Em menos de cinquenta anos, existiram grandes mudanças na estrutura familiar clássica: baixa na taxa de nupcialidade, aumento na taxa de divórcios, taxa crescente de famílias monoparentais e de famílias reconstituídas. Grande percentagem de crianças vive em famílias reconstituídas e a dividir o tempo da sua vida quotidiana entre pais separados sem o apoio da família alargada: avós, tios, primos. Houzel, D. (2010, p. 131) menciona: «A socióloga Irène Théry (2001) descreveu uma crise da família que me parece corresponder a uma crise da parentalidade.»
Théry, I. (2001) refere-se a uma crise do simbólico na organização e no funcionamento das famílias modernas. É a dimensão do simbólico, da significação, que está em crise.
Além destas modificações na estrutura familiar, devemos considerar também as alterações sociais, como sejam os desafios trazidos pela mudança nas sexualidades, pelas novas tecnologias, como a Internet e a rede mundial de computadores, o uso do telemóvel, de smartphones, o excesso de videojogos; pelos conflitos sociais e políticos e a degradação catastrófica do clima com as suas ameaças no futuro. Todas estas alterações têm um forte impacto na saúde mental das crianças e adolescentes.
A Internet teve um papel muito importante, por exemplo, durante a pandemia, mas tem igualmente efeitos muito negativos, nomeadamente quando o adolescente se esconde e isso o impede de explorar e estar em contacto com o outro e com o mundo.
Psicóloga Clínica, Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. E-mail: cmicruz@hotmail.com
Na clínica, surgem cada vez mais, nas crianças e jovens, fortes e generalizados sentimentos de ansiedade — quando não têm os seus telemóveis por perto e quando não têm uma satisfação imediata; isto porque os jogos dão uma gratificação instantânea e o jovem não é exposto à frustração de se aborrecer nem ao hábito de esperar. Consequentemente, surge uma quebra acentuada do rendimento escolar e a degradação das relações sociais e familiares.
Atualmente, quando tem dúvidas ou está confuso quanto à sua identidade de género (ser ele ou ela), o adolescente tem tendência para procurar sites relacionados com a sexualidade e o género. Os adolescentes procuram online e não os psicoterapeutas que estão muito sintonizados com estas dificuldades, ajudando o adolescente na compreensão e no alcançar do desenvolvimento emocional.
Bronstein, C. (2023) salienta que websites de pornografia, beleza, ingestão alimentar e questões relacionadas com a transformação corporal e a sexualidade são visitados por milhões de crianças e adolescentes que se sentem perdidos, confusos e muitas vezes isolados. Websites que incitam à automutilação e ao suicídio, à possibilidade de expor os jovens, de os intimidar e seduzir, têm contribuído para estados de depressão, suicídio e práticas de automutilação.
É de salientar como a Internet teve impacto na dificuldade de as gerações comunicarem. A interferência da tecnologia nas relações é cada vez maior, sendo necessário os adultos também repensarem na sua relação com estes dispositivos.
Como refere Bolognini, S. (2017): «As novas tecnologias como a extensão da internet e o sistema de inteligência artificial criam a ilusão que tudo está ao alcance e oferecem respostas imediatas no mundo das emoções, angústias e fantasias que criam a ilusão que os sujeitos podem prescindir do outro» (p. 238).
Nesta nova sociedade, acrescenta Guinard, F. (2023): «Conflitos emocionais não atingem um nível interno, um estatuto intrapsíquico. O trabalho psicanalítico é difícil de estabelecer porque os envelopes psíquicos são tão defeituosos quanto os sociais» (p. XVI).
Podemos resumir as diferentes funções da parentalidade em: garantir a segurança emocional da criança; desenvolver as capacidades de socialização e favorecer as capacidades de pensar — função psíquica essencial que necessita da parte dos pais empatia e disponibilidade. A parentalidade implica as funções de contenção e de transformação a partir das quais o sujeito se pode sentir existir na sua pele, no seu corpo e na sua individualidade. Somente na presença de figuras parentais com as quais existem trocas cooperativas é possível desenvolver identificações primárias que possibilitam à criança sentir-se contida e desenvolver um sentimento de coesão, numa intimidade entre a proximidade e a separação. A intersubjetividade é o lugar da emergência da subjetividade. É a partilha intersubjetiva de experiências, de afetos, de emoções que possibilita o crescimento psíquico.
Muitas vezes é difícil para os pais o desempenho das suas funções parentais, de modo que respondam às necessidades do jovem, porque também eles foram apanhados de surpresa pela atual situação, nomeadamente durante a pandemia, quando os encontros dos grupos foram substituídos por «chats». Novos websites apareceram criando nos jovens uma pseudointimidade e aumentando a distância e a dificuldade de comunicação entre as gerações. É necessária uma aliança entre o terapeuta e os pais para que haja uma compreensão mútua e um trabalho conjunto na mesma direção.
Nesta nova sociedade, o setting psicanalítico ajuda-nos a oferecer estabilidade e sentido de continuidade. Nós sabemos como é importante estabelecer uma relação de contenção (continente/conteúdo) consistente para que o individuo desenvolva a capacidade de confiança em si próprio.
O setting analítico possibilita a criação de um espaço para pensar, quando o pensamento está a ser atacado. A psicanálise continua a ser o modelo mais completo do desenvolvimento e do funcionamento do psiquismo. Contudo, como nos refere Guinard, F. (2023): «O trabalho psicanalítico é difícil de estabelecer porque é muito difícil convencer as pessoas de que a vida psíquica existe e precisa de intimidade para ser explorada e se desenvolver» (p. XVII).
Se pensarmos na psicanálise como uma ferramenta específica para ajudar nos distúrbios psicológicos individuais, ou como uma teoria da mente que nos ajuda a desenvolver abordagens que envolvem o trabalho familiar e a ajuda parental, verificamos que a psicanálise continua a fornecer a compreensão mais profunda da mente e a ajudar quem necessita. É reconhecida a importância da psicoterapia psicanalítica para ajudar os pais e também as famílias das crianças e adolescentes a lidarem com estas novas questões.
Psicanalistas e terapeutas de crianças e adolescentes devem continuar a trabalhar em conjunto para aprofundar a compreensão dos novos desafios à medida que a sociedade, as atitudes familiares, os avanços tecnológicos e muitos outros estímulos, quer positivos quer negativos, têm impacto na saúde mental das crianças e adolescentes, assim como ajudar os pais a lidar com estas novas problemáticas.