estado, de género, no cyberbullying… Segundo Viñar (2017),2 a experiência de ser destituído ou de ser expulso provoca um colapso catastrófico da identidade, a qual adquire uma dimensão traumática quando perpetrado por uma ação racional e intencional de outros seres humanos. É tarefa da psicanálise continuar a ocupar-se da reflexão sobre o mundo em que vivemos.
Por esse mesmo motivo, este ano, o Congresso Bienal IPA 2023, intitulado «A mente na linha de fogo», abordou a tarefa conflituosa e complexa do trabalho analítico em contextos de violência política e de transformações sociais rápidas e disruptivas, nomeadamente as operadas pela experiência da pandemia. E nós, acompanhando a linha reflexiva da IPA, convidámos a psicanálise a debruçar-se sobre esta mesma temática. Interrogamo-nos sobre qual o desenvolvimento da teoria psicanalítica que contempla na sua perspetiva os impactos: da análise individual sobre o coletivo; do contexto social sobre as teorias psicanalíticas; e destas quando partilhadas no coletivo psicanalítico. Mantemos em perspetiva a conceção de uma psicanálise que contemple as características e as influências regionais no mundo globalizado, assim como a influência da globalização psicanalítica no campo psicanalítico e na interface e interinfluência de outras disciplinas: sociologia, antropologia e filosofia. A psicanálise pode representar uma posição diferente perante a atrocidade, a dificuldade de integração do estrangeiro, a rejeição do outro, e a repetição de catástrofes causadas pelo homem.
Com o objetivo de manter a continuidade entre os pensamentos crítico e reflexivo, a equipa editorial agradece, desde já, o contributo de todos os que responderam ao call for papers, convidando à continuação do entusiasmo na publicação em futuros números da RPP.
Quanto a este número, inauguramos a reflexão com a publicação de quatro das conferências realizadas no último congresso de Cartagena, bem como os seus respetivos comentários. Referimos as conferências de Jorge Bruce, de Jhuma Basak, de Steven Marans e de Sverre Varvin.
Na secção Fundamentos, a conferência de Jorge Bruce intitulada «A descompasso» reflete na identidade do psicanalista e a sua relação com a noção de fronteira e com a condição do estrangeiro. Se, por um lado, as fronteiras conferem limites e segurança, por outro, correm o risco de enrijecer a versatilidade do analista e a sua escuta. O autor defende uma psicanálise que leve em conta o contexto social no qual está inserida, cujo exercício deve ultrapassar os limites do consultório.
Jhuma Basak, na sua conferência intitulada «A dinâmica inflamada da violência quotidiana – O contexto indiano», analisa as repercussões psicossociais da Covid-19 na Índia, tais como: o eclodir de uma violenta angústia de sobrevivência e o aprofundamento das antíteses de classe e de casta que dilaceram aquele país. Analisa ainda o fenómeno da negação da mulher, encarada como objeto transicional entre duas famílias.
Em «Compreender e responder precocemente ao trauma infantil», Steven Marans salienta que, ao longo da história, a psicanálise conduziu à expansão das teorias do desenvolvimento e do funcionamento humano, alargando o alcance e o impacto da sua aplicação: na situação de exposição à violência e ao trauma, a prática de princípios psicanalíticos ofereceu às instituições e aos profissionais novas respostas no trabalho com crianças traumatizadas.
Sverre Varvin, em «A psicanálise e a terceira posição — Convulsões sociais e atrocidade», analisa como discursos alienantes sobre o trauma e sobre a negligência das sociedades em relação às pessoas traumatizadas aumentam o sofrimento e provocam graves consequências para as gerações vindouras. O autor debruça-se sobre a forma como a psicanálise pode representar uma terceira posição em relação a processos regressivos a nível individual, grupal e social e propõe um modelo para repensar a traumatização individual e coletiva.
Perante estes contributos relevantes para a psicanálise contemporânea, convidámos, na secção Vertigem, colegas a comentar as citadas conferências: Ana Melícias, Jorge Bruce; Nadja Tröger, Jhuma Basak; Conceição Tavares de Almeida, Steven Marans; Maria Emília Marques, Sverre Varvin.
Na secção Clínicas, Antónia Carreiras apresenta no artigo «A noite das palavras» (título retirado de um poema de Paul Celan) um olhar sobre as consequências psíquicas dos traumas coletivos, representadas na incapacidade de simbolizar a experiência vivida e de construir narrativas.
Melis Tanik Sivri, no trabalho «A morte estava a bater à porta», aborda a função de metacontenção do grupo de supervisão a partir de uma experiência de supervisão com terapeutas a trabalhar voluntariamente com sobreviventes de ataques terroristas. A autora analisa a dificuldade de pensar quando se está «debaixo de fogo» e a experiência de «a morte bate à porta», as quais podem ser repetidas e elaboradas no âmbito do grupo de supervisão.
Jorge Bouça, em «Uma imagem vale mais que mil palavras: Tatuagem como expressão da subjetividade», reflete no significado da tatuagem na história da humanidade e analisa a sua dimensão inconsciente. Ilustra, com a clínica, a função daquela na exteriorização dos conflitos, na afirmação da individualidade, no embelezamento e também no controlo de angústias psicóticas.
Em «An empty tomb at the heart of childhood — Reflections on the victim and his group», Monica Horovitz reflete nos grupos e nas suas várias experiências emocionais que promovem ou dificultam a aprendizagem. Defende que existem forças antiaprendizagem de natureza emocional que se observam nos grupos e em cada indivíduo e descreve como não aprender com elas, não pensar, pode ser uma questão de vida ou de morte. Apresenta histórias em que a palavra «vítima» nomeia o que sofre e é conducente à desvalorização e ao desconhecimento da subjetividade.
Na secção Auditório, apresenta-se a entrevista a Kerry Sulkowicz, intitulada «Psicanálise e liderança num mundo transformado pela pandemia e pela guerra», conduzida por Sofia Figueiredo,
No artigo «As cores do corpo: Reflexões com base em dinâmicas trans», Ângela Vila-Real analisa a relação entre o corpo e o género, ligando diversas perspetivas sobre a fluidez de género. Reflete no papel do corpo na organização e na coesão identitária, tomando por base as dinâmicas subjetivas que se colocam nas questões de adequação do self e de género.
Na secção Pesquisa, apresenta-se o artigo de Cláudia Yaísa Gonçalves da Silva e Ivonise Fernandes da Motta, «Rodas de Conversa com adolescentes: O resgate da esperança», as autoras discutem as modalidades de abordagem de adolescentes em situação de risco pessoal ou social que podem ser temporariamente encaminhados para instituições de acolhimento. Propõe-se rodas de conversa temáticas com o intuito de conhecer a experiência emocional dos participantes sobre o tema da esperança e quais as suas perspetivas de futuro.
Em Poéticas, Henrique Testa Vicente e Carlos Farate desenvolvem, no artigo «Um sonho de ciência: Fantasia e realidade no cinema de ficção científica», uma ampla reflexão sobre as relações entre a psicanálise e a ficção científica. Enunciam como, a partir da exploração psicanalítica da estrutura e dos conteúdos narrativos que compõem este género cinematográfico, seria possível entrever no cinema de ficção científica a representação de fantasias inconscientes, tornando-as acessíveis ao pensamento.
Votos de uma boa leitura.
A equipa editorial da RPP.
(2010). A Transitoriedade. Em , Obras completas, volume 12 (pp. 247–252). Companhia das Letras. (Original publicado em 1916.)
(2017). O sujeito em exílio: entre o ser da intimidade e o ser da violência política extrema. Revista brasileira de psicanálise, 51 (1), 167-176.