Há muitos anos, num dia de inverno chuvoso, no Campo Pequeno, em Lisboa, o sinal vermelho para os carros fez-me olhar para um homem alto, magro, com um turbante na cabeça em que assentava com um genial equilíbrio uma trouxa de pano ampla, cheia de algo que não se via. O homem vestia calções, umas sandálias simples e a sua longa barba e tez morena fizeram-me dizer de mim para mim: “Olha, um hindu!”
As pessoas avançavam ao seu redor sem desviarem o olhar ou pararem para ver tão estranha personagem. Talvez porque já nada tinha de estranho. Há vinte anos, a televisão e as viagens tinham tornado familiar o que anteriormente era longínquo.
Mas ficou-me durante todos estes anos a pergunta de quem seria aquele homem, de aspeto circunspecto, que parecia estar lá longe num outro país e a sofrer as intempéries invernosas num outro. Qual seria a sua história?
As vivências migratórias talvez sejam dos fenómenos que mais fazem confrontar o interno com o externo, questionando de forma particular a Psicanálise. E obrigam à visão tridimensional: quantas histórias podem ser contadas de percursos individuais, das comunidades que recebem pessoas de fora, das comunidades que vivem a saída das suas gentes e da recolocação mundial de comunidades amplas de pessoas? A história em todas as perspetivas dos seus intervenientes inaugura e mantém o vínculo civilizacional.
Psicóloga Clínica. Mestre em Família e Sistemas Sociais. Sócia candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Terapeuta Familiar pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Psicodramatista pela Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. E-mail: anas.mayor@gmail.com
Pensar na migração é olhar a plasticidade humana tanto externa como interna, com os seus aspetos claros, nós desvanecidos e zonas cegas e escuras.
Uma jovem de um outro país cá imigrada deita-se no divã e preenche o espaço com intensa produção sonora, pretendendo criar em mim impacto e ligação. Com objetivos muito definidos de vida, o que perdura é um sentimento de nómada intermitente em que só a sua relação de casal parece dar-lhe ânimo e vitalidade na expectativa de que a concretização dos seus objetivos privados seja a sua casa interna.
Uma outra mulher, mais velha, tinha sofrido uma deslocação involuntária e urgente de um país, deixando para trás todos os seus pertences de infância e adolescência. Hoje, é uma mulher do mundo, viajando e trabalhando pelo mundo fora, resolvendo o seu dilema interno entre renunciar e possuir.
Milan Kundera, no Livro do Riso e do Esquecimento, conta a história de uma mulher que não consegue resistir ao seu luto e melancolicamente entra mar adentro, atormentada por crianças que a atacam. Podemos pensar em várias hipóteses quanto ao pensamento do escritor, mas será que essas crianças sádicas não seriam a expressão do futuro inexistente? Ou do presente infame, porque sobreviver pode ser vivido como traição ao que se deixou e perdeu. Ficamos então no terreno da inexistência psíquica, no Nada, que é a verdadeira face da destruição.
Os emigrantes expressam muitas vezes o receio de perder as pessoas, as recordações, as imagens dos países deixados, num susto idêntico ao do enlutado de ficar com a ausência dentro de si.
A clivagem entre a pulsão de morte e a pulsão de vida é subtil e silenciosa, como nos explica Jean Gillibert (1993) no seu artigo «A cultura da exterminação»: vida e morte estão interligadas e a sua dicotomia é artificial. A conflitualidade, mesmo violenta, pode participar no decurso da vida quando a consciência é permeável ao valor de si mesmo e do outro e à culpabilidade inerente à violência. Pensando nos grandes grupos e comunidades, a destruição constrói-se silenciosamente no pessimismo, na retirada de sentido, na desistência de valores civilizacionais, que nos exclui do espaço mental que enriquece a individualidade.
Muitas populações emigrantes são o futuro da sua comunidade; salvaguardam-se para resistir e sobreviver a um impiedoso mundo externo. Têm como missão manter os costumes e a cultura fora de portas para um dia retornarem e reconstruírem o que está em risco de aniquilação. O dilema brutal individual entre construírem as suas vidas num outro país e cultura e manterem-se leais à sua origem expressa-se de várias formas, na criatividade individual e na subjetividade construída. E, nesse sentido, de acordo Jean Gillibert, a aculturação é a destruição da privacidade e da subjetividade humanas.
Não se podem silenciar as guerras, a morte, a invasão como motivos de grandes movimentos migratórios. Onde se radica na nossa vivência comum essa destruição como elemento formativo da nossa identidade enquanto humanidade? A fuga, a procura de um espaço geográfico e humano onde se possa aspirar à sobrevivência física e psíquica é a própria vitalidade inerente à Vida que contém o presságio da morte.
Os lutos são um processo psíquico que se estabelece numa base segura de sobrevivência física. O luto não se pode processar quando toda a dinâmica psíquica se dirige para a manutenção da sobrevivência física. Se, por um lado, a morte e a vida são indissolúveis, a perda de significado, de ligações, de pertença constrói silenciosamente o espaço do vazio, da ausência, da inexistência.
Entro no metro sem ser na hora de maior afluência e ao redor vejo caras de vários tons, pessoas com turbantes, rostos brancos com lenços no cabelo, e percorre-me uma estranheza. Lembro-me de uma taxista que, no Porto, me disse: “Então, Lisboa já não é nossa, não é?! Agora é dos mouros.” Sacudo a cabeça para me libertar desta lembrança e discurso tão promovido por uma perceção errada e manipulada. Começo a percorrer com o olhar os vários rostos que me cercam; as fronteiras identitárias não são só as geográficas, mas também as que fluem entre o familiar e o diferente. Vamik Volkan refere-se a este fenómeno como «fronteira psicológica» e descreve como a reconstrução da ideia de semelhança humana é a principal razão para as negociações políticas falharem ou serem bem-sucedidas. A psicopatologia da vida quotidiana ensombra a riqueza do Homem no mundo.
No metro, face à jovem de lenço na cabeça, puxo o meu e tapo-me de forma semelhante, tal como a minha avó o fazia na sua religiosidade. Não é só ação, é o decorrer da vida expressa no sorriso que recebo.