Em «A criança mal acolhida e sua pulsão de morte», publicado em 1929, Ferenczi escreve: «eu apenas queria indicar a probabilidade do fato de que as crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem e de bom agrado, ou utilizam um dos numerosos meios orgânicos para desaparecer rapidamente ou, se escapam a esse destino, conservarão um certo pessimismo e aversão à vida» (p. 49).1 Como introduzir impulsos positivos de vida e razões para se continuar a existir, questiona-se Ferenczi?
Freud, numa carta de 12 de Maio de 1932, tinha aconselhado Ferenczi a abandonar a «ilha de sonhos» onde morava, com receio de que ele perdesse o contacto com a realidade. Ferenczi tinha o sonho de que poderia encontrar-se um meio de ajudar o ser humano em dificuldades. No nosso jardim de sonhos, pensamos na necessidade de injetar pulsão de vida num momento civilizacional onde a pulsão de morte nos invade desde idades tão precoces.
Nos atuais contextos, por vezes o bebé encontra-se muito próximo do não-ser, sendo muito fácil a criança ser destruída por sensações de abandono, mais do que os adultos. Como trazer mais pulsão de vida à criança mal acolhida que nos habita? E na clínica, como instilar mais pulsão de vida?
Assim, a procura de mais pulsão de vida constitui o mote deste número, que se encontra refletido nos artigos sobre o amor e limitações à capacidade de amar, a maternidade, o prazer, os sonhos, o nascimento do sentido do tempo. A parte final deste número remete-nos
(1929). A criança mal acolhida e sua pulsão de morte. Em Obras Completas, vol. 4. Martins Fontes.
para reflexões sobre o lugar do humor na relação analítica. Podemos considerá-lo um possível recurso no despertar e valorização da pulsão de vida, diante de seu embate permanente com a pulsão de morte?
Na secção Fundamentos, começamos com o artigo de Lesley Caldwell sobre a visão da Psicanálise sobre a maternidade. Simultaneamente homenagem e crítica à obra de Winnicott, a autora chama a atenção para o facto de a visão psicanalítica sobre a relação mãe-bebé tender a estar exclusivamente centrada nas emoções e necessidades do bebé, excluindo do discurso as emoções, as fantasias, a sexualidade e o inconsciente da mãe.
No artigo «Masculinidade e seus prazeres», Rui Aragão Oliveira explora as perspetivas psicanalíticas sobre a masculinidade. Observando as divergências conceptuais entre uma visão fálico-narcísica, historicamente dominante, e uma visão seminal que a clínica contemporânea tem vindo a evidenciar, o autor explora as diferentes experiências da masculinidade enquanto rigidificações defensivas ou integrações flexíveis que permitem o acesso, conflitual e ambivalente, a prazeres diferenciados.
Em Clínicas, Guilherme Canta propõe uma reflexão sobre o terceiro analítico no seu artigo «Quem é o analista que sonha o paciente e quem é o supervisor que compreende o sonho: o terceiro em supervisão», pondo em relação as noções técnicas sobre supervisão em psicanálise e o aparecimento do conceito de terceiro analítico. A sua proposta é desenvolvida através da exploração de várias formulações analista-paciente-supervisor, centrando-se na importância do conceito de processo paralelo.
No artigo «O nascimento do sentido do tempo», Ana Mónica Dias propõe uma reflexão sobre o tempo enquanto organizador da mente, articulando o saber psicanalítico com a fenomenologia, e recorrendo a vinhetas clínicas que permitem a clarificação dos diversos conceitos apresentados.
Em «Amor e limitações à capacidade de amar: contributos de Otto Kernberg», Matilde da Silva Gomes e Paula Valente debruçam-se sobre as vicissitudes do desejo erótico e do amor maduro à luz da obra deste autor. A possibilidade de integrar a sexualidade numa relação afetiva íntima de modo harmonioso não só dependerá de um desenvolvimento saudável da personalidade, mas também do equilíbrio
entre os mecanismos inconscientes do indivíduo e a dinâmica interpessoal do casal.
Na secção Formação Contínua, no artigo de Flávia Figueira Porto e Ivonise Fernandes da Motta, «Reflexões sobre a comunicação na obra de Donald W. Winnicott», é apresentada uma interessante abordagem a um tema pouco explorado na obra do autor. Reflete-se sobre os modos de comunicação e de não comunicação explícita e implícita, salientando-se os aspetos da comunicação mãe-bebé e da paradoxalidade da comunicação.
Na recensão do livro de Rui Aragão, intitulado Livro do Prazer – Reflexões Psicanalíticas, Conceição Melo Almeida evidencia a conceptualização de Rui Aragão do prazer como parte integrante do processo identitário, ligado ao despertar da relação com o objeto, à busca, à indagação e à criação, situando-o na teoria psicanalítica, na psicopatologia e nas abordagens terapêuticas, com os seus desenvolvimentos contemporâneos.
Na secção Vertigem, o mote desta edição é o humor na relação psicanalítica. Tiago Chagas liga o humor ao prazer infantil e à descoberta do verdadeiro self na análise. Chama também a atenção do leitor para o interessante facto de Freud ter escrito os seus textos sobre o humor ao mesmo tempo que escrevia dois dos seus textos mais emblemáticos. Já Pedro Job mostra como nos ofícios de comediante e de analista há pontos de contacto insuspeitados na sua atitude de base perante o sofrimento, o erro e a falha humana, bem como na busca da sua transformação. Sofia Vilar Soares, por sua vez, interroga o lugar do humor no divã, destacando as condições para a sua emergência. Elenca diversas funções que o humor ocupa no funcionamento mental do analista e do paciente, além de realçar o seu potencial transformador no tratamento analítico.
Esperamos que os leitores sejam afetados por estas inquietações e pelas reflexões propostas no presente número.