Neste número, desafiámos os colegas a refletir sobre as dimensões do presente e do futuro na contemporaneidade, alargando o nosso olhar, partindo do valor da nossa história, da nossa condição transformadora e revolucionária, para a imaginação de uma psicanálise ainda por vir.
O desafio consistiu numa reflexão aprofundada sobre o modo como a psicanálise pode contribuir para pensar no mundo contemporâneo, quando este é caracterizado pela convulsão permanente, a mudança vertiginosa num globo cada vez mais agredido, quente e caótico, a nível político e coletivo.
Também o presente nos confronta com uma ciência desprovida de contexto e consciência, na qual a imagem e o culto dos ideais substituíram a ligação com o outro e connosco próprios. A tecnologia não é um instrumento, mas um sintoma da incerteza que atravessa o próprio enigma do que entendemos por humano. Como será possível, nestas circunstâncias, recuperar a «atitude em F», o ato de fé que Bion considera indispensável à tarefa analítica? Será a psicanálise uma profissão impossível na atualidade?
A partir da frase frequentemente citada «os jovens esperam o futuro na cama que os mais velhos estão a fazer», pensamos na relevância da irreverência na construção da «memória do futuro» dos futuros possíveis, para que o futuro da psicanálise não fique refém do après-coup.
Pensando no que é inédito e surpreendente na escuta contemporânea, procurámos também refletir sobre a plasticidade do nosso pensamento analítico para não perdermos de vista a complexidade que nos rodeia. Cientes de que os psicanalistas não lidam só com o passado, interessa-nos ainda, e de modo particular, a forma como a psicanálise poderá ajudar as crianças e os adolescentes a construírem o seu futuro: os futuros imaginados repercutem-se no presente; sem sonhos nem fantasias de futuro, não há sobrevivência.
Entre 2017 e 2019, Ailton Krenak, líder indígena eleito em 2023 membro da Academia Brasileiras de Letras, pronunciou duas conferências em Portugal que resultaram em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo (2020). Ele nos pergunta: o que não pertence à categoria de «humano» deve ser tratado e concebido como «coisa»? Nós, os humanos e a natureza, coisa? Podemos ainda estender sua análise às diferentes categorias de humanos e assim chegarmos a algumas delas, que justificam seres humanos serem tratados como coisas, humanos inumanos?
Esta é a pergunta central que Krenak dirige a todos nós, seus leitores: «Somos mesmo, nós, uma humanidade?»
A advertência que faz em seus livros implica a divisão entre cultura e natureza, como processos marcados pela radicalidade de suas diferenças. Humanidade implica a cultura enquanto a natureza é um dado, um recurso a ser explorado. Em seu desenrolar, quanto mais esta divisão se aprofunda, maior a proximidade do «fim do mundo», mundo entendido como um conjunto razoavelmente ordenado entre tudo o que compõe a vida em nosso planeta; mundo entendido como o que se constitui no diálogo contínuo e vital com as forças da natureza.
Natureza é cultura e cultura é natureza. Quando não é, é o fim do mundo.
Não se destrói a natureza sem que simultaneamente não se destrua a humanidade dos homens.
Psicanalista, membro efetivo e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) e membro da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
Ailton Krenak, assim como outras lideranças indígenas, nomeia o homem civilizado como «o povo da mercadoria», aquelas pessoas que se definem pelas coisas.
Davi Kopenawa, xamã ianomami, publicou, em coautoria com Bruce Albert, A queda do céu (2010), uma biografia ditada oralmente pelo xamã em que descreve seu crescimento entre os ianomamis assim como o processo de se tornar xamã, acompanhado por toda a cosmogonia de sua tribo. Bruce Albert, etnógrafo francês que, tendo passado um longo período de estágio entre os ianomamis, não somente fala a língua indígena como se tornou amigo de Davi. A queda do céu descreve a inexorabilidade e a proximidade do fim do mundo quando toda a vida da floresta é reduzida a mercadoria a ser explorada e os «espíritos» que sustentam o céu se afastam e deixam de «dançar» para os xamãs, e o céu desaba.
São formulações fortes, podemos dizer que marcadas por animismo próprio das cosmogonias de suas tribos, mas que levantam a mesma pergunta que os editores da Revista Portuguesa de Psicanálise nos oferecem à reflexão: que acontecerá quando a vida for tomada como «mercadoria» a ser explorada por intermédio das tecnologias?
Uma anedota: a propósito da crença em ficções, vale contar que o físico alemão Werner Heisenberg, visitando o interior da Noruega na companhia do colega Niels Bohr, perguntou a um camponês se ele acreditava que a ferradura pregada na porta da sua casa lhe traria sorte. A resposta: «Acreditar, não, mas ela está aí porque dá sorte.»
Esta anedota de sábios pode ser um ponto de partida para entender como se leva a sério uma fabulação. Ouçamos o professor Muniz Sodré (2022): «Ao dizer que a ferradura dá sorte, o camponês da historinha está aceitando (mais do que crendo) a voz de uma tradição. A força do sentido está no meio vital, no comum.» No comum da comunidade que se estabelece por sua força performativa.
Se nossa vida psíquica for reduzida a performances que se definem pelo grau de sua eficiência, por sua utilidade (Krenak, 2020); se a psicanálise se reduz a um instrumento para produzir seres mais produtivos; se a vida humana se torna, também ela, em uma mercadoria, estamos diante do fim do mundo… da psicanálise.
A história do pensamento ocidental está marcada desde seus começos pelas repetidas e sucessivas advertências contra o impulso de determinar, definir e controlar a vida sob o risco de acabar com a vida. São pseudo-questões aquelas que pretendem, uma vez respondidas, acabar definitivamente com a possibilidade de seguir perguntando. A impossibilidade de respostas definitivas para as pseudo-questões já está contida na pergunta. Isso porque as questões, quando verdadeiras e quando respondidas, só se fazem enriquecer com as respostas que lhes são oferecidas, que assim incrementam a capacidade de prosseguir perguntando.
No esforço de estabelecer uma ordem cronológica do aparecimento do que constitui o homem, o corpo, com frequência, toma o lugar do elemento mais primário do humano e seu último reduto, como superfície elementar onde se dispõe o humano do homem, como se o corpo, tomado como coisa, pudesse ser reduzido às suas funções fisiológicas.
Na experiência própria do corpo, o que chamamos de sua interioridade, interioridade do corpo, não é espacial, mas processual, isto é, se define como um lugar de transformações onde, apesar de cada qual merecer estudos próprios, integram por sua vez um corpo vivo em que nada do que aconteça em qualquer uma de suas partes deixa de afetar todas as outras. Toda a variação das condições implica uma mudança no todo. Confiar na antecedência de um sobre o outro significa hipostasiar o motivo, ou seja, substancializar o motivo, torná-lo coisa a partir da qual tudo se origina, deixando escapar o principal: a processualidade.
Já foi o tempo em que o objetivo da psicanálise se concentrava nas interpretações e seu empenho de deciframento dos sintomas. Não que as interpretações tenham perdido seu lugar na clínica psicanalítica, mas, cada vez mais, vemo-nos concentrados na tarefa de fazer emergir um sujeito onde apenas escutamos queixas e dores descomprometidas com a história de cada um.
Cada vez mais vemo-nos empenhados na «arte da conversação», reflexão tomada de um dos ensaios de Montaigne (2001), posta a serviço da clínica com pacientes-limite a fim de promover experiências sensíveis capazes de prover o aparelho psíquico de marcas a partir das quais as cadeias associativas se formem e assim possam oferecer uma
representação do sujeito para ele mesmo, uma experiência capaz de fazer o outro nascer para si próprio (Pontalis, 1977).
Espera e esperança dizem respeito uma à outra. Sem esperança, é impossível esperar; sem espera, não há esperança.
Nós temos um longo e árduo caminho pela frente. Prossigamos.