Freud servia-se do humor nos seus textos e na vida. Em 1938, na época de deixar a Áustria dominada então pelo nazismo, após a prisão e interrogatório da sua filha Anna, Freud foi obrigado a assinar um documento para a Gestapo a dizer que não havia sofrido de maus-tratos. Após o assinar, ele acrescentou do seu próprio punho: «Posso recomendar vivamente a Gestapo a todos.» Esta tirada de humor foi, no início, interpretada por Gay, o seu biógrafo, como uma tentativa inconsciente de suicídio, uma vez que a ousadia do médico vienense punha em risco a sua própria vida, caso as autoridades nazis reconhecessem ali uma fina ironia. Contudo, num segundo tempo, o mesmo Gay reconhece que esta atitude demonstrava uma grande coragem e vitalidade de Freud, bem como o seu senso de humor irreprimível.
Neste Vertigem, procuramos explorar o lugar e as várias funções do humor na relação analista-analisando e no campo transfero-constratransferencial. O tema agora proposto insere-se na Psicanálise contemporânea e reflete a dimensão da «humanidade do analista», nomeadamente na medida em que as experiências de humor presentes na relação podem ser perspetivadas na linha da defesa do paciente e da perda da abstinência do analista ou, em alternativa, como um contributo fundamental para o aprofundamento da aliança terapêutica, do sentimento de partilha e também do desenvolvimento da compreensão do paciente sobre si mesmo.
Tiago Chagas, Pedro Job e Sofia Vilar Soares foram os colegas convidados a apresentar as suas reflexões acerca do tema.
Não consigo imaginar um saber mais feliz do que este: o nosso destino é o de nos tornarmos seres de início. Alguém que escreve a primeira palavra a seguir a um travessão secular.
A Psicanálise esteve desde sempre ligada ao fenómeno do humor. Além do conhecido sentido de humor de Freud, o seu interesse por este fenómeno da vida quotidiana foi desde logo assumido numa carta a Fliess (Stratchey, 1981), em que confessou haver formado uma coleção de anedotas sobre judeus, facto especialmente relevante dado o próprio Freud se assumir como judeu ateu ou sem religião (Quinodoz, 2004).
Mais notável ainda, no que respeita ao papel, à função e à natureza do fenómeno do humor, foi o facto de Freud ter escrito os seus dois únicos trabalhos sobre este tema, «Piadas e a sua relação com o inconsciente» (1905/1981c) e o texto «Humor» (1927/1981e), em simultâneo — no primeiro caso, fisicamente em duas mesas separadas, às quais se dirigia alternadamente (Stratchey, 1981) — com dois dos seus mais importantes textos, respetivamente: «Três ensaios sobre a teoria da sexualidade» (Freud, 1905/1981b) e «O futuro de uma ilusão» (Freud, 1927/1981d).
Grosso modo, «sexualidade» e «religião», precisamente dois dos principais temas da comédia e do humor. Em ambos os casos,
Psicólogo Clínico e da Saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
é também do infantil que falam. Mas o infantil tal como ele é não é só o infantil pulsional, que se expressa no modo como a sexualidade humana se organiza e desenvolve ao longo da vida, tampouco o infantil da angústia e do desamparo que nos faz ansiar por salvações ou consolos idealizados. O infantil2, tal como ele é, transporta consigo o gérmen do espaço-tempo mais sagrado que trazemos e que alguma vez nos pode ser dado experienciar, no passado, no presente ou no futuro; e nele, o incomparável sentimento de liberdade, de possibilidade e de prazer, o prazer da infância.
O homem é um incansável pleasure-seeker (Freud, 1905/1981b), e isso justificaria o nosso gosto e mesmo a necessidade do humor, expressos, por exemplo, na nossa procura permanente de brincar, contar e inventar novas piadas3, em busca de um prazer, uma espécie de euforia, de cujo conhecimento e vivência não poderemos encontrar paralelo em outro período da nossa vida, que não no da nossa infância.
No que diz respeito à origem do ato de contar «piadas», segundo Freud (1905/1981c) tudo começaria então nesse tempo, com o prazer da brincadeira (play) livre com palavras e pensamentos, a que só as exigências da razão crítica e do pensamento lógico seriam capazes de pôr um fim, acusando-a de nonsense. A piada e, antes disso, a brincadeira cómica (jest) serviriam assim como «ato de rebeldia», cuja função última era procurar instaurar novamente o prazer do jogo infantil anterior, que em parte a criança teria relutantemente de abdicar, para ir ao encontro das exigências da sua educação. Vemos aqui como a forma mais rudimentar de piada — por analogia ao que Freud havia dito em «A interpretação dos sonhos» (Freud, 1900/1981a) para o caso do sonho como o «guardião do sonho» — poderia aqui ser descrita como tendo uma função próxima à de «guardiã do jogo» e desse
O termo «infantil» é usado neste texto em sentido lato, como Freud o parece ter empregado em «Jokes and their relation with the unconscious» (1905) e «Humour» (1927), próximo do sentido de self infantil, diferente daquele que usou noutros momentos da sua obra.
Por coincidência, no mesmo dia em que o presente texto foi concluído tomámos conhecimento da notícia de que um conhecido humorista britânico, que de então a quatro meses viria a Lisboa apresentar um novo espetáculo de stand-up comedy, tinha acabado de esgotar a venda de bilhetes para a maior sala de espetáculos do país, em apenas uma hora.
estado prazeroso que se opunha à inibição crítica, estado esse que, se existisse por si só, dispensaria a sua necessidade.
Em relação a este «puro prazer» ligado ao jogo e ao infantil, teríamos ainda de esperar algumas décadas para que o valor psíquico do brincar e do prazer de brincar fosse levado às últimas consequências. Falamos de Winnicott (1971/1975a) e da sua conceção da própria Psicanálise como uma «forma altamente especializada de brincar, ao serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros» (p. 63), a qual se realizaria na «sobreposição de duas áreas lúdicas, a do paciente e do terapeuta» (p. 80). Aqui, onde o brincar não fosse possível, essa seria a primeira tarefa da análise ou da psicoterapia. E esse brincar dá prazer. No brincar e só no brincar, segundo Winnicott (1971/1975a), o indivíduo pode fruir da liberdade de criar e de ser, só então podendo sentir-se completo, como uma unidade, e dizer: «EU SOU, eu estou vivo, eu sou eu mesmo» (p. 83).
O prazer de ser e de se ir tornando quem se é, mesmo que em si e por si tal não exista, permanecendo sempre potencial, inteiramente dependente e a aguardar as experiências relacionais positivas com outros significativos; na infância, principalmente com a mãe e o pai, por intermédio de um tipo especial de relação que Winnicott (1971/1975b) resume com uma palavra: «devoção» (p. 135). Na análise, do mesmo modo, na relação com o analista, desde que se verifique da parte deste a necessária recetividade e abertura à atividade espontânea, inteiramente alheia a qualquer espécie de preocupação racionalizante ou «furor interpretativo». São as articulações do «verdadeiro self» (Winnicott, 1971/1975b), cujo ímpeto ao longo da vida Bollas (1989) chamou de «forças do destino».
Quanto ao humor propriamente dito, na sua função do que aqui chamámos de «guardião do jogo», na análise poderíamos considerar a sua introdução espontânea, por parte do analista ou do analisando, neste último caso se devidamente acolhido pelo primeiro, como tendo uma função análoga à de «anunciar» (Bollas, 1989, p. 37), favorecer e proteger a entrada e continuidade do par analítico nesse outro registo do jogo.
Freud (1927/1981e) vai retomar a ideia de que o que nos faz rir é sempre o infantil, seja em relação a outra pessoa ou a nós próprios; rimo-nos da «criança nos outros» e da «criança em nós», fazendo-o a partir de uma posição de adulto.
Em termos intrapsíquicos, de acordo com o seu modelo estrutural, seria então como se o superego se dirigisse ao ego oferecendo-lhe uma espécie de gratificação. Este seria assim um superego nos antípodas daquele que fora descrito até então, e com o qual a Psicanálise mais nos familiarizou, cuja forma mais extrema se encontraria na melancolia, como «pura cultura da pulsão de morte» (Freud, 1923/1986). No caso do humor, assemelhando-se mais, diríamos, a uma «pura cultura da pulsão de vida», este seria um superego ou dimensão amorosa do superego, que envolve, contém e lança um olhar de amor para o ego, «brincando» com ele.
Por intermédio desta relação, para sempre inacabada, o humor apresenta-se-nos então como uma «via régia» que nos permite aceder, recuperar, ajudar a construir ou reconstruir internamente esse tempo, início e origem de tudo, «em que desconhecíamos o cómico e éramos incapazes das piadas, mas que não tínhamos necessidade do humor para nos sentirmos felizes na nossa vida» (Freud, 1905/1981c, p. 236).