Não tendo podido decidir-me em que ponta da meada pegar para glosar o mote «O futuro no divã», que, muito me honrando, a Revista Portuguesa de Psicanálise me propõs ao convidar-me a colaborar neste seu número, acabei por reunir, à falta de melhor, estas «perlaborações» resultantes de um trabalho que julgo afim e solidário daquele que a psicanálise chama de «perlaboração» (o Durcharbeiten de Freud, que o inglês traduz como working through) — juízo sustentado pela minha própria experiência tanto do divã como da escrita, e também pela frequentação quer da obra de Freud, quer do pensamento de outros psicanalistas, de entre os quais destacaria, como minhas referências maiores, D.W. Winnicott, J.-B. Pontalis e C. Castoriadis. Com efeito, como este último diria, trata-se de conceber e continuar a análise como uma «atividade prático-poiética» irredutível à «lógica conjuntista-identitária», embora não podendo dispensá-la, do mesmo modo que a criação poética, não se limitando à dimensão de código da linguagem, renova as nascentes vivas da sua dimensão de «potência de metamorfose» e corpo a corpo com o mundo dentro e fora, parte de si mesma.
J.-B. Pontalis escreve que o sonho é um pensamento que não sabe que pensa. Talvez devamos prolongar e trabalhar esta ideia reconhecendo e assumindo também o pensamento como sonho que sabe que sonha. Tal é igualmente um dos sentidos da busca de sentido — e interminável interrogação do sentido — que propõem as «perlaborações» que aqui trago, na expectativa de que os seus leitores possam descobrir nelas alguma ocasião de, nas suas, as retomarem por conta própria.
Tradutor, poeta e ensaísta.
Estamos onde não estamos onde estamoscomo o vento está onde sopra onde não está
Pescador de águas turvas o desejoamanhece na carne que ressumaa febre do olhar cujo corpo incertode vulto em vulto que erra se confunde?
[T]udo menos o grito surgido da desgraça e do pavor, esse grito de uma criança perdida que ninguém no mundo ouve.
Chegássemos enfim a tempo de a salvara criança fugitiva por malditada terra dos seus pais e cujo gritonos chama ao pressentir talvez um som de passosna encruzilhada que se esvaiou de partidaem partida nos leva toda a vidaperdidos sem saber como a buscar
Leitura de Rita Taborda Duarte
Desensimesma-se-lhe a carne nas palavrasque no desejo se desensimesmam e entranhama carne que o desejo nelas se dilata
Fotografias de Patrícia Câmara
Não o lembra a memória nem esquece o esquecimentoo esplendor que amanhece suspenso tempo dentrona eternidade do momento nunca idênticodo ser que uma vez só é sempre para sempre
Palavra que ao dizer-se então se façaem corpo e alma a mesma carne aladacuja verdade seja que nos salve