É sempre bom discutir os textos do colega e parceiro merleau-pontyano Giuseppe Civitarese. Temos algumas divergências na forma de interpretar o campo gestáltico e a ontologia de Merleau-Ponty, que mencionarei abaixo. Neste ponto inicial, quero me concentrar nas dimensões propositivas e, de certa forma, retóricas de seu texto. O fato de ser o prefácio para um livro de dois colegas talvez ajude a entender a tonalidade mais próxima de um programa de ensino e de formação de psicanalistas. Mas justamente essa tonalidade, que em alguns momentos ressoa um manifesto do paradigma do campo analítico, pode gerar no leitor alguns incômodos. O ponto a ser destacado aqui me parece ser o de dar grande ênfase a ideias e estratégias clínicas que já têm um certo caminho trilhado na história da Psicanálise e que, portanto, não são tão inovadoras e causadoras de impacto como o autor dá a entender.
Há diversas maneiras de descrever as transformações históricas na técnica analítica. Civitarese opta por pensar a partir de paradigmas da ação terapêutica (clássico, kleiniano, relacional e campo analítico) que se sucedem e “se desenvolveram em continuidade, uns a partir dos outros”. Não há referência a outros modelos (as clínicas ferencziana e winnicottiana, por exemplo), mas posso aceitar que para seus argumentos esses quatro por ele mencionados façam mais sentido. O que pode gerar mais estranhamento, no entanto, é o uso de recursos retóricos para argumentar que o “paradigma do campo analítico” produz hoje impactos e resistências (“é contraintuitivo”) equivalentes aos que as ideias de Freud causaram no início do século XX. Será mesmo?
Psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica, Professor e Investigador aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. E-mail: ncoelho@usp.br
Como se sabe, o casal francês Willy e Madeleine Baranger, radicados primeiro na Argentina, onde fizeram sua formação psicanalítica, e depois no Uruguai, onde fundaram a sociedade de psicanálise local, construiu no início da década de 1960 uma concepção da situação analítica que, em grande parte, preparou muitos dos desenvolvimentos da Psicanálise contemporânea. Os Barangers conceberam a situação analítica como sendo de fato uma “situação em que duas pessoas extremamente conectadas e complementares estão envolvidas no mesmo processo dinâmico” (Baranger & Baranger, 1969/1993, p. 129). O conceito de campo dinâmico que eles adotaram a partir da psicologia da Gestalt e da filosofia de Merleau-Ponty pode “ser aplicado à situação criada pelo analisando e pelo analista — pelo menos no plano descritivo — sem que isso implique a tentativa de traduzir a terminologia analítica em outra terminologia” (p. 129). Para eles, a situação analítica pode ser descrita como tendo uma estrutura espacial e temporal, estando orientada por linhas de força e dinâmicas determinadas, tendo suas leis e finalidades próprias. Entende-se, assim, que “este campo é o nosso objeto de observação imediata e específica. Como a observação do analista consiste em observar simultaneamente o analisando e a auto-observação correlacionada, só podemos defini-lo como a observação desse campo ”(p. 130).
É evidente nesta descrição a presença de três elementos (Coelho Junior, 2016): a observação do analista da psique do analisando, de sua própria psique e a observação do campo. Nesta linha, Baranger e Baranger sugerem que a relação terapêutica construída na situação analítica é uma relação de duas pessoas. Mas é também, ou é basicamente, uma “relação tri ou mesmo multipessoal” (1969/1993, p. 132), que vê que várias clivagens psíquicas estão em constante movimento, o que cria um campo que é necessariamente mais complexo do que um campo estritamente de duas pessoas. Portanto, por si só, a introdução da noção de campo no panorama da teoria psicanalítica é uma indicação de que a situação analítica precisa de que três ou mais elementos sejam trabalhados e compreendidos; isto é, o analisando, o analista e o campo de forças e os sentimentos criados pelo par. O campo é tanto o resultado das relações possíveis entre analista e analisando, como é a condição de possibilidade da situação analítica em si. Os autores especificam que “toda ou cada ocorrência no campo é, ao mesmo tempo,
outra coisa” (Baranger & Baranger, 1969/1993, p. 133). Deste modo, eles denominaram a capacidade do campo de ser, ao mesmo tempo, uma situação experimentada como real pelo paciente (por exemplo, “que o analista o persegue”) e uma situação não contaminada por esses elementos (o paciente permanece na análise ao invés de fugir ou chamar a polícia) como “uma ambiguidade essencial da situação analítica”. Para eles, os analisandos “experimentam não só o analista e os detalhes da relação transferencial como ambíguos, mas também todos os aspectos do campo analítico” (p. 134). Com isso, quero destacar que a sua noção de campo analítico tem o inegável mérito de avançar em uma concepção que combina as dimensões de indiferenciação e diferenciação entre os membros do par. Neste ponto, acompanho o casal Baranger e divirjo das ideias de Civitarese apresentadas no texto. Seguindo a noção de uma dialética sem síntese proposta por Merleau-Ponty (1964), quero insistir na simultaneidade das dimensões indiferenciadas e diferenciadas do par analítico. Simultaneidade do dois (o “eu/tu” proposto por Civiatarese) e do um (o “nós”). Penso que ao tratar o “nós” (“a perspetiva radical do ‘nós’”) como uma superação necessária da dualidade “eu/tu” na situação analítica, Civitarese perde de vista a ambiguidade fundadora do campo, que é ser ao mesmo tempo um e dois.
Além disso, o casal Baranger indica que “todo analista participa da ambiguidade corporal e responde com seu próprio corpo à comunicação inconsciente do analisando” (1969/1993, p. 136). Os autores desenvolvem uma investigação meticulosa da situação analítica, em que a ênfase especial é colocada no corpo do analista: “também se pode perceber que as fantasias dos movimentos corporais que aparecem no analista durante a sessão sempre correspondem às experiências vividas pelo analisando” (1969/1993, pp. 136-137). Sabemos o quanto Civitarese soube valorizar essa ideia por meio do desenvolvimento da “comunicação inconsciente cocriada” e, ainda mais, por meio de sua noção de rêverie corporal, mas com isso iríamos abrir outro grande tema que não teremos como desenvolver aqui. De toda forma, não só na América Latina os textos do casal Baranger foram lidos e discutidos, como bem demonstra o livro do psicanalista norte-americano Robert Langs (1976). E continuam sendo muito bem aceitos (Coelho Junior, 2019).
Talvez um outro ponto do texto de Civitarese que mereça discussão é seu diagrama da “bússola do significado inconsciente da comunicação na situação analítica”, por meio do qual ele anuncia que a Psicanálise é “uma disciplina hermenêutica” e critica uma visão dogmática da Psicanálise como se fosse uma religião. Não fica claro a quem ele dirige a crítica, mas seu argumento vai na direção de que é possível contrariar “o estereótipo da alegada ‘Babel’ da psicanálise”. A bússola indica, para o autor, a possibilidade de uma evolução de ações terapêuticas apoiadas na divisão eu/tu para uma ação terapêutica voltada para o nós, o que nos termos dele significa a aproximação a “um sentimento de maior autenticidade na existência”. Mais uma vez aqui, penso que a concepção de uma simultaneidade entre elementos poderia ser mais interessante do que a de uma evolução.
Já o diálogo entre as suas ideias e as do psicanalista norte-americano Thomas Ogden não chegam a ser explicitadas. Mas ao valorizar as dimensões vitais e criativas na clínica e ao insistir que no “plano inconsciente [é] difícil discernir qual é a participação do analista e distingui-la da do analisando, ou vice-versa”, aparece com forte ressonância aos textos de Ogden do final dos anos 1990.
Por fim, gostaria de indicar alguns pontos relacionados com os “exercícios” com os quais o autor encerra seu texto. O desejo didático de transmissão da experiência e das ideias psicanalíticas pede sistematização e, em alguns casos, uma simplificação expositiva, por motivos de espaço e tempo. Talvez o cuidado a se tomar nestas situações, por mais bem intencionado que se esteja, é não transformar a simplificação em um modelo. Devemos admitir que existem diferentes formas de transmissão da experiência psicanalítica e que todas elas serão insuficientes. E é o que elas devem ser. Como diz meu amigo Luís Cláudio Figueiredo, “devem deixar a desejar”, com toda a polissemia que esta frase carrega. Por isso, indico meu último incômodo; já que embora Civitarese defenda no final de seu texto a necessária espontaneidade no trabalho do analista, causa espanto a sua insistência nas várias “etapas” metodológicas/disciplinares (os exercícios) que ele exige que um analista deve percorrer até atingi-la. Tomara que todos os analistas consigam atingi-la.