Uma das principais marcas do nosso tempo parece ser a perda da convicção interior de que tempos melhores virão. Segundo Bollas (2018)1, vivemos numa era marcada pela melancolia — muitas vezes inconsciente — e pelo afastamento do interesse pelo tempo próprio necessário às descobertas do mundo subjetivo. Antes, vivemos em busca de soluções rápidas, cujo imediatismo teria por finalidade mitigar a angústia diante do nosso desamparo e da aguda desorientação contemporânea. O «desejo de sentido», característica da espécie humana, diria Bollas (2024)2, toma o rumo da busca pela «violência simplificadora» do pensamento, pelo exílio da diferença e não propriamente o destino do «prazer de pensar». Diante da incerteza, aliada à necessidade de orientação, recorre-se ao reducionismo; e diante da aversão à complexidade, a âncora para tempos caóticos recai sobre certezas supostamente apaziguadoras.
Contudo, a Psicanálise não é, definitivamente, o campo privilegiado onde habitam as certezas. A própria noção de conflito, tão cara a todo o edifício psicanalítico, compõe um elemento tão fundamental da subjetividade humana — bem como da própria Psicanálise —, que sem ela não há espaço para a vitalidade. Diferentemente da busca pura e simples pelo conhecimento, lembra Phillips, «a psicanálise lida essencialmente com a curiosidade, em vez de lidar com, ou somente com, o conhecimento ou mesmo a cura» (2024, p. 117)3. Os curiosos, tal qual as crianças cuja subjetividade e ingresso no domínio da cultura
(2018). Meaning and Melancholy: life in the age of bewilderment. Routledge.
(2024). O momento freudiano. Editora Nós.
(2024). Sobre desistir. Ubu Editora.
nascem justamente da curiosidade infantil em torno da diferença, dificilmente aceitam o prometido repouso por um saber que não se altera.
Assim como a sobrevivência psíquica da criança depende da sua curiosidade, a psicanálise subordina-se à permanente capacidade de formular perguntas, bem como à possibilidade de desconfiar das respostas: uma salvaguarda contra a paralisia do obscurantismo e da capacidade de pensar livremente.
É com esse espírito que a equipa editorial apresenta o novo número da RPP. Disposta a refletir em temas essencialmente contemporâneos, a seleção dos artigos tem em comum o valor de nos interrogar como sujeitos, bem como de nos provocar diante dos desafios da clínica psicanalítica contemporânea.
Assim sendo, na secção Fundamentos, Filipe Leão Miranda e Joana Pizarro Bravo apresentam o artigo «O grande ilusionista e o duplo digital: Reflexões psicanalíticas sobre a Inteligência Artificial no advento de uma realidade hiperbólica», no qual refletem acerca das relações do ser humano com a tecnologia digital e o impacto no desenvolvimento e funcionamento do psiquismo. De uma perspetiva psicanalítica, exploram os riscos inerentes à interação entre o ser humano e a máquina, considerando a componente ilusória da experiência, bem como a sua relação com a insuportabilidade da finitude humana.
Em «Grupo de Atendimento Clínico do COWAP Brasil no enfrentamento à violência contra a mulher: Abrindo a Caixa de Pandora», na secção Clínicas, Ednéia Albino Cerchiari et al. apresentam o trabalho desenvolvido pelo GAC COWAP Brasil nas suas vertentes de atendimento, estudo e pesquisa com mulheres, adolescentes e crianças vítimas da violência intrafamiliar. Detalham a criação e metodologia deste Grupo Clínico, apresentando dados dos atendimentos e uma discussão teórico-clínica a partir de vinhetas de um dos casos atendidos.
Já Eric Smadja, em «Les couples contemporains: Une approche psychanalytique et sociologique», apresenta uma conceção psicanalítica e multidimensional dos casais atuais. Propõe o conceito de trabalho de casal, através do qual aborda os tempos estruturais e os organizadores psíquicos inconscientes da construção do casal, articulando-as com reflexões de natureza psicanalítica e socioantropológica sobre a sociedade contemporânea.
Na secção Auditório, Katy Bogliatto traz-nos «O feminino congelado: O corpo e as vicissitudes do infantil na reprodução assistida», explorando a complexidade do trabalho psíquico de simbolização que cada mulher atravessa no processo de reprodução assistida. Propõe escutar os elementos somatossensoriais derivados de estímulos internos e externos como um campo de exploração em busca de representações, permitindo que os conflitos e fantasias sejam questionados e ligados às vicissitudes do infantil arcaico.
A secção Pesquisa é composta pelo artigo «Experiências do corpo em pessoas trans», de Daniel Matias, no qual o autor aborda as vivências corporais de pessoas trans, explorando as questões de identidade e transformação a partir de uma pesquisa qualitativa. Discute os desafios que tendem a enfrentar, as implicações psíquicas das suas experiências e aspetos éticos no contexto psicoterapêutico.
Em «O agressor e o desmentido: O outro lado da teoria do trauma», que compõe a secção Poéticas, Marcos de Moura Oliveira parte da teoria do desmentido apoiado na obra de Sándor Ferenczi. Propõe uma construção acerca dos elementos agressor-desmentido, não apenas como causa do trauma, mas como parte do psiquismo, e denuncia pactos sociais que autorizam alguns tipos de agressões enquanto sintomas da atualidade.
Na secção Formação Contínua, Rita Gameiro apresenta a recensão do livro Pregnancy, Assisted Reproduction, and Psychoanalysis, organizado por Ana Teresa Vale e Renata Vives. Nesta obra, uma coletânea de textos de psicanalistas de diversos países, é abordada a complexidade da infertilidade e da reprodução assistida de diferentes prismas, oferecendo uma visão ampla sobre o tema e propondo a reformulação de alguns conceitos psicanalíticos originais que possam ecoar mudanças tecnológicas e sociais atuais.
Por fim, em Vertigem, as colegas Maria José Martins de Azevedo, Rita de Araújo Gameiro, Carla Cruz e Margarida Bilreiro são as convidadas para debater alguns dos inúmeros desafios que o mundo contemporâneo coloca a pais e filhos. Questionam o papel da psicanálise diante de uma série de impasses que refletem profundas alterações na representação da infância e da própria noção de parentalidade.
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