Duas tribos de beduínos se cruzam em um oásis e a questão que se coloca é: “De onde vens, para onde vais, quem és?” Esta interrogação não concerne obviamente nenhum percurso espacial, e sim um itinerário pessoal, interior, que permite a cada um situar seu percurso individual em função do que lhe é transmitido.
“Eu me desloco”, enuncia um participante aos seus pares de grupo, cujo fio de ligação mais evidente é a experiência da estrangeiridade e do trânsito migratório.
O grupo (setting), denominado Grupo Acolhida2, se configura como um espaço-tempo cuidadosamente disponibilizado para o encontro. É no lugar onde a potencialidade de pertencimento se afigura mais presente que a enunciação da incontornável e inquietante mobilidade constitutiva da experiência humana (não só humana) pode ser afirmada.
Psicóloga Clínica e da Saúde (OPP). Membro Especialista em Psicoterapia Psicodinâmica da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. Psicodramatista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. Membro Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: bibaspsi@gmail.com.
O Grupo Acolhida: grupo de apoio e de ajuda mútua, aberto e de livre participação, constituído por encontros que acolhem trocas de experiências da vivência migratória, organizado e dinamizado pela Casa do Brasil de Lisboa desde 2012.
“[…] amarradão na Torre dá para ir pro mundo inteiro
E onde quer que eu vá no mundo
Vejo a minha torre“3
É o geno, o sentido de origem-autoctonia, que nos materializa para a liberdade da errância, entendida como experiência subjetiva, atravessada pela transgeracionalidade e também pelo trauma, potenciadora do reencontro do sujeito com a sua história e com o seu lugar.
Uma afirmação como essa — Eu me desloco, reflexão de um sujeito singular, de si para si próprio, através da fala e da escuta coletivas — parece ter um alcance epistemológico profundamente psicanalítico, quando conecta com “o princípio fronteiriço de desconstrução pelo deslocamento” e transita “de uma lógica territorial a uma dinâmica transterritorial” (Ayouch, 2025a, p. 395).
A hipermobilidade, referida como uma marca da nossa contemporaneidade, e que atravessa desde as dimensões do corpo singular ao corpo social, passando pela complexificação das dimensões do tempo e do espaço, traz para a psicanálise movimentações que colocam a centralidade da escuta e da fala psicanalíticas em conexão com territórios até então marginais ou considerados estrangeiros à Psicanálise.
Como nos lembra a psicanalista brasileira Isildinha Baptista (2026), em o Mal-estar da civilização, Freud “aponta para a dimensão trágica do encontro com a alteridade. O sofrimento psíquico advém do nosso corpo, do mundo externo e de nossos relacionamentos”4, sendo esses a nossa maior fonte de sofrimento. A psicanalista continua dizendo que “o outro, na sua dimensão de pessoa, é o inferno corporificado”. No entanto, “a constituição psíquica depende do encontro com o outro, a alteridade, de forma sempre traumática”.
Os viajantes da atualidade, trazendo novas configurações, convocam, em simultâneo, traumas coletivos que os conectam com viajantes de outrora, que, na fronteira dos territórios e das relações,
Gilberto Gil escreveu essa letra em 1976, quando se encontrava internado compulsoriamente em um estabelecimento manicomial da cidade de Florianópolis, por imposição da ditadura militar.
Citação do podcast Letramento racial e formação do psicanalista, disponível em
reconheceram o outro como um obstáculo (“um inimigo do povo”5), mas também como fonte de riquezas e, por isso, passíveis de exploração.
“O Bangladesh não é aqui, mas parece!”6 — quantas fissuras podem ser trazidas a olho nu, por esse slogan político-partidário? Que ressonâncias chegam à escuta clínica?
Nessa senda, em um universo constituído por uma estrutura racializada e racista (racizante)7 e por novas formas de colonialismo, no qual nós, seres viajantes, transitamos, a distinção ontológica e histórica entre termos vulgarmente correntes, como nacionais, imigrantes, ex-pats, refugiados (políticos, de guerra e climáticos), exilados, nómades digitais, ilegais, estrangeiros, turistas, etc., é fundamental e profundamente pujante na clínica. Principalmente, quando essa se faz a partir de uma escuta que inclui as dimensões sociais como fonte contínua de sofrimento psíquico, e, portanto, de afetos e formações psíquicas que movimentam e são movimentados por esse caldeirão sem fundo que ferve8.
A acrescentar à essa miríade de viajantes-estrangeiros, Radmila Zygouris transmuta a nomeação excluídos para “estrangeiros de dentro”, referindo-se aos humanos “sem” emprego, os “sem” domicílio” e também aos jovens-humanos periféricos (p. 119).
Uma geodemografia urbana que a psicanálise, como habitante da pólis, corrompe ao invisibilizar ou excluir do seu (trans) território. Assim, quando pensamos em viajantes, qual viajante nos atravessa?
Ilustrando a nossa perturbadora realidade social, uma sofisticada e fraudulenta publicidade de um aplicativo digital anuncia seu produto com a instigante chamada: “E se você vive no lugar errado? Todo mundo tem um mapa de nascimento que mostra onde as coisas fluem
Referência à peça Um Inimigo do Povo, a nova criação de Marco Martins, a partir de Henrik Ibsen, encenada para o CCB. Projeto de coprodução da rede Prospero New.
Slogan apresentado em cartazes e flyers pelo partido Chega, na Feira de Educação, Formação e Empregabilidade – Futurália, março de 2026.
Thamy Ayouch identifica: “A racização é uma racialização negativa e inferiorizadora. Enquanto a racialização diz respeito a todos/as, a racização atinge só às pessoas não-brancas” (Ayouch, 2025b, p. 19).
“Quem nunca viu vem ver, caldeirão sem fundo ferver.” Refrão de um popular conto cantado de Exu, nas religiões de matriz africana, candomblé e umbanda. Simboliza o poder da transformação, energia inesgotável e a magia para desmanchar demandas, referindo-se a um caldeirão mágico ou espiritual. Talvez o inconsciente.
melhor.” A App, baseada em “factos”, encontraria esse lugar — país, cidade —, onde tudo é “mais leve, mais claro e mais fácil”.
Na antípoda dessa superficialidade mercantil falsa e anestesiante, a emergência de dispositivos clínicos que se deslocam do setting clássico do consultório para um setting comunitário permite o encontro com uma escuta que acolhe as experiências migrantes. Espaço de reconhecimento do largo alcance de significações que essas trajetórias contêm, tanto na dimensão singular — intrapsíquica — quanto nas dimensões social, política e comunitária — interpsíquicas. Revela-se, assim, um movimento transgressor, pois reconhecedor do sofrimento psíquico também como manifestação das disfuncionalidades da ordem social vigente que pulsam por transformação.
Em conversa com a psicoterapeuta nigeriana Abi Canepa-Anson, intitulada “Racism, the psyche and moving on”, o psicanalista inglês Adam Phillips comenta não existirem problemas individuais em essência, mas, sim, problemas grupais.9
Assim, se a contemporaneidade nos instiga com interrogações sobre quais fantasias, vínculos e constituições identitárias transitam pelas experiências de deslocamentos, não se trata tanto de encontrar respostas que expliquem o atual mal-estar da civilização, mas abrir espaço para a sua escuta. Através da escuta, sempre singular, construir as consequências no seu alcance mais profundo e abrangente.
A psicanálise constituiu uma relacionalidade que opera no ENTRE, no campo transferencial entre duas subjetividades em encontro e reconhecimento.
Adam Philips (2026) fala-nos de um encontro entre duas histórias transgeracionais: a da pessoa psicanalista e a da pessoa paciente. Verdadeiramente um encontro entre dois corpos viajantes.
Recentemente, escutei de uma pessoa-paciente, também imigrante, quando olhávamos para as mudanças no setting, diante viagens que atravessam ambas as vidas: “Conforta-me saber que você também tem vínculo com a sua terra e que vive esse vínculo na sua vida.”10
“There aren't really individual problems. There are group problems” (Phillips, 2026).
A utilização dessa pequena situação clínica foi devidamente autorizada pela pessoa envolvida.
Como escreve Donna Haraway, no seu brilhante livro Quando as espécies se encontram : “O encontro com o olhar do outro é a condição de se ter rosto” (p. 128)