O tempo é uma condição fluida que não existe a não ser em momentâneos avatares dos indivíduos. O tempo só é gentil para quem é para ele gentil. A mais intratável da nossa experiência é a do tempo: a intuição da duração combinada com o pensamento do perpétuo perecer.
Logo após a viragem do século XX, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus (1850–1909) escrevia que a Psicologia tinha um longo passado, mas uma curta história (Ebbinghaus, 1908). O mesmo parece ocorrer com a Psicanálise; sentimos isso quando revisitamos o texto de Sigmund Freud (1914/2008) “História do Movimento Psicanalítico”:
A partir de 1902, um grupo de jovens médicos juntou-se em torno de mim com a intenção expressa de aprender, praticar e divulgar a psicanálise. […] Ao fim da tarde, em dias combinados, reuníamo-nos em minha casa, discutíamos de acordo com regras previamente estabelecidas, procurávamos orientar-nos num domínio ainda novo e estranho e cativar o interesse dos outros. (p. 104)
Investigador convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Trabalhou como Psicólogo na área da Saúde Mental e Reabilitação de Crianças e Jovens. Coordenou o Programa Gulbenkian de Investigação e Desenvolvimento Estético. Traduziu duas obras de Vygotsky, publicados no Brasil e em Portugal. Recentemente, publicou: Jaime Fernandes (5 Continents Editions, 2024) e A arte da infância não é a infância da arte (FMUL, 2025). E-mail: joaopedrofrois@fm.ul.pt
Com o título Habitats internos. Conversas com Psicanalistas, este livro, organizado por Alexandra Coimbra, Csongor Juhos e Teresa Abreu, afiliados da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, é um subsídio luminoso para a história da Psicanálise em Portugal. Apesar de avizinhamentos avulsos, esta história encontra-se, até ao momento, por realizar. Neste livro com mais de 300 páginas, seguimos o olhar de psicanalistas com larga experiência, onde cada um pensa e discorre sobre o seu percurso de vida, sobre as memórias evocáveis. Esse ato de olhar que também é o presente “funciona” como a recuperação dos aportes singulares de cada um dos entrevistados da Psicanálise praticada entre nós. A imagem de Jano, o deus romano de todos os começos, na sua dupla face de passado e futuro, de entrada e de saída, das transições e dos inícios, das decisões e das escolhas, das dicotomias com que lidamos de Eros contra Tânatos ou da representação de uma ideia pelo seu oposto, é a imagem aproximada que me ocorre ao ler os textos-transcrições destas conversas. Não terá sido por caso que o doutor Sigmund Freud, nos seus últimos anos, da sua coleção de objetos arqueológicos de duas faces, na sua escrivaninha, olhava para a pequena escultura de bronze, um balsamário etrusco, cabeça de Jano, símbolo maior dos dualismos com que lidou e trabalhou.
Destas memórias dos analistas, naturalmente, brotam as dificuldades nessa “construção lenta” da Psicanálise em Portugal, sem exceção. Sobre isto, o escritor e filósofo Christian Delacampagne (1949-2007) referiu haver muito em comum em Portugal e Espanha. A resistência ao desenvolvimento das ideias de Freud não estaria, segundo ele, apenas ligada ao facto de as ditaduras vigentes serem intensamente hostis a todos os movimentos de inovação e investigação intelectual, mas, no século XX, o atraso cultural que estes dois países viveram e transportaram liga-se às idiossincrasias das “culturas ibéricas” impregnadas por valores religiosos dominantes, reacionários, que as “elites políticas” usaram nos dois lados da Península Ibérica, onde a perseguição aos psicanalistas foi prática durante as ditaduras mais longas da Europa (Delacampagne, 1982).
No meio dos que exercem a Psicanálise, Conversas com Psicanalistas é livro raro — com dezoito histórias de vida e outros tantos percursos profissionais. Capta o “mundo” em diferentes experiências, “contaminadas” entre si pelas influências de todos os que os antecederam — os
retratados e os “didatas” que contribuíram para a sua descoberta pessoal como analistas. É um livro incomum porque deixa para trás uma antes assumida atitude de que o analista deveria inibir a exposição da sua vida aos outros para proteger quem o procura. Sobre isto, Coimbra de Matos diz na entrevista: “O que não se deve esconder são as coisas evidentes que fazem parte da vida, as coisas que de tão notórias […]” (p. 31).
A intenção dos organizadores do projeto em curso é desconstruir a imagem frequentemente incompreendida da Psicanálise e dos psicanalistas. É sabido que, ao longo dos anos e no século XX, o movimento psicanalítico, que partiu do mundo da Medicina, da Neurologia e da Psiquiatria, se alargou à Psicologia Clínica e menos a outras áreas do conhecimento, como a Filosofia. As razões deste alargamento são várias e os benefícios para a Psicanálise também.
Do corpo de entrevistas incluídas no livro, saliento duas com psicanalistas já desaparecidos — Carlos Amaral Dias (1946-2019) em 2004 e Coimbra de Matos (1929-2019) em 2018. Entre os dezoito textos dispostos alfabeticamente, há cinco psicanalistas do sexo feminino. Cada uma das conversas ocorreu em períodos distintos e surge sempre antecedida por uma curta biografia. O espaço de trabalho e a imagem fotográfica de cada um acompanham os textos. As perguntas são diferentes, de entrevistado para entrevistado, mas o interesse de quem pergunta é focado no itinerário de cada um dos protagonistas dentro da Psicanálise, não se perde. Em quase todas as intervenções registadas, perpassa a leveza da ironia, o olhar sobre si próprio e sobre os outros psicanalistas, o prestígio intelectual que sobre eles exerceram os teóricos da Psicanálise e, claramente, os seus didatas.
Dignos de atenção, nestes depoimentos surgem os nomes dos autores lidos que influíram a prática dos entrevistados e deram sentido ao seu próprio pensamento, entre outros: Karl Abraham, Mária Török, Donald Winnicott, Otto Kernberg, Wilfred Bion, Donald Meltzer, Christopher Bollas, André Green e o sempre presente Sigmund Freud. Por vezes, alguns dos entrevistados, talvez pela distância das ocorrências e episódios de vida, não se inibem no comentário sobre o que lhes sucedeu, apontando com detalhe as tramas da sua história profissional e contornos contextuais em que foram experienciadas, nomeadamente as que ocorreram em instituições da psiquiatria
nacional: a maioria dos entrevistados são psiquiatras com atividade continuada no sistema público de saúde mental, alguns deles atores principais dessas entidades.
Faço agora um exercício de imaginação, de Genebra e Paris para Lisboa, com a realização de semelhantes diálogos com Francisco Alvim (1917-1984), Pedro Formigal Luzes (1927-2012), ambos alunos do visionário professor de Neurologia da Faculdade de Medicina de Lisboa Diogo Furtado (1906-1964), de João dos Santos (1913-1987) ou de Mário Casimiro (1925-2003), assistente da cadeira de Psiquiatra do professor Henrique Barahona Fernandes (1907-1992), também na Faculdade de Medicina de Lisboa. Diogo Furtado (1959) proporcionou a abertura à Psicanálise com uma razão de ser: a Neurologia, por si só, não conseguia dar resposta a várias situações com as quais a prática clínica neurológica se deparava, e, para ele, a grande descoberta do colega austríaco era, sem dúvida, ter alargado a conceção do espírito humano existente na altura. Antes, Egas Moniz (1915) expunha as ideias de Freud em “As bases de Psychoanalyse” na Lição do Curso de Neurologia e escreveu: “A doutrina de Freud tornou-se sobretudo celebre pela importância que o mestre de Vienna attribue aos fenómenos da sexualidade na génese das neuroses” (p. 377).
Ao ler textos de Francisco Alvim, Pedro Luzes, João dos Santos ou Mário Casimiro, imagino que as respostas às interrogações que hoje se põem à Psicanálise serão coincidentes em muitos aspetos, por exemplo os relativos à sua organização estatutária, bem como as questões e preocupações que emergiram no passado. A leitura deste livro, em parte, resolve o meu exercício imaginativo, como se se tratasse da projeção, no ecrã de hoje, das influências consolidadas do passado, e é possível perceber que em todas as narrativas apresentadas pelos entrevistados vão surgindo os nomes e o pensamento daqueles que acabo de evocar. À primeira geração de psicanalistas, ativa desde o início dos anos sessenta do século passado — Francisco Alvim, Pedro Luzes, João dos Santos —, juntaram-se Albano Moreira da Silva, Mário Casimiro, António Coimbra de Matos, Jaime Milheiro, Celeste Malpique, entre outros; todos deixaram escrito o que pensavam e pensam sobre a Psicanálise.
De volta ao livro. Difícil será, nesta análise crítica que proponho e que se exige curta, falar de cada um dos entrevistados, mas sublinha-se
o carácter das respostas que são, por vezes, lapidares, irónicas ou plasmadas por uma alegria de viver e energia, como, por exemplo, as de Coimbra de Matos: “Nunca me confinei a um autor, sou a favor da experiência […] defendo o investigador” (p. 23), “Os meus mestres foram os meus pacientes” (p. 27), “O analista tem a função ‘farol’ e ‘catalisador’” (p. 29), “Outra coisa que acontece na Psicanálise, é que endeusam o Freud […] os detratores acham que ele era um chalado, um delirante, um teimoso” (p. 31). Ou, por exemplo, a memória do psicanalista Carlos Farate sobre uma das três entrevistas de admissão à Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Fixou na memória o seu diálogo com um dos membros da comissão de ensino que o entrevistou, Mário Casimiro:
Estava um dia de calor e começou a contar-me uma história, a história de um homem num jardim, em Genebra ou em Lausanne, já não me lembro bem: ‘Um homem, muito velho, depois de uma noite escura, muito fria, é encontrado morto de manhã, morreu congelado.’ Perguntou: ‘Sabe quem era?’ E depois de um momento: ‘Era o meu psicanalista!’ [gargalhada] […] Então tem uma carreira brilhante, tem bom ar, está aí na maior, quer vir para psicanalista para quê? A Psicanálise não cura, a única cura que conheço é a do queijo da serra” (p. 69).
O que resulta da leitura deste livro e dele transparece é ser apenas no uso do método proposto por Freud, na ação de todos, da experiência ano após ano, que a grande beleza do método, na sua enorme vitalidade, se revela gradualmente no tempo para o analista e para o analisando. Provavelmente, é neste ponto que a Psicanálise praticada por figuras distintas abre caminho à Psicanálise das ideias revolucionárias e de cada nova geração que se avizinha, depois de todos estes anos.