Siddhartha lembrou-se de súbito de uma coisa que Kamala lhe dissera havia muito tempo: “não podes amar” — dissera-lhe ela e ele concordara […] Era verdade que nunca se perdera noutra pessoa a tal ponto que se esquecesse de si próprio, que nunca sofrera os desatinos do amor por outra pessoa. Nunca fora capaz disso e então parecera-lhe ser essa a grande diferença entre ele e a gente comum. Mas agora, desde que tinha o filho consigo, tornara-se, através da mágoa e do amor, exactamente uma dessas pessoas comuns. Amava loucamente, o amor transformava-o em idiota. Tardiamente, e pela primeira vez na vida, também conhecia a mais forte e a mais estranha das paixões que o fazia sofrer tremendamente, mas que ao mesmo tempo não sabia como, o elevava, o renovava e tornava mais rico.
Vivemos na era da tirania da eficácia parental. A cultura contemporânea impõe-se e «exige» aos pais que eduquem os filhos de acordo com as «melhores práticas»; fala-se de competências parentais, subjugando-se os afetos a uma lógica de produtividade. Às crianças, pede-se que sejam bem-comportadas, tenham sucesso escolar, sejam dotadas de valores morais que encaixem nas crenças adultas, que tenham ideias definidas quanto ao futuro e, sobretudo, que sejam
Psicóloga Clínica, Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail: mbilreiro@gmail.com
felizes. Diabolizam-se ecrãs, redes sociais e jogos virtuais, a violência nos desenhos animados e a sociedade de consumo. O insucesso dos filhos é visto, e principalmente sentido, como uma falha narcísica dos pais. A fragilização das funções parentais evidenciada pela dificuldade em impor limites aos desejos e pulsões dos filhos, em os frustrar e em colocar a diferenciação de gerações, dificulta o acesso ao simbólico e consequentemente impacta o desenvolvimento do Eu. Um édipo renegado leva a um narcisismo triunfante e consequentemente a uma humanidade sem interdito, fascinada pelo poder da sua imagem, transformando a família contemporânea numa rede fraterna sem hierarquia ou autoridade (Roudinesco 2003).
A parentalidade começa na infância dos próprios pais. É uma construção e um processo que entrelaçam, para lá dos aspetos biológicos, aspetos conscientes e inconscientes que se inscrevem numa história prévia, que atravessa a subjetividade de cada um e se instala num contexto histórico e social. A história de cada criança inicia-se na história individual de cada um dos pais; o desejo de ter um filho reativa inevitavelmente as fantasias da sua própria infância e o tipo de cuidado parental que tiveram. Para Stern (1997), as representações parentais sobre o bebé iniciam-se muito antes do seu nascimento, não se podendo restringir a parentalidade à gestação e ao nascimento de um filho, uma vez que as identificações feitas na infância são determinantes e influenciam a forma e a vivência da parentalidade. Freud, em 1914, no texto sobre Narcisismo, sugere que o amor parental nada mais é do que um retorno e reprodução do narcisismo dos pais, que, através da valorização afetiva da criança, procuram resgatar o seu próprio narcisismo infantil perdido. Refere ainda que a criança ocupa no psiquismo parental uma função reparadora, sendo vista como a possibilidade de suturar as feridas narcísicas dos seus próprios pais. Desta forma, torna-se impossível dissociar os aspetos narcísicos de cada um dos pais e as fantasias sobre as suas relações objetais primárias do exercício da parentalidade. Lebovici (1987) confere que os conflitos infantis dos pais determinam a natureza das identificações na criança e se traduzem em sintomas apresentados pelo bebé. A história infantil dos pais, os seus conflitos inconscientes, a relação com os seus próprios pais estão inequivocamente presentes na sua representação sobre parentalidade.
Talvez não se fale o suficiente da infância. Ou, então, talvez se fale demasiado, deixando, porém, em ângulo morto alguns aspetos essenciais. A infância não tem fim, acompanha-nos a vida inteira; e a impossibilidade de reconciliar o adulto com a sua infância cria equívocos. No entanto, é o abandono da omnipotência infantil e a elaboração dos aspetos narcísicos dos pais que permitem a vivência de uma parentalidade que confere à criança a criação de um espaço psíquico e de vínculos seguros a partir de figuras de identificação «suficientemente boas».
Citando João dos Santos (2007), «pessoas capazes de amor são aquelas que foram crianças ou se reconciliaram com a criança que foram. Se amas a criança que em ti existe, então podes amar as crianças, podes fazer um filho. Se a rejeitaste ou se com ela és irreconciliável […] Não faças filhos, não te ocupes dos filhos dos outros».
Falar de parentalidade faz-me revisitar Siddhartha, livro de Herman Hesse, publicado pela primeira vez em 1922, e que conta a história de um jovem, filho de Brâmanes, que abandona o lar familiar, contra a vontade do pai, à procura de verdades desprendidas de formalismos vazios. Percebe que não poderia nunca encontrar a verdade da vida, anulando uma parte dela e do seu próprio corpo. Experimenta o prazer, a extrema austeridade, a inveja e a ânsia de poder, sempre em busca da perfeição e do sentido profundo da vida. Inicia uma viagem começando pelo conhecimento do mundo externo para, depois, conhecer o seu mundo interno. Quando conhece seu filho, já com onze anos, a imagem do homem sábio, que até ali julgava ter-se tornado, cai por terra. Assiste à morte de Kamala, a mãe do seu filho, e vendo-o prostrado num pranto perante a morte da mãe:
«Siddhartha sentou-o nos seus joelhos, deixou-o chorar e afagou-lhe o cabelo. Vendo o rosto do garoto recordou-se de uma prece Brâmane que aprendera quando também era pequeno. Lentamente, e em voz cantante, começou a recitá-la. As palavras acudiam-lhe à memória, vindas do seu passado distante, da sua infância» (Hesse, 1982).
A descoberta de um filho faz Siddharta alterar o seu olhar sobre o mundo e sobre si próprio, ele que se achava dispensado de se entregar à vulnerabilidade do amor. Descobre através do abandono da
omnipotência infantil que é afinal uma pessoa comum. Tenta a todo o custo aproximar-se do filho, que o renega e lhe desobedece, fazendo-o revisitar a sua própria história e o pai que também ele abandonara. Sente a tentação do restauro narcísico da sua história e do seu mundo infantil, imaginando através deste filho ideal a possibilidade de lhe transmitir a sua sabedoria. Com grande sofrimento, percebe que o destino do filho não se encontra nas suas mãos.
Aos pais, cabe o interessante desafio do investimento libidinal nos filhos, não como prolongamento ou compensação narcísica, mas, antes, abdicando do reinvestimento narcísico em si próprio, permitindo à criança não a repetição, mas a possibilidade de um vínculo seguro que permita a criação de uma nova história.