É preciso substituir um pensamento que isola e separa por um pensamento que distingue e une.
Da «Lusamerica latim em pó»2, ou seja, de Cartagena (no Caribe, onde, junto com a América do Sul, o México e a América Central, 20 países e 10 territórios não independentes, se fala predominantemente espanhol e português, mas também francês, inglês, holandês, crioulo, quíchua, aimará, nauatle, guarani, haitiano, papiamento e línguas tupis), pela mão de um peruano, chega-nos esta reflexão. Bruce «canta o mundo, cantando a sua aldeia»3, a cultura, a história e a psicanálise da América Latina, através de 31 escritores/artistas/filósofos, 13 psicanalistas, 4 descobridores, 4 ditadores e 3 analisandos.
Do intrigante título — «a destiempo» —, cuja tradução seria extemporâneo, fora de tempo, emerge o assincrónico, o anacrónico, o descompasso… Mas todo o texto me pareceu sintónico, contemporâneo e cadenciado, como se de um manifesto se tratasse, envolvendo-nos nas arritmias intrínsecas à diversidade, à estrangeiridade, tão difíceis e necessárias ao papel do psicanalista (Horenstein, 2020) e às instituições psicanalíticas, políticas, sociais e culturais.
É um manifesto contra o totalitarismo da mente, o colonialismo, o racismo, o classismo, o fanatismo e a gritante desigualdade, vividos entre a alucinação negativa e a negação.
Um manifesto para descolonizar as mentes à moda do manifesto antropofágico brasileiro, que celebrava o multiculturalismo e a miscigenação na construção identitária. Propõe uma psicanálise crioula, a criação em gesto espontâneo da autenticidade — «Tupi, or not tupi that is the question»4.
Evoluirá essa antropofagia descolonizadora (Rivera, 2020) do canibalismo/incorporação/demoníaca para uma possível introjeção, identificação e finalmente identidade, já que, como diz Unger, «as raízes de um ser humano deitam mais no futuro do que no passado»?
Bruce identifica movimentos da IPA, em respostas significativas perante a pandemia Covid-19, na afinação dos instrumentos psicanalíticos para chegar às populações vulneráveis e abandonadas e marginalizadas, indo além…
Aponta a necessidade de re-conhecimento para evitar a re-traumatização, impedindo que a identificação ao agressor se instale: Orixá de Nanã (só confia no negro), Exu (não confia justamente no negro), Marco (os pobres são maus) e nós, sofrendo com eles a insuportabilidade da ambivalência e da alteridade.
Levantam-se algumas questões:
Porque se considera que a «América Latina tem um atraso histórico em relação às antigas potências coloniais»? Atraso em relação a quê e a quem?
O que têm os latino-americanos de latinos (portugueses e espanhóis) ou de americanos? Freud era judeu numa Alemanha antissemita e foi esse lugar de fronteira que o libertou da academia para se aventurar na sua descoberta. Não viveremos todos «em Paris sem documentos, num desejo desesperado de pertença não sempre elegante»?
O Brasil, minha mátria, é índio, é português, é africano, é italiano, é alemão, é libanês, é judeu, é japonês. Todos «os brasileiros poderiam falar do Brasil como se fossem estrangeiros […] e todos se tornaram simultaneamente colonizador e colono» (Calligaris, 1991, pp .15–16).
Tudo o que nos separa, como diz Bruce a propósito do seu analisando, mas também da colonização mental na América Latina, é justamente o que permite recuperar o Bem, nas Flores do Mal de Baudelaire: «entremos no desconhecido para encontrar o Novo!». É isso que cultivamos na formação psicanalítica e fazemos na «vida-a-vida», como diz Clarice Lispector.
Entre o crioulo e o português, «o objetivo não é criar uma língua híbrida, mas usar as duas, colocá-las numa relação quase erótica em que uma traz aquilo que a outra não tem, uma diz o que a outra ainda não consegue dizer» (Almeida, 2018, p. 9). Poderíamos pensar na psicanálise latino-americana dizendo o que a europeia não tem ou não consegue e vice-versa?
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Federação Europeia de Psicanálise (FEP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Analista da Criança e do Adolescente, atual Vice-Presidente da SPP, formadora do IP e de Observação de Bebés – Método Bick. Autora do blogue Cinema & Psicanálise (). Editora da Freud & Companhia (). E-mail:
Caetano Veloso, «Língua» (Vêlo, 1984)
Relativa à famosa frase de Lev Tolstoi: «canta a tua aldeia e cantarás o mundo».
Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, 1928.
Mais do que o enrijecimento calcado na falta como definidora do funcionamento mental, passaríamos à plasticidade dos processos e à necessidade de articular. Passaríamos à teorização da fronteira (Melícias, 2019), como incubadora da intersubjetividade.
Cabe-nos recuperar o espírito aventureiro freudiano (anacrónico) e a plasticidade e criatividade («novo») tal como o cinema e a psicanálise originariamente irmanadas no seu potencial de resistência.
Poderia este Des-tiempo (descompasso) criar, pelo avesso, um Des-espacio (o «novo», o negativo) através de um Despacio (devagar, lentamente)? Um ritmo, vital ao processo de transformação, remetendo para a inseparável dimensão/tensão espaciotemporal?
Bruce diz não ter a chave, mas aponta o nó górdio: a inquietude, a incerteza e manter aberta a possibilidade de diálogo. Ao fazê-lo, criam-se novos territórios/fronteiras que, ao invés de se dogmatizarem em muros, permanecem lugares de passagem.
O potencial da condição fronteiriça da América Latina, da própria psicanálise e do funcionamento humano, poderia ser então figurado por três vias:
Não seremos todos Calibáns? O estranho que nos habita na luta pulsional entre o princípio de prazer e o de realidade. O «selvagem», sem integrar a pulsão de morte, agida nas guerras, nas crises, na recusa à diferença, ao outro escravizado em nós e por nós. Caberia à psicanálise, aquém e além fronteiras, a luta contra a escravização (intra, inter e transubjetiva) insistindo no sonho de miscigenação-alteridade?
Não constituiria a psicanálise um Futuro Ancestral? Título do último livro de Krenak5 que abre com uma poética imagem: os meninos remando numa canoa dentro dos rios (o seu território), dizendo: «nossos pais dizem que já estamos chegando perto de como era antigamente». Aproximar-se-ia o futuro da psicanálise da ancestral utopia de Freud (1918/1969) — uma psicanálise engajada e alargada aos desfavorecidos e traumatizados pela catástrofe da Guerra — questionando-se se seríamos «obrigados a fundir o puro ouro da análise com o cobre da sugestão direta»?
Não encarnaria a América Latina o «Ocidente, futuro do passado» (Pessoa, 1934)? A comissão organizadora do Congresso Corpo (FEPAL, 2016), curiosamente também em Cartagena, convidou colegas de Portugal e Espanha, numa interessante abertura ao diálogo e articulação. Incluiu no seu website o ‘corpo’ cultural e histórico de cada Sociedade, as cartografias psicanalíticas da América Latina ao lado das sociedades «colonizadoras» E cito: «Transportados a um tempo-espaço primordial, a saturação europeia das armaduras é confrontada com a nudez corporal dos nativos. O conflito estético deste encontro originário realça o paradigma dessa mútua e mutante descoberta: quando se dá o encontro com seres diversos, a nudez mais surpreendente é a cultural» (Melícias, 2016).
Finalizando, não será através do elo multicultural que se abre o «Novo»? Entre uma antropofagia/canibalização da psicanálise e uma metabolização-rêverie, Bruce traz-nos importantes instrumentos de reflexão.
Resta-nos, numa dança primordial para a frente e para trás, como diz Florentino Ariza, irmos descortinando «novas» alquimias e coreografias: no ritmo do tempo, do corpo, dos instrumentos, criando assim o espaço. «Até ao fim das nossas vidas!»
Primeiro escritor indígena recém-eleito imortal da Academia Brasileira de Letras.