Se recordar é viver, sonhar o futuro é um importante alimento para a criatividade.
Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud (1914/1950) ensinou-nos que as vivências subjetivas se atualizam no processo psicanalítico através da recordação, tanto quanto da repetição transferencial. Viver e pensar as experiências guardadas pela memória lembrada, bem como pela memória agida na repetição, permitem a sua elaboração e transformação.
Sabemos que a vida das instituições psicanalíticas, tal como a vida das pessoas, é marcada pelo processo de repetição e rememoração, muitas vezes procurando a compreensão de algo encerrado no interior da organização, outras vezes como tentativa de superar um qualquer acontecimento traumático, outras vezes ainda como procura de uma via de crescimento. Na contínua construção da Psicanálise, teremos de aceitar que se não incluirmos os conhecimentos históricos nas nossas reflexões e se formos incapazes de elucidar áreas específicas da realidade, não teremos a possibilidade de alimentar novas aspirações de futuro (Varvin & Volkan, 2018).
A pertença a um grupo, a uma cultura, a um país integra a nossa identidade. Assim, a história da Psicanálise em Portugal e a da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) entrelaçam-se com a nossa história coletiva, enquanto povo. Será que o nosso sonho sonhado entre os traumas vividos, as glórias passadas e o colapso do tempo pela repetição regressiva dos grandes grupos poderá introduzir uma ambição de futuro, o sonho de mais pulsão de vida?
Para celebrar o aniversário dos 50 anos da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, sob o auspício do onírico, convidámos os colegas
a recordar, mas também a pensar no que serão os desafios, dilemas e questões, bem como os possíveis trilhos para o futuro da Psicanálise. Do acolhimento deste convite, nasceu este número.
Dada, portanto, a excecionalidade desta publicação comemorativa, optámos por a organizar de modo diferente do habitual. Dividimo-la em secções novas, que acreditamos traduzir este momento de celebração: a secção SPP 50 Anos, composta de artigos teórico-clínicos que versam sobre temas relacionados com a Psicanálise contemporânea; e a secção Testemunhos, que integra um conjunto de reflexões sobre as memórias pessoais dos autores em torno das suas experiências de participação na vida e história da SPP.
Na secção SPP 50 Anos, encontramos inicialmente o artigo de Conceição Melo Almeida, intitulado “O corpo no divã, o divã no sonho: Função analítica como bússola e âncora em tempos difíceis”, cuja ideia central é de que a tendência presente de “tornar normal” vivências desumanizantes gera seres humanos que desafiam os limites do analisável. Perante este dado, urge repensar os modelos formativos dos psicanalistas, questionando, sobretudo, o ensino da rêverie e da intuição na formação. Neste artigo, a autora analisa a simbologia do setting enfatizando com uma vinheta clínica a relevância de uma atitude formativa não colonizadora e da construção prévia de um setting interno na díade.
Já no artigo “O negativo genocida e a matriz cultural do objeto: Para uma Psicanálise da hipercomplexidade”, Maria José Martins de Azevedo propõe uma abordagem que considere não apenas os processos internos do sujeito, mas também as matrizes históricas, culturais e familiares na constituição do sofrimento psíquico. Paralelamente a uma aprofundada exploração teórica, a autora ilustra por meio de uma vinheta como traumas transgeracionais se manifestam clinicamente, ressaltando a importância da análise do negativo para o processo de elaboração e integração subjetivas.
Em “Momentos de não ser: Ecos na escuta analítica”, Maria Cristina Farias Ferreira propõe um diálogo entre literatura e Psicanálise como forma de criar uma narrativa capaz de gerar sentido e superar experiências de não ser. A autora faz uma revisão da literatura psicanalítica contemporânea sobre os estados mentais primitivos ou estados não representados da mente, bem como uma reflexão criativa sobre
os trabalhos literários de Virginia Woolf, terminando com uma ilustração clínica.
No seu artigo “Vitalidade potencial versus vitalidade cinética”, Ana Luísa Ferreira explora o conceito da vitalidade a partir da sua experiência clínica com uma adolescente e uma criança. A autora sugere uma análise da vitalidade na dupla vertente simbiose/separação, enfatizando a questão do narcisismo primário.
Em “Tudo isto e nada disto é ser analista em formação: A experiência de integração e construção da identidade analítica”, Carmen Thadeu e Sara Carvalhal descrevem, por meio de uma profunda e sensível reflexão, que ser analista em formação é um processo de transformação subjetiva, feito de idealizações, desilusões e reorganizações internas, no encontro com o desconhecido em si e no outro. No decorrer do artigo, as autoras apontam como a identidade analítica se constrói na circulação entre análise pessoal, supervisão, teorias e vínculos institucionais, onde os pares funcionam como terceiro. Nesta travessia, o psicoterapeuta torna-se psicanalista ao integrar a função analítica, aprendendo a sustentar o vazio, a escuta e a incerteza.
No texto “Subjetividade nómada e escuta analítica”, Sílvia R. Acosta aborda um tema muito contemporâneo, ligado ao crescimento dos chamados nómadas digitais e aos desafios que este estilo de vida traz à construção da identidade e da subjetividade. Ao analisar estas subjetividades em trânsito, a experiência de migração da própria autora entrelaça-se como pano de fundo, criando um olhar e uma compreensão deste fenómeno a partir de dentro da sala de análise (recriada no setting remoto), mas também a partir da própria história da analista.
Contamos ainda com a recensão de João Pedro Fróis do livro Habitats internos: Conversas com psicanalistas, organizado por Alexandra Coimbra, Csongor Juhos e Teresa Abreu. A obra reúne entrevistas a dezoito psicanalistas portugueses, constituindo-se, nas palavras do autor da recensão, como “um subsídio luminoso para a história da Psicanálise em Portugal”.
Em seguida, na secção Testemunhos, a escrita mais pessoal e livre dos autores retrata memórias em torno da história da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Aí, encontramos cinco textos bastantes distintos, que abordam diferentes aspetos da nossa vida institucional. Sendo esta secção especial, porque única, queremos agradecer aos autores
dos textos, Ana Belchior Melícias, Carla Cruz, Jaime Milheiro, Luísa Branco Vicente e Tomás Miguez, pela sua generosidade ao responder ao nosso pedido para partilhar emoções, vivências e histórias.
Desejamos que este número possa contribuir não apenas para a celebração, mas também para a elaboração transformativa e criativa da vivência da história que nos constitui enquanto família analítica.