O campo analítico é um paradigma central da psicanálise contemporânea, mantendo continuidade com os modelos clássico, kleiniano e relacional, mas introduzindo uma inovação técnica qualitativa: o foco na noção bioniana de transformação. A metáfora bússola do inconsciente, proposta pelo autor, posiciona a transferência, a identificação projetiva, o enactment e o campo analítico como pontos cardeais de orientação na decifração do inconsciente. O autor propõe a escuta gestáltica do “nós” com a expressão do funcionamento do campo que se gera na dupla analítica e onde o inconsciente é cocriado. O analista amplia funções psíquicas e vínculos, favorecendo a autenticidade emocional no par analítico, aceitando a participação do próprio inconsciente. O autor sugere alguns exercícios como forma de promover a espontaneidade no analista e consolidar a técnica de escuta do diálogo analítico. Segundo o autor, com a teoria do campo analítico, a escuta analítica deixa de ser um “pingue-pongue” entre os inconscientes do analista e paciente, amarrada a uma hermenêutica da desconfiança, para se tornar num “coro grego” onde analista e analisando sonham a sua existência, reforçando a escuta radical do “nós” no aqui e agora de cada sessão.
Este artigo, traduzido por Bruno Raposo Ferreira e Conceição Melo de Almeida, foi cedido pelo autor à RPP. É uma adaptação do texto original escrito para o prefácio do livro E tu cosa diresti al paziente? Eserciziario di psicoterapia psicoanalitica, de Fabio Rivara e Giorgio Nespoli, editado em 2023 pela Armando Editore.
Analista e Supervisor Didata na Sociedade Psicanalítica Italiana (SPI), membro da Associação Psicanalítica Americana (APsaA) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
O campo analítico afirma-se, hoje em dia, como um dos principais modelos da psicanálise contemporânea, adquirindo um crescente sucesso. Posiciona-se em linha de descontinuidade, mas também de continuidade, com os outros paradigmas principais: o modelo clássico, o kleiniano e, num sentido mais amplo, o relacional. Importa, no entanto, sublinhar que estes três paradigmas continuam profundamente ancorados no conceito freudiano de deformação.
Se tivéssemos uma espécie de bússola para nos orientar na prática clínica quotidiana, e colocássemos a transferência a Norte, a identificação projectiva (e, por conseguinte, a contratransferência) a Este, o enactment a Sul e o campo a Oeste, ao rodarmos no sentido dos ponteiros do relógio encontraríamos os principais instrumentos conceptuais de que se servem os analistas para intuir o significado inconsciente da comunicação na situação analítica.
O propósito subjacente a esta pequena invenção é também o de contrariar o estereótipo da alegada “Babel” da psicanálise. A meu ver, a sensação de confusão emerge sobretudo em quem não realizou o trabalho de casa necessário, ou para quem confunde a natureza da psicanálise, que não é a de ser uma ciência como a física — felizmente, pois
seria incapaz de dizer algo sobre a essência do que nos torna humanos —, mas, antes, uma disciplina hermenêutica, e como tal sujeita a regras não menos rigorosas, embora distintamente declinadas das que regem as, por assim dizer, ciências exatas. Não é admissível afirmar arbitrariamente o que quer que passe pela cabeça, por exemplo, ao discorrer sobre Merleau-Ponty. Tal como na filosofia, o contínuo diálogo com figuras como Platão ou Spinoza deve ser entendido não como um sinal de confusão linguística, mas como expressão de uma riqueza interpretativa inestimável. Certamente a confusão instala-se em quem, talvez sem o reconhecer, vive a psicanálise como uma religião e, por isso, sente a necessidade de se apoiar em dogmas.
Os instrumentos conceptuais que compõem a nossa bússola imaginária têm em comum o facto de procurarem teorizar graus crescentes de envolvimento inconsciente do analista no processo terapêutico. No entanto, entre os três paradigmas iniciais e o quarto observa-se uma espécie de salto qualitativo. Os três primeiros continuam a orbitar em torno do conceito de deformação: transferência (como me vês), identificação projetiva (como me fazes sentir) e enactment (o que me levas a fazer). Todas estas abordagens são teoricamente legítimas, mas mantêm-se dentro do quadro da divisão eu/tu. Por sua vez, o quarto paradigma gira em torno do conceito bioniano de transformação.
Que o analista tem uma conceção da ação terapêutica centrada no desenvolvimento da relação com o paciente. O que importa é mais o tornar-se e o ser do que o ter. Pode expressar-se isto de várias formas: construção de novos vínculos, expansão de funções, desenvolvimento do continente psíquico, crescimento da capacidade da dupla analítica (e, portanto, de cada um dos seus membros) para atribuir significados, tão impregnantes quanto possível, às experiências emocionais partilhadas, ou seja, aquelas que estão sob o olhar de ambos. Desta forma, cada um reforça o seu próprio eu. O que conduz a um sentimento de maior autenticidade na existência.
Por outro lado, a construção de ligações causais entre os eventos traumáticos do passado e os aspetos do comportamento do paciente na sessão analítica passam para segundo plano. A perspetiva de Bion e dos autores da teoria do campo analítico é que, apesar de ser
perfeitamente legítimo prestar atenção a esses aspetos, tal foco pode representar, por assim dizer, um obstáculo à utilização da bússola do inconsciente no aqui e agora.
Então, percebe-se que, embora toda a psicanálise sempre tenha desafiado o realismo ingénuo com que nos movemos no quotidiano e de, desde o início, ter sido considerada um escândalo por postular processos mentais inconscientes, muitas das formulações freudianas foram assimiladas pela cultura popular e deixaram de ser contraintuitivas.
Pelo contrário, até mesmo psicoterapeutas experientes consideram alguns postulados da teoria do campo analítico contraintuitivos e difíceis de apreender. Por exemplo, a ideia de que o inconsciente está sempre a comunicar e que já não é possível sustentar uma distinção entre relação real e relação infiltrada pelo fantasma. Assim, qualquer coisa dita na conversa analítica pode ser escutada virtualmente do ponto de vista do seu significado inconsciente, inclusive relatos sobre eventos traumáticos. Ainda mais contraintuitiva é a ideia de, neste processo contínuo de construção de sentido e significado, no plano inconsciente, ser difícil discernir qual é a participação do analista e distingui-la da do analisando, ou vice-versa.
É também desafiante para muitos compreender que o conceito de campo é, em si mesmo, um conceito gestáltico, holístico ou sistémico, e que a justificação para o operacionalizar reside precisamente em dar conta do sistema de relações que se estabelece entre elementos de diferentes ordens, independentemente do significado que cada elemento tem por si mesmo, considerado isoladamente. O analista interessa-se, então, por intuir as propriedades emergentes deste “todo”.
Na prática clínica, isto traduz-se no princípio técnico de escutar virtualmente qualquer coisa dita não apenas como uma comunicação que tem um valor inconsciente e é dirigida de um para o outro, mas também como uma comunicação inconsciente cocriada ou coproduzida. É como se, a todo o momento, a dupla analítica aderisse, num movimento perpetuamente centrípeto, a autointerpretar-se continuamente e, por assim dizer, a sonhar a sua existência. O objetivo desta autointerpretação é alcançar níveis cada vez maiores de intimidade, segurança, confiança no outro e, consequentemente, em si mesmo.
No entanto, mesmo quando estes princípios, que são extremamente coerentes e lógicos e representam desenvolvimentos, por assim dizer, necessários da teoria psicanalítica, são compreendidos, permanecem problemáticos de aplicar na prática clínica. É particularmente desafiante para os analistas aceitarem para si mesmos aquilo que tranquilamente aceitam para o paciente, nomeadamente que se podem experimentar emoções inconscientes.
Assim, a pergunta fatídica que frequentemente surge é: «Está bem, admitindo que as coisas são assim, ou melhor, que podem ser vistas também desta perspetiva, o que diria ao paciente nesta situação clínica específica de que estamos a falar?»
Esta dificuldade em ensinar e aprender a teoria do campo analítico gera a necessidade de criar uma série de exercícios que possam ajudar a familiarizar-se com os seus princípios. Daí nasce também o meu apreço por aqueles esforços3 que procuram precisamente trilhar este caminho, ou seja, construir uma caixa de ferramentas para realizar o trabalho necessário. Eu próprio notei, ao longo do tempo, que tentei, mesmo à custa de alguma simplificação, elaborar instrumentos por vezes muito simples para conseguir transmitir o sentido de uma clínica que é extremamente vital e criativa, mas que exige indubitavelmente uma certa agilidade mental e uma capacidade de se colocar em questão.
O maior obstáculo que encontro é a transição do paradigma eu/tu para o do «nós» (Civitarese, 2023, 2024). Há algum tempo que procuro superar a dificuldade que por vezes encontro em trabalhar em termos de campo analítico, e também em ensiná-lo, derivada do facto de que em muitas representações clínicas acaba inevitavelmente por se transmitir a ideia de um tipo de escuta relacional, se por relacional entendermos uma moldura teórica em que as figuras do analista e do paciente ainda são vistas como distintas. Estamos, ainda, na perspetiva de quem faz o quê a quem. Ou seja, o analista e o paciente são ainda vistos como estando empenhados, de alguma forma consciente ou inconsciente, em influenciarem-se mutuamente.
O autor refere-se nesta passagem a Fabio Rivara e Giorgio Nespoli e ao esforço empreendido no livro E tu cosa diresti al paziente? Eserciziario di psicoterapia psicoanalitica, mencionado anteriormente. [N. T.]
Agora, se é verdade que a teoria do campo analítico não é senão a natural consequência lógica dos desenvolvimentos da psicanálise, e em particular da perspetiva que vê cada vez mais o analista como profundamente envolvido no processo analítico, também é verdade que estamos ainda confinados ao círculo do eu/tu e, portanto, a uma escuta analítica da suspeita. O inconsciente é, essencialmente, ainda o inconsciente freudiano, como lugar do mal e da imoralidade, ou aquele kleiniano, regido pela inveja.
Por estes motivos, considero que com a teoria do campo temos a possibilidade de uma refundação ética da psicanálise, ou seja, de abandonar, finalmente, qualquer tipo de escuta suspeitosa e mais propensa a conotar-se ideologicamente. No entanto, isso só ocorre se ultrapassarmos a caesura eu/tu e escutarmos segundo a perspetiva radical do “nós”.
Grande parte da terapia realiza-se através da interpretação silenciosa do analista — ou seja, permanece maioritariamente não explícita. Enquanto escuta, o analista deposita confiança, tanto no paciente como em si próprio, na capacidade comum de representar a experiência emocional (o inconsciente como função psicanalítica da personalidade e como infinito…). Isto é, por si só, terapêutico. Além disso, o analista encontra-se mais envolvido, mais vitalmente presente, e deixa-se guiar pela bússola — a bússola do inconsciente — não para oferecer interpretações no sentido clássico, mas para manter uma conversa com o paciente que tenha significado para ambos.
É por isso que sustento que a teoria do campo, embora sendo apenas um dos pontos cardeais dessa bússola, representa uma espécie de salto quântico. Ou, dito de outro modo, ao contrário dos três modelos anteriores, o paradigma do campo analítico “atravessa o rubicão” da separação entre sujeito/objeto e mente/corpo. Falar de um “nós” implica escutar verdadeiramente em termos de campo, e não repetir o jogo habitual de troca de “personagens” da sessão, como se se tratasse de um pingue-pongue entre analista e paciente (“eu disse isto… então ocorreu-lhe à mente King Kong” — não: “King Kong ocorreu… a ambos!”).
Um dos exercícios que tenho proposto com mais utilidade consiste precisamente em fazer substituir “paciente” e “analista” (ou aos respetivos pronomes) pelo pronome “nós”. O efeito é surpreendente.
A meu ver, a perspetiva do “nós” constitui uma tentativa de transmitir uma ideia rigorosa do campo analítico, e de permitir intuir o significado e funcionamento holístico do campo.
Repetindo: não importa quem fala — se o paciente ou o analista, seja uma associação livre, uma recordação ou uma rêverie do analista, explicitada ou não —, trata-se sempre, metaforicamente, da voz do coro grego (Civitarese, 2023), isto é, da dupla analítica ou do pequeno grupo a dois. Não importa quem desempenha o papel de corifeu4; trata-se sempre de conteúdos manifestos que podem ser vistos como sendo escritos por um único autor: a dupla analítica.
Se pensamos em termos de “nós”, inevitavelmente o analista irá assumir a sua quota-parte de responsabilidade pela qualidade emocional do vínculo — ou seja, pelo pressuposto básico do par analítico, inferido a partir dos relatos da análise (palavras, ações, sensações, etc.). Importa menos o conteúdo literal do relato ou da narração em si mesma, que pode ser variado e envolver infinitas personagens; é mais importante a emoção subjacente à narrativa, que tende a ser binária, portanto bastante simples. Nos termos de Bion, para expressar a qualidade do vínculo num dado momento, ou estamos em Ódio (H) ou em Amor (L). A diferença entre estes dois modos de relação é evidente: um favorece o crescimento psíquico, o outro pode destruí-lo, a não ser quando, como por vezes é necessário, represente um breve recuo antes de se avançar novamente (Civitarese, 2020, 2021).
Agora, gostaria de referir alguns destes exercícios que considerei serem mais úteis, por exemplo: (a) dar um título à sessão; (b) resumir toda uma sessão em duas linhas, no máximo; (c) substituir os pronomes “eu”, “tu”, “paciente”, “analista” por “nós”; (d) no protocolo da sessão levado à supervisão, comentar entre parêntesis e em itálico o que está a acontecer, parágrafo a parágrafo, segundo a ótica da teoria do campo; (e) listar as personagens evocadas e dividi-las em primários e secundários; (f) categorizá-las com o acrónimo SCREMA: sonho, coro grego, rêverie, emoção, metáfora, alucinação; (g) procurar identificar quem está a falar, sem a existência de pistas que sinalizam de
No contexto do teatro grego clássico, o corifeu era o líder do coro, responsável por enunciar partes do texto e, em alguns casos, dialogar com os atores. O termo é usado como figura de estilo para designar uma pessoa de grande influência ou de destaque num grupo, comunidade, partido, etc. [N. T.]
quem é a fala no discurso direto (por exemplo, sem P para paciente ou A para analista); (h) percorrer a bússola do inconsciente no sentido dos ponteiros do relógio, refletindo no que ouviria e diria um analista de cada escola: clássica, kleiniana, relacional ou do campo.
Este último exercício é particularmente valioso, pois habitua-nos a ter mais presente a existência de múltiplos paradigmas na psicanálise — essencialmente quatro — que se desenvolveram em continuidade, uns a partir dos outros, a reconhecer que existem elementos comuns e distintivos entre eles, que todos são legítimos e que é igualmente legítimo debater qual oferece melhor informação com base na conceção que temos da ação terapêutica.
Familiarizar-se com diferentes “línguas” analíticas só pode fomentar o diálogo, prevenir fechamentos ideológicos e sectários. Sobretudo, torna-nos analistas mais conscientes, mais capazes de explicar como e por que motivo se intervém de determinada forma.
Passemos agora a analisar em maior detalhe o significado de alguns dos outros exercícios. O primeiro (a) serve para identificar o afeto predominante ou o clima emocional da sessão (“como está o tempo climatérico?”). O segundo (b) obriga-nos a ponderar e apreender se ocorreram transformações significativas. O terceiro e o quarto (c, d) promovem uma escuta verdadeiramente em termos de campo. O quinto (e) ajuda a sonhar, a entrar na dimensão da metáfora e do brincar. O sexto (f) fornece uma bússola sobre como falar com o paciente e já não sobre como escutar. O sétimo (g) chama a atenção para o estilo de expressão — se simples e humano ou técnico e jargónico; idealmente, não se deveria conseguir identificar facilmente quem fala, se o analista ou o analisando. O oitavo (h) obriga-nos a ter consciência do facto de que se alguém está identificado com a clínica psicanalítica, então do que não pode mesmo prescindir é da recetividade ao discurso do inconsciente — assumindo-se por base, naturalmente, as outras duas invariantes do trabalho analítico, a análise pessoal e o quadro analítico.
Ora, importa ressalvar que todas estas coisas que elenco são também tudo aquilo que absolutamente não se deve fazer durante a sessão com o paciente. A razão é simples: seriam incompatíveis com o outro princípio fundamental enunciado por Bion e apropriado pela teoria do campo analítico — o da capacidade negativa (Civitarese, 2019). Os exercícios, tal como acontece com um músico que repete
incessantemente uma passagem difícil, visam apropriar-se da técnica e interiorizar o método, mas o seu objetivo final é permitir a maior espontaneidade possível. Não há, no entanto, outra via de aprendizagem senão passar por muitos exercícios. Forçar-se a este tipo de tradução/decifração é algo completamente distinto do que se faz e seria esperado em sessão, onde o que deve prevalecer é a capacidade do analista de se deixar surpreender pelas mesmas perspetivas teóricas que treinou — como se as tivesse de redescobrir ou, melhor ainda, ser redescoberto por elas durante a sessão.
Ultimamente, quando me dizem que é tudo demasiado difícil, sugiro que se dediquem primeiro ao estudo do piano, do violoncelo, mas também ao da flauta, vai dar ao mesmo. Depois de aprenderem a tocar um desses instrumentos, podem regressar. Nessa altura, voltaremos a falar de psicanálise, da teoria do campo, de quanto é difícil e de como fazer para aprender a trabalhar com esta abordagem.
ABSTRACT: The analytic field is a central paradigm in contemporary psychoanalysis, maintaining continuity with the classical, Kleinian, and relational models, while introducing a qualitative technical innovation: the focus on Bion's notion of transformation. The metaphor of the “unconscious compass,” proposed by the author, places transference, projective identification, enactment, and the analytic field as cardinal points for orienting the deciphering of the unconscious. The author advocates for a gestalt listening of the “we” as an expression of the field created within the analytic couple, where the unconscious is co-created. The analyst expands psychic functions and bonds, fostering emotional authenticity in the pair while accepting their own unconscious participation. Several exercises are suggested to promote spontaneity in the analyst and consolidate the technique of analytic listening. According to the author, with analytic field theory, analytic listening ceases to be a “ping-pong” between the unconscious of analyst and patient, bound to a hermeneutics of suspicion, and becomes a Greek chorus in which analyst and analysand dream their existence, reinforcing the radical listening of the “we” in the here and now of each session.
KEYWORDS: analytic field, transformation, analytic listening, “we”, psychoanalytic technique.