Em primeiro lugar, quero agradecer a Jorge Câmara, Diretor da Revista Portuguesa de Psicanálise (e colega psicanalista que estimo e admiro), e à equipa editorial o convite que me fizeram para refletir sobre «O futuro no divã». O texto da equipa editorial, que serve de enquadramento ao tema, desafia os colegas convidados para este número da secção Vertigem (e de outra maneira desafia também todos os leitores) a uma reflexão pessoal sobre o lugar da Psicanálise e do Psicanalista no mundo contemporâneo e no futuro.
Dado que a minha perspetiva sobre a Psicanálise e sobre o que é ser Psicanalista é inevitavelmente influenciada pela minha própria identidade analítica, apresento brevemente o meu percurso.
Foi no quarto ano do Ispa (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida), na minha primeira aula com Luís de Sousa Ribeiro, que o pensamento psicanalítico encontrou em mim mais um dos seus pensadores. O deslumbramento desassossegante que senti nessa altura permanece até hoje e, estou certo, permanecerá para sempre comigo. (O breve sempre que a vida nos permite…)
Sou psicólogo clínico, sou psicanalista e durante alguns anos fui professor universitário e supervisor de equipas técnicas e educativas em instituições de acolhimento de crianças e jovens.
Contudo, tenho sido sobretudo um clínico, no sentido em que, ao longo dos últimos vinte e cinco anos, tenho dedicado grande parte da minha vida profissional ao estudo da teoria e da teoria da técnica e à prática psicoterapêutica e psicanalítica com crianças, adolescentes e adultos.
Psicólogo Clínico e Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e membro da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: miguelpintobarros@gmail.com
A família, os amigos e os vários interesses culturais e desportivos também desempenham, necessariamente, um papel fundamental na minha identidade psicanalítica.
E fiz psicanálise com Orlando Fialho, o que me permite viver melhor…
Intitulei o meu texto de «O futuro do divã: Desafios para a Psicanálise no século XXI» porque, apesar de o mundo contemporâneo estar confrontado com «mal-estares civilizacionais» sobre os quais a comunidade psicanalítica desenvolve uma reflexão científica importante, penso que a própria Psicanálise está confrontada com desafios que a impedem de ter uma contribuição mais efetiva na sociedade. Vou abordar alguns desses desafios, de um modo necessariamente breve, ou «vertiginoso» para fazer jus ao feliz nome desta secção da RPP.
Existe uma discrepância muito significativa entre a competência e a qualidade clínica diferenciadas dos psicanalistas no tratamento do sofrimento psicológico e a perda de influência e de prestígio que a Psicanálise tem tido nas últimas décadas no meio científico, nomeadamente da psiquiatria, da neurologia e da psicologia (nossas disciplinas «vizinhas»), no meio académico e no meio social.
Stefano Bolognini (2023), no desempenho das suas funções como Presidente da IPA, entre 2013 e 2017, teve oportunidade de viajar e de conversar com colegas de sociedades psicanalíticas de todo o mundo e em todos os países constatou que o pedido de novas consultas aos psicanalistas tem aumentado continuadamente, embora a maioria desses pedidos seja, pelo menos inicialmente, para psicoterapias psicanalíticas e não para «psicanálises clássicas».
Em Portugal, também é essa a realidade nos consultórios dos psicanalistas portugueses, sendo hoje quase impossível dar resposta a todos os novos pacientes que nos procuram.
Penso que o facto de os psicanalistas contemporâneos serem tão procurados nos seus consultórios e se concentrarem, e bem, na clínica psicanalítica e no estudo da teoria e da teoria da técnica lhes retira, pelo menos a uma maioria deles, onde me incluo, a disponibilidade de tempo e de motivação para abordarem de um modo mais ativo e persistente os problemas que estão na origem da progressiva perda de prestígio da Psicanálise junto dos meios científicos, académicos e sociais.
Assim, penso que estamos confrontados com um dilema entre a escolha de permanecermos sobretudo na segurança da nossa própria realidade profissional, quer presente, quer futura, e a escolha de assumirmos ativamente a responsabilidade, e o «esforço», de procurarmos garantir um futuro para as próximas gerações de psicanalistas e para a própria Psicanálise durante o século XXI.2
Se a Psicanálise não recuperar a influência e o prestígio no meio científico e no meio académico, será progressivamente mais difícil junto de jovens médicos e psicólogos, ou de estudantes de medicina e de psicologia, estimular a sua curiosidade, o seu interesse e a sua motivação pela Psicanálise e pela escolha de iniciarem uma, sempre muito exigente, formação psicanalítica.
E sem uma renovação de novas gerações de psicanalistas, o futuro da Psicanálise durante o século XXI estará progressivamente mais comprometido.3
Otto Kernberg, em 2021, escreveu um importante artigo, «Challenges for the future of psychoanalysis», onde faz propostas, muito concretas, claras e abrangentes, quer relacionadas com questões da teoria e da técnica psicoterapêutica e psicanalítica, quer relacionadas com questões institucionais, que considera necessárias para «assegurar a sobrevivência e o contributo da Psicanálise como ciência, como profissão e como disciplina humanista» (Kernberg, 2021, p. 281).
Por uma questão de síntese, saliento apenas três propostas focadas na relação da Psicanálise com o meio científico, académico e social: implementar a investigação empírica, e consequente publicação de artigos, na fronteira com as neurociências e a psicologia social;
É importante salientar, na comunidade psicanalítica, o contributo decisivo de vários colegas que dedicam muito do seu tempo e do seu «esforço» a cargos diretivos e formativos na IPA e nas sociedades e institutos de Psicanálise nacionais, até porque são funções difíceis e ingratas, onde nunca se agrada a todos. E também é importante fazer referência aos colegas que desempenham funções de formação ou supervisão, porque são fundamentais para assegurar a qualidade da Psicanálise e dos futuros psicanalistas. Pela minha parte, poderia mencionar alguns formadores e supervisores que foram importantes no meu percurso. Mas quero realçar a felicidade que tive em beneficiar de uma «supervisão didática» com Maria Fernanda Alexandre, porque aprendi muito com o seu conhecimento psicanalítico, com a sua sensibilidade clínica, mas também com a sua humanidade, amizade e cultura.
Neste texto, menciono médicos e psicólogos porque são a grande maioria dos membros das sociedades psicanalíticas.
promover um envolvimento ativo interdisciplinar com outras ciências, por exemplo convidando profissionais de renome de outras disciplinas científicas para fazerem parte do grupo de formadores dos institutos de Psicanálise; e colaborar de um modo estreito com universidades e instituições sociais, estabelecendo parcerias concretas com as sociedades e institutos de Psicanálise.
Para concluir, considero que o trabalho psicoterapêutico e psicanalítico diário e o estudo da teoria e da teoria da técnica analítica, feitos com qualidade e empenho, nos consultórios ou noutras instituições, são obviamente essenciais para os pacientes que nos procuram (e numa perspetiva transgeracional para as suas famílias) e são uma forma importante e meritória da Psicanálise e do Psicanalista contribuírem para o bem comum da sociedade.
No entanto, para que a Psicanálise volte a ter influência no meio científico, académico e social, a concretização, por exemplo, de algumas das propostas de Otto Kernberg parece-me essencial.
Mas estará a comunidade psicanalítica, na sua maioria, disponível e motivada para sair do conforto dos seus consultórios e investir uma parte significativa do seu tempo em «investigações empíricas e consequente publicação de artigos»? Ou em trabalhar em contextos institucionais? Ou mesmo em se dedicar a uma carreira académica e ao ensino universitário?
Pela minha parte, a resposta não é clara…
Contudo, é fundamental que os psicanalistas se mobilizem para um diálogo efetivo com outras disciplinas científicas, para uma maior parceria com instituições sociais e para o ensino nas universidades, pois só assim será possível que gerações futuras de médicos e de psicólogos se interessem pela Psicanálise e possam, também eles, descobrir o deslumbramento desassossegante do pensamento psicanalítico.