A clínica contemporânea recebe novas sintomatologias, constelações psicopatológicas, fruto do encontro diferenciado do ser com a nova matriz cultural, social e histórica. Neste contexto, destacamos a consideração dada aos dispositivos eletrónicos na parentalidade do bebé e no desenvolvimento infantil.2
Nascidos de uma geração psicanaliticamente mais instruída do que as gerações anteriores, os pais, oriundos de um meio económica e profissionalmente bem estabelecido, preocupam-se, desde a gestação, com o desenvolvimento dos filhos, procurando nos dispositivos eletrónicos respostas para as dúvidas de parentalidade. A comparação entre o desenvolvimento do bebé, as práticas de parentalidade e os parâmetros divulgados propicia tanto a desvalorização e a inferiorização do potencial parental herdado, quanto a regressão adesiva à informação desumanizada, logarítmica e destituída de subjetividade relacional. Parentalidade fragilizada, a depressão assinala-se pela omnipotência, idealização, perda da espontaneidade parental, culpa e desistência. As expectativas narcísicas relativas a parâmetros desenvolvimentais do bebé, projetadas sobre ele, quando inseridas na competição inconsciente com os modelos pregressos de parentalidade
Psicóloga, Psicanalista, Supervisora de Psicoterapia Psicanalítica, Formadora em Psicoterapia e Psicanálise. Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), da federação Europeia de Psicanálise (FEP) e da Societé Européenne de Psychanalyse de L'Enfant et L'Adolescent (SEPEA). É autora de quatro livros de psicanálise. E-mail:
(2016). Is the Nature of Psychoanalytic Thinking and Practice (e.g., in Regard to Sexuality) Determined by Extra-Analytic, Social and Cultural Developments?: Insight under Siege: Psychoanalysis in the 'Autistoid Age. The International Journal of Psychoanalysis, 97, 839–851.
transgeracional, tornam a vida relacional precoce palco de angústias persecutórias e depressivas. Inserida na comunidade virtual dos seguidores dos bloguistas, a nova parentalidade expõe-se à vertigem da proximidade intersubjetiva virtual com os «pensadores/orientadores/especialistas», «fazedores de opinião» que sugerem, desde doulas, coachs de parentalidade, técnicas de manejo dos bebés, a exames invasivos para estudo da enurese e encoprese, evitando a contribuição psicanalítica. Ecrã da projeção crítica, persecutória omnisciente, a psicanálise é denotada como demorada e pouco eficiente, pois não aconselha.
No final do percurso do desencantamento, o crescimento e a autonomia psíquicos são valorizados. O analista contacta então com a parentalidade-bebé exausta: díade mãe-bebé derrotada devido à incapacidade de alimentar — ser alimentada; adormecer — ser adormecida; separado — ser separada; incapaz de introduzir gradualmente a frustração — suportar gradualmente a frustração. Parentalidade na qual o pai se exclui — se sente excluído ou impotente para conter o par mãe-bebé, ou toma o lugar materno perante a desistência/depressão materna.
M. tem 3 meses, um olhar triste. A perda de peso, limiar inferior normal, espelha o esgotamento da díade; no olhar materno, o terror, no choro da bebé, o desespero, se sair do colo. O psicanalista escuta, assiste, contém pais e bebé na sua intersubjetividade magoada. Propõe um caminho de reconstrução de uma parentalidade promissora da inscrição do bebé numa nova intersubjetividade, libertada das projeções alienantes. Defronta a dependência do progenitor aos ditames do influencer: o bebé deveria adaptar-se à vida adulta familiar preexistente; dormir na sala, com luz, barulho, junto aos pais, até estes se deitarem. A mãe, subjugada, seguia o marido, cujo aspeto infantil encontrara no influencer os pais ideais, os «libertadores» do seu passado infantil.
Perante a falência da parentalidade contentora, capaz de atribuição de significado ao sofrimento primitivo do bebé, os dispositivos eletrónicos representam um lenitivo e sedativo. O aparelho surge em substituição do objeto transicional antidepressivo, calmante e sanígeno. O pseudo-objeto transicional, contrariamente ao verdadeiro — sujeito à ilusão do bebé —, impõe-lhe uma ilusão: capta a atenção espontânea do bebé, não lhe devolvendo nenhuma. A atenção de
que o bebé carece, para se constituir sujeito, é pervertida: recebe uma ilusão de atenção, indiscriminada, não compreensiva nem continente.
R. é um menino de seis anos diagnosticado com um quadro de tipologia autista, hiperatividade, crises de violência na escola e perturbações do sono (pesadelos) desde os dois anos; desloca-se como um autómato. Concebido por fertilização in vitro, durante o tratamento do cancro do pai, a mãe aleitou-o e cuidou-o segundo as indicações recebidas no telemóvel, seguindo uma aplicação sugerida pela irmã mais velha, a viver nos EUA. O bebé, alimentado a cronómetro, adormece desde sempre com o telemóvel. Mãe, educadoras e professora do ensino básico haviam fracassado na tentativa de separação do aparelho. Com funções duplas de objeto autista3 e de acesso a uma representação materna primitiva bidimensional e mecânica, R. não pode dele ser separado. Guincha, inundado de ansiedade agonizante: rebola-se no chão, para depois permanecer num estupor, a lembrar a catatonia. Só o retorno do objeto consegue o lento milagre do retorno ao alheamento vazio. A retoma nunca é rápida, nem sem sequelas: perde o apetite, o sono fica perturbado durante dias. A psicanálise da criança que não anuísse a tratá-la aceitando a presença do seu telemóvel, como se de uma excrescência do self, um objeto autista, se tratasse, teria sido votada ao fracasso.
Nesta reflexão, sublinham-se dois aspetos diferenciadores da psicanálise contemporânea. O primeiro, o par analítico, insere-se numa nova matriz cultural formada quer por elementos oriundos do contributo da psicanálise,4 quer pelos relativos à nova era tecnológica, com os seus dispositivos; as mudanças sociais relativas ao contributo da psicanálise, bem como aos seus conceitos são veiculados sem referência à origem, emergindo um discurso pseudoinformado.
O segundo aspeto, relativo à inserção da parentalidade e da infância nesta nova matriz, sugere uma regressão na autoconfiança de cuidar da cria e na relação de confiança intergeracional: a nova parentalidade acolhe soluções veiculadas pelos aparelhos tecnológicos, acolhendo-as no lugar de pais idealizados. No limite, desobrigada de gratidão, de coconstrução psíquica e do suporte relacional transgeracional,
(1981). Les États Autistiques chez l'Enfant. Éditions du Seuil.
A autora defende representar a descoberta da psicanálise uma fratura conceptual e uma mudança de paradigma social, com impacto na instauração de uma nova discursividade. Cf. Memória e Escrita Analítica — Ensaios de Psicanálise (2024), pp. 93–105.
abandona a cria ao aparelho eletrónico. A psicanálise resgata a humanidade da criança ao dispositivo, aceitando, inicialmente, incluí-lo no espaço analítico, até que possa ser, pela criança, relegado ao limbo, uma vez a criança entregue à relação analítica vivificadora.