As crianças e os adolescentes são cidadãos de pleno direito e agentes ativos da sociedade. Pela sua natural imaturidade, são particularmente vulneráveis a fatores de risco em saúde mental, o que os coloca na necessidade de cuidados e proteção por parte dos adultos próximos, assim como das estruturas comunitárias e das políticas sociais e de saúde. Múltiplos são os argumentos em favor da implementação de ações consertadas que privilegiam a intervenção precoce, orientadas para o diálogo interdisciplinar, comprometendo parceiros de qualidade nessas escolhas.
Falo-vos de um lugar de experiência e reflexão. Durante um bom par de anos, conciliei a minha formação e atividade psicanalítica com o trabalho no setor público, nomeadamente nas áreas da toxicodependência e comportamentos aditivos, sistema prisional, sistema de proteção a crianças e jovens em risco, cuidados de saúde primários, políticas de saúde mental. Diria que os desafios que se apresentam ao psicanalista no terreno são tão insondáveis quanto enriquecedores. Por um lado, a necessidade de se atender às culturas em jogo, o apelo a que se estabeleçam pontes, o esforço no sentido de se aceder e traduzir os múltiplos códigos das realidades intersetoriais colocam o psicanalista fora da sua zona de conforto num permanente exercício de humildade e de criatividade. Por outro lado, a oferta de uma escuta subjetiva e humanista, a partilha da narrativa fundada a partir da experiência emocional e a tolerância à dor mental tornam-se contagiantes experiências de sentido e de transformação.
Eventualmente controversos, mas seguramente inspiradores, são trabalhos como o que neste artigo se apresenta testemunhos vivos da relevância e do alcance do pensamento analítico, na sua plasticidade e possibilidade de expansão ao real contemporâneo. Esta conferência levou-me à memória de alguns desses momentos do meu próprio percurso profissional, mas também me incitou a reler e a articular referências clássicas da psicanálise, com que proponho enquadrar e aprofundar a reflexão.
Na psicanálise, a criança foi tendo diferentes lugares e representações. As descobertas de Freud acerca do funcionamento inconsciente e da sexualidade infantil levaram a uma mudança na forma como era vista a inocência infantil. Embora inferindo a partir do atualizado nas análises de adultos, e sem as observar diretamente, Freud colocou o universo das crianças no epicentro do pensamento psicanalítico. Tanto a dimensão maliciosa como a problemática da (des)obediência estão inscritas neste imaginário, onde a teoria da sedução primária cedo foi abandonada, para dar destaque a uma etiologia sexual das neuroses, fortemente influenciada pela clínica das histerias, onde a violência dos sintomas decorreria da conflitualidade intrapsíquica e seus esforços defensivos e adaptativos.
Discípulo direto de Freud, Ferenczi dedicou-se à clínica com pacientes regredidos e com patologias-limite, na época designados por «casos difíceis». Retomou e acrescentou ao conceito de trauma, estudando o impacto precoce da realidade externa na construção psíquica do sujeito. Precursor das teorias de relação de objeto e de outros conceitos fundamentais da psicanálise contemporânea (como, por exemplo, a contratransferência), um dos seus legados foi a observação da importância do vínculo emocional entre analista e analisando para a mudança psíquica.
O pensamento inovador de Ferenczi persistiu, sendo progressivamente recuperado e reconhecido quando aplicado a outras formas contemporâneas de subjetivação, nomeadamente na compreensão do trauma através de conceitos como dissociação psíquica, anestesia e identificação com o agressor. Os seus trabalhos no campo da teoria da técnica mostram o alcance e a atualidade das suas descobertas, inspirando a adaptação a outros
Membro titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Psicanalista de crianças e adolescentes. E-mail:
settings, nomeadamente no caso das expressões de violência e do sistema de proteção a crianças e jovens em risco, de entre outros domínios.
Um dos principais contributos do pensamento clínico de Ferenczi é a articulação entre as noções de trauma, suas vicissitudes e repercussões psíquicas, com o impacto do desmentido. No fundo, podemos dizer que é a conjunção entre a violência do facto e seu desmentido que configura a total substância do traumático. Perante um acontecimento de intensidade e imprevisibilidade insuportáveis e impossíveis de elaborar, a clivagem surge como defesa: o psiquismo faz um movimento para frente, na tentativa de neutralizar o trauma, mas com sacrifício da própria coesão do Eu; este desmantelamento tem tradução ao nível da razão e da emoção, de forma que o saber e o sentir estão desligados. No interessante trabalho de 1923 «O sonho do bebé sábio», Ferenczi elabora acerca da criança traumatizada (que sabe tudo o que se passa à sua volta, mas nada sente), que se vê pressionada a desenvolver-se prematuramente para dar conta do seu sofrimento psíquico na ausência de cuidado adulto. Num ímpeto sobrevivente, substitui-se ao cuidador e, renunciando a ser cuidado, torna-se cuidador do ambiente que o cerca (Ferenczi, 1923/1993).
Para melhor compreender este fenómeno, é necessário recorrer ao conceito de identificação, e, em particular, de identificação ao agressor. Contrariamente a Freud, Ferenczi, não concebe a identificação no sentido regressivo, desenvolvendo antes a noção dinâmica de progressão traumática (Ferenczi, 1933/1992, p. 119).
A problemática das crianças mal-amadas, vistas como uma espécie de «hóspedes que não foram bem-vindos na família», corresponde, de certa maneira, ao negativo de «Sua Majestade, o Bebé», de Freud (1914/1980). Sinais tais como a desconfiança, o ceticismo, a pobreza no fantasiar e o desapego à vida são consequências psíquicas infantis que são percebidas nesses pacientes muito precocemente, «registraram bem os sinais de impaciência da mãe e que sua vontade de viver viu–se, desde então, quebrada» (Ferenczi, 1929/1992, p. 59).
Mas se o acontecimento traumático produz violência psíquica, o que se lhe segue tem uma importância extrema, ou seja, é determinante a forma como é recebido, percecionado, compreendido, validado e devolvido. Quando é negado, desqualificado, censurado ou reprimido, o que é desmentido é o próprio sofrimento da criança e, no limite, a sua própria existência psíquica, deixando-a num conflito impossível: confiar no que lhe é dito ou na evidência do que sente, o que compromete a confiança nos vínculos com os adultos. Para Cabré (2017), o desmentido apresenta-se como o aspeto mais violento do trauma, sendo um novo ataque à possibilidade de compreender o sentido do acontecimento.
Gostaria de partilhar uma importante parte do meu percurso profissional. Nos anos 90 do século passado, desenvolvi um projeto inovador dedicado aos filhos de toxicodependentes. O trabalho clínico com estas crianças e as suas famílias, assim como as tentativas de articulação com o sistema de proteção, educação e saúde mental, foi das experiências mais inquietantes e apaixonantes que vivi. Os invariantes encontrados perfiguram facilmente a definição de trauma, tal como é por Marans descrito, variando no seu grau de cronicidade, mas, frequentemente, observável num quadro de PTSD. Exemplos vivos daquilo que é esperado do ponto de vista sintomático, o que mais se destacava nestas crianças era justamente a obediência, a adaptabilidade, e a parentificação, característica que era, em regra, perversamente apreciada e até incentivada pelos adultos significativos. Por vezes, manifestava-se alguma irrequietude, mas o que sobretudo se constatava era um pobre acesso ao imaginário e à capacidade de desenvolver jogo simbólico e de brincar. Hiperatentos e hipersensíveis aos estados emocionais do adulto, estas crianças sobreviviam aparentemente invisíveis na família alargada, nas escolas, nos cuidados de saúde, pois não causavam problemas e não apresentavam queixas. Foi a minha atenção particular à realidade destas crianças, muitas vezes acompanhantes e até cuidadoras dos seus pais, utentes do serviço onde trabalhava, que me intrigou e impeliu a proporcionar-lhes um lugar. Uma vez vistas e escutadas, seguras do seu espaço relacional terapêutico então criado, estas crianças usufruiam e reinvidicavam esse mesmo lugar, podendo finalmente viver a experiência de um encontro intersubjetivo que lhes permitia a experiência, por vezes fugaz, de existir para alguém, e ensaiavam a construção de narrativas num sonho-a-dois. Vinicius de Moraes, no seu Soneto da Felicidade, diz que o amor é eterno enquanto dura; assim recordo este trabalho com estes meninos, com a dor e a esperança de que, tendo sido tão pouco, possa ter sido muito.
Rafael, um dos meninos que acompanhei neste projeto, num período que sucedeu à fase da desconfiança e do mutismo iniciais, repetia incessantemente comigo um jogo em que se escondia numa espécie de toca por si construída com almofadas, e em que o meu papel era o de o procurar e encontrar. Durante muito tempo, aquando do (re)encontro, discretamente celebrado, Rafael encarnava a personagem de um ratinho ou de um gatinho que, ante as minhas exclamações de contentamento, apenas guinchava ou miava. Mas não esquecerei o dia em que, contrariando a rotina, Rafael me pediu: «Eu agora já não era um bichinho, está bem? Eu agora era um menino de verdade!»
O filme Inteligência Artificial, de 2001, realizado por Steven Spielberg a partir do conto «Supertoys
Last All Summer Long», de Brian Aldiss , atualiza o drama do clássico Pinóquio, colocado-o num distópico transbiónico cenário futuro. A história do Pinóquio lembra-nos que existir para alguém é a chave da humanização. A condição humana de vulnerabilidade e de adaptabilidade gera estados emocionais contraditórios e criativos, assentes na necessidade da relação e na experiência subjetiva. A vida é um desafiante enigma, ancorado na procura sobre as origens e projetado no sonho sobre o futuro. Nesta conjetura biopsicossocial, o conceito de saúde e bem-estar reflete um entendimento lato, abrangente e dinâmico. Equilíbrio em construção ao longo do ciclo de vida, há uma responsabilidade que reverte para o próprio e para os demais, sustentada pela literacia e pela proatividade no cuidar e ser cuidado. As dimensões ligadas ao autoconhecimento e à saúde mental são tanto necessidades como motivações e, na evolução de todos, conta-se a história de cada um. As inevitáveis transformações da passagem do tempo em nós deixam marcas de um futuro que interroga o passado: Quem somos? Quem seremos, na medida em que fomos para alguém?
Nesta procura de sentido, pessoal e coletivo, o outro é inicialmente tido como um objeto mágico, tornando-se depois objeto de curiosidade, para progressivamente alcançar o estatuto de objeto de conhecimento. Este conhecimento é intemporal e transversal : narrativas sobre o futuro inspiraram pensamentos e produções filosóficas, culturais e científicas ao longo dos tempos. Nestas, alguns temas persistem, testemunhando a sua importância axiomática. Representados na sua forma utópica ou distópica, a morte, o amor, a liberdade, a justiça, a verdade estimulam o nosso imaginário, desafiam a nossa investigação, ao mesmo tempo que interrogam a nossa ética civilizacional. As crianças e os adolescentes, cujos comportamentos são naturalmente orientados pela recetividade, pela curiosidade e pela confiança, são alvo de intervenção prioritária nas medidas de prevenção da saúde mental e de promoção do bem-estar.
A clínica destes traumas deve possibilitar as condições necessárias para uma inversão de sentido destes processos precocemente maturativos, que encerram a violência da não existência do próprio, dando lugar a uma intrusão violenta do outro. A identificação ao agressor pressupõe um movimento psíquico de incorporação, ou seja, uma vez tornado intrapsíquico, o sentimento de culpa do adulto agressor passa a ser sentido pela criança e «o jogo até então anódino apresenta-se agora como um ato merecedor de punição» (Ferenczi, 1933/1992, p. 117). Podemos situar nesta clivagem a origem de um superego cruel e tirânico, que permitirá compreender dinâmicas de ordem sádica e masoquista, atualizadas na clínica.
A psicanálise é portadora de um legado que se quer manter vivo, relevante e atual. Os desafios à técnica passam por desenvolver ferramentas sensíveis à escuta destes movimentos insidiosos e silenciosos, e profundamente sofridos. Os desafios da contemporaneidade passam por proporcionar um ambiente de confiança onde os vínculos possam ser restaurados. Em adaptações à neutralidade clássica, a naturalidade, a honestidade e o tato do analista são qualidades fundamentais. É preciso sintonizar e poder conter no nosso interior as emoções, contrariando a violência original. Não surpreende que, na aplicação destas qualidades a outros settings, como no caso deste projeto, seja possível e, até mesmo, favorável, a criação de uma rede de adultos de referência com autenticidade e mundividência suficientemente robustas para conter e ajudar a reverter o impacto das experiências traumáticas. Faz aqui sentido recuperar a expressão popular que diz que «É preciso uma aldeia para criar uma criança». Para a resgatar também.