Não existe fim, não existe início, apenas a infinita paixão da vida.
A Psicanálise esclareceu de forma decisiva que sem acesso ao nosso passado temos dificuldade de viver o presente e de sonhar o futuro.
Inicio pelos gregos… Para eles, a memória era um dom sobrenatural personificado numa divindade, a deusa Mnemosine, que deu nome a muitos objetos e conceitos para que os mortais se entendessem enquanto conversavam. Filha de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), uniu-se com o seu sobrinho Zeus, que se apresentou disfarçado de pastor por nove noites consecutivas. Depois de um ano, Mnemosine deu à luz as nove musas.
As musas — a palavra museu daqui decorre — eram entidades que permitiam aos poetas lembrar o passado e inspiravam a criação artística ou científica. Que elas nos “abensonhem” no esforço de registar
Baseado na Conferência apresentada em 13 de outubro de 2023, na mesa “Outrora, construindo a história” do XXXI Colóquio SPP – Outrora Agora, coparticipada por Virginia Ungar e Jaime Milheiro (online) e comoderada por Rita Gameiro e Ana Luísa Ferreira.
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente (COCAP). Formadora do Instituto de Psicanálise. Cofundadora do Blog Cinema & Psicanálise. Editora da Freud & Companhia. Cofundadora e Presidente da Associação Portuguesa de Observação de Bebés – Método Bick (APOBB). Autora de diversos livros e artigos de Psicanálise. Ganhou o Prémio Rebeca Grinberg (Accésit da II Edição) da Associação Psicanalítica de Madrid (APM) em 2019. E-mail: mail@anamelicias.com
o longo trajeto do passado científico da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), ao celebrar a memória e o fio da história que nos traz do Outrora ao Agora, e nos lança ao Futuro, no working-through contínuo do conhecimento.
Do Outrora grego, passo para o Agora Freud. Agora, pois a Psicanálise, entre ciência e arte, não tem parado de se desenvolver e expandir, o que revela a sua vitalidade.
A teoria, a clínica e o próprio movimento psicanalítico parecem constituir-se numa ciência da memória, da lembrança, do arquivo, mas simultaneamente do recalque, da negação, da destruição e do apagamento que transgeracionalmente a fundam e norteiam a sua existência e história.
Podemos dizer que para Freud o binómio lembrança/esquecimento foi transversal a toda a sua obra, nas complexas e ricas dinâmicas da subjetividade, articulando inconsciente/consciente e pulsão de vida/pulsão de morte com os seus inumeráveis arranjos. Apresenta o funcionamento do esquecimento: pelo recalque original, ligado aos fenómenos da não-representação; pelos recalques passíveis de rememoração; pela amnésia infantil implicada no processo edípico e, mais tarde, pela compulsão à repetição onde o agir toma o lugar do pensar.
Como lembramos, o que lembramos, como esquecemos e o que esquecemos?
Não cabendo aqui um debate mais aprofundado sobre as “tramas de Mnemosine”, como nos propõe Casanave (2008), passamos ao campo social (Gondar, 2015), onde o debate se centra inevitavelmente nas perspetivas e nas narrativas históricas sempre múltiplas e subjetivas, pois dependem de quem as relembra ou vivencia, havendo sempre uma tensão entre a memória coletiva e a memória individual.
A memória individual está nas histórias de vida, nas biografias e autobiografias, que são ao mesmo tempo memória coletiva da lembrança partilhada nos grupos sociais. E qualquer tipo de conhecimento ou arte advém de uma construção coletiva que permite à memória manter-se viva e, simultaneamente, alicerça a própria memória coletiva no alargamento do património da humanidade.
A memória é, assim, um entrelaçamento entre o individual, o social e o cultural, dimensões que se reforçam mutuamente, criando e sustentando as identidades individuais e coletivas. Essas memórias convivem
entre si, e se, por um lado, somos atores ativos na sua construção, somos também passivos na sua receção, nem sempre consciente.
Celebramos a memória coletiva, a efeméride dos 50 anos da fundação da SPP no dia 24 de fevereiro de 1973. Cerca de um ano depois, deu-se o 25 de Abril de 1974, confirmando-se este elo histórico: a Psicanálise só floresce quando há liberdade, e a liberdade, acima de tudo interna — de sermos quem somos, de pensarmos e de criarmos/sonharmos —, é justamente ao que a Psicanálise nos convoca.
Todos sabemos que a história pode ser esquecida, negada, manipulada, branqueada, deturpada e interpretada de múltiplos ângulos, e que a verdade é filha do tempo — veritas filia temporis. Só com a passagem do tempo adquirimos uma alargada perspetiva e uma maior e progressiva aproximação à verdade.
As efemérides corporificam justamente a passagem do tempo, permitindo-nos também assinalar que não nascemos de geração espontânea, como os nossos narcisismos podem ser tentados a supor. Estamos ligados à nossa ancestralidade e aos que vieram antes de nós, devemos gratidão pela luta, esforço e dedicação, pois desse “sangue, labuta, lágrimas e suor”, como dizia Churchill, somos usufrutuários.
Fazemos assim uma justa homenagem a todos os que nos precederam e lutaram em Portugal pela Psicanálise, desde a sua pré-história até à sua origem propriamente dita, envolvida ainda nos tempos sombrios da ditadura.
Mas como relacionar memória e espaço? Seemann (2002) diz que “a geografia pode dar uma contribuição valiosa para trabalhar com o espaço e a memória simultaneamente a partir de duas abordagens: o mapa como ponto de partida para lembrar acontecimentos do passado e a espacialização da memória através de desenhos que podem servir como narrativas” (p. 43).
Para reconstruir o passado no tempo e no espaço, mas acima de tudo para mapear e espacializar a memória, foi investigada a história e desenhada graficamente a “Timeline da Sociedade Portuguesa de Psicanálise” , apresentada em placares no Colóquio Morrer de Vida e oferecida à SPP num momento de grandes ruturas e perdas decorrentes de uma profunda cisão no seu interior. Uma linha do tempo, uma narrativa coletiva de coesão da identidade de grupo, funcionou simultaneamente como pele institucional agregadora frente
à fragmentação, mas também como manifesto da história e daquilo que os pioneiros e todos os membros da SPP tinham já coconstruído. De lá para cá, os placares da Timeline instalados na sede passaram a fazer parte da vida da Sociedade. A pedido da Direção foi atualizada duas vezes: dez anos depois, em 2019, e na terceira edição, de 2023, para celebrar efeméride dos 50 anos da fundação da SPP.
Convidamos quem quiser consultá-la a visitar o website da SPP ou diretamente o link .
Este desenho esquemático da linha do tempo remete para um trajeto bem mais longo do que os 50 anos, pois a história remonta já a 77 anos, com a partida para Paris, em 1946, de um dos três fundadores — João dos Santos — para fazer a sua formação analítica, seguindo depois Francisco Alvim e Pedro Luzes para a Suíça.
Com a Timeline atualizada festejamos os 50 anos da fundação da SPP, honramos os que nos antecederam, fazendo jus ao seu trabalho, preservando a história que construíram e mantendo a luta para que a casa seja cada vez mais de todos e a história seja efetivamente coletiva.
Espacializando a memória coletiva, os vários quadros da Timeline mapeiam e narram os momentos-chave da evolução:
Em 1957, constitui-se o Grupo de Estudos Luso-Espanhol.
Em 1959, cria-se a Sociedade Psicanalítica Luso-Espanhola.
Em 1967, nasce o Grupo de Estudos Português.
Em 1973, é fundada a Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Em 1977, torna-se Sociedade Provisória reconhecida pela IPA.
E em 1981, torna-se de facto e de direito Sociedade Componente da IPA.
Atualmente, a SPP é constituída por cerca de 250 sócios: 2 honorários, 22 titulares, 75 associados — destes, 19 psicanalistas da criança e do adolescente — e ainda 147 candidatos, uns mantendo-se como candidatos, outros já ativos e em formação, espelhando-se deste modo a vitalidade da SPP.
Resumidamente, homenageamos hoje com gratidão:
Os pioneiros, pela sua luta e paixão.
Os analistas internacionais, que colaboraram ativamente para a formação dos analistas portugueses e também para a implementação da formação de psicanalistas da criança e do adolescente, uma segunda
formação específica e exigente, cuja implementação traçou um importante percurso na história.
Os presidentes e vice-presidentes da SPP e suas Direções eleitas.
A fundação e os presidentes dos Institutos de Lisboa e, mais tarde, do Porto e suas Direções.
A Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) e os seus diretores, diretores-adjuntos e equipas editoriais, pois são o órgão científico vital de uma sociedade no campo científico.
A International Psychoanalytical Studies Organization (IPSO), como organização dos candidatos e lugar fecundo de trocas internacionais — e através dela, todos os candidatos, por neles estar a continuidade e a responsabilidade pelo futuro da psicanálise.
Homenageamos ainda os analistas e colegas que já partiram, uns no seu tempo natural, outros antes do tempo e a sua ausência mantém-se muito presente…
Espacialmente, na sua totalidade, conseguimos aperceber-nos da enorme evolução e das contribuições cada vez mais alargadas de muitos sócios, das participações cada vez mais consistentes e regulares a nível nacional, com os Colóquios, Simpósios, Encontros de Psicanálise, Jornadas Internas e Jornadas Clínicas.
E a nível internacional, a participação crescente de sócios em Congressos Internacionais, com os Congressos Ibéricos e, mais tarde, as Jornadas Ibéricas, com os Congressos Luso-brasileiros e, mais tarde, de Psicanálise de Língua Portuguesa, assim como o diálogo permanente com a cultura espelhado nos Colóquios do Porto de Psicanálise e Cultura e no aprofundamento do intercâmbio com a comunidade que a pandemia da Covid-19 ajudou a acentuar, como a criação de linhas de apoio à comunidade e de webinars, para não se paralisar ou isolar.
Vale também referir aquilo que não cabe: as inúmeras conferências e sessões científicas; os nomes de todos os que participam na organização de atividades, das redes sociais, do website, do blog, da biblioteca, das tertúlias, das formações externas, dos fóruns; os múltiplos artigos científicos e capítulos de livros, destacando apenas, à laia de ilustração, um quadro com os livros de sócios.
Temos momentos partilhados de alegria. Estivemos por 45 anos na sede da Av. da República; e em 2022, inaugurámos a nova sede, depois de três anos de trabalho intenso e dedicado nesse sentido.
Não negamos ainda os momentos difíceis, com a cisão de 2008 e a crise institucional de 2022 — para nós, psicanalistas, momentos de clara evolução.
Questionei recentemente no blog da SPP se existiria o humano sem conflito? (Melícias, 2023). Se poderemos (con)viver sem crise? Como nos desenvolveríamos sem confrontação? O que fazer dessa oscilação inconciliável entre os vínculos L (love) e H (hate)? Bion apontou a saída pelo K (knowledge), sendo esse o nosso instrumento de trabalho. Expulsos do paraíso, teremos de aprender a tolerar o conflito, a ambivalência e a incerteza, pois o antagonismo não é nem destrutivo nem construtivo em si mesmo, mas um dos elementos da evolução e, como parte integral dos sistemas, não pode ser eliminado.
A Timeline talvez nos ajude a avivar a consciência da contribuição de cada membro evitando a tentação da criação de “dinastias” com a respetiva corte em retroalimentação, negando ao corpo coletivo o saudável e necessário espaço de abertura, de diversidade e de conflito.
E poderá, além disso, amenizar a tentação de “fulanização” da instituição nas pseudoapropriações, seja de ideias, seja do poder, como aliás parece vir a acontecer no movimento psicanalítico, transgeracionalmente, desde Freud.
A Timeline apresenta-se como narrativa-figurada, pele ou envelope do corpo institucional em expansão e desenvolvimento dinâmico, uma vez que “a nossa identidade é narrativa: faz-se, desfaz-se, refaz-se… E isto acontece na evolução, com os indivíduos, com os grupos, com os povos” (Borges, 2011).
A história é obviamente bem mais longa, alicerçada na paixão e no incontável trabalho e criatividade de muitos. O pouco enunciado já é representação visível do legado às gerações mais jovens, a quem deixo as palavras de Nise da Silveira (citada por Melo, 2022): “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura […] É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade…”
E termino com uma história sobre a vivência do tempo, não só espacialmente, mas refletida na própria linguagem e conceção dele, sobre a qual escrevi em 2016 para o Colóquio do Porto – Psicanálise e Cultura — Encontros com o Tempo. Para os Aymara, povo anterior aos incas, de tradição oral, que habita os Andes há mais de 15 000
anos, o tempo corre no sentido inverso ao nosso: a partir de um ponto na frente deles (o passado), atravessa o lugar onde estão (o presente) e recua para trás (o futuro).
Esta vivência do tempo está absolutamente de acordo com a Psicanálise: caminhamos de frente para o passado, e o futuro, nas nossas costas, é incerto e desconhecido. Só podemos avançar se estivermos de frente para o passado, a construir juntos o Outrora sempre Agora, ao qual poderíamos também chamar, com Krenak (2022), um “Futuro Ancestral”.