… o local de reunião dos psicanalistas em Portugal era o Auto Club Médico Português: na Avenida Elias Garcia n.° 123 - 1°, em Lisboa.
Após a cisão, em meados da década de sessenta, da Sociedade Psicanalítica Luso-Espanhola, que se havia organizado na Suíça, e da consequente criação do Grupo de Estudos Psicanalíticos Português, era nessa pequena sala que realizávamos os nossos encontros informais e os nossos seminários formativos, ainda não rigorosamente sistematizados no tempo e no modo. No Auto Club, aprendíamos a conduzir a nossa própria interiorização pessoal e profissional, enquadrados na Associação Psicanalítica Internacional que entre nós procurava consolidar-se.
Frequentei-o de 1968 até à criação da sede da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) na Avenida da República, 97, 5.°, em 1975, integrando um pequeno grupo de psiquiatras de instituições várias e em diferentes graus de formação, homens e mulheres, que ocasionalmente se abria a quem fazia Psicanálise e pelas suas questões teóricas se interessava.
Os conceitos psiquiátricos da altura e as nomenclaturas botânicas que os sustentavam eram ali profundamente contestados. Representávamos o oposto, o psicológico profundo, o contraponto dinâmico, o sofrimento inquirido, a subjectividade analítica, a valorização relacional. E assertivamente demolíamos as barricadas que o salazarismo
Psicanalista (Membro Honorário da SPP). Ensaísta. Ex-Presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos. Ex-Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental. Publicou até agora 13 livros. E-mail: jaimemilheiro@netcabo.pt
impunha na humanização, na cultura, na cidadania, na política, na ideologia, que glorificava as guerras coloniais e que absolutamente priorizava os biologismos na Saúde/Doença, acompanhado de proibições, repressões, perseguições, domínios, pides, obscurantismos e fanatismos salvadores. Lutávamos contra esse “outrora” consolidado no terreno e estagnado no procedimento, cuja omnipotência em si mesma tamponava quaisquer liberdades e criações por medo do desconhecido.
Prisioneiros mas simultaneamente pioneiros, ao desejo de aproximação da nossa própria interioridade acrescentávamos o desejo de aproximação da Europa e dos seus desenvolvimentos e costumes, aspirando ultrapassar as espessas muralhas que nos fossilizavam e que alguns de nós já haviam “perigosamente” soletrado em França, Suíça, Bélgica e outros países.
No Auto Club havia esperança, posicionamento e projecto. Militávamos alcances, perspectivávamos inovações, descortinávamos futuros.
Inundados pelo génio de Freud, líamos, cogitávamos, discutíamos, nobilitando a cura pela palavra e cobiçando as mais radiosas alterações cimeiras. Pretendíamos mudar “este País”. O Maio de 68, em cujo subsolo a Psicanálise sempre circulou, mesmo pouco referida, estimulou-nos sobremaneira. Uma vez por outra, o fantasma de Che Guevara, que era médico, como sabemos, também por lá aparecia, carreando fascínios e motivações insubmissas.
Na vibração de quem pensa, na devoção de quem sofre, na ebulição de quem se agita, empenhadamente nos entregávamos à chamada “Revolução Psicanalítica” que a civilização ocidental percorria, mesmo reconhecendo-lhe os potenciais dissabores e os improváveis rastreios.
A justeza estaria do nosso lado.
No lugar do medo do desconhecido, colocávamos o encanto de conhecer.
Os nossos profetas maiores: Francisco Alvim, Pedro Luzes, João dos Santos, mais tarde acrescidos de Eduardo Luís Cortesão, raramente compareciam. Eram os nossos analistas, recatavam-se para não confundir.
Delegavam em Mário Casimiro, José Flores, Maria Antonieta Palmeiro, Maria Alice Malva do Vale, Orlando Silva Santos, já Membros Associados de prova feita, a remodelação das pistas e a sinalização dos roteiros.
Estrangeiros de visita estremeciam-nos em francês.
Na postura vigilante e tutelar do “Sponsoring Committee” da API, ou no tom sumptuoso e distanciado de conferencistas executivos, nessa língua esclarecidamente nos davam a conhecer a péssima dimensão do nosso quociente intelectual e atentamente encobríamos a nossa profunda incompetência na arte de marear. A capacidade de multiplicação das palavras do classicismo francês, as suas exuberantes terminologias, as suas eruditas deambulações, as suas perícias metapsicológicas e conjecturais, patenteavam o nosso cavernícolo analfabetismo, mas singularmente nos aprovisionavam de incandescentes dinamismos.
Eles eram o estranho, o magnífico estranho, temido, mas desejado, o agora sem outrora, a plenitude na convicção, a turbulência na misteriosidade. Percebíamos pouco, mas antevíamos muito, na elegância sinalizadora daquilo que pretendíamos ser.
Pierre Luquet era o mais assíduo, o mais falador e o mais intemporal.
Não seria ucrónico, mas parecia. Em cada uma das orações a que chamava seminários, durante três dias argumentava sobre “Le Moi”, “Le Ça” et “Le Surmoi”, várias vezes por ano, quase sem contraditório nem diálogo equivalente.
Muitos outros, René Diatkine, Serge Lebovici, Évelyne Kestemberg, Janine Chasseguet-Smirgel, Michel Fain, Didier Anzieu, igualmente nos acentuavam as tormentosas ignorâncias. Só André Green, o mais brilhante pensador que alguma vez conheci e com quem longamente havia contactado em Paris, convidado nunca foi. Traria curiosíssimos problemas que só muito mais tarde percebi.
As identificações projectivas e as contra-identificações projectivas ainda não abrasavam as nossas preocupações. As elevadíssimas marés que em nome de Bion entretanto se agigantaram ainda não nos avassalavam palcos nem fuselagens.
Os túneis de palavras por onde nesta altura deslizam inúmeros psiquismos, filosofismos e psicanalismos que esquecem os sofrimentos
e transformam boa parte da Psicanálise num surf de academismos, bibliografias e repetições, e que às considerações e navegações criativas atribuem heresias, ainda não nos cimentavam anseios nem determinações.
As entrevistas e avaliações para “aplicantes” e “candidatos” realizavam-se em torreões mais ascendentes. Eram no Hotel Ritz, por norma. Nunca mais lá entrei.
Recordo Hanna Segal e o seu fumegante charuto, Mario Montessori e as suas falinhas mansas, Michel Rock e as suas considerações anti-depressivas, Rallo Romero e os seus pendores aristocráticos, além doutros reconhecidos “internacionais”, como Raymond de Saussure e Sacha Nacht, com quem nos cruzávamos num registo de admiração e compromisso nem sempre agradavelmente correspondido.
Activamente voltados para o exterior, às decrepitudes assistenciais dedicávamos significativa parcela da nossa espontaneidade emergente. Dois de nós muito se distinguiam na troça pública de indigências e conceitos. Os meus amigos António Coimbra de Matos e Nuno Afonso Ribeiro, seis anos mais velhos do que eu, a isso provocatoriamente se entregavam e sobressaíam em tal desempenho. Criticavam como quem respira, contundiam como quem divaga, arrasavam como quem celebra.
No Porto, na sequência do Albano Moreira da Silva e da causticidade humorística que o caracterizava, competia-me replicar.
Um belo dia, acabadinho de chegar de Paris, numa Conferência no Hospital de Magalhães Lemos, em cuja mesa pontificavam as personalidades psiquiátricas mais ilustres da época: Pimentel das Neves, Barahona Fernandes, H. Gomes de Araújo, pedi a palavra e no tom tremido de quem acusa afirmei que ali se estava a defender a Psiquiatria Nazi.
Sorriram, cochicharam, não chamaram a polícia.
Na postura de pessoas civilizadas, toleraram o psicanalista recém-chegado, mas ficaram a pensar. O primeiro sussurrou-me, semanas mais tarde, que até gostara do que eu dissera.
No Auto Club pairava um admirável espírito de grupo. Cúmplices na afirmação e no desassossego, dados a interpretações directas e a diversões “curativas”, não insuflávamos ladainhas, não alardeávamos citações nem recitávamos definições. Pensávamos e acometíamos. Gostávamos do que fazíamos, gostávamos do que sonhávamos, na busca da liberdade interna e no terror das ideias feitas.
Éramos amigos.
À saída, rua abaixo, na cervejaria do “Polícia” e no simbolismo do nome, afogávamos quantas culpas e atropelos pudessem imiscuir-se.
Nem todos tiveram a mesma sorte.
Muitos anos depois soube que três de nós se haviam derruído nas curvas da estrada. Repetiram o que alguns dos discípulos iniciais de Freud igualmente haviam feito. Auto partiram antes do fim.
A Psicanálise não resolve nem previne algumas tempestades siderais.
No funcionamento global dos seres humanos, entre o “outrora” e o “agora” há labirínticas disposições medularmente anexadas. Naquilo que habitualmente designo por “sentimento de percurso”, integram-se fantasmáticas ausências do sentimento de tempo e negações da sua própria passagem.
No nosso trabalho diariamente o comprovamos.
O analista tenta compreender a oficina interna sem delimitar fronteiras nem evocar farolins, mas quando interliga continentes e conteúdos rapidamente certifica assinaláveis discrepâncias entre as íntimas temporalidades e os tempos lidos de fora.
Percebe matrizes de eternidade nas dinâmicas inconscientes, não apenas como desejo ou ideológica expectativa. Serão necessidades, manobras antálgicas na ambição de permanecerem vivas e de coexistirem em dois mundos que se completam, mas simultaneamente se contradizem: o mundo da interioridade e o mundo da realidade.
O sentimento de eternidade anestesia dores e sofrimentos, impossíveis de contraditar doutra forma.
Todos os humanos nessas alamedas se balanceiam.
Todos fermentam pontos de partida e pontos de chegada em concepções sem limites, todos contemplam infinitudes sem descanso retomadas, todos se revêm nas desmesuras lendárias e nas travessuras oníricas de que jamais dispensam convergências resolutivas. Todos nessas intemporalidades vagabundeiam, com ou sem marcações indicativas e formulações catalogadas, como se a memória não fosse mais do que uma operacionalidade instituída, a história não fosse mais do que uma externalidade rebuscada e a eternização constituísse a única garantia da viscosidade da libido por Freud referida.
No fluxo da subjectividade pelo corpo, ou seja, naquilo que tenho vindo a conceptualizar como a “águaminha” de cada um, determinante de serventias que estão muito além das realidades objectivas e dos condicionalismos na Saúde/Doença que as ciências biomédicas se defendem de pensar, o mesmo abraço se adivinha. Há intemporalidades que correm sem correr na corporeidade sensível e na voz interna de todos os emissores, porventura encadernadas de balsâmicas premissas e de contradições paradoxais.
Tais “eternidades” alimentam-se e alimentam-nos de tal forma que todos os imediatismos, pressas, civilizações, ciências e racionalidades jamais as poderão elidir.
Primeiro, porque a inescapável miscigenação do “outrora” e do “agora” no trabalho do sonho por todos é vivida e sentida como repetida incumbência; segundo, porque a estranhíssima capacidade de adiar, adquirida no processo evolutivo, confere ao desejo tão venturosas potencialidades que lhe propicia automatismos insusceptíveis de dissolução.
Adiar o desejo significa mantê-lo fora do tempo, num movimento que se exacerba nas questões da vida ou da morte e se relativiza nas frustrações e ameaças do desconhecido. O “tempo” transporta-nos nas caravanas do medo: satura e intoxica… enquanto o “sem tempo” esse medo dissolve: recompõe e sanifica.
É por isso que dificilmente alguém escapa às promessas do “para além de…” que todas as tribos organizam em formatos religiosos, laicos ou outros, mesmo completamente os alagando de aproveitamentos e embustes.
Todos integram tais “promessas” no que somos e no que jamais deixaremos de ser, por várias e sequenciais razões: porque nascemos prematuros e totalmente dependentes de quem nos proteja, porque para sobrevivermos nos obrigamos a representar mentalmente os objectos protectores pelo medo de os perder, porque nas entrelinhas incubamos as fabulosas capacidades de adiar, simbolizar e mentir em profundidades tão naturais e tão sine qua non que só na depressividade se ofuscam, mesmo que a realidade tudo desminta.
Pretendo com isto sublinhar que todos os humanos se julgam mortais e imortais em simultâneo, apesar das ambiguidades que se lhes associam. E que todos reiteradamente congeminam sistemas para a morte contornar, dos mais primitivos aos mais sofisticados, na interioridade da “consciência de si”.
Todas as suas significativas relações são eternas (todas as paixões serão imorredoiras, todas as parentalidades serão imperecíveis, todos os desejos serão inalteráveis, todas as desejabilidades serão embrionárias, todas as ilusões serão perpétuas, todas as magias estarão disponíveis, todas as utopias jamais chegam ao fim), no primordial encanto das consagrações que englobam.
Sem a eternidade e sem a misteriosidade que a enraíza, jamais ocorreriam afectos, amores, desamores, idealizações, religiosidades, religiões, misticismos, transcendências, artes e afins.
Nem poetas haveria.
Os poetas são os seres vivos mais próximos da eternidade, bastante mais do que as sequóias gigantes da Serra Nevada, apesar dos seus habituais desalinhos e dos seus casacos quatro números acima.
Poderia relevar, como quem resume, que não há pessoas nem povos que as lezírias da eternidade não cultivem e que através delas não perpassem heterogéneas proposições. Todas as quimeras nela se sentam, mais ainda quando celestialidades projectam.
Paraísos, ressurreições, reencarnações, transmigrações, metempsicoses e outros pronunciamentos de idêntico calibre são por isso mesmo o produto mais vendável de sempre, como sabemos. As orientações e as divinizações apenas lhes facilitam a impressão e o modo, segundo a época, a cultura, o interesse, o devaneio e o poder de quem comanda e outorga.
O elemento fundamental nem será a existência de um Deus omnipotente, salvador e justiceiro. Será a intemporalidade, que só esse Deus é capaz de accionar.
Freud, em: “O Inconsciente” (1915/1957), dizia:
“Os processos do sistema inconsciente são intemporais, isto é: não são ordenados no tempo, não se alteram com a passagem do tempo, nem contêm nenhuma referência ao tempo. A referência ao tempo é um trabalho do sistema consciente.”
Nas “Novas Conferências” (1933/1964), reafirmava:
“No inconsciente não existe nada que corresponda à ideia de tempo… não há reconhecimento da passagem do tempo… nenhuma alteração dos processos mentais é produzida pela passagem do tempo… impulsos, desejos, impressões recalcadas, são virtualmente imortais… comportam-se como se ocorressem agora e sempre…”
Nos sobressaltos da “insolvência de si”, todos os humanos se recheiam de fantasmas e das obliquidades que se lhes ajustam. E todos dispõem da faculdade de adiar, simbolizar e mentir, na miragem do seu próprio destino.
O Auto Club será eterno para mim, a década de sessenta será eterna para mim, a Psicanálise será eterna para mim.
O futuro de uma ilusão será a minha eterna ilusão.
Só o suporte biológico disso não se mostra capaz.
Compete-nos ainda realçar que será esta “eterna” subjectividade dos humanos que tornará “eterna” esta Psicanálise que nos ocupa e preocupa.