Muito me apraz, e agradeço, ter sido convidada para comentar o trabalho apresentado por Sverre Varvin, da Sociedade Norueguesa de Psicanálise.
Começo por destacar o quanto me pareceram felizes e profícuos os termos escolhidos — terceira posição e mediação —, pela abrangência do seu alcance e a sua intersectorialidade, não só porque aplicados aos processos psicoterapêuticos, mas também porque aplicados a uma intervenção que envolve outros agentes sociais e institucionais.
Desde o seu surgimento que a Psicanálise se tem debruçado sobre condições extremas de violência e tem apresentado propostas sobre as ligações a estabelecer entre Thanatos e Eros. Neste texto. também o mesmo foi feito. Neste domínio. destaco a proposta apresentada para que se opere a passagem da atenção do trauma para a constituição de novas formas de simbolização que permitam entretecer o passado e o presente, em termos intra e interpsíquicos.
Esta proposta teve um forte e positivo impacto em mim, sobretudo a dois níveis: (a) por um lado, o encontrar expresso, bem fundamentado e tornado coerente e convergente o quanto o edifício psicanalítico é vivo e se vai expandindo em função das novas realidades psicossociais e dos novos campos de intervenção dos psicanalistas, possuindo formas de dizer e de fazer relevantes no atual quadro da nossa vida em sociedade; (b) por outo lado, a partir do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo CEC–Ispa, foi possível ecoar e prolongar algumas das propostas do texto considerado. Neste domínio, destacamos o quanto a noção de trauma reportada às condições e acontecimentos de vida dos refugiados apenas nos países de origem peca pela sua insuficiência, distorce e desculpabiliza-nos, ou seja, mesmo que vividas situações de violência extremas que determinaram a migração forçada, infelizmente estas situações prolongam-se pelas tongas e perigosas travessias até chegarem aos campos de refugiados, onde permanecem anos sem fim em situações deploráveis; e depois, o acolhimento e acompanhamento nos países onde são recolocados, onde novas formas de negação e rejeição da sua vida e sofrimento se prolongam até no simples facto de não serem documentados e aguardarem infinitamente acesso a autorização de residência. A situação dos menores não acompanhados é ainda mais dramática, pois têm de gerar os seus próprios recursos e encontrar alojamento e formas de subsistência próprios, mas não o podem fazer porque menores e sem residência.
Reportando-nos ainda à nossa experiência direta com estas populações, revelou-se fundamental trabalhar com as entidades e instituições que acompanham os refugiados. Desde diminuir ou extinguir os discursos marcadamente médicos e sintomáticos ou assentes nos comportamentos, no risco e no perigo, e concomitantes intervenções medicamentosas, até tornar visíveis estas pessoas como portadoras de um sofrimento que tem de ser elaborado, precisando de tempo e espaço para que tal aconteça, mas possuidoras de um património cultural e linguístico que temos de considerar, valorizar e deixar que se entreteça com o que de novo estão a viver. Aqui, seremos mediadores e podemos e devemos chamar até nós mediadores, antropólogos e outros aliados. Em diversos campos de intervenção, sabemos fazê-lo, temos provas dadas.
Professora Associada em Psicopatologia e Psicologia Clínica, Ispa. Diretora do Centro de Etnopsicologia Clínica (CEC) – APPsyCI – Ispa. Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: emarques@ispa.pt.