Adolescentes em situação de risco pessoal ou social podem ser temporariamente encaminhados para instituições de acolhimento, como medida protetiva. O acolhimento institucional, ainda que seja um recurso de segurança, pode ter impactos ambivalentes no desenvolvimento emocional dos adolescentes. Este trabalho objetiva apresentar o impacto na esperança em adolescentes do gênero feminino residentes de um Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes da cidade de São Paulo — SP, Brasil. Foram realizadas Rodas de Conversa temáticas com o intuito de conhecer a experiência emocional das participantes sobre o tema da esperança e da perspectiva de futuro sobre as próprias vidas. O material foi analisado pelo referencial teórico psicanalítico de D. W. Winnicott. Notou-se que o distanciamento social imposto pela pandemia de COVID-19 contribuiu para o estado de apatia, desânimo e abalo da esperança nas adolescentes. Contudo, a partir das intervenções grupais, foi possível resgatar a esperança e as expectativas positivas quanto ao futuro, por meio do estabelecimento de uma relação de confiança entre as participantes e a pesquisadora. Compreende-se que a esperança, ainda que esquecida, habitava as participantes, e pela via da comunicação do grupo foi possível reacender a possibilidade de acreditar e colocar em movimento os planos de vida.
O Brasil possui uma Rede de Proteção Integral à Criança e ao Adolescente com ações que visam a proteção social. De entre os serviços especializados e de alta complexidade, estão os Serviços de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA), a fim de promover acolhimento a sujeitos temporariamente afastados do meio familiar e/ou comunitário de origem. Tais instituições oferecem o acolhimento provisório a crianças e adolescentes cujos vínculos familiares estão fragilizados ou foram rompidos devido a ameaça ou violação de direitos (Brasil, 2009).
Para que a medida protetiva de acolhimento institucional tenha sido acionada, compreende-se que houve o rompimento do vínculo da criança e do adolescente com o ambiente e com as figuras de referência. A partir disso, o SAICA surge como um local que deverá prover os recursos materiais e de apoio afetivo aos acolhidos, enquanto se aguarda a decisão judicial de retorno à família, encaminhamento para uma família substituta ou permanência em acolhimento institucional. O papel dos cuidadores que trabalham nesses serviços e a qualidade do vínculo firmado com os acolhidos
Artigo submetido em setembro de 2023 e aceite para publicação em novembro de 2023.
Psicóloga clínica. Pesquisadora de pós-doutoramento no Instituto Psicologia da Universidade de São Paulo. E-mail:
Psicóloga clínica. Professora Livre Docente do Instituto Psicologia da Universidade de São Paulo. E-mail:
tornam-se fundamentais para a experiência de suporte e segurança em um ambiente favorável ao desenvolvimento do sujeito (Fernandes & Oliveira-Monteiro, 2016).
Nesse contexto, a realidade é que os adolescentes com destituição do poder familiar apresentam menos chances de colocação em família substituta, em comparação com as outras faixas etárias. Isso porque a maioria dos pretendentes à adoção optam por crianças de menor idade, em sua maioria até quatro anos (Mastroianni et al., 2018). Esse aspecto evidencia que parte dos adolescentes permanecerão em situação de acolhimento até por volta da maioridade, abrindo-se a necessidade de se pensar em ações de transição para a maioridade.
Crianças e adolescentes sob medida protetiva de acolhimento institucional foram expostos a diversas situações de risco ou violação dos direitos humanos. De entre os principais motivos que justificam o acolhimento, podem citar-se: o uso de álcool e/ou outras drogas pelos responsáveis; negligência da função parental e dos cuidados; condições inadequadas de moradia; e genitores em cumprimento de pena restritiva de liberdade. Além da suspeita de violência física, sexual e psicológica (Mastroianni et al., 2018). Pesquisas sinalizam o abandono, a violência doméstica, o uso abusivo de drogas na família, os problemas legais e a adoção que não deu certo como os principais motivos que conduzem crianças e adolescentes à uma instituição social (Baptista et al., 2017; Fernandes & Oliveira-Monteiro, 2016).
Os diversos motivos que conduzem crianças e adolescentes ao acolhimento institucional podem não ser reduzidos a questões isoladas. A negligência parental pode estar inserida em um contexto de várias vulnerabilidades a que as famílias e os responsáveis estão expostos, considerando, por exemplo, que as condições de pobreza e desemprego tendem a potencializar a vulnerabilidade social (Paiva et al., 2019; Ramos et al., 2020). Portanto, deve pensar-se em estratégias que auxiliem as famílias na superação dos motivos que levaram à medida protetiva. Um dos caminhos pode ser o fortalecimento dos vínculos da rede protetiva com as famílias, buscar aproximação, conhecer as realidades e necessidades das famílias e saber como se dá a sua relação com a rede.
Em meio a situações de violência e negligência, o serviço de acolhimento se insere com uma finalidade protetiva para o sujeito, contudo, não raro, o imaginário social difunde um estigma com atributos negativos em torno do jovem acolhido. Um ponto a reforçar essa rotulação é a naturalização de que a família seria a única instituição responsável pelo desenvolvimento integral das pessoas. Assim, os acolhidos seriam provenientes de famílias reconhecidas como desestruturadas e associados como uma extensão delas, reforçando a culpabilização pela situação de acolhimento (Wendt et al., 2017).
Comparando-se o imaginário social a respeito dos jovens acolhidos e jovens não acolhidos, percebe-se maiores indicadores de percepção de preconceito e maior incidência de reprodução de rótulos pejorativos voltados para os indivíduos em acolhimento. Tais aspectos são evidenciados tanto pelas características negativas que as pessoas reforçam (vulnerável, carente, agressivo), quanto pela autopercepção dos adolescentes, percebendo-se como parte de um grupo social estigmatizado, cuja identidade está ligada à instituição (Delgado et al., 2019; Rodrigues et al., 2014). Com isso, há a necessidade de se enfrentar os estigmas voltados para essa população, no intuito de promover esclarecimentos, reflexões e desmitificações que levem a mudanças culturais.
O acolhimento institucional, mesmo sendo uma medida protetiva, é marcado como uma ruptura no curso de vida do sujeito, com possíveis repercussões. Pode-se citar a ocorrência de problemas de ordem interna (emoções e aspectos psicológicos) e externa (comportamentos negativos e agressivos); percepção negativa em relação à instituição, indiferença e negatividade; e níveis de bem-estar social mais baixos em relação a adolescentes que não se encontram acolhidos (Delgado et al., 2019; Fernandes & Oliveira-Monteiro, 2016). Podem incidir sintomas depressivos, os quais tendem a ser agravados em acolhimento realizado após os sete anos, não inserção da criança ou adolescente no programa de apadrinhamento, histórico de acolhimento, e ausência de irmãos na instituição (Álvares & Lobato, 2013).
Os elementos estressantes que acometem os adolescentes acolhidos tendem a ser desencadeados tanto pelas vivências que precederam o acolhimento quanto pelas experiências atuais, ou seja, por recorrentes situações de instabilidade na vida que podem ter repercussão negativa para os indivíduos, contribuindo para dificuldades emocionais e estados de nervosismo, sensação de abandono, estresse, confusão, problemas de saúde e doença. Ademais, o impacto do acolhimento pode ser observado, em alguns casos, no repúdio dos adolescentes em falarem do processo de acolhimento e dos motivos que os direcionaram à medida protetiva, indicando que esses conteúdos geram ansiedade e sofrimento (Fernandes & Oliveira-Monteiro, 2016). Portanto, a fim de evitar prejuízos na saúde emocional de crianças e adolescentes retirados do ambiente familiar, são necessárias medidas interventivas visando a prevenção como forma de evitar agravos emocionais posteriores e de favorecer o desenvolvimento.
Neste tópico, pretende-se apresentar brevemente algumas ideias sustentadas por Donald Woods Winnicott, acerca do desenvolvimento emocional primitivo. O autor elucida que, quando vem ao mundo, o bebê encontra-se em estado de dependência absoluta para com o ambiente que o cuida. Se o ambiente é suficientemente bom, possibilita que o self verdadeiro ascenda a partir da vivência de ilusão criativa, ou seja, quando o lactente pode ter a experiência de criar e controlar o mundo à sua volta. Quando a função materna é adequada, facilita que o bebê alcance a capacidade de sentir que existe. A manifestação do verdadeiro self é notada na originalidade criativa, na espontaneidade e na experiência de viver, sentindo-se real (Winnicott, 1960/1983b; Winnicott, 1960/1983c).
Quando a adaptação da mãe não mais precisa de ser total, o bebê deixa de estar fundido a ela, separando-se do objeto não-eu, pouco a pouco saindo do estado de ilusão. O que auxilia na separação mãe-bebê é o sentimento de confiança na fidedignidade da figura materna. Assim, o bebê pode usufruir da área intermediária entre ele e a mãe, espaço potencial onde mais tarde se localizará o brincar criativo e a experiência cultural (Winnicott, 1971/1975c).
Após o período de onipotência e ilusão, tem-se o estado de ficar sozinho na presença de alguém, ou seja, a criança supõe que a figura de amor que oferece segurança é passível de confiança e estará lá para ser encontrada quando for lembrada. A criança também desenvolve a capacidade de explorar o estágio onde pode experienciar o brincar conjunto, cultivando o espaço potencial. Compreende-se que é justamente o relaxamento provocado pela confiança no ambiente que permite que a criança tenha uma experiência criativa manifestada no brincar (Winnicott, 1971/1975b).
Nos estágios primitivos de desenvolvimento da criança, quando se vivencia uma perturbação na confiabilidade do ambiente, tende a ocorrer uma quebra de fé, uma fratura que afeta o indivíduo acreditar no meio que falhou no oferecimento da provisão (Winnicott, 1965/1994). Como exemplo, o referido autor cita o caso no qual uma paciente, ainda na infância, sofreu rupturas nas experiências satisfatórias com a figura materna, o que ocasionou, posteriormente, a perda da esperança na relação objetal. Na ocasião, a relação com a mãe passou abruptamente de uma experiência satisfatória para uma vivência de desilusão. Como consequência, aconteceu uma dissociação da personalidade, dificuldade de integração como pessoa inteira e não se sentir existindo no mundo (Winnicott, 1971/1975c).
Quando o lar falha na provisão ambiental, sem oferecer o que a criança necessita, também pode acontecer que ela demonstre inquietação ou angústia em vista da frustração. Diante da falta de esperança de que o trauma seja reparado, o indivíduo pode manter um «estado de relativa depressão» (Winnicott, 1948/2005c p. 283).
Nesse sentido, a criança que passou por privação ambiental apresenta marcas de experiências traumáticas, o que a leva a desenvolver um modo particular de se defender das ansiedades. Para que se encaminhe em direção à saúde, será necessário mais do que um reajustamento ambiental, é preciso que ela faça uso do ambiente e possa até sentir ódio, manifestando a sua fúria pelas privações experimentadas anteriormente. Antes de renunciar às defesas usadas, a criança privada de um cuidado suficientemente bom precisa de alcançar confiança na estabilidade do ambiente (Winnicott, 1950/2005a).
Entende-se que o atendimento às necessidades básicas da criança não é suficiente para um amadurecimento adequado, também é preciso dedicar amor e compreensão. Quando o adulto possibilita que a criança confie e acredite no relacionamento estabelecido, ela pode, então, sentir que possui um lar. Nas situações em que o cuidado substituto é coerente, ainda que a posição do adulto exija rigidez, a criança poderá experimentar estabilidade na relação ambiental (Winnicott, 1945/2005b).
A respeito da adolescência, o autor afirma que o modo como se enfrentará os desafios dessa nova etapa é influenciado pelas experiências infantis que, inconscientemente, contribuíram para uma organização da personalidade com certas características (Winnicott, 1984/2005d). Winnicott (1963/1983a) reconhece, ainda, a necessidade de isolamento do adolescente como um atributo ligado à construção da identidade, uma saída para resguardar o verdadeiro self, de forma que o indivíduo se defende antes que esteja pronto para ser encontrado. A fase da adolescência pode oportunizar, ainda, o encontro com o próprio eu e as demonstrações do verdadeiro self, vistas na espontaneidade, na originalidade criativa e na experiência de viver (Winnicott, 1960/1983b).
Sobre a relação terapêutica, o psicanalista menciona que a confiança depositada no analista pode desarmar as experiências de falhas da infância. Portanto, a relação entre terapeuta e paciente tende a contribuir para a esperança do indivíduo de acreditar que pode encontrar aquilo que procura, ou seja, uma nova experiência de confiança (Winnicott, 1971/1975c). Em outras palavras, o analista, na função de contexto, pode ser assimilado pelo paciente como um ambiente suficientemente bom, facilitando a esperança de que o eu possa experimentar o viver (Winnicott, 1955–1956/2000). No trabalho com indivíduos que vivenciaram privações, a previsibilidade
do ambiente pode facilitar a confiabilidade da relação, contribuindo para que a pessoa faça uso e desfrute do encontro. Essa situação é fortalecida, por exemplo, quando o terapeuta demonstra um real interesse em estar em contato com o paciente (Winnicott, 1967/1999).
Este trabalho pretende divulgar uma pesquisa realizada em um Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA) que atende crianças e adolescentes em medida protetiva, devido a risco pessoal ou social, que vivenciaram situações de abandono, abuso, exploração sexual, ameaça de morte, situação de rua ou cujas famílias atualmente não podem oferecer os cuidados e a proteção. O local é uma casa, com funcionamento 24 horas, onde moram aproximadamente 15 crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos e 11 meses, oferecendo a proteção em tempo integral. Os acolhidos experimentam o dia a dia de uma casa, vão à escola, frequentam cursos profissionalizantes, centros da juventude e da criança, obtêm cuidados com a saúde e o bem-estar. A equipe do SAICA dispõe de um gerente, um assistente social, um psicólogo, um pedagogo, 14 orientadores socioeducativos, duas cozinheiras e três agentes operacionais.
Participaram do estudo adolescentes do gênero feminino, de 13 a 16 anos. O objetivo da pesquisa foi identificar a experiência emocional das adolescentes sobre a esperança e a perspectiva de futuro em relação às suas vidas. Foram realizadas Rodas de Conversa temáticas com objetos mediadores (desenhos-estória, recorte e colagem, elaboração de cartaz), como via de facilitação para a comunicação das participantes. Os encontros foram registrados em Diário de Campo para posterior análise, a partir do referencial teórico psicanalítico de Donald Woods Winnicott.
Em decorrência da pandemia de COVID-19 e para evitar a transmissão do vírus, o número de visitas presenciais ficou restrito. Ao todo, ocorreu uma visita inicial, quatro Rodas de Conversa temáticas e uma visita de encerramento. Um ano depois, aconteceu um encontro de follow-up com a finalidade de verificar como as participantes se encontravam e quais as possíveis repercussões das Rodas de Conversa.
Neste tópico, serão apresentados excertos do Diário de Campo em articulação com a teoria psicanalítica e outros estudos recentes sobre o tema. No período de ocorrência da pesquisa, o mundo enfrentava o impacto das consequências da COVID-19. No Brasil, a imunização ainda não havia alcançado a faixa etária infantil e adolescente. Além disso, as participantes estavam há meses sem frequentar espaços fora da instituição de acolhimento. As atividades escolares eram acompanhadas remotamente, os cursos extracurriculares foram suspensos e as visitas restritas temporariamente. Portanto, na ocasião do primeiro contato com as participantes, percebeu-se certo estado de desânimo e apatia.
Na visita inicial ao SAICA, notou-se que as adolescentes manifestaram curiosidade sobre a pesquisadora e a proposta que seria desenvolvida, mas, ao mesmo tempo, mantiveram certa reserva. Essa inibição inicial foi compreensível, tendo em vista que a pesquisadora era uma figura não cotidiana para o grupo, portanto ainda não haviam sido estabelecidos laços de familiaridade. Ou seja, a confiança das adolescentes para com a pesquisadora ainda precisava de ser construída.
Outro tópico percebido foi a necessidade de as adolescentes se assegurarem quanto ao período da pesquisa, frequência e duração dos encontros. Sugere-se que para elas, que advêm de um histórico marcado por rupturas e faltas, seria importante se certificarem sobre o período em que estariam juntas com a pesquisadora, sobretudo para que pudessem decidir se valeria a pena se abrirem para o encontro e como forma antecipatória de preparação para o desligamento após o término das atividades.
Durante um dos encontros, em uma atividade de desenho e história, foi solicitada a realização da ilustração de um adolescente nos dias de hoje. Uma participante demonstrou significativa resistência e dificuldade para iniciar a atividade, questionando a sua capacidade para executar a proposta. Percebeu-se indícios de baixa autoestima e autocrítica em sua fala, além de desânimo, desinteresse e indiferença em alguns encontros. Tais expressões são confirmadas por pesquisas que apontaram agravos no desenvolvimento emocional de adolescentes em situação de acolhimento, constatados na dificuldade de expressão dos sentimentos, no desinteresse (Brito et al., 2017) e na indiferença perante as situações, esta pode ser reveladora de desesperança ou da limitação dos recursos psíquicos que preservariam a esperança (Fernandes & Oliveira-Monteiro, 2016).
Propôs-se para as adolescentes uma atividade sobre o tema: A pessoa que você gostaria de ser. Na ocasião, foi indagado ao grupo: Qual é o maior medo dessa pessoa? As respostas foram: «medo de não conseguir o que ela quer»; «medo de dar errado»; «medo de não ser bem recebida» (sic) (diário de campo). Essas falas indicaram que as adolescentes temiam o futuro indeterminado, preocupando-se se atingiriam o que sonhavam para as suas vidas, além de recearem não ser bem recebidas fora do acolhimento institucional. Nesse sentido, a fala do grupo indicou a dúvida das participantes sobre a capacidade de conquistarem um futuro promissor, ao mesmo tempo que
manifestou como pode ser difícil elas acreditarem que fora da instituição haverá pessoas dispostas a as apoiarem. Nota-se o abalo na esperança das participantes, que pode acontecer devido ao histórico de falhas na provisão ambiental, conforme evidencia Winnicott (1971/1975d).
Outra passagem manifestou a quebra da confiabilidade no contexto familiar, delatando o registro da ausência e da omissão parental. «Falaram da ausência das figuras maternas, seja devido ao falecimento ou à negligência. As figuras paternas pouco apareceram, mas quando citadas, percebeu-se uma associação com adjetivos pejorativos, devido à ausência» (diário de campo). Assim, o nível de esperança geral do adolescente acolhido pode ser influenciado pela percepção que ele possui referente à aceitação ou à rejeição parental (Sulimani-Aidan et al., 2017).
O assunto norteador de uma das Rodas de Conversa foi: Quem Sou Eu?, cuja intenção era impulsionar a autopercepção e apreender como as adolescentes se identificavam e se autonomeavam. A maioria do grupo expôs uma autoimagem com atributos depreciativos, como: «chata, impaciente, ansiosa, preguiçosa, indecisa, desentendida e não ser determinada» (sic). Apenas uma citou características positivas que admirava, como «boa conselheira, comunicativa, sociável e autoconfiante» (sic) (diário de campo). Verificou-se a dificuldade para nomearem particularidades estimáveis em si; comunicaram que era complicado eleger características que melhor as definiam, ressaltando atributos que as diminuíam. «Uma delas comentou que “não era boa em nada” [sic]… disse que “era boa em fazer confusão” [sic]» (diário de campo). Essas respostas estão de acordo com estudos que registram as possíveis consequências do acolhimento institucional na autoimagem de adolescentes, os quais podem se reconhecer vinculados a uma identidade estigmatizada (Delgado et al., 2019; Rodrigues et al., 2014).
Mesmo que a instituição seja um lugar de proteção social, parecia ser difícil para o grupo assimilar aquele espaço como um lar, ainda que transitório. «Uma adolescente falou que a vontade era de “sair do mundo, mas como não dava, queria apenas ir embora dali” [sic]… “Se você olhar em volta, tia, só tem muro e mato, como uma prisão” [sic]» (diário de campo). As falas aludem a inquietude das adolescentes para saírem da condição que estavam, no intuito de ocuparem um ambiente onde pudessem se sentir como pessoas reais; «uma das adolescentes falou que viveria sozinha no seu apartamento, porque já viveu com muita gente, está “cansada e precisa de um tempo sozinha» [sic]» (diário de campo). A posição das participantes converge com os desafios da própria adolescência, quando o indivíduo se afasta do meio externo para se encontrar junto às mudanças do mundo interior (Winnicott, 1963/1983a).
Em um dos encontros, foi proposta uma atividade de recorte e colagem com imagens de revistas para estimular pensar sobre o futuro das participantes. Uma participante verbalizou a preocupação com a maioridade e o desligamento institucional. No meio das figuras recortadas das revistas, ela destacou um relógio dizendo que a pessoa que ela pensou no futuro «está sempre correndo atrás do tempo», porque o tempo está passando e ela precisa de fazer as coisas. Acrescentou que ela se sentia assim, pois dentro de 1 ano e meio completaria 18 anos, então, «precisava pensar na vida» (sic) (diário de campo). Nota-se sentimentos ambivalentes, o desejo por maior liberdade, mas também o receio pela responsabilização sobre as próprias vidas. Essa preocupação é convergente com a literatura, ao referir que os adolescentes com previsão para a saída do acolhimento podem manifestar despreparo, desinteresse e dificuldade na operacionalização de papeis sociais (Brito et al., 2017). Ademais, adolescentes restituídos às suas famílias podem apresentar maiores níveis de esperança e bem-estar quando comparados com aqueles que permanecem sob cuidados institucionais (James & Roby, 2019).
No decorrer das Rodas de Conversa, ficou evidente como a pandemia de COVID-19 influenciou na expressão de abatimento do grupo. «Perguntei o que elas gostariam de fazer caso não estivéssemos em pandemia. Comentaram sobre a vontade de viajar, ir à praia e voltar a frequentar o CCA (Centro para Crianças e Adolescentes). Neste momento voltaram a se animar e a sorrir» (diário de campo). Compreende-se que o distanciamento social infligido pela pandemia restringiu o convívio comunitário das adolescentes, e a incerteza sobre o fim do distanciamento agravou o desânimo do grupo. Quando as participantes falaram do que pensavam fazer fora da pandemia, percebeu-se um reavivamento do ânimo, como se se recordassem das vivências positivas que um dia tiveram e do que ainda poderiam experimentar. Alguns elementos podem impactar no nível de bem-estar social dos acolhidos, como a pouca diversidade de atividades culturais e de lazer fora da instituição, podendo interferir negativamente no otimismo quanto ao futuro (Delgado et al., 2019).
Constata-se que as participantes possuíam marcas das violências, perdas e desamparos sofridos antes da medida protetiva. As contrariedades experimentadas em cada história de vida colocaram em relevo o abalo na confiabilidade e na segurança para com o ambiente. As vivências de falhas ambientais experimentadas precisaram de ser acolhidas no grupo, abrindo espaço para uma nova possibilidade de confiança no outro.
O encontro humano é um potente gerador de transformações. As Rodas de Conversa, mediadas pela pesquisadora, aconteceram não só para identificar como a esperança estaria ou não atuante na vida das adolescentes, mas também resgatar uma perspectiva de vida positiva quanto ao futuro. Nesse sentido, serão apresentados trechos do Diário de Campo que evidenciam a repercussão que os encontros alcançaram no grupo das adolescentes.
No final da primeira Roda de Conversa, após uma atividade de desenho e história, as adolescentes foram entregar as produções para a pesquisadora: «notei que organizaram as folhas em cima da mesa de modo que as histórias ficassem para baixo, parecendo querer esconder o que escreveram das demais. Elas colocavam uma folha sob a outra e me olhavam em silêncio» (diário de campo). Aquela atitude parecia mostrar que o grupo confiava à pesquisadora algo exclusivo: um pedaço de cada adolescente que guardava marcas das experiências, memórias e emoções particulares vivenciadas em suas vidas. Uma fração de esperança surgia no grupo, abrindo-se para o encontro com a pesquisadora. Winnicott (1971/1975d) aponta que a esperança pode ser resgatada quando o paciente percebe que pode confiar na relação estabelecida com o terapeuta, a ponto de voltar a acreditar que é possível ter boas experiências.
No término da terceira Roda de Conversa, uma adolescente permaneceu na sala para concluir a colagem das figuras que tinha selecionado e que simbolizavam a pessoa que ela gostaria de ser.
«Notei que em comparação às demais, ela havia separado muito mais imagens e queria guardar com cuidado os recortes. Percebendo seu impasse, me dispus a ajudá-la e enquanto ela terminava de recortar, eu colava. Ela elogiou a forma como eu colei as imagens, dizendo que tinha ficado muito bom, agradeceu por tê-la ajudado» (diário de campo).
Para a participante, as imagens representavam para lá de recortes de revistas, indicavam a concretização das próprias expectativas quanto ao futuro. A pesquisadora, então, buscou respeitar o tempo de que a adolescente precisava para encerrar a atividade, permanecendo ao lado dela, como em uma sustentação afetivo-emocional. O episódio alude à capacidade de se ficar só na presença de alguém e no brincar conjunto (Winnicott, 1971/1975a). Para tanto, é necessário confiar no ambiente, o que contribui para que o espaço potencial seja explorado. Na cena relatada, a participante e a pesquisadora partilharam de um lugar brincante de recortes e colagens, sustentado pela confiança e fortalecido pela presença habitada da profissional.
Nesse encontro, o grupo solicitou a permissão da pesquisadora para guardar os recortes consigo, que apontavam como cada uma se via futuramente. No encontro posterior, «umas delas informou que havia colocado as gravuras embaixo do colchão para não amassar e outra participante disse que deixaria colado no quarto para não esquecer o que ela quer para o seu futuro» (diário de campo). Essa atividade não apenas nutriu a possibilidade de as adolescentes sonharem, como também as colocou em contato com traços autênticos delas mesmas, do que precisava ser mantido do self central, assinalado como o potencial herdado que pode experimentar a continuidade da existência (Winnicott, 1960/1983c). É possível que, na situação, estivesse sendo comunicada a procura do grupo por se sentir vivendo verdadeiramente. Importa reconhecer o valor de oportunizar atividades que beneficiem o bem-estar e a esperança em adolescentes acolhidos, fortalecendo a confiança em si e a autoestima (Teodorczuk et al., 2019).
Na quarta Roda de Conversa, durante as comunicações a respeito do futuro e da vida após o acolhimento, as adolescentes disseram o que vislumbravam para si e com quem podiam contar, caso necessário. «Outra adolescente falou que a expectativa que tinha para não viver na rua era a sua madrinha, que se ela não conseguisse “se virar sozinha” [sic], poderia recorrer à madrinha afetiva. Outra participante disse que a única pessoa que ela contava era a avó e que esperava que a avó a tirasse do serviço de acolhimento» (diário de campo). O diálogo evidenciou a inquietação das participantes para não se sentirem sozinhas, acreditando que poderiam ter o suporte de um adulto de referência. Ressalta-se a importância de laços afetivos que proporcionem o bem-estar, a segurança e a confiança.
Em outro momento, quando se levantou a discussão sobre o tema esperança: «referiram pessoas da família: avó, irmãos, pai, mãe e tios. Também profissionais da instituição de acolhimento e figuras externas: educadores sociais, psicóloga e madrinha afetiva. Uma das adolescentes disse acreditar que pode contar com os tios, caso a avó não esteja presente» (diário de campo). A esperança em adolescentes acolhidos pode aumentar conforme se tem a presença de mentores reconhecidos como figuras de apoio (Hoffler, 2017). Acrescenta-se que, na comunicação com os adolescentes, é importante que os adultos criem pontes ao invés de muros, que abram espaço para o diálogo sem repreensão, aproximando-se da visão particular que o próprio adolescente possui da sua realidade.
Em determinada atividade, o grupo foi chamado a produzir um cartaz com dizeres e figuras que representassem o que contribuía para ter esperança. Conversou-se sobre pessoas para lá do contexto familiar que poderiam ser associadas a esse lugar positivo. A pesquisadora falou da rede de apoio e questionou se o SAICA poderia ser percebido como um ambiente de proteção.
«Elas concordaram, dizendo que a relação com os técnicos era de “amor e ódio, porque chamavam a atenção, mas queriam o bem delas” [sic]» (diário de campo). As adolescentes reconheciam a instituição de acolhimento como um espaço de confiança e proteção. Vale enfatizar o papel dos educadores e técnicos na construção de vínculos saudáveis com os adolescentes, propiciando um contexto de sustentação emocional.
No decorrer das Rodas de Conversa, «falamos sobre diversos assuntos: idade, profissão, estudo, casamento, filhos, viagem, dicas para cabelos crespos e cacheados, lugar de nascimento e pandemia, foram alguns deles» (diário de campo). Alguma identificação pode ter acontecido em decorrência da figura da pesquisadora, como a curiosidade das adolescentes a respeito da sua vida e sobre os cuidados com os seus cabelos. A pesquisadora tem a pele negra e os cabelos cacheados e a maior parte das adolescentes era parda ou preta, o que leva a pensar que o aspecto racial pode ter contribuído para algum grau de identificação no grupo. Para adolescentes em risco social, o sentimento de pertencimento e a identificação com o grupo, mesmo pela perspectiva étnico-racial, são caminhos de enfrentamento das dificuldades, de incentivo para o futuro e de facilitação para a esperança (Moses et al., 2020).
Outro momento esboça o que indicou ser a busca pelo reconhecimento da singularidade pessoal: «'Tia, acho que você poderia me chamar pelo meu segundo nome. Ninguém me chama assim“ [sic]. Sorri para ela e concordei. Tive a impressão de que algo estava sendo comunicado ali, de que seria importante para ela se sentir olhada de forma singular» (diário de campo). Durante os encontros, pode dizer-se que as participantes estavam no caminho de procura por aquilo que lhes fosse próprio e que lhes permitisse a continuidade do ser, o encontro com o próprio eu e a manifestação do verdadeiro self.
Em dado momento, foi suscitado o diálogo sobre o futuro profissional: «Uma das participantes explicou que sempre pensou em ser advogada, mas “nunca tinha parado para pensar realmente sobre isso” [sic], sobre ela possuir ou não afinidade com alguma área específica» (diário de campo). O desenvolvimento desse tema despertou no grupo a curiosidade e a possibilidade de pensar sobre a vida atual e o futuro, favorecendo a proximidade com a concretude das ideias. Nota-se o processo de amadurecimento saudável de quem está articulado com a realidade externa, com a capacidade de criar e de tomar decisões . Ademais, programas e ações que acompanhem a transição do adolescente acolhido para o desligamento institucional podem colaborar para a preservação da esperança, autodeterminação e melhora na sua saúde mental (Geenen et al., 2015).
No dia do encerramento das atividades, havia um clima agradável no grupo. «Uma delas perguntou se aquele era o último dia do nosso encontro e confirmei. Outra adolescente comentou que estava triste porque terminaria o trabalho e eu falei que também sentiria falta, pois tinha sido muito bom estar com elas» (diário de campo). A comunicação das participantes sobre o término do trabalho evidenciava a elaboração que estava sendo feita sobre o final das atividades. As adolescentes quiseram, então, desfrutar o momento. Conversaram, riram, jogaram e cantaram músicas selecionadas por elas. A pesquisadora perguntou como foi para elas participar das Rodas de Conversa: «Responderam que gostaram muito e sentiriam falta dos encontros. Disseram que foi “legal” [sic] e agradeceram por tê-las “tirado do tédio” [sic] nas quintas-feiras» (diário de campo). A pesquisadora e as adolescentes absorviam de forma saudosa as experiências que tiveram naqueles dias e o que registraram daquele encontro humano tão singular e potente.
O trabalho grupal com adolescentes em situação de acolhimento pode favorecer a identificação com os pares e o compartilhamento de vivências que tocam em algo singular, que viabiliza a elaboração e a ressignificação das suas histórias, não se mantendo reféns das adversidades, mas indo em direção à apropriação do seu ser no mundo. O trabalho em grupo possibilitou um espaço de receptividade, escuta, trocas de experiências e de trânsito de aspectos conscientes e inconscientes sobre as vidas e o futuro das participantes, sendo uma atividade que pode atuar na prevenção em saúde mental.
Conjectura-se que mesmo em meio às contrariedades da vida, as participantes demostraram importante capacidade de organização e fortalecimento pessoal. Pressupõe-se que a confiabilidade exercitada nas Rodas de Conversa, na relação entre os pares e com a pesquisadora, tenha suscitado o resgate da esperança e favorecido a possibilidade de as meninas acreditarem ser possível encontrar relações humanas acolhedoras, empáticas e confiáveis. A experiência emocional sobre a esperança foi observada na procura das participantes por relacionamentos interpessoais seguros, pelo encontro com pessoas que deem suporte social e afetivo dentro e fora da instituição de acolhimento, facilitando a sustentação da confiança das adolescentes em si mesmas.
A experiência emocional em relação à esperança também foi evidenciada na busca do sentimento de realidade, de afirmação do indivíduo no mundo e de uma vida com sentido. As adolescentes estavam nesse caminho para se sentirem reais, para sustentarem algo que lhes oferecesse contorno e
validasse a sua existência no mundo. Ainda que demonstrassem impacto na autoimagem, buscavam construir uma identidade pessoal com a qual se reconhecessem, na experiência de um viver criativo.
A esperança, mesmo vacilante em alguns momentos, foi notada ainda nas expectativas futuras, nos projetos pessoais e na forma como as adolescentes se enxergam na vida adulta. Foi possível constatar a presença de anseios e objetivos para as suas vidas, buscando trilhar um caminho promissor, com propósito e sentido. Considera-se que a proposta das Rodas de Conversa não introduziu a esperança nas participantes, antes trouxe à tona uma esperança que lá já habitava, mas andava esquecida, ainda mais pelo impacto do distanciamento social imposto pela COVID-19.
Um ano após o desenvolvimento das atividades, aconteceu um encontro de follow-up entre as adolescentes e a pesquisadora, sendo observado que as participantes estavam bem e lembravam com entusiasmo as atividades desenvolvidas, preservando as expectativas positivas para as suas vidas. Por fim, considera-se que o estudo traz contribuições sobre o tema esperança, reforçando as possibilidades de intervenções com embasamento psicanalítico, aplicadas em instituições sociais e settings diferenciados, contribuindo com as pesquisas em psicanálise extensa.
ABSTRACT
Adolescents facing personal or social risks might temporarily move to care institutions for protection. Institutional care, even if it is a safety resource, can have ambivalent impacts on the emotional development of adolescents. This work aims to present the impact on hope in female adolescents residing at a Foster Care Institution for Children and Adolescents in the city of São Paulo, SP, Brazil. Thematic Conversation Circles were conducted with the aim of understanding the participants' emotional experience regarding the theme of hope and their perspectives on their own futures. The material was analyzed using the psychoanalytical theoretical framework of D. W. Winnicott. We observed that the social distance imposed by the COVID-19 pandemic contributed to feelings of apathy, discouragement, and lack of hope in adolescents. However, from the group interventions, it was possible to rescue hope and positive expectations for the future through the establishment of a relationship of trust between the participants and the researcher. We recognize that hope, although forgotten, still inhabited the participants. Through the group's communication, it was possible to rekindle the possibility of believing and putting life plans into motion.
KEYWORDS: adolescence, psychoanalysis, hope, Foster Care Institutional.