Onde estava o id, deve advir o eu.
Assinalando meio século da Psicanálise em Portugal, neste texto propõe-se uma reflexão sobre a sua origem, o percurso e o papel ético na sociedade contemporânea. Da resistência ao autoritarismo à defesa do espaço interior interno, a Psicanálise tem sido, em Portugal, uma prática de liberdade e de responsabilidade. Num tempo em que o sujeito é pressionado pela exposição e pelo desempenho, importa recordar que a escuta analítica não é apenas um ato clínico, mas também um compromisso ético e comunitário: colocar a Psicanálise ao serviço do humano e da vida coletiva.
Cresci sob o signo do silêncio. Um silêncio denso, político, que atravessava casas e ruas, que se introduzia nas escolas e nos gestos quotidianos, sob o olhar vigilante da PIDE. Pensar podia tornar-se denúncia;
Médica com as especialidades de Psiquiatria e Pedopsiquiatria. Doutorada em Psiquiatria e Saúde Mental. Psicanalista de Adultos (1996), Crianças e Adolescentes (2002). Membro Titular com funções didáticas e Presidente da Comissão de Ética da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Vice-Presidente e Cofundadora da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. Membro do Conselho Científico do Observatório Nacional de Violência e Género. Membro da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), da Fédération Européenne de Psychanalyse (FED) e da International Association for Croup Psychotherapy and Group Processes (IAGP). Autora de inúmeras conferências e diversos artigos científicos. Coautora de vários Livros. E-mail: luisabrancovicente@gmail.com
sentir, risco; agir, perigo. A repressão não se limitava às ruas: infiltrava-se nos afetos, nos corpos, nas palavras. Foi nesse contexto que muitos e muitas de nós aceitámos correr riscos e aprendemos a refugiar-nos no espaço interno, inventando formas de sobrevivência simbólica.
A experiência da clandestinidade tornou-se num exercício de escuta e resistência. Escutar era resistir — à mentira, à propaganda, à submissão. Escutar o outro e escutar-se a si próprio era um ato de coragem, uma aprendizagem silenciosa da liberdade.
Quando mais tarde encontrei a Psicanálise, reconheci nela a mesma força subversiva. Também ela nasce na sombra, na intimidade, resistindo à tirania do visível. Liberta o sujeito da repressão interna, tal como a luta política procura libertar o cidadão da opressão exterior. Ambas se fundam na mesma ética: restituir à palavra o seu poder de verdade.
Na clandestinidade, aprendi que resistir é, antes de tudo, um exercício da mente e do direito de Ser. A liberdade, mesmo quando parecia impossível, germinava em segredo, entre a esperança e o medo. Foi aí que compreendi, antes de o nomear, que o inconsciente é um território de resistência: nele, sobrevive o desejo, mesmo quando tudo o tenta anular. Compreendi também que a liberdade é inseparável da verdade psíquica e que só somos realmente livres quando podemos escutar o que em nós fala sem ser ouvido, e quando damos forma simbólica ao que a repressão tentou silenciar.
A Psicanálise portuguesa nasceu entre o trauma e a esperança, entre a repressão e a possibilidade de palavra. Escutar o outro é, muitas vezes, escutar também o país, a sua história, o seu inconsciente coletivo. Cada análise é um espaço de elaboração — uma micro-história da liberdade, onde o sujeito reencontra a sua voz e o seu desejo. A Psicanálise oferece o lugar onde as marcas da repressão podem ser simbolizadas. Ao acolher o sofrimento, o/a analista transforma o trauma em narrativa, permitindo que o inconsciente fale, sem censura ou manipulação.
Nos anos que antecederam e sucederam a Revolução de Abril, um pequeno grupo de pioneiros ousou fundar um espaço de pensamento e prática psicanalítica em Portugal. Esses homens e mulheres,
enfrentando o isolamento científico e a ausência de apoio institucional, criaram lugares de escuta e de formação, afirmando a Psicanálise como um campo ético, clínico e cultural. A sua coragem não residia apenas em fundar uma nova disciplina, mas em afirmar, num país silenciado, que pensar é um ato de liberdade e que ouvir o inconsciente é resistir ao conformismo e à opressão.
A criação da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, com o apoio da International Psychoanalytical Association (Associação Psicanalítica Internacional), representou um gesto de enorme alcance cultural e humano. Num país que saía da sombra e da censura, falar de inconsciente era introduzir a complexidade num tempo de urgências. Os pioneiros — médicos, psicólogos, pensadores vindos de várias formações — compreenderam que a Psicanálise não poderia ser apenas importada; teria de ser reinventada à luz da história portuguesa. Formar analistas, criar espaços de supervisão, fundar revistas, estabelecer pontes com outros saberes e, sobretudo, sustentar a ética da escuta num contexto em reconstrução foram gestos que implicaram coragem e fidelidade a um ideal de verdade.
Os seus pioneiros abriram caminhos de liberdade e pensamento num país que aprendia a respirar. E honrando os seus legados, não quero deixar de os citar, com uma imensa gratidão: Francisco Alvim, Pedro Luzes, João dos Santos, António Coimbra de Matos, Eduardo Luiz Cortesão, Mário Casimiro, José Pedroso Flores, Jaime Milheiro e Carlos Amaral Dias.
Com o passar das décadas, a Psicanálise enraizou-se em instituições, universidades e consultórios, alargando o seu campo de ação à infância, à adolescência, à saúde mental, à cultura e à educação, à comunidade em geral, sem perder o seu núcleo ético: a escuta do sujeito. Em cada nova geração de analistas, manteve-se o desafio — preservar o lugar da palavra num mundo que ora a silencia, ora a banaliza.
Vivemos um tempo em que a visibilidade se confunde com existência e a velocidade com progresso. A Psicanálise resiste a essa lógica. O inconsciente não é transparente, nem rápido, nem previsível. É o lugar do mistério e da criação. A cultura digital pretende tudo iluminar, mas o humano precisa de sombra, de intimidade para existir.
A Psicanálise recorda-nos que o secreto, o íntimo, o sonho e a dúvida fazem parte da vida. Sem eles, não há desejo, nem verdade psíquica. O trabalho analítico é, portanto, um trabalho de proteção da interioridade — tarefa ética e política de primeira ordem.
A Psicanálise não se limita a tratar sintomas; interpreta o seu tempo. E o nosso tempo é marcado por um novo tipo de servidão: o excesso e a desumanização. Já não vivemos sob o medo da censura, mas sob o imperativo da exposição. O sujeito contemporâneo deixou de ser coagido por um poder exterior; passou a ser prisioneiro de si próprio, da sua imagem, da sua produtividade. O mal-estar atual não nasce da interdição, mas da saturação. A Sociedade do Cansaço (2015a) e A Sociedade da Transparência (2014) produzem indivíduos exaustos, ansiosos, incapazes de suportar o vazio e a “negatividade”, como nos diz Byung-Chul Han. Enquanto o fascismo amputava o pensamento, a sociedade neoliberal dissolve-o no ruído. O sujeito já não é proibido de falar, mas fala sem cessar, na sua incapacidade de dizer.
A clínica contemporânea exige a capacidade de proteger o espaço simbólico do sujeito contra a invasão da literalidade e da imagem. A escuta analítica é hoje um dos poucos lugares onde o sujeito pode existir sem ter de provar nada, podendo ser ele próprio no seu verdadeiro self. Enquanto a sociedade valoriza o desempenho, a análise suporta a fragilidade. Enquanto o mundo acelera vertiginosamente, a análise caminha contemplativamente, sendo o setting analítico um gesto de contracultura, um espaço ético onde a palavra ainda tem espessura e o silêncio, sentido.
Neste contexto, a Psicanálise torna-se novamente subversiva, honrando o seu fundador — Sigmund Freud. Ao invés de prometer soluções rápidas, oferece escuta e tempo; em vez de visibilidade, oferece intimidade; em vez de euforia, acolhe a falta. A Psicanálise ensina que o sujeito só se constitui a partir da falta, que o desejo é sempre um movimento entre o possível e o impossível. O/a analista protege o espaço da falta — lugar onde o sujeito pode escutar-se e, talvez, reinventar-se.
O dever ético da Psicanálise é colocar-se ao serviço da comunidade, não como doutrina, mas como presença. A escuta analítica não pertence apenas ao consultório: estende-se à cultura, à política, à educação
e à arte. Sempre que um analista escuta um sujeito em sofrimento, sustenta também o tecido simbólico da comunidade. Sempre que uma instituição psicanalítica abre espaço para o diálogo interdisciplinar, contribui para a saúde ética do país. A Psicanálise serve a comunidade quando preserva o lugar da palavra e da diferença, quando resiste à desumanização, mantendo viva a possibilidade do pensamento.
Cinquenta anos depois, o percurso da Psicanálise em Portugal deverá continuar a ser o retrato de uma travessia: da repressão à palavra, do medo à escuta, da obediência à responsabilidade. A nossa geração deverá continuar esse legado, adaptando a Psicanálise às novas realidades, sem trair a sua essência. Hoje, o desafio é preservar o humano num mundo que o dispersa, mantendo o sujeito vivo, singular, pensante, quando tudo o empurra para a uniformidade e para o ruído.
Celebrar a Psicanálise portuguesa é celebrar o humano na sua complexidade: desejo, conflito, culpa, medo e esperança. É reafirmar a confiança na palavra e na escuta como formas de transformação.
Hoje, ao revisitar o meu percurso reconheço uma linha contínua: a da busca pela liberdade. A luta contra a repressão política transformou-se, com o tempo, também em luta contra as repressões internas. A experiência pessoal, marcada pela clandestinidade e pela resistência, ensinou-me o peso do silêncio imposto; a Psicanálise ensinou-me o valor do silêncio consentido. O primeiro aprisiona; o segundo liberta. Sob a ditadura, o silêncio era medo; na análise, é criação. O espaço analítico é o inverso do espaço totalitário: ninguém fala em nome do outro. O/a analista não manda, escuta; não impõe, interpreta; não vigia, acolhe. Se a ditadura visava dominar o discurso, a Psicanálise devolve à palavra o seu poder de revelação. A escuta é, na minha perspetiva, um ato político.
A Psicanálise ensinou-me que cada sujeito é, de algum modo, um resistente: alguém que procura dizer-se, compreender-se e reinventar-se. A análise é um ato de coragem, um gesto de afirmação do Eu frente à história e perante o inconsciente. E talvez seja esse o legado mais profundo da Psicanálise: ter transformado a escuta em espaço de liberdade e o pensamento em forma de resistência.
Gostaria de deixar uma última reflexão sobre a liberdade e a sua dimensão central, não apenas como ideal político, mas como experiência psíquica e ética. A liberdade, dotada de um poder de atração psíquica que simultaneamente seduz e perturba, situa-se entre o desejo e a lei, entre o impulso e o limite. Nunca é um dado adquirido, mas uma conquista sempre em risco, atravessada por forças inconscientes que a podem submeter ao prazer, ao dever ou ao medo. Enquanto experiência de alteridade, a liberdade só se sustenta na relação com o outro e com a própria necessidade, que lhe confere forma e medida.
Após o 25 de Abril, a Psicanálise revelou-se como um exercício de libertação interior, mas também como uma prática ética que depende de um contexto simbólico e social capaz de reconhecer os seus limites — condição essencial da responsabilidade, do conflito e da criação de pensamento.
Assim, a liberdade, aprendi, não é só um estado político: é uma forma de presença. É o modo como olhamos e escutamos o outro, acolhemos a diferença e a dor, e reconhecemos o inconsciente que habita em cada um de nós.
A Psicanálise contemporânea tem um dever ético e deverá ter um papel ativo na luta para que o Humano viva como sujeito, fazendo parte na sua individualidade de uma comunidade, e não como projeto autossustentável, levando-o a submeter-se voluntariamente a exigências de desempenho e otimização, como refere Byung-Chul Han (2015b).
Cinquenta anos depois, a Psicanálise continua a ser um espaço de liberdade em movimento. Nascida em tempos de medo, cresceu com a democracia e permanece viva no gesto silencioso de cada analista que escuta. Escutar o inconsciente é, ainda hoje, um ato de liberdade, sendo a liberdade psíquica o exercício mais exigente da democracia interior.