«Todos, ou quase todos, os grandes cómicos do cinema mudo tinham feito o seu tirocínio nos espectáculos de vaudeville — um parente americano do nosso teatro de revista. É possível que a obsessão dos cómicos pelo acto de cair revele o desejo de transmitir a seguinte ideia: a queda não é assim tão trágica, a dor não é assim tão assustadora. E o mais interessante talvez seja o facto de essa ideia só se obter através deste paradoxo: normalmente, os cómicos que exibem as limitações do corpo são os que têm maior habilidade física. A queda mais cómica só está ao alcance do acrobata mais apto. O corpo mais trapalhão tem de ser forçosamente o corpo mais ágil.
Ou seja, o cómico esforça-se para ser o mais competente a falhar. Ele é, em resumo, o melhor a ser o pior. Eis uma boa definição» (Pereira, 2024, p. 111).
O seguinte exercício propõe uma coisa relativamente obscena: será que o comediante pisa terrenos comuns aos do psicanalista? Terá o ofício do comediante, sobretudo na atitude que transporta para a observação, pontos de contacto com a Psicanálise? O elemento profano nesta proposta remete, claro está, para o contacto com o sofrimento — responsabilidade ética que o comediante nunca terá. A proposta de analogia terá por isso algo de funambulismo, pela delicadeza da façanha. Procuraremos fazê-lo com precisão e equilíbrio ao longo de seis pontos. Incidiremos sobre alguns pressupostos gerais da Psicanálise, opondo-os à stand-up, a forma de comédia mais crua e despojada.
Psicólogo Clínico e Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail: pedrojob@gmail.com
Jerry Lewis, um dos maiores comediantes norte-americanos de sempre, disse que a premissa da comédia é abordar «uma pessoa em apuros». A proximidade entre a comédia e a tragédia está na representação da violência inerente ao sofrimento. Mas usar humor pode também ser uma afirmação de vida, por vezes através dessa violência. No livro The Total Film-Maker (1971), Lewis sugere que a comédia é pouco mais do que «o tecido da sobrevivência da vida» (p. 176), uma acção contra o sofrimento e a experiência de falha ou derrota.
O humor autodepreciativo, uma das modalidades humorísticas mais comuns, foca-se na falha e no erro humanos, algo inerente à prática psicanalítica. Com frequência, a manifestação psicopatológica caracteriza-se pela excessiva seriedade e perda de liberdade psíquica. Embora seja contrário ao papel do analista a premissa de ofender o paciente, a ponderada contestação das suas convicções não o é. Numa profissão em que o erro é o caminho, no sentido em que pretender apressadamente compreender uma subjectividade alheia não é a melhor política, e falhar ensina-nos muito mais do que acertar, o psicanalista tem na sua experiência uma permanente incerteza. Sentir-se sem margem para o erro é condição permanente. Porém, estamos em crer que se tem tornado um pouco mais difícil. O que parece ter mudado, olhando para a contemporaneidade e a sua inerente volatilidade, é a redução da tolerância à falha. E sem falha, não há mente nem sonho.
O comediante aloja-se naquele limite do absurdo trágico da vida e transforma-o magicamente no seu contrário. É como uma ética de permanente oposição, no sentido de afirmar liberdade perante a seriedade do sofrimento, de reivindicar o direito de ofensa do mesmo. Assim, a passagem de Ricardo Araújo Pereira (RAP) sobre a queda encerra algo útil à prática psicanalítica. Não insinuamos que o psicanalista mais competente será aquele que tombou de modo mais aparatoso, necessariamente. Longe vão os tempos de reverência ao homem trágico. Contudo, esperamos dele que saiba sobre a importância da queda. E se ele tiver caído e seguido retroactivamente os seus dolorosos passos, talvez possa ter aprendido com a experiência e reforçado
a sua barreira de contacto. Confiaríamos mais nele por isso? Porventura, mas sabemos que não funciona bem assim. A tentação é sempre a idealização. Usamo-la ao peito, por vezes de forma velada: «o meu analista não tem falhas — e nem eu, por sinal». Nesse sentido, precisamos de um psicanalista que caia, apenas não em cima de nós.
Para RAP, a espontaneidade do comediante «é, quase sempre, apenas aparente. E que é tanto mais persuasiva quanto melhor for fingida» (2023, p. 10). O mesmo não acontece em psicanálise, onde não só não se fingem sentimentos, como estes são sublinhados enquanto pedra de toque da subjectividade do paciente. O analista vive assim desdobrado de forma diferente do comediante: embora esteja do lado do paciente e afectado por ele, permanece diferenciado, crítico e pensante. Isto constitui a irredutível assimetria do encontro terapêutico, fixando o foco do analista no Outro, o paciente.
O foco do comediante é igualmente o Outro, mas de modo deliberadamente sedutor. Contudo, alguns comediantes usam uma técnica designada de deadpan, caracterizada pela utilização intencional de uma expressão sem emoção ou variação de linguagem corporal, para contrastar com o ridículo do assunto apresentado. Pereira afirma: «o sentimentalismo é inimigo — talvez o maior inimigo — do humor. […] Sei que certos espíritos ficarão desconsolados com a ideia de que o humor possa ser isto, uma coisa que não edifica nem destrói, mas creio que a disposição humorística é avessa a grandes aspirações, e inclina-se a considerar pretensiosa — e até ridícula — a intenção de edificar ou destruir. Tanto o que julga ter a missão de edificar como o que se sente habilitado para destruir estão forçosamente convencidos da sua própria importância. E parecem incapazes de conceber que, entre a edificação e a destruição, há várias outras atitudes possíveis e estimáveis» (2023, pp. 22–23). Também o analista se abstém de arrogâncias sobre o resultado do processo terapêutico. Mas além de não decretar credos, a sua atitude não é tão amoral ou relativista. Basculante, o analista pende num plano de liberdade, com uma atenção flutuante frente aos seus pressupostos teóricos, objectivos, e até «sem memória e sem desejo». Assumindo a existência e premência de um inconsciente sem espaço e sem tempo, ele encontra na observação neutra uma posição natural.
Apesar de o trabalho analítico incidir sobre o sofrimento, mas até por causa dele — somos também a dor que sentimos —, vale a pena não perder o ânimo. Essa é a linha do comediante. O humor é uma forma de «admissão festiva de uma derrota» numa oposição às «mensagens dos livros de autoajuda, o rigoroso inverso do lema da pandemia: é dizer que não, não vai ficar tudo bem. E retirar disso uma espécie de contentamento» (Pereira, 2023, p. 20). Mas aquilo que RAP considera um paradoxo o psicanalista usa diariamente no seu cinto de ferramentas. A mente dinâmica é paradoxal, e assim funciona até ao fim dos nossos dias. Esse psicodinamismo distingue-nos: sabemos que vamos morrer e por isso nos rimos.
Um supervisor dos primeiros tempos de formação de um colega estrangeiro ter-lhe-á dito sobre a instrução no início de um processo analítico: «É sempre melhor se não disser aos pacientes muita coisa. Não queremos dizer como é que as salsichas são feitas, não é verdade?» (Daniels, 2023, comunicação pessoal) — o que insinua que o processo se pode tornar feio, doloroso, às vezes quase insustentável. O humorista, por seu turno, enfatiza o uso d'A Verdade, que é manipulada e manipulativa. Persuasivo que possa ser, o analista não manipula. Pelo sofrimento que está implicado, talvez os pacientes não precisem ou não queiram saber de tudo o que poderá acontecer ao longo de um processo psicanalítico. Porém, sabemos que a verdade os beneficia. E imaginamos que, sabendo o que os espera, uma boa porção deles provavelmente não regressaria para um segundo encontro.
O privilégio do bobo é uma convenção atribuída ao comediante, que o salvaguarda — ou devia salvaguardar — de ser punido pelas coisas que diz enquanto se encontra no seu ofício. Tanto não assiste o analista, mas, sim, o paciente. É-lhe garantida carta branca para dizer o que bem entender, sem risco de punição. Só assim estará livre para, em conjunto com o analista, se ensaiar sem medo.
O presente artigo não segue o Acordo Ortográfico de 1990.