O autor introduz a relação contraditória do sentimento de vazio e da depressão pelo ensaio de interpretação filosófica da ideia do Nada revertida à condição humana. Esta dinâmica especulativa induz à utilização da metáfora astrofísica (centrada na hipótese teórica do “buraco negro” e dos seus efeitos sobre a arquitectura do universo pensável, para além da contingência do olhar humano) mediada pelo recurso a duas teorias psicanalíticas originais sobre o pensamento humano: a formulação algébrica sobre o processo de transformação dos elementos psíquicos de base (emoções, sensações, material onírico) em pensamentos, proposta por Bion, e o modelo geométrico evolucionista proposto por Matte-Blanco para expor os diferentes níveis da dialéctica dos processos primários e secundários na construção bi-lógica da actividade de pensar. Decorre desta linha de pensamento a hipótese segundo a qual o sentimento de vazio (e os comportamentos/sintomas que o sustentam) constitui uma “resposta branca”, antidepressiva, à ansiedade existencial em indivíduos com um self particularmente fragilizado. Para além da exemplificação clínica e das implicações terapêuticas desta hipótese psicopatológica (próxima do modelo do “encapsulamento autístico” proposto por David Rosenfeld para compreender o sistema de defesa primitivo dos pacientes do espectro borderline), o autor recorre a dois belos textos de Jorge Luís Borges como alegoria para o percurso crítico entre prólogo (ansiedade/alfa) e epílogo (depressão/ómega) do ensaio que aqui é proposto sobre o significado (psíquico) contraditório do sentimento de vazio e da depressão.
Médico, psicanalista e professor universitário – Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) e Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS-UP).
Recebido para publicação em 29 de Dezembro de 2007. Revisão recebida em 20 de Abril de 2008. Aceite para publicação em 10 de Maio de 2008.
Quis nimis probat nihil probat
Reflectir acerca do vazio, atribuindo-lhe categoria de coisa pensável, e, como tal, traduzível em discurso directo, exige o recurso simultâneo à lógica do paradoxo e à hermenêutica (metafórica) da ausência de substância.
Este duplo exercício filosófico, que se situa nos antípodas do racionalismo cristão, marcante na Idade Clássica do pensamento ocidental, e do materialismo dialéctico, seu contraponto laico do Modernismo, encontra respaldo ideológico no idealismo dialéctico que assegura a transição entre a exegese transcendental de Kant e a fenomenologia existencial, e que abre, por essa via, o caminho às correntes filosóficas personalistas e, na sua esteira científica, à psicologia.
De facto, a ideia “existo”, presente ad initio na interrogação fundamental do Homem acerca do seu lugar no universo, e condensada no “de onde vim, para onde vou e como sou?” que confronta cada sujeito com a cosmogonia infinda do acto de existir, instaura a consciência da finitude e labora a necessidade do vazio, como resposta “niilista” (no sentido da identificação absoluta ao Nada, modo de incorporação fantasmática do Deus morto pela Ciência que já não assegura o sobrenatural, ou seja, a transcendência do Ser sobre a morte) à presciência angustiante de um viver provisório (ad interim).
Esta colocação dogmática do acto de existir, que recusa a crença positivista na superioridade do espírito científico sobre a religião, a metafísica e, de um modo geral, sobre todas as formas de conhecimento apriorístico do universo, do mesmo modo que evita qualquer reflexão crítica sobre a apropriação subjectiva da ideia da divindade, enraíza tacitamente numa dupla inclinação filosófica.
Por um lado, na solução especulativa do sujeito que se pensa para além da sua circunstância, que se idealiza para além dos limites estreitos da (sua) condição humana e dos sentimentos que a sustentam (o bem e o mal, o belo e o feio, a ventura e a desventura) no absoluto da divinização laica do Ser. Este elaborado sistema teórico está inscrito na “vontade de poder” (absoluto, já que colocado para além da ideia da morte) que sustenta o projecto filosófico do “Super-homem” Nietzschiano.
Por outro, na resignação à vontade de viver uma existência finita, assente na identificação absoluta a um Deus em sofrimento, que já não é causa primeira nem finalidade última do mundo imperfeito que criou. Esta ideia filosófica, contida no “Querer-Viver” de Schopenhauer, resigna o Homem à vontade de viver à imagem e semelhança deste Deus, no mundo imperfeito em que subsiste (mal) num sofrimento sensível e “acorrentado” ao seu fim inevitável, a inexistência.
A hipótese deste duplo inscriptio filosófico para a ideia do vazio nas sociedades contemporâneas parece encontrar expressão sublimada na estrofe única de um poema singular de Jorge Luís Borges, intitulado “Sou” (Obras Completas, T. III, p. 91), e cujo verso passo a transcrever:
“Sou o que sabe não ser menos vãoQue o vão observador que frente ao mudoVidro do espelho segue o mais agudoReflexo ou corpo do irmão,Sou, tácitos amigos, o que sabeQue a única vingança ou o perdãoPage 135É o esquecimento. Um deus quis dar entãoAo ódio humano essa curiosa chave.Sou o que, apesar de tão ilustres modosDe errar, não decifrou o labirintoSingular e plural, árduo e distinto,Do tempo, que é de um só e é de todos.Sou o que é ninguém, o que não foi a espadaNa guerra. Um esquecimento, um eco, um nada“.
É aforismo conhecido, e desdita singularmente apontada à humanidade, que a mente humana é capaz das mais empolgantes realizações (movidas pelo prazer de transformar a inclinação pela curiosidade em acto de descoberta) e, em reverso, da mais profunda sanha destrutiva, apta a deitar por terra os feitos mais sublimes (operada, esta última, pela inibição retroactiva da mudança, que decorre do medo anacrónico da perda da acomodação anterior, também designada, nos escritos psicanalíticos, por desamparo originário).
Esta “marca de água” da condição humana, assente na alternância ordinária de humores fleumáticos e sanguíneos, por um lado, melancólicos e atrabiliários, por outro, em diferentes modos de associação e posologias diversas, tem influenciado a resposta aos desafios e acontecimentos mais marcantes de épocas históricas sucessivas.
Sem prejuízo da necessidade de conter o ímpeto alegórico do discurso científico, em função dos distintos critérios de validação formal de conceitos oriundos de disciplinas diferentes, não deixa de ser tentador empreender a dialéctica da psicologia psicodinâmica e da astrofísica na tentativa de enquadramento teórico-clínico do tema desta conferência.
Parece-me, ainda assim, que o recurso à astronomia ou à astrofísica é tanto mais pertinente quanto é certo que muitas das angústias que
afloraram a mente humana na baixa Idade Média (repercutidas por sectores eruditos ligados ao Clero e, sobretudo, às Ordens Religiosas devotadas à hermenêutica) e no dealbar do Iluminismo se alinharam em torno da substituição (em ruptura forçada) do sistema cosmológico de Ptolomeu (assente no postulado Aristotélico da posição central da Terra no universo perceptível) pela teoria astronómica de Copérnico, heliocêntrica e assente num sistema orbital confirmado pelas observações de Kepler e Galileu e verificado matematicamente por Isaac Newton, sob a forma da teoria geral da gravitação universal.
Mas que interesse tem esta deambulação histórica para o tema da relação contraditória entre a impressão depressiva de vazio existencial e o afecto depressão?
É que a perda da ilusão da centralidade humana no destino do cosmos (mediada pela ideia escatológica de um Deus omnipotente e omnisciente que é princípio e fim de tudo o que existe e chave de todos os mistérios do universo e com o qual o Homem detém uma relação única e privilegiada) retira ao sujeito o conforto do dogma e, deste modo, “abre” tanto à ansiedade do desconhecido como ao seu contraponto, a depressão, pela consciência da finitude inglória de uma vida sem relevo.
Será esta a (uma das) chave(s) histórico-religiosa(s) para compreender a importância do pré-sentimento/pressentimento de vazio existencial nas sociedades ocidentais contemporâneas, tendencialmente laicas? Mais importante ainda para o propósito deste texto, qual será o impacte deste pré-sentimento à escala do indivíduo, e, sobretudo, qual a sua tradução clínica na dualidade do vazio psíquico e da depressão que aqui é proposta?
Importa fazer aqui uma primeira incursão clínica, para tentar responder à última questão, e avançar a hipótese de que a impressão de vazio (associada, por vezes, a sentimentos frustres de despersonalização) pode ser considerada uma “resposta branca” à ansiedade existencial, sobretudo em adolescentes e jovens adultos propensos à avaliação autodepreciativa (depressiva) do seu desempenho pessoal.
S. é um jovem adulto, pelos 23 anos de idade, de traços finos, feições correctas e agradáveis, tez morena, uma atitude postural adolescente e um rosto expressivo em que pontua um olhar nervoso de brilho ansioso, que adquire uma nota de angústia, acentuada pela expressão facial agitada e assustadiça, quando fala dos medos angustiantes e incompreensíveis que lhe tolhem o bem-estar desde há longos meses. Consulta-me de “moto” próprio, aconselhado embora pelo pai, um conhecido meu de longa data que parece depositar em mim confiança bastante para tratar este seu filho (apesar de não me ter contactado previamente à primeira consulta de S.). Este conta-me que, desde há 8 meses e na sequência de uma viagem que fez ao continente americano com amigos seus, muito intensa e na qual, segundo diz, “descobri e vivenciei experiências que nunca tinha experimentado antes, até porque sempre fui muito tímido”, começou a ficar preso a uma ansiedade difusa e progressivamente mais acentuada (não consegue estar parado, receia estar nas aulas de grupo, ou em situações que exijam avaliação de desempenho em contexto de grupo, por vezes não consegue ir às aulas, ou a eventos sociais para os quais é convidado), com um “pano de fundo” marcado pela descrença nas suas capacidades de desempenho académico, pelo esvaziamento progressivo da vida social e por preocupações mórbidas quanto ao seu futuro pessoal (ligadas ao medo de não vir a ter sucesso no futuro, de ser incapaz de encontrar um objectivo para a sua vida, e, o que é mais, sente instalar-se em si uma dúvida crescente relativamente à escolha do curso que agora frequenta, com resultados escolares apenas suficientes). Filho mais novo de um casal modelar, e tendo crescido em ambiente familiar aberto e coeso, embora convencional e de hábito católico praticante, sobretudo pelo lado materno, S. é o filho mais novo, precedido de 1 irmão mais velho (que saiu de casa há 1 ano, na sequência do seu casamento recente) e de 1 irmã mais próxima em idade (3 anos de
diferença), mas que protagoniza uma carreira universitária brilhante na área das engenharias (bastante investida pelo pai, refira-se em abono da verdade, também engenheiro e empresário bem sucedido, que acabou de confiar ao seu filho mais velho um lugar chave no conselho de gestão da empresa que dirige). Ora S., que tinha entrado na Faculdade de Engenharia com resultados (apenas) suficientes, decidiu deixar este curso por, segundo refere, não se adaptar ao ambiente social da escola, sobretudo aos colegas “fúteis, desinteressantes e um bocado convencidos”, como diz. Passa “em claro” o juízo dos pais relativamente a este facto (diz que foi normal, que aceitaram bem!) e, de seguida, refere uma rêverie diurna estranha (a fazer lembrar a noção de fantasying que devemos a Winnicott), com um carácter de alucinose frustre, e que impõe uma atenção clínica particular ao sentimento de despersonalização que a sustenta. S., conta, então, com uma expressão angustiada e um tom de voz por igual, que fica preso à fantasia angustiante (que o faz ter as sensações de peso na cabeça e de vertigem momentânea) de que está a olhar o mundo de cima, vê as pessoas em baixo, são vários milhões de seres, todos iguais uns aos outros, igualmente banais e presos a destinos indiferentes, vazios de sentido, e, do seu posto de observação, por cima das cabeças desses seres pequenos e insignificantes, revê-se na angústia enorme, opressiva, de não poder obviar a esse destino, de, apesar do plano de observação superior e abrangente, nada poder fazer… “É horrível, às vezes nem consigo perceber o que sinto, é tudo tão estranho!…”. Quando lhe pergunto se algo lhe é familiar nesses seres que observa do alto, ou se em algum deles entrevê alguma figura familiar, diz-me resolutamente que não, mas um pouco mais adiante fala-me do sentimento de incerteza em relação ao seu futuro e do medo de não conseguir ser bem sucedido na sua vida.
Refira-se que a identificação do carácter projectivo desta rêverie diurna alucinante só se tornará acessível a S. após um trabalho paciente de contenção da angústia (efectuado sobre os conteúdos
verbais e, secundariamente, ideativos, mas também, e sobretudo, sobre a qualidade da interacção, em particular a contenção expressiva pela atitude facial e pelo olhar).
Resta, contudo, o questionamento acerca do significado que pode ser atribuído ao conteúdo desta rêverie diurna que tanto inquieta S., e que este apenas confidencia com a mãe (com quem a proximidade afectiva é maior, apesar da dificuldade em consciencializar a ambivalência, em função do laço de dependência defensivo com este objecto materno protector).
Com efeito, mesmo se é tentador atribuir-lhe o significado de fantasia grandiosa emanante do Eu ideal “incrustado” na parte depressiva do Eu infantil, é importante estar atento ao carácter “distorcido” deste material proto-onírico, tal como ele no-lo é transmitido pelo pré-consciente de S.
O que é sobremaneira interessante neste “sonho branco” (a fazer lembrar, pela sua natureza, os mecanismos mentais identificados por A. Green e J.-L. Donnet (1973) nos pacientes-limite e que designaram por “psicose branca”) é identificar o modo como o lado desvitalizado da mente de S. (reconhecível, no discurso consciente, pela referência à timidez e, até certo ponto, por estar revestido pela capa da ansiedade social, pela alusão à inibição intelectual em situações de avaliação do desempenho no contexto dos pares) parece evitar, a todo o custo, o confronto com a depressão (filho varão mais novo, “substituído” pela irmã na “linha sucessória” disponível pelo lado paterno, e em “falha” de moratória aproveitável).
Neste particular, parece perfilar-se a S., como única saída provisória, a retirada inconsciente para um “nicho” imaginário, vazio de dimensão simbólica, em que o lado esquizo-paranóide da mente primitiva ensaia a transfiguração em entidade omnipotente/impotente que observa, “do alto”, a miséria da natureza humana, situada “em baixo”, sem nada poder fazer (como divindade deprimida que reflecte, de modo especular, a “falha” da sua criação à mente humana que o criou e a observa, “em baixo”).
Ainda antes de reverter ao prometido ensaio crítico sobre a redução metafórica de elementos astrofísicos em processos psíquicos, e vice-versa, impõe-se um comentário sucinto à dualidade da lógica clássica (tridimensional, temporal e organizada segundo o princípio da contradição formal) e da lógica inconsciente (multidimensional, atemporal e organizada segundo o princípio da não contradição) na construção cognitiva (narrativa e interpretativa) do material onírico. (Refiro-me aqui à dualidade interactiva em que um objecto, elemento ou processo é, simultaneamente, condição e consequência do objecto elemento ou processo com o qual interage, e não à relação dual, menos ainda ao dualismo filosófico).
De facto, os desenvolvimentos que autores como W. Bion (1963) e I. Matte-Blanco (1999) trouxeram ao conhecimento dos processos mentais baseados no inconsciente, a partir dos contributos prínceps de S. Freud e M. Klein, são determinantes para compreender o quadro e a dinâmica transformacional da psicanálise.
Em síntese, sempre arriscada (até pela riqueza da elaboração teórica de cada um destes psicanalistas), Bion parte da concepção de um “continente” interno (♀) povoado por conteúdos/objectos (♂) que só após serem transformados de elementos do processo primário (β) em elementos do processo secundário (α), pela acção da função de rêverie e, sobretudo, pela operação transferencial PS □ D ao nível da “barreira de contacto” ICS/CS, podem ser utilizados pelo sujeito, na sua qualidade de “agente racional” (MacIntyre, 2004), para a produção de conhecimento.
Já Matte-Blanco opera uma redefinição matemática, complexa e original, do inconsciente dinâmico freudiano (que prefere como ponto de partida da sua teoria, já que considera que os processos de identificação introjectiva do objecto preservam a unidade fundamental do self), atribuindo aos processos conscientes uma lógica assimétrica (que segue as regras silogísticas da lógica clássica, aristotélica) e aos processos inconscientes uma lógica simétrica (através de fórmulas geométricas de “simetrização” multidimensional, que materializam
os princípios induzidos por Freud para o funcionamento do ICS: atemporalidade, substituição da realidade externa pela realidade psíquica, ausência de contradição e importância dos mecanismos de deslocamento e condensação do material onírico não pensável e pensável, da coisa e da palavra).
Para assegurar a coerência interna de um psiquismo assente em duas lógicas de funcionamento contraditórias, Matte-Blanco propõe, então, uma estrutura bi-lógica organizada hierarquicamente em cinco estratos (recorre, para tal, à operacionalização criativa dos modelos matemáticos de Simassi e Alassi) e considera que, quanto mais profundos e primitivos forem os estratos mentais, maior é a simetrização (até chegar ao isomorfismo dos objectos psíquicos, no limite matemático da indivisibilidade em que os processos de pensamento, assimétricos por definição, se tornam inviáveis).
Interessa, enfim, realçar a importância atribuída por este autor ao infinito matemático (∞) como estrutura bi-lógica, e ao modo como aproxima, por esta via, “a natureza com a matemática” (Matte-Blanco, p. 65) e, em coerência com a ideia do infinito como “fio-condutor” do seu pensamento, a “estrutura psíquica da humanidade com a estrutura da natureza” (Matte-Blanco, p. 65).
Chegados a este ponto, importa, então, proceder ao ensaio metafórico acima enunciado. Como ponto de partida, o conceito de “buraco negro”, desenvolvido a partir de meados da década de 60 do século passado como hipótese teórica balizada conceptualmente pelos princípios da teoria geral da relatividade e da teoria quântica, e cuja validade científica tem sido confirmada por diversas observações astronómicas ulteriores.
Este conceito aplica-se a fenómenos físicos que ocorrem em galáxias distantes (as quais, de acordo com cálculos matemáticos sistematizados,
se situam em regiões do espaço-tempo a milhões de anos-luz do nosso planeta) e que parecem decorrer da rotura, e posterior retracção “fria”, de estrelas com uma enorme massa (várias vezes o diâmetro do Sol, a estrela do nosso sistema orbital) e com reservas de energia térmica por igual, num processo que conduz ao consumo mais rápido (ainda assim, na ordem temporal dos milhões de anos) do calor produzido pelas reacções nucleares no seu interior, com posterior refrigeração do núcleo e contracção por perda de calor.
Nestas condições de perda de energia (cuja intensidade é directamente proporcional à massa e às reservas de energia do corpo estelar em causa), a estrela deixa de poder contrabalançar calor interno e atracção gravitacional e entra num processo de implosão “fria” (oposto à explosão “quente”, expansiva, que, segundo a teoria geral da relatividade, caracterizaria o “Big Bang” singular da origem do universo) com formação de um “buraco negro” na região do espaço-tempo em que este fenómeno ocorre.
O campo gravitacional da região que delimita o “buraco negro” é tão forte que “suga” para o seu interior os raios luminosos (ou qualquer outro objecto material) que forem apanhados, na sua trajectória, por esta atracção gravitacional fria (e irresistível, devido à curvatura do espaço-tempo e à densidade infinita do seu interior), sendo precisamente os raios luminosos que não lhe escaparam que constituem o “horizonte” do “buraco negro” (daí a luminosidade paradoxal que identifica a periferia desta região “morta” à observação astronómica).
Três outras noções parecem, ainda, ser interessantes para suporte (metafórico) à nossa reflexão (psicopatológica) ulterior.
Em primeiro lugar, a referência ao princípio de exclusão da matéria (definido pelas diferenças de velocidade entre as partículas que a constituem, electrões, protões e neutrões) como mecanismo intrínseco de repulsão que mantém o equilíbrio dinâmico com a atracção gravitacional.
Por outro lado, e em ligação a esta dinâmica entrópica singular, pode ser definido um limite para a massa/energia dos corpos estelares, acima do qual este equilíbrio pode ser rompido, com a consequente implosão da estrela e formação de um “buraco negro” (referido como “limite de Chandrasekhar”, a partir do nome do físico teórico que formulou a hipótese anterior).
Enfim, as estrelas que estiverem próximas desse limite, mas que não o ultrapassem, podem permanecer em estado de “anãs brancas” ou de pulsares (“estrelas de neutrões”) que, apesar de serem corpos estelares massivos, estão abaixo do limite de massa crítico, e podem continuar a pulsar no universo (já que possuem campo electromagnético suficiente).
Refiram-se, ainda, os quasares (acrónimo de “objectos quase estelares”) que emitem uma luminosidade diferente e, por se encontrarem em regiões do espaço-tempo muito distantes, ainda não podem ser estudados, embora se avance a hipótese de que possa tratar-se de objectos resultantes da destruição gravitacional da região central de galáxias distantes.
A primeira aplicação psicológica mais conhecida do conceito de “buraco negro” foi proposta por F. Tustin (1992), e serve de ilustração metafórica ao grave desamparo originário que, em sua opinião, marcaria o sentimento central de vazio do ser, vivenciado como o “buraco negro” do “não ser”, contra o qual a criança autista erigiria as técnicas de protecção primitivas que dão lugar ao encapsulamento “autístico” da realidade psíquica (e, correlativamente, da realidade externa).
Parece-me, contudo, que a aplicação deste conjunto de conceitos oriundos da astrofísica ao campo psicopatológico das perturbações do espectro borderline oferece potencialidades heurísticas potencialmente mais ricas.
Numa tentativa de aproximação a este desafio, passo a apresentar um exemplo clínico que, em minha opinião, ilustra a utilização da “resposta branca” contra a “ameaça depressiva” (Braconnier, 1987),
neste caso sob a forma de um agir fútil e repetitivo, que coloca o seu “falso” agente muito próximo da figura astrofísica do “quasar”, i.e., do corpo falsamente luminoso que gira no “horizonte” exterior de um “buraco negro”/parte morta do self, e ao qual toda a entropia parece ter sido inibida, ou retroactivamente destruída.
M. é um jovem de 19 anos de idade (cronológica), hábito postural incerto entre o vago juvenil e o pouco jovial, olhar fechado, que se esconde por detrás de uns óculos de aros finos (que parece utilizar para evitar olhar, ou pelo menos para olhar sem ver/ser visto), rosto de tez clara e traços pouco expressivos, encimado por um cabelo liso, cheio e volumoso, cor de trigo, que manuseia com detença, estirando a guedelha bem cuidada para os lados ou para trás, penteando-a com os dedos, em movimentos entre o compulsivo e o prazeroso, de cariz mais auto-erótico que propriamente masturbatório. Fala pouco, em tom (estudado?, pergunto-me) monocórdico, com poucas inflexões tonais e ainda menor conteúdo verbal comunicativo. Chega, de ordinário, atrasado à consulta, contactando-me, de preferência, por “sms” ou mensagem de voz (sempre cava e monocórdica) para me deixar nota de desculpas vagas e circunstanciais. Veio consultar-me a instâncias dos pais que vivem, portas adentro, em “estado de sítio” desde que este seu infante (o 2.° filho de uma fratria em forma de “casal”, rapaz e rapariga, que, até há 3 anos, pareciam coexistir, como toda a família, aliás, em “paz e sossego”) começou a desinvestir a escola, por volta do 12.° ano, em razão de (aparente) rompimento amical nunca resolvido, menos ainda elaborado. Que M. não fala desse assunto, nem de outros assuntos que, eventualmente, preocupem os seus (?) pais e pareçam dizer-lhe respeito. A situação depressiva (a fazer lembrar, pelas suas características, o “estado moroso” referido por P. Mâle (1974) em condutas adolescentes do mesmo tipo) não tem cessado de se agravar ao longo do tempo, dando lugar, na
actualidade a um afrontamento de cariz sadomasoquista, em que M. opõe aos pais “proactivos” uma atitude negativista “mole” (sob o modo passivo-agressivo do “agir pela recusa do agir”, fórmula clínica paradoxal avançada por Ph. Jeammet (1985) e que descreve com rigor e clareza este tipo de condutas), agravando a desorganização das rotinas familiares, sobretudo desde que foi forçado a deixar oficialmente o 1.° ano do curso universitário que não frequentava (oficiosamente) desde o início do ano lectivo (na sequência de um gesto de regulação paterna, hesitante e difícil). De facto, M. deita-se alta madrugada, depois de passar a noite e a madrugada num corrupio incessante pela casa (audível pelos pais e pela irmã) do quarto para a sala, desta para a cozinha, e assim sucessivamente, fumando cigarro sobre cigarro (os pais e a irmã não fumam e desaprovam o uso de tabaco em casa) e acorda pelo meio da tarde, manipulando, qualquer possibilidade de refeições conjuntas, a não ser o jantar, que conclui sempre com a maior rapidez, a fim de regressar presto ao seu “bunker” privativo. M. parece subsistir num estado de agitação emocional amorfa (à imagem do seu comportamento inconsequente), afectando um desdém (de veracidade suspeita) por todos os objectos vivos que “orbitam” à sua volta (aliás, a mesma sombria enfermidade projecta-se sobre a sua órbita interna). Neste particular, os pais e a irmã, particularmente os primeiros, sentem-se “sugados” pelo comportamento apático de M., um sentimento inquietante que o pai exprime de modo sensível, o tom de voz triste, a certo passo da primeira entrevista, em que acompanharam o filho à consulta, ao dizer que “Não reconheço o meu filho, parece que está morto, não tem vida própria, parece que tudo o que lhe diz respeito deixou de ter sentido…”. E, após um momento de (curto) silêncio, remata, “Não percebo como é que isto pode ter acontecido…”. M., ao lado, nada responde, cabisbaixo, e quando lhe pergunto o que sente em relação ao que o pai acabou de dizer, replica, de pronto, com um encolher de ombros e um meio-sorriso estampado num rosto de expressão vaga, “Nada!”. A mãe agita-se no assento, olha para o filho, roda o corpo na sua direcção (M. está sentado entre
Os conteúdos desta extensa vinheta clínica possibilitam, em minha opinião, algumas linhas de investigação clínica particularmente interessantes e teoricamente coerentes com o enfoque que privilegiei neste artigo.
Em primeiro lugar, e na linha especulativa da (arriscada) analogia científica com a astrofísica, é tentador evocar o “buraco negro” de um narcisismo “destruído” na adolescência (uma época que, tal como nos lembra F. Dolto (1988) através de outra metáfora, neste caso zoológica, particularmente feliz, o “complexo do caranguejo”, toda a ferida produzida na endoderme vai ser recoberta pela epiderme, mas deixa uma marca traumática indelével na região subcutânea, zona anatómica à qual podemos atribuir a qualidade metafórica de “pele psíquica”) por uma grave lesão/decepção amical, fragilizante de um amor-próprio in statu nascendi em que, a acreditar na evocação parental da história pregressa de M., a massa e as reservas energéticas, por serem grandes, foram sendo consumidas muito rapidamente.
Depois, e ainda na mesma linha de raciocínio metafórico, é curioso verificar o modo como os circunstantes familiares que orbitam em torno desta “região fria” e de forte atracção gravitacional negativa no universo familiar se sentem “sugados” por esta região mortífera, subsistindo, mal, na sua periferia (o “horizonte” luminoso que rodeia o “buraco
negro” do lado narcisicamente destruído de M.) como “quasares”, com forte limitação entrópica dos movimentos relacionais (tal como podemos especular que acontece com os objectos internos e as partes do self ainda preservadas, obrigadas a rodar em torno desta “massa gravitacional fria” central, e gravemente afectadas na sua entropia).
Por outro lado, podemos hipotetizar, de acordo com a teoria do funcionamento mental proposta por Matte-Blanco, que estes “buracos negros” se localizam nos estratos mais profundos da psique (equivalentes às regiões do espaço-tempo cósmico mais distantes da percepção humana, aquelas em que infinito e infinitesimal se conjugam, o que as torna mentalmente irrepresentáveis, só inteligíveis através do cálculo infinitesimal) e que, nestes estratos, como no cerne do “buraco negro”, a densidade é infinita. O que parece ser coerente com a densidade infinita atribuída pelo modelo bi-lógico de Matte-Blanco aos estratos mais profundos da mente, nomeadamente à indivisibilidade matemática e simetrização extrema dos processos, que torna o pensamento consciente, assimétrico por definição, inviável. Como acontece com a “falha” na representação de Si (e do Outro) que atinge M., tornando (quase) inviável quer o acto de pensar, quer a representação psíquica (em termos de assimetrização, de exercício da função α na “barreira de contacto” ICS/CS) da angústia narcísica que o atinge (daí a dificuldade em significar, menos ainda em promover o “insight”, a partir do comentário narrativo/interpretativo do “incidente” que antecedeu a sessão).
Ora, parece ser este atingimento narcísico central que, pela sua gravidade e pelas “ondas de choque” traumáticas (organizadas sob um modo diacrónico invertido no “arquivo mnésico” ainda disponível em M.) que suscita na memória sensível, conduz a quer uma “resposta branca” agida pela sua conduta fechada, e quase inexpressiva, quer ao funcionamento em “pulsar” das partes do self e do objecto interno ainda preservadas na sua mente, com redução marcada da entropia do sistema e a consequente incapacidade do recurso ao vínculo K+ nos processos mentais (também designável como
incapacidade em reflectir sobre as emoções segundo o “vertex” depressivo, em aceder à posição depressiva, ou em abordar a triangulação edipiana).
O modelo da “resposta branca” estabelece, por outro lado, um sistema defensivo rígido que induz à extrema simplificação “operatória” dos objectos mentais saídos do processo primário (refiro-me, aqui, ao modelo de funcionamento operatório da mente, proposto por P. Marty (1980) como “marca de água” da patologia psicossomática), ou, na mesma perspectiva sensualista, ao funcionamento segundo o Princípio do Prazer, postulado por Freud como garante do “Princípio da Constância”, i.e., da manutenção dos processos psíquicos elementares ao mais baixo nível energético possível.
Enfim, numa perspectiva teórica diferente, é possível entender a “resposta branca” como um modo particular do “encapsulamento autístico” dos processos mentais, que D. Rosenfeld (2006) propõe como forma de “preservar os elementos mais valiosos do self em face de um mundo externo terrível, podendo algumas vezes preservar muitas das introjecções e identificações e evitar a perda total” (2006, p. 41), em particular quando o processo de integração da personalidade foi demasiadamente rápido.
Refira-se em nota complementar o modo como a hipótese do “encapsulamento autístico” parece inscrever-se tacitamente no modelo do falso self que, lembremo-lo, é apresentado por Winnicott como uma agência psíquica “arcaica” que protege a mínima a integridade do self genuíno que foi exposto a perturbações sérias por parte do meio (“não suficientemente bom”) num tempo de “dependência absoluta”, no “estádio crítico da emergência da identificação primária” (1956, p. 281).
Esta formulação de Rosenfeld parece-me, ainda, particularmente heurística para compreender o funcionamento mental borderline, de que ambos os pacientes fazem prova, S. sob a forma dos sentimentos de despersonalização identificáveis na alucinose frustre que lhe inibe o pensamento, e M. sob a forma do comportamento depressivo,
vazio de conteúdo fantasmático e com uma colocação afectiva próxima da alexitimia, que anula qualquer esboço de ligação objectal.
Ele propõe, ainda, uma compreensão diferente das defesas autísticas que oferece uma alternativa à “protecção autística”, tal como é definida por Tustin (se bem que com objectivos teóricos diferentes e em referência à clínica de uma patologia diferente, e particularmente grave, no espectro das psicoses precoces).
Trata-se, enfim, em minha opinião e de acordo com a experiência terapêutica com os pacientes do espectro borderline, de um modelo psicopatológico que se ajusta melhor ao trabalho psicanalítico sobre as formações defensivas negativistas, de índole autística (como pode ser considerada a “resposta branca”), a que os pacientes com o self mais fragmentário recorrem com frequência.
E que permite, muito particularmente, recorrer a uma ferramenta clínica útil para gerir a contra-transferência sempre que a pressão regressiva/negativista, ensaiada pela parte psicótica da personalidade destes pacientes, mobilizada pelo confronto psíquico com a alteridade (na relação com as partes desconhecidas do self e do objecto), impõe a tarefa de pensar-se a si ou ao objecto de um modo diferente do habitual (segundo a alternância dos dois princípios do funcionamento mental, sejam eles os Princípios do Prazer e da Realidade ou as posições esquizo-paranóide e depressiva).
É que, como referem S. e C. Botella (1992), a percepção organiza-se na ausência do objecto da satisfação (pulsional) e a representação na ausência do objecto de percepção, que o mesmo é dizer, por outras palavras, que o verdadeiro pensamento emerge na ausência do objecto, i.e., entre o alfa da ansiedade e o ómega da depressão.
Ora, estes são, precisamente, os elementos mentais que o vazio psíquico, como “resposta branca” entre alfa e ómega, pretende iludir.
Concluo esta digressão teórico-clínica sobre o destino existencial (contraditório) do vazio psíquico e da depressão com a transcrição de um
belo texto de Jorge Luís Borges, escrito numa prosa elegante e fluente de intensa coloratura poética, intitulado “O Palácio” (Obras Completas, T. II, p. 513).
“O palácio não é infinito.
Os muros, os terreiros, os jardins, os labirintos, as grades, os terraços, os parapeitos, as portas, os corredores, os pátios circulares ou rectangulares, os claustros, as encruzilhadas, as cisternas, as antecâmaras, as câmaras, as alcovas, as bibliotecas, os desvãos, os cárceres, as celas sem saída e os hipogeus não são menos numerosos do que os grãos de areia do Ganges, mas o seu número tem um fim. Das açoteias até ao poente não faltará quem aviste as carpintarias, as cavalariças, as oficinas e as cabanas dos escravos.
A ninguém é dado percorrer mais do que uma parte infinitesimal do palácio. Alguns conhecem apenas os subterrâneos. Podemos aperceber-nos de umas caras, de umas vozes, de umas palavras, mas tudo de que nos apercebemos é ínfimo. Ínfimo e ao mesmo tempo precioso. A data que o aço grava na lápide e que os livros paroquiais registam é posterior à nossa morte; já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um anseio, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”
SUMMARY: The author introduces the issue of the contradiction between the feeling of emptiness and depression through the philosophical interpretation of the idea of Nothingness applied to the Human condition. This speculative dynamics goes on to the metaphoric utilisation of the astrophysics notion of “black hole” (alongside with its effects on the architecture of the “thinkable” cosmos) mediated by means of two rather original psychoanalytic theories of mental functioning. More precisely, Bion's algebraic hypothesis on the transformation of human mind's basic elements (emotions, sensations, dream material) into thoughts and Matte-Blanco's geometric evolutionist framework to explain the dialectics of primary and secondary processes in the bi-logical construction of a capacity to think by oneself. Following
this line of reasoning the author advances the hypothesis that the feeling of emptiness (and the behaviours/symptoms that uphold such feeling) represents a “blank response” (anti-depressive) to existential anxiety among individuals with a particularly weakened self. After drawing the clinical and therapeutic implications of this psychopathological hypothesis (close to the “autistic encapsulation” framework developed by David Rosenfeld to explain the primal defence system of borderline spectrum patients) the author makes use of a beautiful transcript from Jorge Luís Borges as an allegory for the critical path between prologue (anxiety/alpha) and epilogue (depression/omega) of this essay on the contradictory nature of the feeling of emptiness and depression.
KEYWORDS: Mental emptiness; “Black hole”; Depression; Acting out; “Blank response”.
os pais, mas, em momentos mais vivos da consulta, vai deslizando a cadeira para trás, o que obriga os pais a olharem para trás sempre que tentam dirigir-lhe a palavra) e exclama, com uma entoação angustiada na voz (como se libertasse um grito magoado, ou um choro de protesto forçadamente contido), uma interrogação aflitiva dirigida a um respondente mudo “Como é possível que nos digas isso? O que é que aconteceu contigo? Diz-nos o que é que queres fazer! Faz-nos, pelo menos, perceber o que sentes!…”. De facto, M. parece ter sido, até aos 16 anos (ano em que frequentou o 12.° ano pela primeira vez), um adolescente vivaz e interessado por tudo aquilo que o rodeava, excelente aluno na escola secundária (como já tinha sido na primária), convivial e afectuoso (quando os pais me falam desta forma nos antecedentes de M., em discurso que voltam a repetir em entrevista posterior, sem que o filho esteja presente, e em que apenas recordam um ou outro episódio de oposição, ou transgressão, de resolução escorreita e compreensiva, não posso deixar de pensar na tendência melancólica para a idealização retroactiva de um ente querido que morreu, e cuja perda ainda é inaceitável). A rotação negativista do seu comportamento terá ocorrido pelos 17 anos, após a ruptura com um amigo de infância, seu colega na escola secundária, que parece ter apanhado M. de surpresa (de facto, foi este colega/amigo que rompeu, sem motivo válido aparente, a não ser uma história de amigas/namoradas que, em aparência, tinha sido solucionada por ambos a contento). Enfim, os pais (ambos pelos 50 anos, com vidas activas e aparentemente bem sucedidas, e uma relação de casal prévia de boa qualidade) referem, nesta segunda entrevista, o desgaste que esta situação arrastada tem exercido, mais recentemente, sobre a relação marital, até pela tensão mobilizada entre ambos pela (inevitável, segundo eles) fixação diária no acting mudo de M., com as contradições, equívocos e mútuas acusações ocasionais, relativamente às decisões/hesitações/posições suscitadas pela (não) reacção/interacção de M., numa resposta em negativo às suas, cada vez mais improváveis, iniciativas. Numa sessão recente (refira-se que as sessões são
mantidas a custo, apesar do prazer homossexual “amorfo” que M. parece ter em provocar-me irritação ou aborrecimento, por exemplo ao chegar atrasado, ou ao frustrar as minhas tentativas de diálogo expressivo), à qual chegou com um atraso de meia hora, M. fala-me do “incidente” ocorrido no café em que parou para lanchar, antes de vir para a sessão, e que terá sido a causa próxima do seu atraso. Após ter concluído o lanche, deu-se conta que não tinha dinheiro suficiente para pagar a despesa. Sem qualquer outro meio de pagamento do que o dinheiro de bolso (o pai retirou-lhe a mesada, há cerca de um mês, na sequência da sua recusa em aceitar uma proposta de trabalho em part-time, que, em aparência, tinha sido aceite em primeira instância, e, ao mesmo tempo, retirou-lhe o cartão bancário, num gesto interpretado pelo filho como “retaliatório”), M. procurou entrar em contacto telefónico com o pai e a mãe para que o “tirassem de apuros”. Debalde, já que não conseguiu contacto para nenhum dos números disponíveis, e as mensagens (de texto e voz) que enviou não obtiveram resposta. Lembrou-se, então, da irmã. Também não conseguiu contacto imediato, mas, ao fim de cerca de hora e meia, a irmã (que é advogada estagiária, e estava em sessão de tribunal quando leu a mensagem de texto de M.) deu resposta favorável ao seu apelo, e acedeu a vir entregar-lhe o dinheiro para a despesa logo que pudesse… o que aconteceu 1 hora e meia mais tarde!… Por junto, decorreram quatro horas até que M. conseguisse sair a salvo deste “apuro”. Conta-me este episódio em tom factual, a voz cava e monocórdica do costume, e eu exclamo, de pronto, “Que multa o obrigaram a pagar!”. M. fica admirado, fita-me, por momentos, incrédulo, esboça um meio-sorriso e lança um “Como?”, ao que eu respondo, sem deixar “cair o pano” nesta (difícil) encenação de um momento dialógico, “É a sua sina, não tem fundo de maneio, acha até que lhe foi roubado pelos pais!… a mana, essa sim, a privilegiada do sistema é que o tem… mas depois, a irmã advogada de defesa dos pais, obriga-o a pagar a multa, obriga-o a sofrer uma “eternidade” no café, com o risco de ser apanhado e passar por uma vergonha!..”. Faço este comentário, em
voz firme e intencional, e aguardo um pouco pela sua reacção. Mexe-se, um pouco, no sofá, inclina-se para trás, ensaia um “Não percebo o que quer dizer”, ao que eu replico, “Ou não quer perceber, é o seu lado outsider, prefere ficar fora do jogo/vida, do que ser expulso ou ficar “fora-de-jogo”, como acontece em casa ou na faculdade”. M. encolhe os ombros, fica cabisbaixo e depois de um momento longo, emite um “E depois, o que posso fazer?” que, pelo tom entre o evasivo e o peremptório em que é proferido, me parece pouco interrogativo.