Faltavam poucas semanas para que o livro Pregnancy, Assisted Reproduction, and Psychoanalysis fosse lançado ao público pela Editora Routledge, quando, em novembro de 2024, a Sociedade Portuguesa de Psicanálise apoiou o seu nascimento, ao qual orgulhosamente assisti. A admiração e amizade que me une a uma das editoras do livro, Ana Teresa Vale, têm proporcionado que testemunhe a sua entrega apaixonada, suportada pelo seu trabalho clínico sobre a vasta e inexplorada área da Infertilidade e Reprodução Assistida (RA). Foi a sua dedicação ao pensamento psicanalítico acerca desta temática que impulsionou a ideia de congregar num livro o pensamento de outras colegas psicanalistas provenientes de vários quadrantes da Psicanálise. Por seu turno, todas as coautoras têm igualmente investido no aprofundamento da investigação clínica, contribuindo para que a Psicanálise beneficie de um olhar mais aprofundado e multifacetado sobre a temática.
O livro foi «concebido» nas mentes das suas duas mães-editoras, Ana Teresa Vale e Renata Vives, durante os anos em que ambas trabalharam clinicamente no complexo campo da RA. A vastidão do oceano que separa Lisboa, em Portugal, de Porto Alegre, no Brasil, não travou o desejo comum de ambas concretizarem a ideia que foi nascendo no seio dos encontros COWAP. Assim, começou a formar-se o desejo de cocriarem um objeto unificador das ideias provenientes da clínica e investigação neste campo, numa coletânea de textos de autoras pertencentes a Sociedades Psicanalíticas de variados países:
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: ritagameiro@gmail.com
Portugal, Brasil, França, Itália, Turquia, Espanha, Bélgica, México e Peru. O livro alcança, deste modo, uma visão ampla e multidimensional, abarcando múltiplos prismas inovadores no campo da Psicanálise no que toca a estas temáticas. Representa também um marco importante para a Psicanálise pela sua capacidade de olhar para o que Paula Ellman (ex-presidente COWAP) apelida de «Psicanálise no mundo contemporâneo», conseguindo ainda oferecer ao leitor, como bem sublinha Heribert Blass (Presidente Eleito da IPA), uma perspetiva sobre o trabalho clínico em torno da RA, «permanecendo ao mesmo tempo aberto à complexidade das ligações inconscientes e os seus conflitos».
A leitura dos vários capítulos traz à tona uma ténue sensação, como se um mesmo fio trespassasse todos eles, pois, embora diferentes entre si, aparecem como que unificados em torno da investigação sobre algo novo, obscuro e intrincado. Esta senda, escondida no conteúdo latente das palavras, representa um movimento inconsciente ligado à criação do texto. Nele se ocultam os conteúdos inconscientes que vão revelando tratar-se da construção de um mesmo objetivo: para pensar a infertilidade, a impossibilidade de criar, foi preciso fertilizar ideias, transformar pensamento em palavra, criar novos significados, ligações e aproximações a inusitadas compressões. Assim, os passos dados, no sentido de cada autora se aproximar desta profunda complexidade, dão conta de um desejo simultaneamente temerário e inspirador. Embora todos sejamos conhecedores das alterações tecnológicas e das consequentes modificações nas constelações familiares, o que as coautoras propõem explorar situa-se muito além de simples constatações: elas apontam a luz para as variadas dimensões da maternidade, o aparecimento e expansão das subjetividades inerentes a essas mesmas alterações recentes e as suas implicações para a Psicanálise. As coautoras, generosamente, parecem assumir uma posição maternizante, procurando acolher e conter para compreender melhor a complexidade do que lhes é trazido à sua clínica no campo da RA. É nesta perspetiva que, em torno da principal temática, o leitor pode encontrar uma série de outras temáticas, igualmente relevantes: a infertilidade na intervenção com a família, as suas implicações sobre o desenvolvimento infantil, os desafios enfrentados pela técnica de doação de gâmetas, a representação fantasmática na gravidez ou na sua perda…
No campo da Psicanálise, a temática da infertilidade nem sempre foi tratada de forma que alguém que enfrentasse estas dificuldades e procurasse essa via de compreensão pudesse efetivamente sentir-se compreendido. As editoras salientam precisamente que durante muito tempo outras vozes psicanalíticas argumentavam que «a infertilidade, a perda gestacional ou outras condições reprodutivas eram o resultado de conflitos inconscientes intrapsíquicos da mulher» (p. 1). Tais posições contribuíram para que a Psicanálise se restringisse a uma visão limitada e, possivelmente, pouco capaz de efetivamente ajudar, como dizem Ana Teresa Vale e Renata Vives: «a teoria psicanalítica manteve muitas mulheres e casais longe dos consultórios de psicanálise» (p. 1). Esta aceção, que não pertence a anos muito distantes, reforça ainda mais o papel que o pensamento psicanalítico patente nos vários capítulos do livro vem oferecer, criando um espaço de pensamento e abertura ao que cada vez mais a sociedade enfrenta com a mudança tecnológica e social. Nas décadas recentes, temos assistido e participado nas mudanças em torno de novas formas de parentalidade, novos modelos familiares. Tais mudanças solicitam que os conceitos psicanalíticos originais possam ser pensados e reformulados, o que requer um desenvolvimento do pensamento teórico.
As várias autoras, intervenientes diretas no pensamento psicanalítico, vêm oferecer novas abordagens sobre a temática da RA, convidando o leitor a entrar nos seus gabinetes. Assim, Paola Marion, da Sociedade Italiana de Psicanálise, juntamente com alguns colaboradores, usa diversas vinhetas clínicas para ilustrar casos em que a manutenção do segredo sobre a necessidade de alguns casais recorrerem a técnicas de RA e a sua dificuldade em metabolizar o sofrimento psíquico no nascimento dos filhos gerados através das mesmas técnicas. No capítulo, aborda-se ainda, também através de vinhetas clínicas, o acompanhamento psicanalítico de crianças nascidas através dessas mesmas técnicas e as vicissitudes apresentadas durante o seu desenvolvimento. Também pertencente à Sociedade Italiana, Emanuela Quagliata apresenta o trabalho com pacientes que demonstram extrema dificuldade em contactar com o trabalho e a relação psicanalítica. Tendo por base o trabalho clínico, a autora realça que a natureza profunda e inconsciente inerente ao trabalho analítico proporciona o contacto com o processo de luto, algo com que estes pacientes em
particular sentem resistência em contactar. No terceiro capítulo, Melis Tanis Sivri, da Sociedade Psyke de Istambul, usa excertos de vários filmes e histórias para ilustrar e abordar a presença de sentimentos de inveja e vergonha, bem como o processo de idealização, no contacto com a infertilidade. A temática sobre a doação de material genético nas RA é abordada por Nancy Time Ayub, da Sociedade Psicanalítica do México. Neste capítulo, Nancy Ayub, autora de dois livros sobre a temática, aborda as questões relacionadas com os aspetos emocionais vividos pelos dadores, recaindo especificamente na exploração do significado après-coup. Também a coeditora Ana Teresa Vale contribui com um capítulo dedicado à experiência da gravidez e perda gestacional apoiando-se em duas ilustrações clínicas sob o prisma dos seus efeitos não apenas na mente dos pacientes, mas também na mente da analista. A atual Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Conceição Tavares de Almeida, contribui com um capítulo onde aborda as ligações que podem ser encontradas entre a infertilidade vivida por pacientes e o seu efeito no trabalho no campo analítico. Através de ilustração clínica, a autora explora o efeito do sofrimento psíquico ligado à infertilidade e o modo como o mesmo sentimento trespassa o par analítico. Sofia Barandiaran, da Associação Psicanalítica de Madrid, aborda igualmente as representações psíquicas ligadas à doação de ovócitos, nomeadamente no que se refere à componente secreta vivida por quem recorre a essa técnica. Deste modo, a autora pretende explorar as fantasias inconscientes que daí emergem, bem como a sua futura projeção nas crianças nascidas através dessa técnica. Ainda sobre a temática da doação de ovócitos, a coeditora Renata Vives dá a conhecer uma visão sobre a afiliação simbólica recorrendo a um caso de psicanálise de um rapaz fruto de uma gravidez com recurso à doação de ovócitos. A sua visão traz ao leitor a oportunidade de captar o modo como a psicanálise pode intervir nestas situações facilitando esse mesmo processo. A vasta área da maternidade é abordada por Christine Anzieu-Premmereur no capítulo onde trata do conceito de preocupação materna primária em situações nas quais a gravidez não ocorre no corpo da mulher que irá posteriormente assumir a função materna. Nesses casos, diz a autora, é comum surgirem conflitos inconscientes de culpa e dúvida com maior intensidade, comparativamente aos que habitualmente surgem noutras gravidezes. O último
Através da leitura de todos os capítulos, apercebemo-nos de que as múltiplas visões das suas autoras vêm não somente contribuir para uma nova amplitude sobre a compreensão psicanalítica destas temáticas, que vão muito além da infertilidade e reprodução assistida. As suas visões oferecem ainda uma perspetiva de como a psicanálise pode intervir junto daqueles que procuram tais técnicas, que assumem hoje um crescimento e desenvolvimento rápido, confrontando o familiar com o estranho e desconhecido. Esta obra representa, assim, um rasgo inovador sobre as mudanças tecnológicas e psíquicas da atualidade sob o uso do pensamento psicanalítico.
capítulo recai igualmente na temática da maternidade com um texto da autoria de Katy Bogliatto, pertencente à Sociedade Psicanalítica Belga. A autora usa o seu longo trabalho com famílias que recorrem a «barrigas de aluguer» e dá a conhecer o modo como a Psicanálise compreende e acompanha casos desta natureza, surgindo o analista como «terceiro», posicionando-se num «espaço potencial» elaborativo.