Temos o prazer de apresentar o novo número da Revista Portuguesa de Psicanálise, no qual elegemos o tema das ferramentas do analista, e o próprio analista, na sua subjetividade, enquanto instrumento da análise. Neste número, vemos refletidas as influências de Freud, de Ferenczi, de Green e, também, as de Lacan, de Winnicott e de Bion para a construção de uma psicanálise contemporânea, no que respeita à sua matriz complexa e pluralista: referimos, nomeadamente, as áreas da contratransferência, do trauma, bem como a que decorre do abandono de um estilo analítico interpretativo.
Nesta sequência, a secção Fundamentos inicia-se com o artigo de Uriel Garcia Varela, intitulado «1920, a década da viragem para a ordem materna», no qual o autor apresenta uma visão da psicanálise contemporânea, nascida dos contributos de Ferenczi e de Otto Rank. Estes últimos enfatizaram o papel determinante da ligação mãe-bebé na etiologia da perturbação psíquica, partindo da mudança conceptual que Freud havia operado, mediante as conceções de pulsão de morte, a segunda tópica e uma nova etiologia para as perturbações psíquicas: além da angústia de castração, surge a angústia sinal da perda do objeto, angústia automática, a qual tornou possível o tratamento analítico das estruturas não neuróticas e das falhas ambientais primitivas.
No artigo de Idete Zimerman Bizzi, intitulado «Metapsicologia do analista: Subjetividade primária, atributos de personalidade e contratransferências criativa, estrangeira e viciosa», a autora propõe a autorreflexão do analista e da supervisão mediante o conceito de «subjetividade primária do analista»: a participação da subjetividade do analista no processo de cocriação do terceiro analítico intersubjetivo.
Distingue os conceitos «atributos fundantes e determinantes da subjetividade do analista» daqueles que são constitutivos, neutros ou pulsionais e que introduzem um viés pessoal no campo analítico.
Na secção Clínicas, Manuela Harthley, com um artigo intitulado «A interpretação: Um encontro de lógicas infinitas», baseia-se nos conceitos de Matte-Blanco da «bi-lógica» para analisar a multiplicidade de interpretações equivalentes. Parte da simetria emocional para estabelecer diferenças e similitudes no processo de transformação através da análise.
O texto de Sandra Pires, «Abordagem psicanalítica institucional em territórios de adições e perturbação borderline da personalidade», é apoiado nos desenvolvimentos teóricos de Otto Kernberg, Ogden e Bick, para ilustrar a relevância do pensamento analítico na compreensão da dinâmica da transferência-contratransferência para aceder ao funcionamento mental e à adesão ao tratamento nos pacientes de difícil acesso e com dificuldades de continuidade terapêutica. A autora ilustra o pensamento com uma vinheta clínica.
No artigo «A função do desejo do analista nas entrevistas iniciais», Maria Eduarda Freitas Moraes parte da ótica Lacaniana para refletir sobre a função do desejo do analista nas entrevistas iniciais — abrir espaço à emergência do desejo do sujeito do inconsciente — e não indicar caminhos sobre como viver: esta função sustenta a transição da queixa inicial para o pedido de análise e desperta o desejo de realização de trabalho que interroga o sintoma.
Na secção Auditório, Eric Smadja apresenta o artigo «La complexité du rire humain», no qual o autor elabora uma abordagem pluridisciplinar do fenómeno do riso que compreende: a investigação etológica (ontogenética, filogenética e fatores de historicidade); a psicológica, psicanalítica e neurológica, a sócio-antropológica.
Em Formação Contínua, Isabel Quinta da Costa efetua uma recensão do livro A capacidade de estar só, de Celeste Malpique, que sublinha a importância deste conceito winnicottiano na prática clínica e nos seus desenvolvimentos.
Na secção Pesquisa, os autores Filipa Falcão Rosado, Teresa Santos Neves, Sandra Roberto, Orlando Cruz Santos e Luís Martins Pote apresentam um texto intitulado «Investigar em psicanálise? Contributos teórico-metodológicos a partir de uma investigação conceptual
sobre a contratransferência», no qual debatem o lugar da psicanálise na pesquisa e os seus processos criativos.
Inaugura a secção Vertigem «O futuro no divã» o artigo de Miguel Calmon du Pin e Almeida, «A psicanálise e o mundo. O mundo e a psicanálise», no qual é questionada a suposição de uma diferença radical entre natureza e cultura e seus efeitos na psicanálise. Miguel Serras Pereira, como ensaísta, convoca-nos, mediante um texto poético, a associações psicanalíticas fora do tempo cronológico, lugares onde podemos criar e sonhar. Miguel Pinto Barros, por sua vez, foca-se no futuro da psicanálise no mundo contemporâneo, salientando a importância da interdisciplinaridade, da investigação, da produção científica e da presença dos psicanalistas nas instituições. Finalmente, Fernando M. Gómez, num regresso ao que é essencial no desenvolvimento psíquico das crianças e adolescentes e como princípio orientador da nossa vida emocional, propõe que o amor e a ternura deverão ocupar um lugar central na representação do futuro dos adolescentes, constituindo as âncoras emocionais que lhes permitirão lidar com as rápidas transformações do mundo contemporâneo.
Esperando que este volume, dedicado a ideias e a debates atuais, possa contribuir para o resgate de questões essenciais da psicanálise, convidamo-lo à sua leitura e agradecemos aqueles que connosco publicaram.