A interpretação psicanalítica, tendo como referência os conceitos da bi-lógica desenvolvidos inicialmente por Ignacio Matte-Blanco —, remete-nos para uma multiplicidade de interpretações equivalentes. Embora formuladas de formas diversas, por diferentes analistas, têm em comum pertencerem à mesma classe proposicional. A interpretação permite-nos, pela translação, passar da simetria à assimetria, através da simetria, segundo Matte-Blanco. Neste artigo, partimos da simetria emocional para estabelecer diferenças e similitudes no processo de transformação através da análise. A experiência emocional é o foco deste trabalho analítico. É a capacidade do paciente pensar as suas experiências emocionais, tolerando a dor psíquica, que lhe permitirá atingir a sua verdade.
Ao longo dos anos, a minha escuta analítica foi-se alterando, a partir do meu encontro com as infinitas lógicas de Matte-Blanco. O diálogo analítico é agora alcançado, na palavra ou não palavra. O encontro de dois inconscientes, multidimensionais, permite-me, em cada sessão, sentir, estar-sendo, pensar. Esse encontro ocorre, por vezes, através da fala, onde reina a racionalidade; outras vezes, através da não fala, que é constituída por todas as comunicações não verbais, onde reina a bi-lógica — ou seja, na qual a simetria e a assimetria estão presentes.
Artigo submetido em setembro de 2023 e aceite para publicação em março de 2024.
Manuela Harthley é Matemática e Psicanalista Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da European Psychoanalytical Federation (EPF). E-mail: mharthley@netcabo.pt
Isto é, reinar a bi-lógica ou não reinar a bi-lógica, apenas se refere ao funcionamento dominante.3
No encontro através da não fala, onde dois seres humanos se encontram em estados profundos do ser, dá-se a possibilidade de transformação, pois o sujeito entra em contacto com a sua própria verdade. Nesse encontro, não existe uma interpretação ideal, uma espécie de chave que abre uma e uma só porta. Existem antes várias chaves para a interpretação que são válidas, designadas como «interpretações equivalentes». Estas podem ser interpretadas de formas muito diversas por diferentes analistas. Ao nível do inconsciente, contudo, essas interpretações — sendo sentidas como idênticas — mobilizam conteúdos simétricos, ou seja, são sentidas como igualmente adequadas. Podemos afirmar que essas interpretações pertencem a uma mesma classe, determinada pela função proposicional que as caracteriza.
Cada área da realidade envolve múltiplas saídas e problemáticas, compreendendo a multidimensionalidade do inconsciente. Caminhos diferentes conduzem ao mesmo fim; assim como várias designações conduzem a um mesmo designado. Jamais chegaremos a conhecer a multiplicidade do paciente. Aproximamo-nos das suas várias verdades, procurando que se aproxime da sua verdade.
A assimetria pretende pensar/interpretar o que foi experienciado como indivisível, simétrico. As palavras apenas permitirão uma aproximação dessa experiência emocional profunda. Tentamos alcançar o significado das relações através de objetos substitutos dos originais. Nas palavras de Bion (1967), precisamos, como analistas, de perder as cadeias lógicas associativas do seu pensamento, através da intuição — sem memória, sem desejo —, para assim entrar em contacto com o modo simbólico de ser. É a perceção emocional que ocorre entre analista e analisando que se transforma em legítima forma de saber — a denominada construção do terceiro analítico de Ogden (1994).
Sabemos que o inconsciente é uma estrutura cognitiva, em que os dois modos de ser interagem — o simétrico, indivisível, indiferenciador; e o assimétrico, divisível, diferenciador — e onde em cada modo
Os conceitos de bi-lógica, simetria, assimetria, princípio de generalização foram desenvolvidos no artigo: (2023). A Influência da bilógica na teoria e clínica psicanalítica. Revista Portuguesa de Psicanálise, 43(1), 31–37.
de ser estão presentes infinitas potencialidades. Em cada sessão, o par analítico reconhecer-se-á numa nova dimensão.
O apelo à racionalidade, baseada na lógica aristotélica, é uma reação provocada pela insegurança e dependência inicial do seio alimentador e das avassaladoras forças dos desejos instintivos. A lógica científica, como armadura do pensamento, torna-se fonte da mais extrema repressão. Para Matte-Blanco, esta lógica é empobrecedora, pois é apenas uma dimensão da mente humana na qual o analista e paciente se confrontam com ansiedades profundas. Aliás, as diferentes lógicas estão sempre presentes, em maior ou menor grau, nas diversas comunicações, pois a simetria absoluta não é do reino do humano.
Esperemos que um dos elementos presentes na análise esteja melhor preparado para esse pensamento — o analista. Esta função analítica é adequada se estiver ancorada num esforço consciente do analista. Partindo da simetria emocional, a tarefa do analista é estabelecer diferenças e similitudes, de forma que diminua o pânico que o par analítico possa sentir ao se «perder dele próprio» no infinito da simetria.
É essencial que se permita ser capaz de pensar sobre sentimentos, não só senti-los. Assim como é necessário não só ser capaz de pensar, mas também de sentir. As «falas» de interpretação são sempre diversas, em cada sessão. Colocar em prática esta modalidade implica aceitar que as transformações que ocorrem no par terapêutico não podem ser explicadas pelos modelos de comunicação onde a informação é transmitida preferencialmente de um indivíduo para outro. Pelo contrário, segundo Casaula et al. (1997), são cognições originadas, muitas vezes, por «um doloroso estar junto».
Se as interpretações não são exclusiva e maioritariamente verbais, a emoção, sendo para Matte-Blanco a mãe de todo o pensamento, permite ao paciente a integração do que está disperso e a construção das suas próprias interpretações. O próprio analista afasta-se da sua posição omnipotente e centra o seu trabalho analítico nas capacidades da sua mente, percebendo que a relação analista/analisando precisa de ser assimétrica. Os sentimentos vividos na sessão são o instrumento de trabalho, e, por isso, é necessário que o analista os possa elaborar com o analisando e não agir sobre os mesmos. Estes servem para conhecer a realidade psíquica do paciente e não se podem transformar numa descarga emocional.
A dimensão ética, que é inerente ao estatuto de psicanalista, não pode ser perdida pela simetria experienciada. A relação analista-paciente torna evidente a forma como a transmissão e a receção ocorrem na sessão. As palavras estão acompanhadas por uma comunicação pré-verbal, tendo a identificação projetiva como mediador.
O analista comunica através de um estado mental reflexivo e não crítico. O paciente pode saber que ambos podem sentir o mesmo, mas sabe que o analista não perde o controlo dessas emoções, pois aquilo que está em nós, analistas, permite-nos uma solução diferente. Não mergulhamos num mundo onde tudo é interpretação, mas estamos num mundo que inclui incertezas e probabilidades, ou seja, mergulhamos no modo simétrico de ser, sem abandonar a âncora do modo assimétrico de ser.
Nesse sentido, a neutralidade analítica pode ser vista como uma opção consciente do analista, comprometendo-se a usar as suas emoções, para compreender a relação recíproca entre analista e analisando. É precisamente através da emoção que a neutralidade analítica assume a abstinência e o anonimato. A intensidade, a qualidade e a compreensão emocional do que é vivido pelo analista e o seu uso adequado são o que estabelece uma relação terapêutica. Segundo Alessandra Ginzburg (2010), é a hipótese crucial da compreensão emocional das funções mentais do analisando que representa o pilar do trabalho analítico, isto é, dá significado ao analisando perante ele próprio.
Quando percorremos este caminho, através do vivido emocional, podemos ainda recorrer ao mais facilmente enunciável e conhecido. Escutar e interpretar — num diálogo entre a Identificação e a Identificação Projetiva — é introduzir a assimetria nas comunicações em que eu analista sou sentida como as várias figuras familiares significativas da história dos analisandos.
Contudo, escutar e interpretar é também introduzir a simetria, quando as comunicações são efetuadas na pretensa negação da similitude de sentimentos, entre analista e as figuras significativas da história dos analisandos, usando as minhas emoções. Escutar e interpretar é ainda desfazer as cadeias associativas estabelecidas através da aplicação conjunta do Princípio da Generalização e seus corolários, diferenciando o que é para diferenciar.
Segundo Grotstein (1997), o analista presta atenção não só às simetrias que convergem enquanto igualdades, e no final como conjunções constantes na mente do analisando, mas também às várias diferenças que realmente fazem diferença. A posição de escuta do analista é aquela em que o mesmo procura repercutir, ressoar e estar compatível com o estado da mente do analisando. Esse compatibilizar é realizado pela área de simetria. Para Emílio Salgueiro (1991), a função analisante pode ser assim concebida como a que conduz ao conhecimento aprofundado de multidimensionalidade do espaço psíquico do analisando, bem como da sua estrutura.
Matte-Blanco refere também as dificuldades do novo significado de terapia psicanalítica: o conhecimento dos isomorfismos das estruturas psicológicas que permanecem inflexíveis na mudança pode, através de meios psicológicos, conduzir a uma melhor utilização das suas correlações. Tal também não seria possível sem o conhecimento das várias estruturas bi-lógicas.
Em suma, podemos afirmar que a interpretação verbal é apenas um ponto de interpretação, uma vez que as interpretações podem ou não ser expressas verbalmente, estando sempre subjacentes ao processo terapêutico psicanalítico. É antes uma interpretação psicanalítica porque é capaz de trazer o paciente da simetria para a assimetria, através da simetria.
A experiência emocional é o foco do trabalho analítico, mas este supõe uma relação, através de um elo, que dá conta do que é observado durante uma sessão. O trabalho da psicanálise é promover a possibilidade de organizar os dados de outra forma, compreendidos aqui como os sentimentos que acompanham uma experiência emocional. O analista organiza estas emoções, que se transformam em elementos que podem ser pensados. A única regra é estabelecida pela regra da verdade, da não aceitação de falsificações.
O analista é sentido como representativo do desejo do paciente de promover algumas formas de mudança, aumentando a possibilidade para tolerar as frustrações, criando alternativas criativas. Todos temos um reservatório de simetrias que podem originar infinitas formas de relação.
Só a neutralidade do analista, como mediador, pode garantir este processo de transformação. É o catalisador de um processo no qual os
sentimentos são ingredientes fundamentais. A procura das verdades só faz sentido numa forma humana, pois para um trabalho psicanalítico é necessária humanidade.
É na certeza de que sou o palco interior das diferentes lógicas, tal como os meus analisandos, que o meu trabalho se vai cumprindo. Sabendo, desde já, que o relato e a palavra ficarão sempre aquém.
ABSTRACT: The psychoanalytic interpretation, having as reference the concepts of bi-logic, initially developed by Ignacio Matte-Blanco, leads us to a multiplicity of equivalent interpretations. Although formulated in different ways by analysts, they have in common that they belong to the same propositional class. The interpretation allows us, through translation, to move from symmetry to asymmetry, through symmetry, according to Matte-Blanco. In this article, we start from emotional symmetry to establish differences and similarities in the process of transformation through analysis. Emotional experience is the focus of this analytical work. It is the patient's capacity to think about his emotional experiences, tolerating psychic pain, that will allow him to reach his truth.
KEYWORDS: bi-logic, emotion, interpretation, symmetry.