Neste artigo, procura-se explorar o desenvolvimento em paralelo das ideias acerca da supervisão em Psicanálise e a emergência do conceito de terceiro analítico. Embora este conceito só tenha assumido uma referência concreta nos trabalhos de Grotstein (1979, 2000) e de Ogden (1994), ele já estaria presente na mente e no trabalho clínico de vários psicanalistas, como se procura demonstrar através da exploração de vários triângulos psicanalíticos.
Salienta-se a importância do conceito de processo paralelo na supervisão, processo inconsciente que leva a que seja reproduzida na situação de supervisão a situação analítica, possibilitando ao supervisor identificar os aspetos que ainda não estão compreendidos pelo supervisando. Desse modo, o supervisor tem de ser quem sonha o sonho ainda não sonhado pelo supervisando, para que este por sua vez possa ajudar o paciente a sonhar.
Uma versão prévia deste artigo foi apresentada oralmente como comunicação nas XII Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise – «O Terceiro», em Lisboa, no dia 18 de novembro de 2023. Gostaria de agradecer à Dra. Vera Ramos os comentários e sugestões feitos a uma versão prévia do artigo; e ao Dr. Filipe de Leão Miranda os comentários, revisão de texto e elaboração das figuras utilizadas neste artigo. Agradeço também à Dra. Inês Madureira e à Dra. Mary Corina Fernandes o auxílio prestado na tradução.
Artigo submetido em dezembro de 2023 e aceite para publicação em março de 2024.
Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta, Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Serviço de Psicologia Clínica e Hospital de Dia do Hospital Júlio de Matos – Unidade Local de Saúde São José e Consultório Privado, Lisboa. E-mail:
We are all born mad. Some remain so.
O título deste artigo é uma humilde homenagem ao trabalho seminal de James Grotstein, que, na nossa opinião, marcou a emergência definitiva da ideia de Terceiro em Psicanálise, na sua forma conceptual, e desse modo consolidou uma ideia que já existia na mente de alguns psicanalistas e sua prática clínica, tal como tentaremos demonstrar. No artigo «Who is the Dreamer Who Dreams the Dream and Who is the Dreamer Who Understands It» (1979) e mais tarde no seu livro Who is the Dreamer Who Dreams the Dream (2000), Grotstein explora de forma muito criativa as personagens internas que nos animam e o sujeito terceiro que emerge na relação analítica. Queremos ao longo deste artigo fazer um percurso que explore essa temática do terceiro analítico na sua relação com a supervisão.4 A tese que vamos defender é: a evolução das ideias acerca da supervisão em Psicanálise ocorreu em paralelo com a evolução das ideias acerca do terceiro analítico, influenciando-se mutuamente. Para explorar as ideias e mais concretamente a origem das ideias, vamos visitar um conjunto de triângulos psicanalíticos, remontando ao fundador da Psicanálise.
Como Ogden nos diz no capítulo «On Psychoanalytic Supervision» (2009), Freud escreveu muito pouco sobre a supervisão, limitando-se às orientações encontradas no caso do Pequeno Hans [«Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy» (Freud, 1909/1955)], onde dá indicações ao pai de Hans de como deverá proceder. Esse é provavelmente o primeiro registo escrito de supervisão em Psicanálise. No entanto, sabemos que Freud treinou os seus discípulos e passou o seu conhecimento clínico de forma direta, certamente levando a cabo supervisões, além da experiência analítica e da formação teórica, desenvolvida
A ideia de terceiro em Psicanálise foi bem explorada por Coelho Junior (2015, 2016), ao argumentar que existem duas linhas paralelas de desenvolvimento: por um lado, as ideias de André Green e, por outro, as ideias de Thomas Ogden, que, embora possuam perspetivas diferentes do terceiro (ou terceiridade), possuem aspetos complementares, e atingiram um elevado impacto nas ideias psicanalíticas contemporâneas. Neste artigo, vamos centrar a nossa atenção na corrente de ideias norte-americanas de James Grotstein e Thomas Ogden, explorando o ambiente intelectual e as perspetivas psicanalíticas em que estas se desenvolveram e o modo como se podem articular com as ideias sobre a supervisão.
através das suas conferências e escritos. Desse modo, desde muito cedo se estabeleceu a formação tripartida em Psicanálise, envolvendo a análise pessoal, a formação teórico-clínica e a supervisão de casos clínicos como eixos de desenvolvimento do psicanalista. Curiosamente, também se criou desde cedo uma tradição, que ainda hoje permanece de modo algo pernicioso, em que se escreve muito pouco sobre a supervisão, existindo poucas indicações de como esta deve ocorrer e quais os processos específicos que a constituem. Dos elementos da formação tripartida, a supervisão é certamente o elemento que menos reflexão e publicação tem recebido. Assim, torna-se importante ver como a supervisão evoluiu na Psicanálise e como foi também um espaço de criatividade dos psicanalistas.
De entre os discípulos iniciais de Freud, Carl Gustav Jung e Sándor Ferenczi foram duas personagens salientes, jovens clínicos brilhantes e merecedores do mais intenso afeto por parte do mestre. Não será estranho que tenham sido os companheiros de viagem aos Estados Unidos da América, em 1909, quando Freud foi convidado por
Stanley Hall a proferir um conjunto de conferências na Clark University, introduzindo a Psicanálise na América, mas também, não menos importante, dando legitimidade científica e académica à jovem ciência (Herman & Fair-Schulz, 2018). Se as conferências foram importantes, a viagem de barco não o foi menos. Freud foi convidado a ir, mas inicialmente recusou, porque iria ficar muito tempo sem trabalhar e iria perder dinheiro; depois, Hall conseguiu agendar para melhor data e Freud aceitou, convidando Ferenczi a ir com ele. Por sua vez, Hall convidou diretamente Jung, que também aceitou e informou Freud; este, por sua vez, ficou contente com o convite feito a Jung e logo tentou agendar a viagem para que os três fossem de barco juntos (de Bremen a Nova Iorque), podendo aproveitar o tempo para analisar os seus discípulos. Mas essa ideia era sem dúvida arriscada, porque Jung não se queria limitar a estar numa posição de analisando e tinha a ambição de ser também analista de Freud (Herman & Fair-Schulz, 2018). Na viagem, diz-nos Ernest Jones (1955/1989) de forma entusiástica, os três analisavam os sonhos uns dos outros, sendo o «primeiro exemplo de uma análise de grupo» (p. 68). Jones, que estava no Canadá, viria a juntar-se à restante comitiva, já nos Estados Unidos da América.
Sempre nos questionámos por que razão Ferenczi foi na viagem, uma vez que não foi falar nas conferências. Certamente não foi apenas por turismo. Talvez para cuidar de Freud? Talvez para o desintoxicar do contacto com a inveja, a pulsão destrutiva e mortífera vinda de Jung? Voltaremos adiante a este ponto, mas sabemos que existia uma forte rivalidade na dinâmica Freud-Jung, rivalidade e admiração de parte a parte, mas onde Jung sentia muitas vezes ocupar uma posição de subserviência. Num curioso desenho de Ralph Steadman (Figura 1), vemos Freud e Jung num primeiro plano e ao fundo Ferenczi a vomitar. Talvez seja apenas enjoo do barco ou, por outro lado, da intoxicação com a destrutividade vinda de Jung. Ferenczi foi alguém que ficou de fora (das conferências), mas apoiou Freud (analista simbólico de Jung), foi um supervisor-container, de algum modo. Sabemos, através de Jones (1955/1989), que Ferenczi acompanhava Freud nas suas caminhadas, enquanto este elaborava mentalmente as conferências que iria depois fazer de improviso, e sabemos também que anos mais tarde Ferenczi escreveu a Freud disponibilizando-se para ser seu analista (Silver, 1993). Assim, Ferenczi era um importante apoio intelectual e emocional.
Mas voltando um pouco atrás, qual o contexto da relação Freud-Jung? Conhecemos dois pontos importantes: em 1907, na primeira visita de Jung a Viena, ele falou ininterruptatemente com Freud durante cerca de 13 horas — provavelmente, a primeira supervisão presencial registada em Psicanálise, e, muito provavelmente, ainda hoje a mais longa de sempre! Nesse período, a relação entre ambos era de fascínio e admiração, mas em 1908 surgiu o complexo problema com Sabina Spielrein e a relação com Jung ficou mais tensa, com marcadas reprimendas por parte de Freud. Quando se encontraram em Bremen, em 1909, essas questões éticas ainda pairavam, mas Freud queria acreditar que faziam parte do passado, e queria continuar a ver em Jung o seu homem de confiança. Ainda antes da partida de barco, os três parceiros de viagem jantaram. Jung falou dos seus sonhos e do interesse, simbolicamente carregado, por «cadáveres pré-históricos que arqueólogos tinham desenterrado naquela zona» (Herman & Fair-Schulz, 2018, p. 9), e Freud teve subitamente um inesperado desmaio. Durante o resto da viagem, Freud teve um mal-estar gástrico muito acentuado. Toda a situação com Jung foi de grande tensão, carregada de hostilidade, e que viria anos mais tarde (em ) a culminar na famosa rutura entre ambos (Herman & Fair-Schulz, 2018; Jones, 1955/1989).
Uma vez no barco, Jung continuou a narrar sonhos marcados pela morte e agressividade, e gradualmente isso incomodou Freud, que sentia esses sonhos como sendo um ataque inconsciente a si e à sua autoridade. Ferenczi, por seu lado, tentava mediar a relação e ter uma posição de contenção (Figura 2). Quando Freud contou os seus sonhos, também foi interpelado por Jung, que disse não ter material de contexto suficiente para a interpretação, ao que Freud terá dito: «nada mais lhe posso contar pois poderia perder a minha autoridade» (Herman & Fair-Schulz, 2018, p. 12) — esta intervenção já foi alvo de múltiplas interpretações, mas, para o propósito deste artigo, vincamos apenas a confusão que pode emergir de uma má definição de papéis. A não separação entre os papéis de analista e supervisor certamente é geradora de confusões decorrentes dos aspetos formais, mas sobretudo dificulta a gestão dos elementos transferenciais e contratransferenciais.
As conferências de Freud e Jung foram um sucesso (Jones, 1955/1989). A presença de Ferenczi foi de algum modo notada pelos americanos, que mais tarde teriam interesse em ouvir as suas posições, como veremos adiante.
Depois do corte com Jung, Ferenczi tornou-se ainda mais no amigo de confiança. Enquanto Jones era o político dotado da força para implementar a instituição psicanalítica e Karl Abraham era um inovador clínico e teórico, Ferenczi possuía uma criatividade e afetividade que Freud muito apreciava. Ferenczi, por seu turno, tinha um respeito enorme e uma adulação infantil por Freud, mas simultaneamente foi desenvolvendo a ideia de que Freud não se esforçava o suficiente pelos seus pacientes, que não tinha uma postura experimentalista e investigadora como, por sua vez, ele próprio teria. Essas diferenças, sobretudo na postura clínica, foram-se acentuando com o tempo, e, mais tarde, levariam também a um afastamento e rutura.
A confusão entre os papéis de analista e supervisor, que Freud tendia a encarnar em simultâneo, levou a um acentuar das confusões e conflitos. Se algo poderemos aprender a partir desta primeira história, será a necessidade de desempenho diferenciado destas funções e da natureza diferente da função, estando assim lançadas as bases da prática analítica e do treino de psicanalistas. Não será completamente arriscado dizer que a supervisão em Psicanálise nasce numa viagem de barco quando um analista tenta simbolicamente matar outro e emerge um terceiro para o salvar.
A nossa segunda viagem leva-nos a Londres, onde Wilfred Bion começou a sua prática na Tavistock Clinic e recebeu em consulta um jovem irlandês, bastante perturbado e complexo, de seu nome Samuel Beckett, que procurou ajuda porque queria ser escritor e sentia um enorme bloqueio criativo. A ida de Dublin para Londres permitiu-lhe distância em relação ao materno e a procura de uma identidade. Havia também em Bion uma demanda pela sua própria identidade: jovem formado em História, fez depois a formação médica, sendo já um medalhado e traumatizado veterano da Grande Guerra, e ganhou interesse pela psicoterapia quando recebeu ajuda enquanto fazia o curso de Medicina. A convite de James Hadfield, professor universitário e grande adepto de Jung, Bion começou a trabalhar na Tavistock Clinic, então uma recente estrutura clínica e formativa que visava disseminar a Psicoterapia em Londres (Bléandonu, 1993). A terapia (quatro vezes por semana) de Beckett (entre e 1935) não terá sido um sucesso absoluto, mas permitiu-lhe encontrar um caminho identitário e melhorar das suas queixas depressivas e somáticas. Por sua vez, a Bion permitiu-lhe o começo do seu percurso enquanto analista. Para celebrar o final da sua relação analítica, final, diga-se, decidido pelo paciente, Bion propôs então uma derradeira experiência: irem jantar e depois assistirem à conferência de Carl Jung (a terceira de um ciclo de cinco) na Tavistock Clinic (Jung, 1935/1950). Não sabemos quem pagou o jantar, mas sabemos o que se ouviu mais tarde na conferência. Esta experiência seria importante para ambos: para Beckett, foi o contacto com ideias sobre a exploração dos sonhos e a valorização da criatividade intrínseca ao humano (que inclusive lhe iria valer anos mais tarde a conquista do Prémio Nobel da Literatura); já para Bion, os temas da conferência tiveram um impacto no seu interesse pelos aspetos arcaicos da mente, as suas ideias sobre o protomental, o interesse clínico pelos estados psicóticos e do que poderá estar aquém do representável (Anzieu, 1989). Os três homens (Figura 3) pareciam sofrer de intensas agonias primitivas, contra as quais desenvolveram defesas autísticas eficazes, mas com grande compromisso na sua vida pessoal. Vários autores comentam que Bion e Beckett parecem gémeos imaginários (Anzieu, 1989; Bléandonu, 1993; Simon, 1988), com os
Assim, vemos um Bion que, através do seu mentor, Hadfield, contactou com as ideias de Jung, que utilizou para pensar a partir da sua experiência clínica e de vida. Se formos ler as conferências de Jung e as curiosas questões que o jovem Dr. Bion colocou (Jung, 1935/1950), encontramos um conjunto de contributos interessantes: as ideias inatas (pré-concepções), a importância das emoções, os aspetos primitivos da mente, a ligação aos confins somatopsíquicos, a génese do que Bion viria a falar como sendo o protomental e pressupostos básicos, a sua conexão à ideia de inconsciente coletivo e os arquétipos, mas também ideias sobre o que seria mais tarde o conceito de identificação projetiva e o at-one-ment. Não podemos deixar de especular que Bion terá também intuído que Jung tinha um profundo contacto com o seu lado psicótico e tinha sido capaz de se autocurar (no episódio de colapso em 1913, pós-rutura com Freud). Este aspeto foi certamente muito cativante para alguém que se debatia internamente com problemáticas semelhantes e inquietações profundas.
Será que as conferências serviram como uma espécie de supervisão à qual inclusive teve de levar o paciente difícil de tratar? A comunicação com a mente primordial foi um ponto que sempre interessou a Bion, e, aqui, Jung foi o seu primeiro supervisor, e Beckett o seu paciente, podendo explorar a relação com o primitivo, que emerge dos confins somatopsíquicos e penetra a mente, nas suas áreas autístico-contígua e esquizoparanoide, onde só a intuição consegue colocar em linguagem o que vem da dimensão sensorial. Na supervisão, o sensorial é transformado em linguagem através da criatividade que surge do terceiro gerado pela dupla supervisor-supervisando para servir o analisando.
Em 1926, Ferenczi voltou à América para, desta vez, ser ele a falar. Era uma América em franca expansão e modernização, onde a liberdade de pensamento psicanalítico estava em construção, tal como a estátua que receberia esse mesmo nome. Um dos pioneiros da Psicanálise na América do Norte, Harry Stack Sullivan, tinha em supervisão uma jovem analista de seu nome Clara Thompson, e os dois assistiram juntos à conferência de Ferenczi (Meigs, 2017; Pereira & Coelho Junior, 2022; Silver 1993). Ao que parece, embora não tenha originalmente feito uma conferência na Clark University, Ferenczi tinha deixado boas impressões e os americanos quiseram aprender com ele, nomeadamente algumas novidades do ponto de vista técnico, envolvendo uma maior atenção à transferência. Sullivan ficou muito impressionado e alimentava a ideia de estudar ou fazer análise com Ferenczi, mas não tinha recursos financeiros para se ausentar de Nova Iorque, pelo que persuadiu a sua jovem supervisanda, mais abonada financeiramente, a fazer análise com Ferenczi, e depois realizar uma análise ao seu supervisor! Não nos podemos queixar de falta de criatividade nos primórdios da Psicanálise, pois em resumo temos: Thompson fazia supervisão com Sullivan; Sullivan queria, mas não conseguia fazer supervisão ou análise com Ferenczi; Sullivan convenceu e enviou Thompson para análise com Ferenczi; Ferenczi analisou Thompson e Thompson também analisou Ferenczi, pois foi uma das suas pacientes de análise mútua; por último, Thompson analisou Sullivan, seu antigo supervisor e depois analisando (Meigs, 2017; Silver, 1993). Deste modo, as ideias de Ferenczi encontraram forma de empestar o novo
mundo: além das conferências, existia agora uma descendência por via analítica direta (se quisermos, podemos dizer que entraram via consciente e também através do inconsciente).
O grande interesse em estudar com Ferenczi relacionava-se com a necessidade de perceber a técnica ativa em terapia, para a poder usar com as psicoses e as perturbações de carácter, bem como a necessidade de interpretação do não-verbal. Atualmente, estas podem parecer-nos questões triviais em Psicanálise, mas na época eram revolucionárias. Ferenczi também advogava uma postura marcada pela empatia, em vez da neutralidade técnica, e defendia a necessidade de reconhecer as questões relacionadas com as falhas parentais e o impacto dos traumas provocados por acontecimentos reais no desenvolvimento. Sabemos que tanto Sullivan como Thompson, inspirados pela aprendizagem com Ferenczi (Figura 4), viriam a fundar aquilo que ficou conhecido como Psicanálise Interpessoal, uma primeira escola de Psicanálise original americana e na qual se inscreveu justamente a ideia de terceiro. Nesta corrente, as relações interpessoais mereciam maior valorização, por contraponto com os aspetos intrapsíquicos valorizados na teoria clássica (Kwawer, 2019; Pereira & Coelho Junior, 2022; Silver, 1993). Convém salientar que a necessidade de tratar cada vez mais doentes regredidos, aquilo que hoje chamamos de estados primitivos da mente, levou a desenvolvimentos técnicos na Psicanálise e maior necessidade de supervisão.
Mas a influência de Sullivan não se ficou por aqui. Ele era uma figura de primeira linha da Psicanálise nos Estados Unidos, com grande influência em Nova Iorque e Washington, e viria a tomar uma decisão com enorme impacto no desenvolvimento de toda a Psicanálise americana: com o antissemitismo e a perseguição aos judeus a aumentar na Europa, alguns tentavam partir para os Estados Unidos. É nesta conjuntura histórica que um hospital privado chamado Chestnut Lodge, especializado no tratamento de doentes psicóticos, procurava um clínico para liderar a sua equipa. Sullivan era um palestrante regular, dando formação a todo o staff clínico, e mantinha uma boa relação com o proprietário e diretor, pelo que aproveitou a oportunidade de levar Frieda Fromm-Reichmann para a América.
Frieda Fromm-Reichmann é uma figura muito curiosa da Psicanálise. Embora toda a sua formação tenha sido feita na Europa, tornou-se conhecida pelo seu trabalho nos EUA. A sua formação inicial foi em Neurologia, mas cedo se interessou pela esquizofrenia e seu tratamento. Colocou uma grande importância na comunicação não-verbal e na postura empática e compreensiva do analista. Fez o seu treino psicanalítico no Instituto de Berlim, num período em que os membros incluíam Otto Rank, Hanns Sachs (seu analista), Max Eitingon, Franz Alexander, Otto Fenichel, Theodor Reik, Melanie Klein e Helene Deutsch. Foi também muito influenciada por Karl Abraham e Georg Groddeck, que a incentivaram a trabalhar com doentes psicóticos (Pereira & Coelho Junior, 2022; Petratos, 1990). Foi justamente para trabalhar com doentes psicóticos que foi recrutada para o Chestnut Lodge, onde supervisionou e treinou uma geração de novos psicanalistas americanos. Do ponto de vista clínico e técnico, procurava uma grande proximidade afetiva com os pacientes e acreditava no enorme impacto das experiências precoces e na importância da relação terapêutica com a pessoa do analista, valorizando a intuição e a criatividade necessárias para o trabalho com pacientes difíceis (Silver & Cantor, 1990). Neste período americano, viveu grande parte do seu tempo numa cabana5
A própria decisão de Frieda Fromm-Reichmann integrar a estrutura de Chestnut Lodge Hospital também teve muito que ver com a referida cabana: na altura, tinha ofertas de trabalho do Chestnut Lodge e da Menninger Clinic. Na época, a Menninger Clinic era mais prestigiada e oferecia melhor salário, mas considerando que Frieda se mudava da Europa para os EUA, a direção do Chestnut Lodge dispôs-se a construir um espaço onde pudesse viver e trabalhar confortavelmente (Kwawer, 2019). Esta cabana tornou-se famosa ao ser mencionada pelos pacientes e supervisandos.
construída no meio da mata de castanheiros onde se situava o hospital, uma cabana para viver e trabalhar, receber os pacientes e os colegas que supervisionava. Entre esses colegas, estava o jovem Harold Searles (Figura 5), que se desenvolveu intelectualmente no contexto de Chestnut Lodge, no trabalho com pacientes psicóticos e com o suporte da supervisão institucional. Foi nesse contexto que fez uma contribuição fulcral para a perspetiva psicanalítica da supervisão: o conceito de , mais tarde chamado (; ; ; ), em que defendeu a ideia de que na supervisão opera um processo inconsciente no qual é reproduzida a situação analítica: temáticas, afetos, fantasias e «encenações» da situação analítica do supervisando/analista e do paciente são transpostas para a relação com o supervisor. Assim, o supervisor, além de ajudar a estabelecer e manter o , fornecer indicações técnicas e compreender aspetos clínicos (que na sua maioria são questões que ocorrem no plano consciente-pré-consciente), deverá intuir e trazer para a supervisão os aspetos inconscientes que são transmitidos pelo supervisando — de algum modo, deve tornar-se no realizador-sonhador do sonho ainda não sonhado pelo supervisando e pelo seu paciente. No , guiado pela experiência emocional, existe intervenção da intuição — capacidade de ligação de inconsciente (do supervisor) ao inconsciente (do paciente) através do inconsciente (do supervisando/analista) — e da criatividade — enquanto capacidade de colocar em linguagem (do Consciente) aquilo que as intuições captam (do Inconsciente) no processo de supervisão (; ; ). Este processo também leva a que a supervisão considere o contexto relacional do próprio encontro de supervisão e das emoções e fantasias evocadas nesse momento, em vez de ser apenas um processo eminentemente intelectual centrado em comentários sobre o registo verbal das sessões.
Em síntese, o fundamental conceito de processo paralelo na supervisão refere-se à replicação inconsciente, na relação entre supervisando e supervisor, de um problema paralelo e desconhecido existente na relação transferocontratransferencial com o paciente, que reflete dificuldades específicas em avaliar ou lidar com a transferência do paciente ou, eventualmente, dificuldades inerentes ao próprio analista/supervisando. Assim, inconscientemente, o supervisando replica na relação com o supervisor, e com papéis invertidos (assumindo na relação a posição do paciente), o desenrolar da transferência/contratransferência com o paciente. Isto poderá ser um problema, bem como uma importante contribuição ao processo de supervisão, para a aprendizagem e desenvolvimento do terapeuta, se compreendido corretamente. No fundo, este processo possibilita ao supervisor um contacto com aspetos que de outro modo não conheceria, e ao supervisando possibilita aceder, com a ajuda do supervisor, a aspetos do paciente ou seus que de outro modo poderiam passar despercebidos ou bloquear a evolução do processo analítico (Kernberg, 2010, 2019; Ogden, 2009; Pereira & Coelho Junior, 2022; Waugaman, 2015).
Não podemos deixar de destacar que de algum modo este conceito de processo paralelo encerra em si muito do que veremos no conceito de terceiro.
Em 1968, depois de algum desgaste em Londres, Bion mudou-se para Los Angeles, onde trabalhou até 1979 (Bléandonu, 1993). Toda a aventura californiana tinha principiado no início da década de 1960, quando um grupo de colegas da Sociedade Psicanalítica de Los Angeles começou a desenvolver um interesse pela teoria kleiniana, tendo convidado vários analistas britânicos para darem conferências (entre eles, Hanna Segal, Harry Guntrip, Betty Joseph, Susan Isaacs, e o próprio Bion), e mais tarde conseguiu persuadir Wilfred Bion e Albert Mason a mudarem a sua prática clínica para Los Angeles. Desse modo, ocorreu uma profunda transformação do pensamento psicanalítico na Califórnia e é nesse contexto que Grotstein (um dos analisandos de Bion) e mais tarde Ogden (que treinou no Instituto de São Francisco) desenvolvem as suas ideias sobre o terceiro. Como veremos de seguida, na senda das ideias de Bion, a lógica e a própria linguagem psicanalítica modificaram-se profundamente (Figura 6).
No seu artigo de 1979, James Grotstein introduziu um triângulo curioso: 1) O Sonhador que Sonha o Sonho; 2) O Sonhador que Compreende o Sonho; e 3) o Sonhador que torna o Sonho Compreensível, como entidades internas que tornam o (processo do) sonhar possível. Se aplicarmos essas funções ao contexto de supervisão, temos: 1) o paciente; 2) o analista/supervisando; 3) e o supervisor, enquanto
entidades externas. O sonho seria sempre o terceiro a emergir das relações entre os atores. Grotstein (1979, 1990, 2000) utiliza também a ideia de folie-à-deux como sendo um aspeto fundamental do desenvolvimento, estando presente na relação de bonding (da mãe para a criança) e de attachment (da criança para a mãe), sendo reproduzida na relação analítica entre o analista e o paciente, como também argumenta Bion na sua ideia de at-one-ment e Harold Searles na ideia de simbiose terapêutica. Se usarmos o modelo continente-conteúdo, sabemos que existe uma influência mútua onde o conteúdo transforma o continente e o inverso, ou seja, o continente também modifica o conteúdo. Este modelo transformativo mútuo coloca uma grande responsabilidade no analista em relação com o paciente (onde as suas características, mesmo que não conscientes, ou especialmente estas, exercem influência sobre o paciente), mas comporta também enorme responsabilidade sobre o supervisor, que deverá conter o sonho (e a capacidade de continuar a sonhar) do analista, que, por sua vez, contém o sonho do paciente (Grotstein, 1979; Ogden, 1994, 2009).
Ogden (1994) introduziu o conceito do terceiro sujeito analítico ou terceiro analítico como um aspeto importante do processo terapêutico, referindo-se ao espaço intersubjetivo criado pelo paciente e analista, contribuindo ambos para a coconstrução de sentido e compreensão. Este espaço partilhado permite a exploração de dinâmicas inconscientes e a emergência de possibilidades de crescimento e mudança. O terceiro analítico não é apenas uma forma de experiência participada por analista e analisando, mas uma forma de experienciar a subjetividade em que ambos se tornam outro, diferentes do que haviam sido até aquele momento.
No seu artigo «Sobre a Supervisão Psicanalítica», Ogden (2009) expressou que, tal como em relação à análise, considerava a supervisão uma forma de «sonho guiado», uma experiência onde o supervisor procura ajudar o supervisando a sonhar elementos da experiência com o paciente, antes apenas parcialmente sonhados. Isto vai incluir o sonhar «sonhos interrompidos», ou seja, material não processado emocionalmente e que, como tal, provocou sintomas e sofrimento; ou sonhar «sonhos não sonhados», ou seja, processar o que ainda não entrou sequer na ordem da representabilidade (ainda não representado). A tarefa do supervisando/analista é sonhar a experiência
emocional que tem com o paciente, enquanto o supervisor deverá ser o facilitador capaz de potenciar essa capacidade no supervisando/analista ou então restaurar essa mesma capacidade quando bloqueada.
Ogden (2009) também atribuiu enorme importância às contribuições de Searles acerca do processo de reflexão ou processo paralelo, vincando que o inconsciente da relação terapêutica é transposto não só de forma inconsciente para a relação de supervisão, mas sobretudo manifestado de forma inconsciente. As ideias de Ogden sobre a supervisão incorporam de forma muito criativa as ideias de Searles, Bion e Grotstein, conferindo um estatuto de enorme importância à experiência de supervisão enquanto espaço de desenvolvimento do analista, de contacto com o inconsciente e expansão da capacidade de sonhar.
Neste trabalho, procurou fazer-se uma abordagem que de algum modo integra a Psicanálise clássica de tipo genético-evolutivo e historicista numa complementaridade com a abordagem mais contemporânea que na senda intersubjetiva opera de forma mais processual e funcionalista, centrada no campo analítico emergente na relação (Ferro & Basile, 2009).
No final deste percurso, onde se observou uma teia de relações de ideias e personagens relevantes da história da Psicanálise (Figura 7),
encontramos também algumas questões: será a ideia de terceiro um conceito norte-americano? Será que os europeus levaram para a América um conjunto de ideias revolucionárias que germinaram numa nova forma de fazer clínica e de fazer supervisão?
Podemos ficar com estas questões em aberto, sendo que a síntese da tese apresentada é:
1 – A ideia de supervisão surgiu desde o início da Psicanálise. Se no princípio Freud a considerava uma forma de doutrinação e transmissão de conhecimento técnico, clínico e teórico adquirido, cedo percebeu que a supervisão era uma forma de contacto com o inconsciente: o inconsciente do supervisor e o inconsciente do supervisando/psicanalista. Esse contacto trazia desafios e carecia de limites claros, como vimos na relação Freud-Jung. Atualmente, a supervisão precisa de equilibrar a transmissão da técnica clínica e do respeito por pressupostos éticos com o desenvolvimento da capacidade de pensar na experiência emocional e nos desafios clínicos concretos colocados pelos pacientes (Kernberg, 2010, 2019; Vollmer Filho & Bernardi, 1996; Watkins Jr., 2018; Zaslavsky, Nunes & Eizirik, 2003). Ficando a questão: que é essencial numa supervisão?
Será que a transmissão de qualidades e valores, que passam de modo muito intenso através do inconsciente, como vimos neste artigo, é mais relevante, ou pelo menos tão relevante quanto a transmissão de conhecimento, ideias ou perspetivas clínicas?
2 – Os seguidores de Freud começaram gradualmente a valorizar a transmissão inconsciente que ocorria na supervisão (vimos isso claramente em Ferenczi, Sullivan e Fromm-Reichmann). A supervisão seria então uma forma de explorar e expandir o seu conhecimento sobre o seu inconsciente (do supervisando, mas também do supervisor) e o inconsciente do paciente (presente desde cedo nas ideias de Bion, mas também de Matte Blanco, que aqui não pudemos explorar).
3 – Com Harold Searles, ganhou-se a consciência sobre o processo paralelo em que a situação analítica é transposta e encenada inconscientemente na situação de supervisão. A comunicação de inconsciente a inconsciente ganha uma posição central.
O inconsciente é, sempre foi e sempre deverá ser central à Psicanálise.
4 – Quando o indescritível, desconhecido, infinito e inefável inconsciente (aqui, considerando o inconsciente primário e o inconsciente secundário/reprimido) toma o seu lugar de direito, a relação supervisando-supervisor passa a ter um lugar central, e a emergência do terceiro enquanto resultante desse encontro é o produto criativo que vai alimentar o trabalho do supervisando/analista e que o ajudará a compreender os pacientes, a pensar em si mesmo e em última instância a encontrar a sua «própria voz analítica».
Não podemos deixar de mencionar as limitações que existem neste artigo, e salientamos duas principais:
1 – Por uma questão de espaço, não foi possível discutir a relação que existe entre as teorias de terceiro analítico (analytic third) e campo analítico (analytic field). Consideramos que existem significativos pontos de interseção e partilha entre estas teorias, quer na forma como as ideias foram desenvolvidas por Madeleine e Willy Baranger (2009)6, quer nas evoluções e contributos de outros autores, em que podemos salientar Antonino Ferro. Não deixa de ser curioso que num livro de síntese sobre esta teoria — The Analytic Field: A Clinical Concept —, editado por Ferro & Basile (2009), esteja incluído o artigo de Thomas Ogden — «The Analytic Third: Working With Intersubjective Clinical Fact» —, como sendo um texto seminal desta corrente. Seria importante, posteriormente, explorar qual a relação entre estes dois conceitos e também quais os contributos que a teoria do campo analítico pode trazer para o contexto de supervisão;
2 – Novamente por uma questão de espaço, não foram exploradas e discutidas as perspetivas europeias sobre o terceiro, nomeadamente as importantes ideias de André Green (2004, 2005). A perspetiva deste autor sobre o terceiro analítico (e o conceito de terceiridade) é diferente, mas eventualmente complementar, da perspetiva de Grotstein e Ogden que foi debatida neste artigo. Pensamos que poderia ser feito um artigo, com estrutura semelhante ao atual, no qual fossem exploradas as ideias de Ferenczi, Fairbairn, Michael Balint, Winnicott, Lacan,
O artigo no qual originalmente surge a questão de campo analítico é datado de 1964. Vários artigos de grande relevância são reproduzidos na obra citada (Baranger & Baranger, 2009) e podemos salientar que a teoria do campo analítico tem conhecido um impacto crescente na comunidade psicanalítica, com grande impacto especialmente na Europa e América Latina.
Para terminar, fica uma breve recordação pessoal enquanto supervisando. Numa das últimas supervisões que tive enquanto supervisando, fiz um pouco de conversa inicial com o supervisor — o que considero sempre já fazer parte da supervisão e que muitas vezes faz emergir problemáticas do paciente ou minhas. Contei ao supervisor que tinha estado num concerto na semana anterior e que não o havia visto como era habitual; ele retorquiu que não tinha sido possível ir ao concerto devido a um imprevisto, mas que, por sorte, o concerto fora transmitido na rádio e pôde ouvi-lo, dizendo também que «foi uma experiência aproximada, mas não a mesma coisa». Disse-me depois que, por outro lado, esteve confortável no sofá e bastaram uns passos para ir buscar uma boa bebida. Em jeito de provocação, comentei que é o mesmo que fazer supervisão, também não se está no gabinete de análise e pode estar-se confortável. Rimo-nos os dois, parecíamos de algum modo dois miúdos a brincar com uma ideia que era nossa, e depois comentámos sobre duas ou três gravações
que conhecemos da peça musical em questão e de que gostamos particularmente. Foi um momento de jogo e diversão entre duas pessoas que já se conheciam há alguns anos e partilhavam uma série de experiências, tanto concretas como afetivas. O prazer e o jogo em torno do concerto e da supervisão não foram de nenhum dos dois isoladamente, foram e são (porque o inconsciente tornou este momento atemporal e infinito) dos dois em simultâneo: é um terceiro, criado de forma partilhada e criativa. Acho que foi a possibilidade desse jogo que permitiu o desenvolvimento da supervisão e da identidade analítica. Uma coisa é certa, a supervisão evolui numa relação íntima entre o supervisando/ /analista, o supervisor, o paciente e tudo o que existe entre eles, num clima de intimidade que possa permitir a exposição de falhas e ignorância e onde possa brotar a expansão mental e o sonho.
ABSTRACT: In the current paper we sought to explore the parallel development of ideas about supervision in Psychoanalysis and the emergence of the concept of analytic third. Although this concept only took on a concrete reference in the works of Grotstein (1979, 2000) and Ogden (1994), it seemed to be already present in the minds and clinical work of various psychoanalysts, as was demonstrated through the exploration of several psychoanalytic triangles.
The importance of the concept of parallel process in supervision was highlighted, an unconscious process that leads to the analytical situation being reproduced in the supervision situation, enabling the supervisor to identify aspects that are not yet understood by the supervisee. In this way, the supervisor must be the one who dreams the dream not yet dreamed by the supervisee, so that the supervisee, in turn, can help the patient to dream.
KEYWORDS: supervision, analytic third, psychoanalytic triangles; parallel process, history of Psychoanalysis.
mesmos interesses e com uma forte empatia e comunicação infraverbal. Um dos aspetos muitas vezes negligenciado no desenvolvimento intelectual de Bion é justamente o impacto das ideias junguianas, que através das conferências atuaram como experiência de supervisão e simultaneamente de elaboração da perda do paciente, onde a relação terapêutica terminou, mas potencialmente o desenvolvimento (pessoal e profissional) pôde continuar.
5 – O supervisor precisa do supervisando para criar o sujeito terceiro superordenado da supervisão (Grotstein, 1979, 2000; Ogden, 1994, 2009), que constitui o contacto criativo com o inconsciente do paciente (via processo paralelo). Alcançar insight é sempre um objetivo da análise e da supervisão, mas, seguindo as ideias de Bion, Grotstein e Ogden, podemos afirmar que para atingir verdadeira mudança emocional é preciso alcançar uma posição transcendente a partir desse insight. Arriscamos dizer que isso é válido para a supervisão tal como é válido para a análise. Isto, certamente, convida-nos a repensar a nossa forma de trabalhar nos diversos momentos. Quando a supervisão não apresenta formas criativas de contacto com o inconsciente do paciente, ela não será supervisão, será mais um sucedâneo centrado na ritualística fetichista do setting ou na repetição de fórmulas e formulações clínicas, que normalmente os pacientes reconhecem como não sendo a verdadeira voz do analista e que os supervisandos reconhecem como preguiça do supervisor. A criatividade e a capacidade de sonhar estão presente de diversos modos: no supervisor, a criatividade está implicada na sua capacidade para intuir o processo paralelo em curso, ou seja, conseguir em simultâneo escutar o material e perceber como o cenário de supervisão representa projetivamente o cenário terapêutico, e para conseguir comunicar isso ao supervisando de forma que torne possível expandir o seu pensamento e, assim, possibilitar uma transformação da psicanálise em curso; no supervisando, a criatividade está em jogo na capacidade de integrar o que recebe do supervisor com o seu próprio estilo comunicativo e presença clínica, para depois utilizar no seu trabalho com o paciente.
6 – A representação interna que o supervisando tem do supervisor (Watkins Jr., 2018) — ou seja, como é que o supervisando sonha o supervisor — tem um impacto na forma como aprende e desenvolve as
suas capacidades analíticas, introjetando a forma do supervisor sonhar os pacientes para depois poder sonhar com os pacientes. Assim, além do supervisor sonhar os pacientes para que o supervisando os possa também sonhar, a qualidade de introjetabilidade do supervisor poderá ser fundamental para o supervisando se descobrir e desenvolver como analista dentro do espaço do terceiro em supervisão.
Melanie Klein, Hanna Segal, Bion, Matte Blanco e Ronald Britton, e a síntese levada a cabo por André Green. Seria talvez o complemento das ideias maioritariamente norte-americanas que explorámos neste artigo e certamente poderia fornecer um olhar curioso sobre outros triângulos analíticos. Uma excelente abordagem comparativa entre as perspetivas norte-americana e europeia do conceito de terceiro já foi realizada por Coelho Junior (2015, 2016). As seguintes palavras do autor fazem uma síntese dessa comparação: «Considero que em Ogden a noção é mais marcada pelas inovações que ele propõe para uma teoria da situação analítica, ao passo que, em Green, a terceiridade veio a constituir um dos eixos de sua reflexão metapsicológica sobre as dimensões psicopatológicas e clínicas.» (Coelho Junior, 2015, p. 176).
Deste modo, no presente artigo acabámos por centrar a nossa abordagem na forma como ideias de psicanalistas europeus foram levadas para a América do Norte, sendo assimiladas e transformadas de modo criativo e gerador de novas ideias e correntes de pensamento psicanalítico. A ideia de terceiro não será exclusivamente norte-americana, mas encontrou nesse contexto uma forma de desenvolvimento e expansão, que influenciou também a situação de supervisão.