Através do conceito original de subjetividade primária do analista, a autora destaca, examina e descreve analiticamente elementos subjetivos de natureza própria, idiossincrática da pessoa do analista, ativos na práxis analítica. Caracterizados pelas qualidades de unicidade e alteridade no campo analítico, tais fatores colocam em relevo e abrem novas perspectivas para o estudo do fator da metapsicologia do analista, diversa e complementar da metapsicologia do paciente. Sob a perspectiva intrassubjetiva, a subjetividade primária do analista é a matriz anímica, rocha-mãe sobre a qual repousa a escuta e sensibilidade analítica, podendo originar uma contribuição constitutiva e, de forma complementar, uma contribuição institutiva para o encontro dual. Sob a perspectiva intersubjetiva, os conceitos originais de contratransferência criativa, estrangeira e viciosa privilegiam a observação da vitalidade ou empobrecimento analítico de que a subjetividade primária se investe na trajetória analítica. Em circunstâncias habituais, a subjetividade primária do analista contém e faz vibrar, como um diapasão, o conteúdo mental do paciente. Sobrecarregada, porém, tende a funcionar como um diapasão rígido, em que o encontro das extremidades metálicas produz ruídos inaudíveis, ou, inversamente, como um diapasão hiper-reativo, gerando sons amplificados, excessivos, que impedem a natural rêverie, e, por consequência, limitam a formação do terceiro analítico intersubjetivo.
Membro Efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Formadora do Instituto de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. E-mail: idetezbizzi@gmail.com
Um indivíduo vem para me ver; ele acha que eu sou um psicanalista; eu acho que ele é um paciente. Na realidade, não sei.
Desde seus tempos pioneiros, a psicanálise é desafiada a refletir no papel da subjetividade idiossincrática do psicanalista na terapêutica psicanalítica. O conceito de contratransferência, cunhado por Freud em 1910 no primeiro congresso de psicanálise, um dos temas mais controversos e polêmicos do cabedal teórico da psicanálise, é um primeiro movimento em direção ao reconhecimento e conceitualização analítica dos fatores profundamente variáveis, imprevisíveis e potentes da subjetividade do analista, ativos no processo analítico.
A atenção dada pela comunidade psicanalítica a esse tema, ao longo de seus 120 anos de existência, é marcada por oscilações, adormecimentos e despertares que parecem refletir tanto as dificuldades inerente à conceitualização de fatores tão abstratos, quanto a presença de potentes resistências, individuais e grupais envolvidas nesse campo de estudo. Aproximadamente duas décadas após os movimentos iniciais de atenção à temática da contratransferência nos anos pioneiros, a produção científica relativa a esse conceito entra em um período de dormência, pelos próximos 20 anos, e ressurge, a partir da década de 1950, com grande vitalidade, alçando a subjetividade do analista no processo analítico a um papel central (Bizzi, 2023b). A partir daí, o estudo consistente da subjetividade do analista recebe aportes significativos, tanto de autores que desenvolvem novos paradigmas conceituais de contratransferência, como Racker (1953, 1959), Heimann (1950/1995), Little (1951), Kernberg (1967), Sandler (1973), quanto de autores que abordam a temática através de modelos teóricos sob premissas e terminologia originais e revolucionárias, como Winnicott (1951/1971, 1956/2007, 1960/1990, 1968/1989), Bion (1962/1991, 1970/2018, 1980/1992), Barangers (1961–1962), Green (1974, 1990, 2005a) e Ogden (1994, 2019, ). Dentre as dificuldades que se impõem à pesquisa conceitual relativa à pessoalidade subjetiva do analista, em sua práxis analítica, e fundamentais
Dando seguimento à pesquisa conceitual desenvolvida em trabalhos prévios, neste trabalho eu busco discriminar, a partir do todo que é o campo analítico, em sua natural amálgama bipessoal, o componente que corresponde à metapsicologia do analista. É fundamental destacar que a metapsicologia do analista à qual me refiro é distinta da metapsicologia do indivíduo que exerce a psicanálise. A metapsicologia do analista envolve a interação analítica em plena tessitura; a metapsicologia unipessoal do indivíduo que exerce a psicanálise não difere da metapsicologia de qualquer pessoa, analista ou não analista.
Como ponto nodal do exame da metapsicologia do analista, cunho e desenvolvo o conceito de subjetividade primária do analista, que descreve analiticamente as partículas elementares da subjetividade inerente a cada analista, esteio e porto da vivência intersubjetiva analítica. A partir dessa delimitação e conceitualização, abrem-se novas perspectivas para a tarefa de estudo do fenômeno analítico, separadamente, em suas dimensões intra e intersubjetivas. Sob a lente intra-subjetiva do analista, proponho os conceitos de atributos fundantes e determinantes da subjetividade do analista; e sob a lente intersubjetiva do analista, proponho os conceitos de contratransferência criativa, estrangeira e viciosa, que busco ilustrar com vinhetas clínicas.
O termo subjetividade primária do analista, que proponho, busca conceitualizar analiticamente os elementos subjetivos próprios, inerentes ao analista em sua práxis. Correspondem a determinadas
características, forças, traços, pulsões ou desejos primariamente seus, que diferenciam-se do fenômeno intersubjetivo e do fenômeno intra-subjetivo analíticos, ao mesmo tempo que deles participam e através deles se transformam minuto a minuto.
A palavra subjetividade coloca em relevo o sujeito que exerce a função analítica, e que emprega seu aparelho mental em diversos e complementares níveis. Sob a ótica intersubjetiva, o analista é o sujeito que emprega sua subjetividade na co-criação do espaço potencial analítico, chamado por Ogden (1994) de «o terceiro analítico» e por Green (1974) de «objeto analítico». Sob a ótica intrapsíquica, o analista é sujeito da própria vida pulsional: possui uma vida de fantasia, valores éticos conscientes e inconscientes, repertório simbólico e proto-simbólico, relações objetais prévias e circunstâncias de vida que se presentificam (e se transformam) a cada encontro analítico.
O termo primária destaca a organização prévia de estruturas, elementos do mundo interno, personalidade e estados mentais do analista, que existem independentemente da dimensão intersubjetiva da experiência, e que nela submergirão e dela emergirão sucessiva ou simultaneamente. Sob o prisma genético-dinâmico do sujeito que é o analista, a palavra primária sublinha, cronologicamente, o aspecto arcaico, primitivo, de seus núcleos psíquicos, que equivalem ao conceito de Winnicott (1960) de verdadeiro self, inacessível.
O conceito de subjetividade primária do analista indica, dessa forma, dentre os elementos psíquicos do analista presentes no todo que é o campo analítico, aqueles nascidos em sua pessoalidade, cujas qualidades patognomônicas são, como desenvolvo a seguir, a unicidade (caráter de ser única, diversa da subjetividade do paciente) e a alteridade (caráter de ser outra, externa, e existir independentemente do paciente).
Contemporaneamente, a afirmação de que uma análise jamais será igual a outra é largamente contemplada na produção acadêmica psicanalítica. O caráter de ser único, no que se refere ao vínculo analítico, depende, dentre outros fatores, de elementos originais do aparelho mental do analista, que lhe alicerçam a capacidade de gerar significados e conteúdo mental de natureza pessoal, não reprodutíveis por outros
analistas ou pelo mesmo analista em momentos distintos. A premissa de tal influência, presente de forma central na obra de autores como Winnicott (1951/1971, 1956/2007, 1960/1990), Bion (1970/2018, 1980/1992), Green (1974, 2005a) e Ogden (1994, 2019), dá-se por caminhos pouco claros, que merecem reflexão.
Em O terceiro analítico: Trabalhando com fatos clínicos intersubjetivos, Ogden (1994) propõe uma decomposição do fenômeno analítico em suas partes componentes, e o concebe em um formato tripartido: o polo subjetivo do paciente, o polo subjetivo do analista e o polo do terceiro analítico intersubjetivo. O conteúdo psíquico e estados mentais gerados pelo encontro inconsciente das subjetividades individuais do analista e do analisando, segundo o autor, constituem um terceiro espaço, zona simbólica e/ou proto-simbólica da qual ambos participam, e da qual ambos se apartam de tempos em tempos. O movimento de imergir no terceiro analítico e dele emergir, para observá-lo (ou observar-se a si, dentro do terceiro), formam a essência da experiência analítica para esse autor, de forma que a rêverie intersubjetiva complementa-se e convive, em permanente tensão dialética, com a rêverie unipessoal, tanto do analista, quanto do paciente, separadamente.
«[…] a intersubjetividade do analista-analisando coexiste em tensão dinâmica com o analista e o analisando como indivíduos separados, com seus próprios pensamentos, sentimentos, sensações, realidade corporal, identidade psicológica, etc.» (Ogden, 1994, p. 59)
Green (1974), na mesma linha, citando Winnicott, ressalta que a capacidade de simbolização gerada no encontro analítico baseia-se no espaço potencial que se desenvolve entre dois discursos diversos, em cujos polos (paciente e analista) encontra-se um sujeito que possui uma linguagem própria. Em suas considerações, está patente a premissa de que há elementos subjetivos idiossincráticos inescapáveis que o analista institui no encontro terapêutico, em especial na clínica limítrofe.
«[…] os casos difíceis […] são precisamente aqueles que colocam à prova o analista e solicitam sua contratransferência — no sentido estrito —, exigindo ao mesmo tempo dele uma contribuição pessoal mais pesada». (Green, 1974, p. 74)
Além da característica de unicidade, a qualidade de alteridade que caracteriza a subjetividade primária do analista, conforme proponho, refere-se ao fato de que o analista não apenas representa algo (fenômeno de natureza transferencial) mas apresenta-se como um elemento outro, externo ao mundo interno do paciente, em equivalência ao que Winnicott (1968/1989) descreve como um fenômeno da natureza do uso.
Winnicott (1968/1989), em O uso de um objeto, argumenta que relacionar-se com o objeto ou usar o objeto constituem fenômenos distintos, mesmo que afins. O fenômeno de comunicação inconsciente da teoria de relações de objeto, segundo o autor, incluídas identificações projetivas, introjetivas e catexia objetal, fornece um modelo de experiência anímica em termos do sujeito individualmente, sem a necessidade de existência de um objeto externo independente do sujeito. Já o fenômeno de uso do objeto, diversamente, engloba a experiência de relação objetal acrescida de algo mais. Esse algo mais, complementa Winnicott, depende diretamente da natureza e comportamento do objeto, existente por si, não como uma projeção, mas como algo da ordem do real.
«Por exemplo, o objeto, se é que tem de ser usado, deve ser necessariamente real, no sentido de fazer parte da realidade compartilhada, e não um feixe de projeções. É isso, penso eu, que contribui para estabelecer a grande diferença existente entre relacionar-se e usar.» (Winnicott, 1968/1989, pp. 123–124)
A capacidade de usar o objeto, pondera o autor, é uma importante conquista maturacional para o sujeito, e requer alguma dose de ajuda por parte do objeto, a que Winnicott se refere como «ambiente facilitador» (Winnicott, 1956/2007, 1968/1989). Entende que tal fenômeno, transposto para a experiência terapêutica analítica, posiciona o analista como um objeto cuja existência independe, em certa medida, do sujeito. Sua natureza específica é o que o torna potencialmente capaz de portar, como alimento psíquico ao paciente, o que autor chamou de «substância diferente-de-mim». A alteridade do analista,
assim posta, precede, ao mesmo tempo que convive com e transcende, o encontro com a subjetividade do paciente.
Na mesma direção, Green (2005b) afirma que o analista, ao receber seu paciente, está, inescapavelmente, em um momento único da relação que estabelece com seu próprio inconsciente, a qual sofre modificações continuadamente.
O paradoxo da existência individual versus a existência dual e as combinações possíveis dessas duas dimensões, tanto na vida mental primitiva, de forma geral, quanto no processo analítico, são expressos com maestria por Winnicott, na frase frequentemente citada: «o bebê cria o objeto, mas o objeto estava ali, à espera de ser criado e de se tornar um objeto catexizado». (Winnicott, 1968/1989, p. 221). No clássico postulado winnicottiano de que «um bebê é algo que não existe (separado dos cuidados maternos)», Ogden (1994) pondera que Winnicott intencionalmente omite da proposição a sua parte contrária e complementar: de que obviamente mãe e bebê existem como entidades separadas física e psicologicamente, à semelhança, segundo Ogden, do que ocorre no vínculo analítico.
O reconhecimento da presença da subjetividade primária, idiossincrática, do analista no campo de força intersubjetivo, nomeadamente seu arsenal simbólico e proto-simbólico, elementos mentais próprios, modos de funcionamento psíquico e características individuais, que o diferenciam de qualquer outro analista, e, principalmente, que o diferenciam do analisando, potencialmente multiplica os objetos pulsionais do analista no tabuleiro analítico. Segundo Freud (1915/1996), o objeto é a porção mais variável do percurso pulsional, embora adquira crucial e crescente importância, na medida em que é catexizado. É este aspecto do percurso pulsional, na teoria metapsicológica, ou seja, a eleição de novos objetos pulsionais, que corresponde à chave-mestra da transferência, ao portal que abre caminho para o desenvolvimento do fenômeno transferencial. E, conforme busco argumentar, esse é, também, o aspecto da teoria pulsional que constitui a chave-mestra do fenômeno contratransferencial, no polo do analista. O analista, assim, é guardião não de uma, mas de duas chaves-mestras, a transferencial, da trajetória pulsional do paciente, e a contratransferencial, da trajetória pulsional do analista.
Sob a perspectiva intra-subjetiva, sustento que a subjetividade primária do analista é a matriz anímica, núcleo sensível, propriamente dito, da escuta analítica; partícipe inescapável dos processos de percepção, compreensão e simbolização do analista no encontro analítico. Parto da hipótese de que a subjetividade primária do analista coloca-se a serviço de e em contato com o sujeito que é o paciente, ao mesmo tempo que tem, e conserva, uma natureza que independe do paciente; inscreve-se continuadamente no processo terapêutico, e serve de arrimo qualitativo fundamental para a aplicação das premissas técnicas analíticas, dando-lhe, em parte, sustentação relativamente neutra, o que chamo de contribuição constitutiva, e, em parte, exercendo um efeito idiossincrático mais específico nos movimentos inconscientes da dupla analítica, instituindo pessoalidade ao processo, ou seja, uma contribuição institutiva. O primeiro grupo de fatores pessoais chamo de atributos fundantes da subjetividade do analista, e o segundo, de atributos determinantes da subjetividade do analista, conforme desenvolvi em trabalhos prévios (Bizzi, 2015, 2017, 2018a, 2018b, 2023b).
O analista, enquanto sujeito pulsional, diferencia-se do paciente em vários aspectos, dentre os quais o compromisso inquebrantável de direcionar suas funções egóicas à compreensão, à pensabilidade, mantendo outras metas pulsionais em forte sublimação (Fliess, 1942; Green, 2005a, Bizzi, 2021). Toma por objeto principal de suas pulsões a função compreensiva analítica, versus a pessoa do paciente. A ampliação da tolerância à ausência de satisfação pulsional em suas metas originais é tanto premissa quanto resultado da prática analítica (Freud, 1910/1996, 1912/1996, 1937/1996). O analista utiliza recursos sublimatórios potentes para manter a inibição das metas pulsionais mais primitivas, que insistem na busca de objetos alternativos de satisfação, o que, na linguagem de Bion, equivale à busca por manter a comunicação com o paciente a nível de linguagem de êxito (consecução), em alternativa à linguagem que é um substituto para, e não um prelúdio à ação (Bion, 1970/2018). Ancorado nessas capacidades e protegido por esses limites, os quais exercita continuadamente, o analista pode efetuar mergulhos profundos em seus recônditos mais
primitivos, e de lá emergir, rumo à pensabilidade, engendrando pontes possíveis entre sua realidade consciente e inconsciente.
Penso que, nesse processo, e em conexão com as circunstâncias próprias da interação analítica, o grau de sublimação pulsional do analista, o quantum pulsional e eleição objetal estão sujeitos a micro-oscilações imperceptíveis aos olhos, mas prenhes em efeitos. Tais variações, conforme concebo, encontram raízes em sua subjetividade primária e são a base, a rocha-mãe, sobre a qual erguem-se e organizam-se as vivências contratransferenciais (Bizzi, 2021, 2023a).
O exame da subjetividade primária do analista em sua vertente intersubjetiva equivale a seu mapeamento em meio à tessitura, propriamente dita, da rêverie analítica conjunta, no ponto de maior contato e permuta consciente e inconsciente entre os polos de subjetividade do paciente e do analista, de onde se justifica seu estudo através do conceito de contratransferência. Proponho uma abordagem nosológica do fenômeno contratransferencial, que toma, como pedra angular, o grau de vitalidade analítica que a subjetividade primária do analista adquire ao compor o campo intersubjetivo. Os conceitos aqui estudados, ao mesmo tempo que tomam a contratransferência em sua fundamental característica de corolário da transferência, trazem a contribuição original de destacar a subjetividade primária do analista como elemento existente per se, na interação dual, o qual pode-se tornar analítico (positivo) ou anti-analítico (negativo). Dessa forma, tento não apenas integrar ao conceito de contratransferência os aspectos de variabilidade e pessoalidade da subjetividade do analista, ausentes no paradigma clássico, mal delimitados no paradigma totalístico, e indicados, mas não conceitualizados, na visão específica da contratransferência, conforme revisam Eizirik & Lewkowicz (2005), mas alço-os a um papel fundamental no processo analítico e na aferição da vitalidade do campo transferencial/contratransferencial.2 O foco de observação
Para um aprofundamento relativo ao exame das classificações de contratransferência, remeto o leitor ao artigo Contratransferência e subjetividade primária do analista: um recorrido pela literatura psicanalítica (Bizzi, 2023a).
dessa abordagem classificatória concentra-se no polo do analista, na relação dialética entre sua vivência intra e intersubjetiva.
Parto da hipótese de que, como substrato do terceiro analítico, há um vetor de interferência recíproca ativo no encontro analítico, o qual oscila em grau, qualidade, direção e sentido, e que, preponderantemente, situa o analista como receptor da subjetividade do paciente (Bizzi, 2017, 2018a, 2018b, 2021, 2023b). Penso que a situação analítica fornece sinais observáveis e indicativos da influência equilibrada e útil da subjetividade do analista, versus sua inadequação (excessos, ausências, distorções ou desconexões), que podem ser identificados no campo analítico não apenas no momento-a-momento, mas, principalmente, no decurso de um prazo maior, semanas ou meses.
Dos três subtipos de contratransferência que proponho, nomeadamente a contratransferência criativa, a estrangeira e a viciosa, as duas primeiras apontam para o emprego produtivo da subjetividade primária do analista, enquanto a última aponta para o adoecimento analítico (Bizzi, 2017, 2018a, 2018b, 2021, 2023b).
Na contratransferência criativa, o aparato mental do analista está permeável e responsivo à gama verbal e não verbal de comunicações do paciente. A interação entre os dois polos subjetivos privados, do analista e do paciente, corre livremente, mesmo que não necessariamente de forma fácil. O gradiente ou vetor de interferência recíproca subjacente à comunicação da dupla apresenta micro-oscilações, e, de forma ampla, desenvolve um fluxo que vai, primária e principalmente, do paciente em direção ao analista. Esse último emprega, inconscientemente, sua subjetividade, seus parâmetros internos de afeto, experiências e valores pessoais, na escuta que desenvolve, sem que esses aspectos estabeleçam direções específicas à comunicação. Quando, diversamente, os parâmetros pessoais do analista são sutilmente impostos no campo analítico, está em andamento uma distorção dos objetivos terapêuticos. Cabe mencionar que, em situações analíticas regressivas ou limítrofes, o analista é particularmente requisitado a fornecer modelos simbólicos, metáforas ou rêveries de cunho original no campo, em profunda sintonia com a ansiedade e material inconsciente não significados do paciente, no que se constitui um bom
exemplo do emprego analítico, criativo, da subjetividade primária do analista.
Como a subjetividade primária do analista está vinculada a sua estrutura caracterológica, e inclui valores, afetos e atividade judicante inconsciente, não é suficiente que a reflexão a respeito desses aspectos da comunicação intersubjetiva se dê através da auto-observação. Penso que o andamento do processo analítico, conforme mencionei, costuma dar indícios indiretos do emprego equilibrado da essência subjetiva do analista, os quais podem ser observados ao longo do tempo. Assim, arrolo os seguintes sinais indicativos de uma contratransferência criativa: o analista ciclicamente perde e reencontra sua capacidade de simbolização; novas configurações relacionais estabelecem-se no decorrer do tempo; um sentimento de confiança tende a pavimentar o trabalho analítico, mesmo em fases difíceis.
Embora os itens arrolados, em conjunto, descrevam o bom andamento de qualquer tratamento analítico, e possam ser atribuídos à capacidade do analista em sua função compreensiva, continente e interpretativa, busco ressaltar que tal fenômeno não pode ocorrer sem um emprego criativo da sua subjetividade primária.
A contratransferência estrangeira é um fenômeno aparentemente disruptivo, mas fundamental. O termo estrangeira alude a algo que originalmente pertence ao mundo interno do paciente, e que se impõe ao campo e à mente do analista. Toda uma gama de percepções, reações e sentimentos acedem, normalmente, ao analista no exercício da função terapêutica, incluindo o desafio de manter a capacidade simbólica e continente. É natural que o vínculo transferencial/contratransferencial reproduza aspectos do funcionamento intrapsíquico e interpessoal próprios do paciente, de forma que a dupla analítica adoeça da doença do paciente. Os mecanismos defensivos basais do analisando, sejam narcísicos, fóbicos, obsessivos, histéricos ou perversos, por identificação projetiva instalam-se no campo analítico, e envolvem a comunicação da dupla analítica. Assim, são inevitáveis as circunstâncias em que o analista, identificado com aspectos do paciente, ou com seus objetos internos, e por eles controlado, perde a capacidade analítica, como descreve Grinberg (1962) com o conceito de
contraidentificação projetiva. Esse fenômeno, na contratransferência estrangeira, é temporário, e o vetor de interferência recíproca subjacente aponta, saudavelmente, do paciente para o analista. Este último, habitualmente, sente grande desconforto até poder compreender o que se passa. Os seguintes sinais apontam para a contratransferência estrangeira: o analista sente-se paralisado, confuso, incapaz ou ansioso por determinado período; o analista perde sua capacidade para simbolizar por determinado período; as sessões são repetitivas; grande tensão subjaz o trabalho analítico.
Na contratransferência viciosa, a comunicação entre analista e paciente, mesmo que aparentemente transcorra bem, recebe, sub-repticiamente, excessiva carga pessoal por parte do analista. Sua personalidade, história pessoal, crenças, preferências ou teorias estão sendo impostas, inconscientemente, ao paciente, e determinando os caminhos a ser tomados na interação da díade analítica, nos assuntos a ser abordados, ou impondo uma atmosfera afetiva específica. Esse fenômeno, pouco incomum, não é facilmente identificável. Refere-se a conluios inconscientes de natureza narcísica, fóbica ou perversa que se estabelecem na situação analítica, de forma que paciente e analista podem permanecer prolongados períodos lidando com um vetor de interferência recíproca cujo fluxo aponta do analista para o paciente. Configura um baluarte, conforme descrito por Baranger e Baranger (1961–1962), que, insuspeito, permanece inabalável e fortalecido no transcurso do processo, organizando-se no campo. Alguns sinais ao longo do tempo apontam para a contratransferência viciosa: o analista perde sua capacidade de simbolização por prolongado período; as sessões tendem a ser repetitivas; desconexão aparece no setting, através da percepção consciente, associações ou actings.
Hélio, 35 anos, solteiro. O motivo manifesto da busca de tratamento foi a ansiedade que lhe causou o fim de um longo namoro. Em verdade, porém, desde o início da análise, pude perceber uma profunda fragilidade egóica, compensada (e paradoxalmente acirrada) por um
superego severo e grandioso, em uma rara mistura de extremos amalgamados: sua dependência aterrorizante do objeto, e suas defesas narcísicas.
Desde as primeiras sessões, a percepção consciente da atmosfera contratransferencial é, predominantemente, de tranquilidade, cordialidade, com uma sutil premência por resultados terapêuticos. Com frequência, percebo o clima de pragmatismo no setting, e identifico um pensamento que visita minha mente, como um mantra tranquilizador, de que não preciso dar provas da eficácia do tratamento, e nem posso apressar resultados terapêuticos. Desde o nosso cumprimento, quando abro a porta, seguindo com o desenrolar das sessões, habitualmente Hélio tem uma postura respeitosa e amistosa, que me contagia (ou me neutraliza?). Sua associação livre é fluida e, aparentemente, sincera. Mesmo quando chega à sessão dizendo não saber o que dizer, logo entra em algum fluxo associativo que é espontâneo, verdadeiro, eu diria, mas sem dúvida ruminativo e distanciado de sentimentos. Com o tempo, passei, dentro de mim, a nomear essa comunicação livre, porém parcial, de «relatos sinceros». Passamos grande parte do tempo das sessões pensando. Somos como pensadores à espera das emoções. Criamos metáforas que, longe de serem intelectualizadas, também não chegam a promover um insight mais profundo. São imagens que dão conta desse distanciamento de Hélio, que tentam mapear seu falso self, ou self defensivo, sem que, por enquanto, consigamos penetrar em seus redutos afetivos e defensivos. Um exemplo de metáfora diz respeito ao uso que ele faz das mulheres que entram em sua vida como «bengalas douradas», que o encantam e envaidecem, nas quais pode se encostar, apoiar, ou esconder. São como postes de base inanimados, sem raízes, fracos e intercambiáveis. As imagens que construímos tocam-no, parecem facilitar e enriquecer suas associações, e carrear verdades, mesmo que ainda muito parciais.
Singramos águas calmas e cômodas, na relação transferencial/contratransferencial. Hélio trata as mulheres de quem se aproxima, bem como seus familiares, com disfarçada, mas óbvia, distância e superioridade, que, por vezes, chega às raias da arrogância e desprezo. Na transferência, parece poupar-me dessa destrutividade. Por quê? Estou em conluio defensivo com ele? Ou estou permeável a suas comunicações, e adoecemos nós, um tanto, de sua doença, tornando-nos superficiais?
Inclino-me pela segunda hipótese: penso que reencenamos, no campo analítico, seu falso self, sobreadaptado, e suas potentes defesas narcísicas. E que o self dependente, ainda muito dissociado e enclausurado, faz apenas rápidas e fugazes aparições, por ora.
Em outras palavras, minha identificação com o paciente é predominantemente introjetiva, e não projetiva, permeável às movimentações diádicas que ele propõe. Sigo, nessa fase da análise, mais privada de material profundo do que atacada em minhas funções psicanalíticas. Assim, entendo minha contratransferência com Hélio, nessa fase do tratamento, como predominantemente criativa. A produção psíquica de Hélio no tratamento não é criativa no sentido descritivo da palavra, assim como não o é a nossa interação, que nada em águas rasas. Imagino que, na medida em que conseguirmos abrir caminho para o self infantil, em sua vida e no campo analítico, a contratransferência ganhe coloridos diversos, mais intensos e reveladores, tanto de Eros quanto de Thanatos.
Microscopia de uma sessão: em nossa terceira sessão de avaliação, por vídeo-chamada, durante a pandemia, encontro um rosto sorridente, simpático, na tela. Mauro dá início à sua forma algo arrastada e arrastante de falar, a qual percebo e destaco dentro de mim como uma característica ímpar e curiosa. É suave seu desfiar de histórias e dados e jeitos, e é sem fim, sem espaço, sem distinção entre nós.
M — Onde foi que paramos na sessão passada… paramos… deixa eu ver…
Revivo o padrão de comunicação quase idêntico aos nossos dois encontros prévios, em que Mauro aguarda que eu lhe indique caminhos associativos, enquanto eu observo, o que vai provocando um clima desértico. Decido, então, diversamente do que me é usual, responder diretamente à sua demanda:
I — Nós falamos bastante da tua vida de amizades e namoros, e da frequência com que relações importantes para ti acabaram tendo um fim que te surpreende ou te chateia muito.
Em seguida, para minha própria surpresa, sigo falando; sugiro que ele me conte mais sobre uma fase de muito sofrimento mencionada na sessão anterior, e enceto breves perguntas em sequência:
I — Eu gostaria que tu me contasses mais sobre aquele período da tua vida em que chegaste à conclusão de que estavas com depressão. Queria saber mais sobre como tu te sentias, que recursos tu procuraste…
Bastante desconfortável e estranhando a quantidade de elementos e palavras na minha colocação, percebo que há uma busca ativa e ansiosa na minha intervenção, pois sinto que não tenho dados. Mauro esconde-se? Perde-se em seus labirintos e esquece para onde vamos? Tenho clareza de que me ocorrera, durante e ao final da sessão anterior, a sensação de que eu não havia conseguido apreender sua história pessoal e familiar, e me percebo, no terceiro encontro, no mesmo patamar, com a mesma sensação.
Ele começa a me contar sobre 11 anos atrás:
M — O meu problema foi que eu comecei a questionar os pais heróis, sabe, aquela ilusão de que eles são perfeitos, e a partir daí eu comecei a duvidar de tudo, duvidar de que as coisas eram possíveis. Um coordenador de voos, por exemplo, ele é só uma pessoa, ele não sabe tudo, ele pode passar a vida toda fazendo o que ele sabe, sem que o que ele não sabe faça falta, mas pode ser que ele precise fazer algo, uma manobra, sei lá, e não consiga. Para que ocorra um desastre, vários erros têm de ser cometidos. Várias pessoas têm de errar, não só uma.
As associações se sucedem. Ouço, enredada, a narrativa, que parece um canto de sereia, recheado de sorrisos largos e promissores, risadas envolventes, que abrem espaço para reduções no tom de voz, palavras sussurradas, que me fazem virar o ouvido para a câmera, a fim de melhor captar o que me escapa, e compreender o olhar vazio, desolado, que volta e meia aparece.
Tenho a angustiante sensação de desconhecer a história de Mauro. Diversamente do que me é habitual, busco, conscientemente, recordar fatos marcantes de sua vida, e encontro um desconcertante vazio, como se eu nunca tivesse conversado com ele. Vagas lembranças me ocorrem: pais separados, mãe presente, mora sozinho.
Percebo a ansiedade aumentando vertiginosamente, e desenha-se em mim uma busca frenética por parâmetros e fatos. Sei que Mauro narrou um evento profundamente traumático na infância, que muito me impactou, mas que agora me evade completamente.
Finda a sessão, afrouxadas as forças do campo analítico, naturalmente a lembrança ganha espaço. Lembro do relato, repleto de emoção e choro, das circunstâncias da morte de seu pai, quando Mauro tinha seis anos, e de como ele esteve, por horas, rodeando o corpo inerte, sem perceber que havia algo errado, obviamente incapaz de tomar uma atitude e buscar ajuda. Sente-se profundamente responsável pela partida do pai.
A alucinação negativa que me assola, no campo transferencial/contratransferencial, é, segundo compreendo, um fenômeno correlato às defesas arcaicas de Mauro, com característica limítrofes: cisão, denegação, dissociação. Contra-identificada projetivamente com a demanda categórica de não saber, de não lembrar, de não sentir, chego às raias do vínculo –K, reino por excelência da parte psicótica da personalidade, conforme Bion (1980/1992). Adoeci, temporariamente, da doença de Mauro. Perdi, perdemos, por algum tempo, a capacidade de simbolizar e pensar, e as readquiro, a seguir, quando sou capaz de sonhar o terceiro analítico tanático que co-criamos, e que reflete o mundo interno de Mauro.
No decurso dos quatro anos de trajetória analítica que se seguiram a esse relato inicial, eu e Mauro adentramos, juntos, períodos de intenso ataque à função alfa, com contratransferência predominantemente estrangeira, intercalados com períodos de contratransferência criativa, em que pensamos, geramos metáforas férteis juntos, e percebemos, apaziguados e esperançosos, alguma transformação do campo analítico e do mundo interno de Mauro.
Beatriz, 30 anos, verbaliza durante as sessões de avaliação sua motivação para tratamento em termos gerais: «quero crescer como pessoa». Advogada em início de carreira, namora, há seis meses, um colega de trabalho a quem admira, e com quem gostaria de ter um vínculo sério. O namorado estimula Beatriz a buscar tratamento, e ela concorda.
Ela parece, ao primeiro contato, uma «boneca de porcelana», em seu aspecto cuidado, delicado e algo asséptico. Será frágil, também, como a porcelana? Mais frágil do que sugerem suas associações coerentes e cronologicamente ofertadas a mim? Conta, em nosso segundo contato, aparentemente sem sofrimento, como se falasse de águas passadas, da sua timidez na infância, da séria dificuldade em distanciar-se da mãe, de sua tendência a comparar-se com as pessoas e sentir-se inferiorizada. Durante o primeiro ano de análise, o fato de sentir-se artificial, robotizada e inferior a seus pares torna-se assunto corrente; sente inveja, deseja adquirir adereços sofisticados, e, à medida que os adquire, sente um vazio onde previa satisfação.
O clima sóbrio, de sofrimento, de profunda solidão e inanição emocional rapidamente me invade nas sessões, embora também rapidamente se mostre blindado a qualquer aprofundamento no campo analítico, como se recolhido em alguma trincheira anacrônica, insuspeita, fazendo-me questionar, reiteradamente, a veracidade ou validade de minhas impressões. Em suas associações, Beatriz me coloca a par da raiva e ciúmes que a invadem na convivência com o namorado, os quais ela disfarça com maestria, forjando, ao namorado, uma persona sempre satisfeita. Nas sessões, ao menor movimento de minha parte, se eu destaco algo que ela diz, ou se expresso uma impressão, por mais delicada que seja a intervenção, Beatriz cala e fica cérea, imóvel no divã. É como se eu não pudesse existir, como se eu própria devesse ser uma analista-fantasma, ou simulacro de analista. Nesses momentos em que Beatriz fica estática, que são de grande tensão no campo transferencial/contratransferencial, longos minutos costumam decorrer até que Beatriz retome seu fluxo associativo prévio, como se se desviasse, enfim, de uma incômoda pedra, e seguisse, altiva e inalterda, seu percurso. Sinto, de forma continuada, grande desconforto e impotência. Beatriz verbaliza seu desejo de aprender a controlar sua impulsividade e agressividade, para preservar seu vínculo com o namorado, e ocorre-me, reiteradas vezes, a fantasia de que esse é o objetivo precípuo e talvez único que ela tem com o tratamento, que está em busca de aprendizados úteis, pragmáticos, em um uso da análise que sinto como distorcido.
Ao longo do tempo, no segundo ano de análise, meu desconforto contrasta de forma crescente com a satisfação da Beatriz, na medida
em que ela tem êxito em disfarçar suas ansiedades frente ao namorado, e a relação vai ficando mais séria. Sinto que carrego o peso do conhecimento e percepção dos aspectos mais frágeis e destrutivos de Beatriz, enquanto ela cinde tal percepção, o que me desconcerta e irrita. Beatriz é pedida em casamento e alguns dias depois me informa de sua decisão de encerrar a análise.
A interrupção desse tratamento suscitou, em mim, dolorosas reflexões sobre a continência e vitalidade analítica de que fui capaz no campo analítico que estabeleci com Beatriz. Sem ter clareza do quanto, como e se fui capaz de ajudá-la analiticamente, fica nítido para mim o quão precoce, repentino e impessoal foi a iniciativa de término, o que destoa muito de minhas vivência habituais, de intimidade, confiança e alguma dose mútua de gratidão envolvendo o vínculo analítico, mesmo em situações de crise ou interrupção. Suspeito, assim, de que, no impasse analítico a que chegamos, roçamos um limite que talvez não ocorresse no contexto de um terceiro analítico intersubjetivo co-criado com outro analista, ou comigo em outro momento.
Quais aspectos resistenciais, limitantes para a função analítica, podem ter sido mobilizados em minha subjetividade primária, pessoal, no campo analítico com Beatriz? Conscientemente, revisito a análise de Beatriz nos últimos meses, os mais árduos, e, apesar da crescente irritação, vejo-me firme no propósito de ajudá-la a abrir brechas no gesso artificial que ronda sua vida pessoal e profissional. O padrão de Beatriz de recolher-se, em claustro, à percepção de minha presença ou de minha mente funcionante, eu entendo como a riqueza da reedição transferencial. E minhas inquietudes, a irritação, sensação de ser excluída, barrada, e de ter de ficar estática, sem, entretanto, morrer analiticamente, eu entendo como a contratransferência possível, e, nesse sentido, equivaleria, predominantemente, a uma contratransferência estrangeira, conforme minha classificação. Ainda assim, os fatos apontam para o limite, para um impasse terapêutico radical, inundado de pulsão de morte. Atinjo, também, um limite de minhas reflexões conduzidas de forma solitária, como auto-reflexões.
Muitos meses depois da interrupção da análise de Beatriz, encontro-me na cidade de São Francisco, no consultório do Dr. Thomas Ogden, para uma supervisão. Vínhamos trabalhando há dois anos, através de encontros online, e o Dr. Ogden já conhecia bem o meu estilo analítico
e a mim própria. Ao encontrá-lo, peço para conversarmos sobre Beatriz. O Dr. Ogden, conforme deixa claro em seus escritos, e argumenta nesse dia, dá preferência a supervisionar análises que estejam em andamentos, pois são como um corpo pulsante, enquanto os tratamentos já finalizados não têm a prerrogativa da interação dual viva e criativa. Mesmo concordando, explico ao Dr. Ogden que esse tratamento não terminou bem, e que eu suspeito de que algo em minha contratransferência possa ter contribuído para esse andamento, apesar de, conscientemente, não ser capaz de identificar. A bela conversa que se segue entre nós, descrita em detalhes no trabalho Supervisionando com Ogden: Narrativas a partir do terceiro analítico (Bizzi, 2023c), começa com a convicção, também por parte do Dr. Ogden, de que as resistências de Beatriz foram fatais para o processo analítico, e que minha contratransferência não foi viciosa, e sim coerente com as dificuldades da paciente. Mas na sequência de nossa troca de ideias, de associações livres de supervisor e de supervisionanda, e comentários espontâneos, surpreendentes, sobre o que o Dr. Ogden pensa sobre o termo contratransferência, ele subitamente tem um insight. E diz, de forma plena e suave, algo que tem o efeito de um raio, e que troveja dentro de mim. Ele fala de meu pai, também analista, e grande modelo para mim, falecido recentemente:
«Tua contratransferência não é a sensação de que Beatriz quer se tratar para manter o namoro; não é tampouco tua sensação de irritação nas sessões. Pelo que já me contaste sobre o teu pai, ao longo desse tempo em que nos conhecemos, e do profundo afeto que te conecta a ele, eu acho que, para ti, o trabalho analítico é uma forma de estar perto dele, essa é a profunda significação do teu trabalho, e essa paciente, Beatriz, nega-se a trabalhar analiticamente; ela nega o que tu necessitas.»
Somente com a ajuda do Dr. Ogden consigo perceber que minha subjetividade primária, como analista de Beatriz, foi mobilizada em aspectos arcaicos de cunho absolutamente pessoal, que foram re-significados no vínculo analítico, e, por questões circunstanciais, demandavam satisfação com mais urgência do que o meu habitual. O trabalho analítico, nesse momento, e com essa paciente em especial, ficou revestido de uma significação pessoal de lealdade à psicanálise. Penso que isso, inadvertida e inconscientemente, reduziu minha
capacidade analítica, em especial no sentido de tolerar as características cindidas e tonalidades perversas do campo, que propunham a evitação de um terceiro intersubjetivo analítico genuíno e buscavam um terceiro intersubjetivo artificial, protético.
Concluímos, Dr. Ogden e eu, que Beatriz, com sua resistência e uso perverso do setting, inconsciente e massivamente colocado a serviço de seu falso self, encontrou em mim, naquele momento de minha vida, em que eu perdera meu pai recentemente, uma analista que se sentiu atacada em seus propósitos mais caros, o que corresponde a um impacto excessivo e limitante em meus movimentos contratransferenciais inconscientes. A postura cérea de Beatriz nas sessões, assim, não apenas refletia seu mundo interno, mas sinalizava a própria desvitalização do terceiro analítico intersubjetivo. A inanição de que sofremos no campo analítico instalava-se e organizava-se em nossos encontros, radicada na reedição transferencial/contratransferencial, mas também ancorada em uma contratransferência engessada, fixada em um sofrimento meu, e essa noção me evadia. Para o analista, diferenciar a contratransferência estrangeira, em que sua função analítica está premida, combalida, mas repleta de vitalidade, da contratransferência viciosa, em que sua função analítica está enfraquecida, fixada em algum recanto poderoso da própria subjetividade primária, é tarefa hercúlea. Daí a importância fundamental de desenvolver ferramentas conceituais que abarquem essas diferenças, instrumentalizando a reflexão aprofundada do analista.
O conceito de subjetividade primária do analista coloca em relevo, descreve analiticamente e examina a subjetividade elementar, única e pessoal de cada analista, no processo analítico. Uma vez reconhecida essa peça, dentre tantas outras peças fundamentais no tabuleiro analítico, abrem-se novas perspectivas de estudo e compreensão das vicissitudes pessoais de cada analista, em dada circunstância, com dado paciente. Existentes per se, os elementos subjetivos primários do analista pavimentam sua função analítica, tanto em sua vivência intra-subjetiva, quanto na co-criação do terceiro analítico intersubjetivo. Sob a ótica unipessoal da metapsicologia do analista, os conceitos examinados, de atributos fundantes e determinantes da subjetividade do analista, buscam
destacar, no polo do analista, a rocha-mãe do solo intersubjetivo, e, em especial, procuram diferenciar seu papel constitutivo (relativamente neutro) e institutivo (que porta um viés pessoal ao campo analítico). Sob a ótica bipessoal da metapsicologia do analista, a classificação de contratransferência criativa, estrangeira e viciosa pretende destacar o papel central da subjetividade primária do analista na tessitura subjetiva do enquadre analítico, e examinar a vitalidade e potencialidade analítica que tais elementos adquirem no processo analítico.
Em circunstâncias habituais, a subjetividade primária do analista contém e faz vibrar, como um diapasão que se toque, o conteúdo mental do paciente. Sobrecarregada, porém, tende a funcionar como um diapasão rígido, em que o encontro das extremidades metálicas produz ruídos insuficientes, inaudíveis, ou, inversamente, como um diapasão hiper-reativo, dando origem a sons amplificados, excessivos, que impedem a natural rêverie, e, por consequência, limitam a formação do terceiro analítico intersubjetivo. O presente estudo busca desenvolver ferramentas conceituais que convidem e instrumentalizem o analista em sua auto-reflexão, além de dar especial destaque ao benefício fundamental que a supervisão e consultoria entre colegas porta na práxis analítica.
ABSTRACT: The term primary subjectivity of the analyst, proposed and developed in the study, analytically highlights and conceptualizes a specific type of subjectivity of the analyst, present in the analytical field, whose nature is absolutely idiosyncratic and original. This factor originates from and incessantly feeds back the primary psychic matrix of the analyst, while it co-creates the intersubjective analytic third; its essential qualities are uniqueness, the character of being diverse from the patient's subjectivity, and alterity, the character of being external, and of existing, to some extent, independently of the patient's subjectivity. From an intrasubjective perspective, the concept of the analyst's primary subjectivity is elaborated, in the study, through the notion of founding and determining attributes of the analyst's subjectivity; from an intersubjective perspective, it leads to nosological proposals of creative, foreign and vicious countertransference. The coinage and prospection of this terminology inaugurate a line of conceptual research on the analyst's subjectivity and are intended to pave the way for further studies.
KEYWORDS: intersubjectivity, subjectivity, countertransference, intersubjective analytic third.
ao presente estudo, merecem destaque: 1) o caráter etéreo, variável e naturalmente avesso a classificações de emoções, reações e pensamentos espontâneos que o analista vivencia no campo analítico; 2) seu caráter profundamente perturbador, a nível individual e coletivo, na medida em que tangencia aspectos anímicos largamente inconscientes do analista e da comunidade analítica; 3) o entrecruzamento intuitivo, em escala milesimal, das dimensões intra e intersubjetiva da vivência do analista na tessitura do processo analítico, dificultando a observação, separadamente, das partes; 4) a insuficiente delimitação conceitual dos aspectos subjetivos próprios, idiossincráticos e originais do analista, que correspondem a uma das partes fundamentais da vivência contratransferencial analítica, embora não seu sinônimo.
M — Sinto que às vezes eu tenho grandes ideias, depois tudo vai andando para trás. E eu vou achando um problema. Outro problema. E não faço nada. Sinto que vou ficando mais burro com o passar do tempo. Não consigo raciocinar como antes.