A escolha de um curso universitário é, para muitos jovens, um momento de angústia e ansiedade, já que determina a área profissional das suas vidas. Surgem dúvidas e hesitações, procura-se “acertar” na opção. E, inerente a qualquer escolha, será necessário elaborar o luto de outros possíveis cursos.
Na minha juventude, alguns anos antes da universidade, decidi ir para Arquitetura, escolha esta influenciada por dois artistas plásticos que conheci. Entretanto, tive a disciplina de Filosofia e senti um grande entusiasmo por Platão e Sócrates, bem como pelos filósofos pré-socráticos. Mas as saídas profissionais da Filosofia não me seduziam, que eram essencialmente ser professor. O mais próximo da Filosofia que encontrei foi a Psicanálise. Debruçava-se sobre a natureza humana e o psiquismo e estimulava-me a pensar. Desisti da Arquitetura e candidatei-me ao curso de Psicologia, sempre com a Psicanálise no horizonte.
Imaginava-me psicanalista e surgia a imagem de um homem seguro e tranquilo, capaz de resolver quaisquer conflitos psicológicos. No decorrer do curso de Psicologia, uma colega disse-me que estava a fazer uma análise na Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Ao ouvir a colega, senti-me atraído pela ideia de fazer uma análise. Pensei num espaço só para mim, onde poderia dizer tudo o que me apetecesse, e assim contactei a SPP com o objetivo de iniciar uma
Psicólogo Clínico, Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Prática Clínica com Adultos e Adolescentes em consultório privado. Prática Institucional na Comunidade com pessoas com doença mental crónica. E-mail: tomasmiguez@hot-mail.com
análise. Marcaram-me entrevistas com vários psicanalistas, entre eles o professor Coimbra de Matos e o professor Pedro Luzes, que me acolheram com grande afeto. A última entrevista foi com o Dr. Mário Casimiro, que também me recebeu de uma forma calorosa. Falei-lhe de viagens que fiz sozinho pela Europa. No decorrer da entrevista, perguntou-me porque é que queria ser psicanalista. Respondi-lhe que gostava de ajudar pessoas. “E não seria melhor ir para nadador-salvador?”, perguntou. Fiquei algo embaraçado e creio que não respondi. Pensei que aquele homem estava a provocar-me no bom sentido. Depois, acrescentou que ser psicanalista era uma chatice, que se ouvia constantemente queixas: “a minha sogra isto”, “o meu marido aquilo”, e rematou: “você é um homem de ação, gosta de fazer coisas, de viajar, não venha para aqui”. Não me senti rejeitado. Fiquei a pensar que me estava a desafiar, a convidar-me a refletir melhor no meu desejo de fazer uma análise e ser psicanalista. Percebi depois que todas aquelas entrevistas estavam envoltas num lapso, pois eu estava a candidatar-me a fazer uma análise didática sem o saber. Nem sequer sabia o que era uma análise didática. Mas percebi que financeiramente era incomportável, e assim esqueci esta ideia de fazer uma análise.
Um ano depois, voltei a contactar a SPP, agora para fazer uma análise “normal”. Tive duas entrevistas preliminares com a minha futura psicanalista e iniciei assim uma análise com quatro sessões por semana. A morada da SPP — Av. Da República, n.° 97, 5.° andar — foi ficando um lugar na minha rotina. Na primeira vez que lá fui para iniciar a minha candidatura, fui recebido pela secretária da SPP. Uma mulher de poucas palavras, um olhar militar e seco, com uma postura pragmática, por vezes pouco simpática e intimidante. Estranhei aquela atitude numa instituição psicanalítica, mas não era assim tão importante, não era a minha psicanalista. Talvez tenha acrescentado um toque algo enigmático ao meu primeiro contacto com a Psicanálise. Ainda pensei se uma secretária sisuda não era uma estratégia para testar a tolerância à frustração dos analisandos, mas achei que isso era uma paranoia minha. Felizmente, não tive de interagir muitas vezes com a secretária. Mas convivi muito com a senhora da limpeza. Normalmente, eu chegava às sessões de análise uns cinco ou dez minutos antes e aguardava na sala de espera. A senhora da limpeza devia gostar de mim, pois vinha frequentemente ter comigo, e conversávamos
sobre os mais diversos assuntos. Era uma senhora de alguma idade, que se vestia quase todos os dias de preto. Parecia estar sempre um pouco em esforço e acho que coxeava. Eu gostava dela e os nossos curtos minutos de conversa começaram a fazer parte da análise. Por vezes, “coscuvilhávamos” juntos. Reconheço que em algumas ocasiões não queria conversar com ela nem com ninguém, mas mantinha o diálogo, pois ela era simpática. Um dia, ouvir dizer que a senhora da limpeza dizia aos psicanalistas: “Dr., Já fiz a caminha!”, referindo-se à limpeza e preparação do divã.
A SPP ficava localizada no último andar de um antigo e belíssimo edifício na Av. República, n.° 97. Muitas vezes, o elevador estava avariado e tinha de subir as escadas até ao 5.° andar. Era a psicanálise a dizer que o corpo também era importante. Certa vez, parti uma perna e fui operado. Andei de canadianas durante vários meses e continuei a ir à análise. Nessa altura, o elevador avariou-se e lá tive de subir os cinco andares com muito cuidado. O pior foi descer, fi-lo muito devagar, pois não convinha nada cair. Pensei que para fazer aquele sacrifício e correr alguns riscos, era porque gostava mesmo de fazer análise. Na verdade, gostei mais dos últimos anos da análise, porque de início foi uma experiência algo dolorosa.
Recordo-me de, a meio da análise, levar antes de uma sessão a minha filha de três meses para a apresentar à minha analista. Ou de um dia lhe pedir para ela ver um filme que me tocava muito, o que foi prontamente aceite. Noutra ocasião, falei-lhe de um familiar meu que estava com problemas de toxicodependência e a minha analista pediu a um colega, o Dr. Jorge Câmara, para falar comigo de possíveis tratamentos. A análise tinha regras rígidas, mas aqueles momentos foram bastante humanizantes.
Entretanto, apresentei à SPP o meu pedido para realizar uma análise com um psicanalista didata, de forma que pudesse concorrer à formação em Psicanálise. Fiz cinco entrevistas. Recordo-me de que o professor Carlos Amaral Dias marcou a entrevista para uma segunda-feira à meia-noite. Era um horário invulgar, mas acho que senti um lado excêntrico nessa marcação. Podia também ser um teste à minha capacidade de ser flexível. Nessa noite, cheguei uns quinze minutos antes e aguardei na rua pela hora marcada. O consultório do professor Carlos Amaral Dias situava-se numa zona de Lisboa onde existia
alguma prostituição masculina. Lembro-me de alguns carros abrandarem perto de mim, o que me deixou um pouco incomodado. Decidi caminhar para cima e para baixo para evitar confusões. A entrevista, que era o mais importante, correu muito bem, gostámos muito de conversar um com o outro.
Outra história engraçada passou-se com a Dra. Maria José Vidigal, uma mulher muito afetuosa e cheia de vigor, com quem fiz supervisão do meu primeiro paciente da SPP. Reservávamos alguns minutos para falar de outros assuntos e muitas vezes ela contava histórias das suas viagens a países improváveis, como o Irão. Nessa altura, fui ao Cazaquistão dar umas aulas de Psicanálise. A Dra. Maria José Vidigal ficou muito empolgada com a minha viagem e pediu-me para eu lhe trazer um pedaço de terra do Cazaquistão. Acrescentou que colecionava terra de vários países do mundo. Disse-lhe para contar comigo. E assim foi. Numa viagem a umas montanhas do Cazaquistão, recolhi alguma terra para a Dra. Maria José Vidigal. No entanto, quando estava a preparar a mala para regressar a Lisboa, fui assaltado por algumas dúvidas. “Quando mostrar o meu passaporte, talvez esteja um pouco ansioso e os polícias vão notar… vão certamente abrir as minhas malas, encontrar a terra e perguntar-me o que é aquilo.” É preciso dizer que a polícia no Cazaquistão era muito intimidatória, e dizia-se que podiam facilmente levar um turista para uma esquadra e exigir uma quantia exuberante de dinheiro. Imaginei que podia ficar detido no Cazaquistão e decidi não trazer a terra. Iria desiludir a Dra. Maria José Vidigal? Ou ela iria compreender-me? Ainda pensei em levar terra de Lisboa, passando por terra do Cazaquistão, mas desisti logo dessa ideia: a verdade acima de tudo. Quando me desculpei à Dra. Maria José Vidigal, explicando os motivos de não lhe ter trazido a terra, disse-me; “Ó filho, fizeste muito bem, um dia uma irmã minha tentou trazer terra de Angola e teve problemas com a polícia, desconfiaram de que era droga, foi um stresse.” Senti-me algo perplexo com esta afirmação, mas não deixei de ter alguma pena de não lhe ter trazido a terra do Cazaquistão, que iria enriquecer a sua coleção.
O lado cómico, grotesco e singular destas e de outras histórias enriqueceram a minha experiência com a Sociedade Portuguesa de Psicanálise.