O artigo mostra como, através do processo psicanalítico, certas experiências psíquicas que não podem ser representadas e, naturalmente, são de difícil acesso e compreensão, estão presentes na dinâmica da relação. Essas experiências psíquicas que parecem ser conhecidas mas não pensadas circulam na dinâmica do processo terapêutico como se fossem uma sombra, um espectro que se entrepõe na dinâmica da relação terapêutica. Aborda o conceito de experiência psíquica, o conceito de negativo e a importância dos limites da representação como resultado do efeito do inconsciente, por um lado, e os aspectos destrutivos da mente, por outro. Ilustra com um caso clínico.
“Sob o ponto de vista psicológico, ouvir ou experimentar algo são duas coisas bem diferentes.”
Este trabalho foi arquitectado e foi ganhando forma a partir de um desejo de podermos perceber, representar e pensar sobre algumas interrogações vividas na relação do campo analítico com certos pacientes em determinados momentos nebulosos e inquietantes das suas análises. Foi ao escutá-los, através de uma atenção flutuante, fonte do respirar analítico, que nos apercebemos que certas experiências psíquicas dificilmente podiam ser representadas, porque inconscientes, mas que circulavam e estavam presentes no espaço analítico, como se fossem uma sombra, um espectro que se entrepunha na dinâmica da relação terapêutica. Como chegar a
Conferência realizada na Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Lisboa, Novembro de 2009.
Psicanalista e Psicoterapeuta. Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Internacional de Psicanálise (API).
essa experiência interna ou a esse afecto intenso que está presente mas não pode ser representado?
Freud (1915) lembra-nos que, na nossa experiência diária pessoal, familiarizamo-nos com ideias que surgem ou irrompem na nossa mente que não sabemos de onde vêm e que, algumas vezes, há muito não abordávamos ou desconhecíamos. Aparentemente, essas experiências mentais apresentam-se como vivas e intensas, mas não as podemos explicar ou representar porque não fazemos ideia de como surgem. O nosso sentimento, que vai no mesmo sentido daquele autor, é de que certos pacientes que descrevem, através de uma narrativa com diferentes personagens, vários enredos que se multiplicam em diferentes afectos e distintas histórias – na verdade, vamo-nos apercebendo através da nossa contratransferência – necessitam, através da compulsão de repetição, de viver uma experiência interna que não tem nome e nunca tinha sido pensada ou partilhada com alguém. O afecto está presente na sua narrativa, mas a ideia que está por detrás desse afecto sofreu repressão ou clivagem, negação, projecção, ou percorreu caminhos que nos são desconhecidos. A propósito destas questões, Bollas salienta que “o idioma pessoal”, ou seja, o sistema de regras e combinações que constitui um instrumento de comunicação, é conhecido, mas ainda não pode ser pensado. Para este autor, esse aspecto da experiência interna que para ele “é o conhecido mas não pensado” representa o verdadeiro âmago do indivíduo ou o seu verdadeiro self. A questão que se põe é a de saber como contactar ou aproximar-se dessas experiências internas vividas mas não pensadas ao longo do processo analítico. Essas experiências não pensadas, que, de algum modo, todos nós conhecemos através da investigação clínica, nem sempre são fáceis de contactar ou representar. Por vezes, espreitam por detrás do conteúdo manifesto da narrativa do paciente, ou escondem-se através de uma dissociação, de uma passagem a acto, de uma angústia persecutória ou depressiva, de um sentimento de insatisfação, de um sinal de perigo, de um lapso, de um silêncio, através de um corpo dorido ou de um sonho. Por vezes, essas experiências pairam algures e interferem na dinâmica da relação que se sente evadida pelo desconhecido e por um perigo que não tem nome.
A propósito desta questão, Klein (1957), numa fase muito adiantada das suas investigações clínicas, deixou-nos um legado teórico em que dizia que certas experiências psíquicas muito regressivas não eram recordadas, mas que delas ficava “uma memória de sentimentos” que nunca foram traduzidos nem simbolizados e que se mantinham intactos,
disponíveis, podendo aparecer em qualquer altura e de diferentes formas no processo analítico. Dentro desta perspectiva também se situa o pensamento de Bion (1965) quando nos recorda como no processo analítico pode aparecer um “terror sem nome” que está presente, que se sente, mas que dificilmente pode ser representado. Todas estas questões põem-nos, naturalmente, de sobreaviso em relação à nossa qualidade da escuta analítica e levam-nos a pensar em Freud (1915) quando nos lembra que, sob o ponto de vista psicológico, ouvir ou experimentar algo são duas coisas bem diferentes ainda que o conteúdo seja o mesmo.
Mas donde vêm essas experiências que circulam no processo analítico? Hoje sabemos, através de diferentes investigações e trabalhos na área psicanalítica, que faltas básicas ou sensações de desamparo ficariam gravadas na criança como uma ameaça de aniquilação física e psíquica e que poderiam aparecer através de sinais, por vezes pouco claros, ao longo do processo analítico, mas que nos indicavam a qualidade desse estado mental. A propósito desta questão da experiência psíquica no processo psicanalítico que, por vezes, não pode ser representada mas está presente na dinâmica da relação, não podemos deixar de recordar os trabalhos de investigação teóricos-clínicos de Green (1988), Bollas (1999) e Isaacs .
Assim, André Green, a partir da investigação clínica que assentava nas traves mestras da transferência e contratransferência, descobre que certos pacientes contam espontaneamente uma história pessoal que, aparentemente, parece situar-se na depressão da infância. Contudo, com o desenvolvimento do processo analítico, torna-se evidente estar face a uma problemática narcísica com fortes exigências do Ideal do Eu em oposição severa ao Superego e onde o sentimento de impotência se torna claro. Impotência contra uma situação conflitual, impotência para amar, tirar partido dos seus dons pessoais, acreditar nas suas possibilidades ou, quando há satisfação, ela é negada ou desvalorizada. Para André Green, o traço essencial desta depressão, que ele vai viver na contratransferência com os seus pacientes, é que ela aparece não na consequência da ausência ou perda do objecto, mas na omnipresença de um objecto absorto num luto. Com estes pacientes pode assistir-se a um movimento com um duplo vector: o desinvestimento materno, tanto representativo como afectivo, e a identificação inconsciente à “mãe morta”. De uma experiência psíquica que não era representada mas que estava presente na dinâmica analítica, este autor, acima citado, pode pouco a pouco figurabilizar os sonhos e os afectos e através da contratransferência fazer desabrochar um conceito que todos conhecemos, que é o da “mãe morta”.
Da mesma forma, Bollas (1999), sob o ponto de vista da investigação clínica, descreve o caso de um homem em que o padrão de relação e de comunicação é marcado por experiências de aproximações e afastamentos e em que toda a mudança é sentida, por ele, como maligna e devastadora. Este homem, que viveu em criança uma mudança radical de vida após a mudança de um país para outro, vai viver um trauma que o leva a procurar acontecimentos dramáticos como forma de autotransformação. Este autor salienta que estes pacientes, enquanto crianças, desenvolvem uma vinculação de natureza mutativa aos acontecimentos, mais do que uma verdadeira relação com o outro. Assim, estes pacientes, ao contrário da maior parte das pessoas que procuram relações, procuram acontecimentos malignos. A partir destas experiências clínicas, introduz o conceito de interjecto que, segundo ele, é uma interrupção do idioma do self, pela entrada forçada do externo. A hesitação, a incerteza e a cegueira reflectem a presença de um interjecto que, segundo ele, não possui um sinal interno com significado inconsciente, mas que se senta ao lado do self e de lá não sai. Funciona como uma sombra do self, mas mantém-se à distância e dificilmente convive com ele.
Estas experiências psíquicas levam-nos a uma associação ao trabalho de Isaacs quando nos fala da natureza e da função do fantasma. Esta psicanalista, através do trabalho clínico, demonstra como se constrói o fantasma e comprova como a experiência emocional e uma memória de sentimentos aparece em primeiro plano na vida psíquica do ser humano, mas também como a simbolização e a representação só podem aparecer quando a linguagem já está organizada ou estruturada.
Todos estes autores falam de experiências psíquicas internas. Mas qual é o seu verdadeiro significado e como defini-las?
Entendemos por definição de experiência uma tentativa permanente para verificar ou demonstrar qualquer coisa que nos surpreende e nos inquieta. Em relação à experiência emocional, conceito que aparece com grande frequência na obra de Bion (1979), representa as emoções explícitas ou implícitas que absorvem os vínculos ou uma memória dos vínculos das relações objectais. Numa primeira fase aparecem sob a forma de “impressões sensoriais” que são susceptíveis de sofrer contínuas transformações. Este autor, na mesma linha de Freud (1915), enfatiza que na situação analítica há uma grande diferença entre o aprender acerca das coisas ou sobre elas aprender emocionalmente. Através
das experiências emocionais, temos acesso à forma e à qualidade dos vínculos com os seus objectos internos e conhecê-las é uma forma de as tornar conscientes e, naturalmente, através delas, construir aprendizagem e crescimento pessoal. Parece-nos difícil falar dessas experiências emocionais, que aparecem como forma de comunicação no campo analítico, sem falarmos no processo ou no caminho que nos leva até elas. Como contactar com essas experiências inconscientes? Podemo-nos interrogar se essas experiências podem ou não ser representadas e qual é o seu futuro caminho na dinâmica da relação analítica? O contacto com o negativo e com o inconsciente pode ser uma forma de chegar a essas experiências internas.
Mas o que entendemos por negativo? Podemos definir o negativo como o que, na prática analítica, chamamos de conteúdo latente em oposição ao conteúdo manifesto e que se encontra nos limites da representação como resultado do efeito do inconsciente, por um lado, e dos aspectos destrutivos da mente, por outro. Estas questões sobre o negativo remetem-nos para os limites e condicionamentos que se colocam ao analista, no trabalho da escuta. A propósito desta questão, Botella interroga-se sobre “o problema do conhecimento e do nível da capacidade do aparelho psíquico e o seu grau de fiabilidade para reflectir por intermédio da representação da qualidade consciente de qualquer coisa desconhecida”. Acrescenta ainda que os psicanalistas, na situação analítica, compreenderam que os limites dos seus meios de pensar e dos seus conhecimentos são inseparáveis do seu próprio psiquismo e que é através dele que chegamos à dimensão do sofrimento dos nossos pacientes. Assim, para estes dois autores franceses, “o representável é uma redução do vasto domínio do desconhecido”, mas esta dimensão faz parte da vida psíquica e necessita dos órgãos dos sentidos e dos seus limites assim como dos limites do pensamento. A propósito desta questão, Freud, em 1915, relembra-nos que “quanto mais procuramos encontrar o nosso caminho para uma concepção metapsicológica da vida mental, mais devemos aprender a emancipar-nos da importância do sistema do ser consciente”.
Estas questões, levantadas pelos autores anteriormente citados, remetem-nos para outras interrogações que têm a ver com a qualidade da escuta do analista face ao material apresentado pelo paciente. No nosso ponto de vista, essa escuta poderá ser da mesma qualidade da elaboração de um sonho que se sustenta de um conteúdo manifesto mas que esconde um conteúdo latente ou pensamentos oníricos e que
mostra a verdadeira qualidade da experiência interna. A narrativa do paciente pode condensar diferentes personagens que podem esconder a qualidade da experiência da relação com os seus objectos internos, que nunca foi pensada mas que necessita de vivê-la na relação com o analista; por isso, como salienta Bollas (1989), cada analisando usa-nos como objecto. A clínica é profícua em pacientes que utilizam os objectos internos e externos como formas de experimentar as diferentes variedades dos estados do self. O caso do homem que apresentarei mostra como o sentimento de retirada da relação é semelhante a uma experiência precoce de defesa contra o receio de aproximação do objecto que era sentido como distante e como fonte de dor mental.
Este paciente, após uma semana em que nos sentimos contratransferencialmente em sintonia com ele, descreve um sentimento vivido, após a sessão anterior, de não poder encontrar palavras para a sensação de estranheza e de desvitalização. Conta que, ao sair da sessão, no dia anterior, quando chegou à porta do consultório, ficou com o sentimento estranho de que se tinha esquecido de algo, mas não sabia explicar a natureza dessa falta. Ficou com a sensação que a sessão tinha corrido bem, mas simultaneamente a forte impressão de incompreensão, do sentimento de falta e de um receio sem nome que parecia vir de um tempo longínquo. Nesta experiência interna de inquietação e incompreensão parece haver uma indefinição do objecto que provoca esse estado mental. Interrogamo-nos, questionando em voz alta, porque viveria ele essa experiência de incompreensão e de sentimento de falta fora da sessão e porque lhe era difícil partilhá-la ali connosco. Num segundo momento, também nos questionámos, no silêncio dos nossos pensamentos, qual seria a qualidade e a intensidade dessa experiência psíquica que só podia ser sentida fora da relação analítica e distante do olhar do outro. Será que haveria uma impossibilidade de distinguir entre ausência temporária e a perda permanente, ou como se a perda de percepção do objecto fosse sentida como a perda do próprio objecto? Nesse sentido, perguntamos-lhe porque lhe era difícil viver esse sentimento de insatisfação ali connosco e necessitava de vivê-lo sozinho e distante do nosso olhar. É como se imaginasse que não o entendíamos, não o percebíamos ou que poderíamos ficar atordoados com essa experiência de hesitação, insatisfação e de não compreensão. Por isso preferia vivê-la só com ele próprio e distante do nosso olhar. Esta experiência interna de insatisfação, sem nome mas
que não pode ser representada nem pensada, mas que pode ser acolhida ainda sem nome, é associada à relação com a mãe com quem tinha um sentimento muito antigo de que não era percebido, desencadeando nele uma profunda angústia que nos remete para “angústia do desamparo” (Freud, 1926). Como se estivesse a viver experiências psíquicas que remetiam para necessidades básicas de sobrevivência psíquica necessárias à modelagem e constituição do ego. O contacto com esta experiência psíquica de desamparo e solidão vai abrir e permitir uma maior capacidade de expansão da mente e o material que se segue durante essa semana vai tocar em áreas internas profundas de conflito e dor que nunca tinha sido capaz, anteriormente, de mencionar. Na nossa contratransferência parecia-nos que aquela experiência interna condensava resistências tenazes que englobavam várias configurações sobre a forma de ansiedades, de defesas e de relações de objecto que não foram integradas ou internalizadas. Havia, nesta experiência psíquica deste homem, uma sombra negra que nos paralisava o pensamento e que nos cortava as asas da nossa capacidade de Havia também, naquele momento, uma incapacidade de figurabilizar o que o paciente dizia, empurrando-nos para um sentimento de um abismo sombrio e inquietante de vazio.
Este homem, investigador na área da música e pai de três filhos, na sessão seguinte, após um fim-de-semana, em tom de lamento, diz-nos que, mais uma vez, acordou com a sensação de vazio e o sentimento de desamparado. Associou este sentimento a uma necessidade de vir à análise e à premência de poder falar connosco. Associa este sentimento de urgência aos afectos traduzidos pelo sentimento de esgotamento e de vazio, desencadeados por uma discussão com a mulher sobre a relação que os une. Mas dessa conversa ficou a sensação de enorme solidão e o sentimento de falência interna porque não se sentiu compreendido. Queixa-se de um sentimento de exaustão e de vazio por ter passado o fim-de-semana a dar e a ouvir, mas com a sensação de nada receber. Esta experiência interna de esgotamento e insatisfação narcísica, que nasce de uma luta entre as pulsões libidinais e pulsões destrutivas, é por ele associada às dificuldades que tem no processo criativo, sobretudo na escrita e na composição musical. Associa este estado mental de esgotamento e desânimo a uma experiência interna, vivida por ele, no processo criativo da escrita e da composição. Para ele, criar é uma forma de “despejar com avidez tudo o que sente”, mas tem a sensação de ser pouco criativo e isso é fonte de um permanente descontentamento e desalento narcísico. Esta experiência interna de insatisfação leva-o
também a uma associação com a qualidade da sua sexualidade com as mulheres – que, segundo ele, durante toda a sua vida, sentiu “como evacuativa” – mas que não valorizava como um verdadeiro objecto de relação de amor. A qualidade da sua relação com as mulheres é associada à relação analítica e ao sentimento de que com o desenrolar do processo terapêutico começa a compreender-se melhor, acrescentando que inicia uma fase de verdadeiro prazer na sua sexualidade. Ao falar de uma determinada qualidade de relação com ele próprio e com as mulheres, refere-se a um padrão de comunicação onde prevalecem os seus pensamentos obsessivos e sobretudo os aspectos de isolamento entre os afectos e as representações que limitam a sua produção criativa, sobretudo a composição, e que lhe trazem insatisfação nas suas relações amorosas. Acrescenta que, quando acordou, sentiu-se vazio, desamparado e sem ideias, mas curiosamente não se sentiu angustiado. Descreve que antes, nas relações amorosas, se sentia aflito e não estava presente, era como se levantasse um fosso entre o prazer e o sentir. O prazer era solitário e nunca envolvia o outro e isso desencadeava uma espécie de culpa que o atormentava. É como se estivesse ausente e distante nas relações de intimidade; explicitando melhor, é como não se permitisse estar com o outro e o prazer é como se o retivesse para ele próprio. Nas relações de maior intimidade, o seu coração estava longe e o seu pensamento estava voltado para ruminações intelectuais.
Esta experiência interna de isolamento entre o afecto e a representação, descrita por este homem, mostra como qualquer relação de maior proximidade, como a relação analítica, era vivida como inquietante e era fonte de uma enorme dor mental que podia paralisar a dupla analítica. Qual era a qualidade desta experiência interna tão difícil e dolorosa de querer estar com alguém de quem aparentemente gosta mas que não consegue por receio de aproximação? Que experiência mental é esta que o paralisa nas suas relações de maior intimidade? Na nossa contratransferência, uma vez mais, tentámos figurabilizar a razão desta paralisação, mas sentíamos uma ameaça, um perigo, em forma de angústia persecutória, que nos poderiam fazer mal. Havia também uma espécie de suspensão do pensamento e do afecto com uma precariedade das representações. Aguardámos a sessão seguinte para perceber melhor o significado destas experiências mentais.
Este paciente, no início da sessão seguinte, começa por narrar um sonho que tinha tido nessa noite. Conta que numa enorme casa estariam várias pessoas, algumas delas amigos próximos que estavam sentados em
cadeiras de espaldar alto. Ao aproximar-se desses amigos, ouve-os dizer, em voz baixa, que vão parar de conversar para que ele não os oiça. No sonho, ele interroga os amigos no sentido de saber se havia alguma coisa em particular que não gostassem que ele ouvisse. Não satisfeito com a resposta, muda de sala e de espaço. Entretanto, vê uma poltrona e continua a interrogar-se porque é que não lhe querem dizer o que estavam a falar, mas, de repente, aparecem uns olhos verdes muito grandes que se fixam nele, mas que não o inquietam. Havia alguma coisa, como se fosse um segredo, que ele não sabia e só o sonho é que o podia levar a esse enigma.
Tento dizer-lhe de uma forma interrogativa se aqueles olhos verdes – tema que de resto já tinha repetido em sonhos anteriores – não estariam ligados aos sentimentos inquietantes de censura em relação a uma experiência destrutiva interna que o leva a mutilar as relações de intimidade, de prazer e de amizade. Responde-me dizendo que teve a sensação de haver um segredo que estaria escondido dentro dele, que não sabia o que seria, e sobre o qual tinha dificuldades em falar ou imaginar, mas que este sentimento de inquietação lhe apareceu pela primeira vez na sessão anterior. Acrescenta que se sentia um estranho e diferente das outras pessoas. Contudo, também tinha o sentimento de que começava a descobrir espaço na análise para dizer o que lhe vinha à cabeça e acrescenta que se sentia muito diferente e mais leve. Pouco a pouco, nesta sessão, vai levantando o véu desse enigma e, pela primeira vez, fala das fantasias recorrentes destrutivas que tinha enquanto adolescente e que consistiam em molestar as mulheres até as asfixiar, altura em que sentia prazer. Recorda-se, enquanto adolescente, quando se masturbava e ocorriam as fantasias sadomasoquistas em relação às mulheres; sentia-se como um monstro e, nessa altura, o sentimento de culpabilidade invadia o seu mundo interno.
Estas fantasias da adolescência face às mulheres remetem para o receio, na relação transferencial, de nos fazer mal. Esta compulsão de repetição de se identificar com o agressor desencadeava nele o sentimento de vergonha narcísica e receio de nos magoar e, nesse sentido, era mais fácil vivê-lo à distância e longe do nosso olhar.
Aparece pela primeira vez, no processo analítico, um funcionamento psíquico com tonalidades sadomasoquistas, como uma defesa de um sentimento de desespero (Joseph, 1988). Como numa outra altura tivemos ocasião de demonstrar, “este núcleo de desespero, como se fosse um grito de alerta, marcado pela submissão intransigente às partes sádicas
e destrutivas do self” (Alexandre, 2007), pode ser uma defesa contra a depressão, o sentimento de desalento e de exclusão que naturalmente o recrudescimento da adolescência ampliou.
Como verificamos, no caso anteriormente apresentado, a experiência inquietante de perseguição e do receio do olhar do outro nasce da intensa culpabilidade que se esconde por detrás de uma destrutividade que tenta amputar a relação de intimidade, desvalorizando-a. Pode acontecer também o paciente ficar prisioneiro da sua própria tirania e ter dificuldades em sair dessa situação. A experiência psíquica de se sentir longe do olhar do objecto pode aparentemente ser apaziguadora, mas também é profundamente assustadora porque pode ser sentida como uma perda fatal, permanente e fonte de uma profunda ansiedade. A propósito desta questão, Freud (1926) lembra-nos que “a ansiedade é a reacção original ao desamparo no trauma, sendo reproduzida depois da situação de perigo como um sinal em busca de ajuda”.
Estas experiências psíquicas, vividas por estes pacientes, podem desencadear, num primeiro momento, no analista, o sentimento de ameaça ou de perigo, mas pouco a pouco se percebe que estamos a tocar no núcleo infantil que amplia a raiva por desespero da ameaça da perda ou da destruição do objecto interno. Estas experiências mostram a importância do papel da pulsão de morte, de tal maneira que desinveste da relação com os objectos através de um mecanismo de anulação, de um vazio ou isolamento entre o afecto e a representação, como podemos verificar no exemplo clínico que demos anteriormente.
Com estes pacientes, nem sempre é fácil elaborar a variedade de sentimentos que ocorrem na contratransferência, mas pouco a pouco, devido a uma boa capacidade do paciente usar os sonhos e as fantasias “como veículos para comunicação dos seus estados psíquicos” , o analista pode encontrar pontes de ligação entre as pulsões libidinais e pulsões destrutivas e vai descobrindo formas de figurabilidade ou de representação da vida psíquica. Contudo, não podemos deixar de considerar as dificuldades que alguns pacientes nos colocam no processo analítico quando, ao contrário do paciente anteriormente descrito, utilizam os sonhos e as fantasias como uma forma de evacuação dos seus estados mentais. A propósito desta questão, não podemos deixar de referir o trabalho de Steward (1992), que descreve, de uma forma precisa, a sua contratranferência em relação a um caso de uma paciente borderline com
um núcleo psicótico, em que ele se sentia, por vezes, olhado ou espiado e em que os acontecimentos, descritos por ela, eram experimentados como se estivessem à distância e como se ele estivesse a vê-los no cinema ou num ecrã. Os sonhos e fantasias não eram elaborações mas evacuações que eram projectadas na relação de campo analítico.
O contacto com as experiências internas dos nossos pacientes exige que o analista tenha capacidade de apresentar ou figurabilizar os diferentes estados da dupla analítica, de maneira a poder representar e elaborar essas experiências através de imagens, como se de um sonho se tratasse.
SUMMARY: The article shows how some psychic experiences that cannot be represented and are hardly accessible or understandable, are nevertheless present in the relational dynamics of the psychoanalytic process. Those psychic experiences, that seem to be known but not thought about, circulate in the dynamics of the therapeutic process like a shadow, a spectrum that interferes in the dynamics of the therapeutic relation. The article approaches the concepts of psychic experience and negative and the importance of limits of representation as a result of the effect of the Unconscious, on one hand, and the destructive features of the mind, on the other hand.
A clinical case illustrates the article.
KEYWORDS: Psychic experience; negative; limits of the representation; unconscious.