A teoria freudiana do desenvolvimento psicossexual assenta num modelo exclusivamente masculino. Desde cedo, porém, foram propostas outras teorias, complementares e, mesmo, contrárias às teorias freudianas.
Karen Horney é uma das primeiras autoras a realçar o viés masculino da teorização freudiana. É ela que, junto com Jones e Klein, descreve pela primeira vez a existência de uma feminilidade primária, noção que, de alguma forma, está na base da “diferença sexual” proposta pelos autores que compõem a chamada primeira vaga feminista psicanalítica. A existência de uma masculinidade ou de uma feminilidade primárias é colocada em causa pelos autores da segunda vaga feminista, bem como pelo pós-modernismo psicanalítico: Benjamin, Coates, Harris, Butler, Chodorow, entre muitos outros. Esta linha de pensamento, ainda que com múltiplas divergências, chama a atenção para o facto de que a teoria da diferença sexual é, no fundo, a confirmação da anatomia como destino, não tomando em linha de conta a individualidade do ser humano. Neste artigo, faremos ainda uma revisão da evolução dos conceitos de género, identidade de género e papel de género, criados por Money e Stoller, recorrendo aos autores mais relevantes, no campo da psicanálise.
Freud (1905), no seu artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, afirma que o período edipiano é seguido de um outro, não conflitual,
Assistente Hospitalar Graduado de Psiquiatria no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa. Sócio Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Chefe de Serviço de Psiquiatria no Hospital de São João, Porto. Professor Associado, com agregação, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 6 de Março de 2009. Revisão recebida em 23 de Março de 2009. Aceite para publicação em 30 de Março de 2009.
de consolidação das posições adquiridas, e que decorre do quinto/sexto anos de vida até à puberdade.
Trata-se de um período e não de uma fase porque, apesar de se observarem manifestações sexuais, não há uma nova organização da sexualidade. As pulsões sexuais estão “adormecidas”, encontrando-se o comportamento dominado por sublimações parciais e por formações reactivas. A criança orienta as suas preferências para domínios não sexuais, como a escola, os colegas de brincadeira, os livros e outros objectos do mundo real, embora a energia desses novos interesses continue a ser emanada dos interesses sexuais.
Há, por assim dizer, uma modificação estrutural das pulsões sexuais que, não só torna possível a utilização da energia pulsional ao investi-la noutros objectos, como também permite perseguir outros objectivos, com a crescente tensão tendendo a satisfazer-se de forma substitutiva.
Quanto à puberdade, bastante menos investigada por Freud (Golse, 1999, p. 358), não se trata nem de uma fase nem de um período, antes de uma crise, cujo início põe fim ao período de latência.
Num momento entre a latência e a puberdade todas as pulsões presentes são investidas, sem discriminação. Isto é, as tendências infantis voltam a aparecer, ainda que em condições diferentes. O desenvolvimento sexual parece retomar exactamente no ponto onde fora abandonado, na altura do complexo de Édipo, acentuando-se por isso as pulsões edipianas.
A adolescência tem, então, como centro, uma crise narcísica e de identidade com intensas angústias quanto à autenticidade e integridade de si próprio, do corpo e do sexo. Freud propõe, por isso, soluções distintas para cada um dos sexos.
No sexo masculino, a resolução do conflito edipiano será mais claramente definida. Não se trata de mudar de objecto sexual (da mãe para outra mulher), existindo uma continuidade do processo identificatório com o pai, com quem estabelece uma clara rivalidade, favorecendo este facto a internalização de um Supereu bem estruturado. O investimento narcísico do pénis e da sua erogeneidade permite o acesso mais directo ao primado genital, conduzindo, porém, à angústia de castração (Malpique, 2003, p. 31).
No sexo feminino, a resolução do complexo de Édipo é protelada e menos definida. A mulher muda de objecto sexual (da mãe para o pai e deste para outro homem) e de zona erógena (da excitação clitoridiana para a vaginal). O acesso ao primado genital pode ser mais difícil ou
demorado, por se manter a sexualidade fálica (inveja do pénis) e pelo despertar tardio da erogeneidade vaginal. O factor central, neste caso, é a renúncia ao desejo do pénis e a sua substituição pelo desejo de receber um bebé do pai (de um homem) que leva à resolução do complexo de Édipo (Malpique, 2003, p. 32).
Aqui, o elemento paralelo à angústia de castração (a inveja do pénis) produz-se primeiro e leva à formação do complexo de Édipo. O desejo de engravidar do pai é mais forte e persiste, segundo Freud, na forma mais geral dos impulsos maternais (Hyde, 1991, p. 41).
Podemos, então, afirmar que, no fundo, Freud defendeu um modelo básico de aquisição da identidade de género do homem, com um modelo paralelo para a mulher. É o designado monismo fálico, concepção de uma libido sexual única que permite, de uma só vez, definir a sexualidade masculina e a sexualidade feminina (Roudinesco & Plon, 1997, p. 167).
A importância e a superioridade do falo masculino constituem, dessa forma, pressupostos primordiais. Para o menino, ele é tão importante que, no meio das angústias que lhe provoca o seu amor pela sua mãe, e temendo que o seu pai danifique o seu pénis, vai abandonar o amor que sente pela sua mãe e identificar-se com o seu pai, adquirindo, dessa forma a sua própria identidade de género e introjectando os valores da sociedade. Para a menina, por outro lado, a inveja do pénis (reconhecimento “instantâneo” da superioridade do pénis e sentimento de inveja por carecer dele) é primordial. Deixa de amar a sua mãe e orienta o seu amor para o seu pai, tratando de conseguir de novo o pénis, mas fracassa. O seu complexo de Édipo nunca se resolve por completo e, consequentemente, o seu desenvolvimento “moral” é menos adequado (Roudinesco & Plon, 1997, p. 43).
Citando McDougall (2004), a teoria freudiana da sexualidade feminina pode, então, resumir-se da seguinte forma: a menina é, inicialmente, um menino cujo desejo libidinal precoce é o de possuir sexualmente a mãe; mais tarde vai substituir este desiderato pelo desejo de ter um pénis; este é substituído pelo de ter um filho de seu pai; finalmente este será, também, substituído pelo de ter um filho, homem, de outro homem.
A teoria freudiana da natureza bissexual do ser humano foi fundada, como grande parte das suas teorias (dada a sua formação médica), na anatomofisiologia. Neste caso, mais especificamente, na embriologia, de acordo com Chiland (2003, p. 2). Os ductos de Wolff e Müller, presentes no
início da vida intra-uterina, seguem, posteriormente, diferentes percursos, com o desenvolvimento dos ductos de Wolf e atrofia dos de Müller, no embrião masculino, e o inverso no embrião feminino.
Como já referimos anteriormente, Freud estabeleceu uma teoria do desenvolvimento psicossexual do indivíduo do sexo masculino. O desenvolvimento da mulher foi pensado a partir desse modelo original. A masculinidade seria o estado natural de ambos os sexos; a feminilidade surgiria duma “falta”, como consequência da ausência do pénis (Freud, 1933).
Daí que, mantendo-nos na anatomia, Freud insistia que o clítoris não era um verdadeiro órgão feminino, antes um resquício de um pénis. O clítoris seria, no fundo, um órgão masculino, donde a famosa expressão “a menininha é um rapazinho” (Freud, 1933, p. 118), assim como a noção de “inveja do pénis”. Ressalte-se, também, que, curiosamente, uma consequência lógica desta linha de pensamento é a de que as mulheres seriam, fisicamente, mais bissexuais que os homens.
Saliente-se, ainda, que para Freud a vagina é virtualmente inexistente durante muitos anos e, provavelmente não produz sensações até à puberdade (Freud, 1931, p. 236). As metáforas, por ele repetidamente utilizadas, revelavam uma representação dos genitais femininos como um vazio, uma falta, um continente negro e inquietante onde não era possível observar o que se passava (McDougall, 2004). A feminilidade era por ele equacionada como passividade e masoquismo (Gediman, 2005).
Desde cedo, contudo, este posicionamento falocêntrico foi questionado. Em resposta à tese da libido única, de essência fálica, começou a desenhar-se uma tese de dualismo sexual (a diferença sexual) de tipo naturalista (Roudinesco & Plon, 1997, p. 167).
Helen Deutsch, por exemplo, apesar de se manter fiel às teorias freudianas, no seu livro “Psychology of women” (1944), considerou a maternidade como a característica mais crítica da evolução psicológica da mulher (Hyde, 1991, p. 48; Maguire, 1995; p. 23). A sua perspectiva, centrada nas capacidades maternais, colocava a ênfase naquilo que a mulher possui (a capacidade de gerar e criar as crianças) e não naquilo que lhe “falta”, no pénis ausente3.
A noção de “inveja do pénis” mantém-se actual, mas na perspectiva da necessidade de identificação com a figura paterna, por parte da menina, para que estabeleça a desejada separação da sua mãe edipiana. O pai e o falo representam, nesta situação, um poder independente da mãe (Chasseguet-Smirgel, 1970).
Mas a primeira importante crítica ao conceito de libido sexual única vem de Karen Horney. Após um período inicial, em que seguiu as ideias de Freud, esta autora publica um artigo (Horney, 1925) em que afirma que as concepções freudianas sobre o desenvolvimento psicossexual da mulher não eram outra coisa senão a articulação da visão infantil que os meninos têm das meninas. Esta autora postulou que o factor crítico para o desenvolvimento era a inveja que o homem sente da mulher, sobretudo em relação com o seu potencial reprodutor (“inveja do útero”4) e assinalou que o êxito masculino representa, de facto, uma sobrecompensação dos sentimentos de inferioridade anatómica (“complexo de feminilidade”) (Hyde, 1991, p. 46; Maguire, 1995, pp. 25-26). A complementaridade entre os sexos é, certamente, o que deverá predominar.
Horney, em diferentes artigos (1925, 1932, 1933), foi a primeira a identificar explicitamente o viés masculino, o monismo fálico do pensamento freudiano (Gediman, 2005; Maguire, 1995, p. 18; Navaro & Schwartzberg, 2007, pp. 1-2). Esta autora, como Klein (1927) e Jones (1935), advoga a existência de uma feminilidade primária, com características incorporativas e receptivas. Introduz, também, a ideia de que a vagina é, desde cedo, uma zona erógena e ataca a noção, tipicamente freudiana, de que o masculino é sádico e o feminino masoquista.
Afirmava, ainda, que as crianças de ambos os sexos vivenciam uma “fase de feminilidade” em que se identificam com a sua mãe, desejam bebés e tentam roubar os conteúdos (fantasiados) do útero materno (Maguire, 1995, p. 26).
Ao monismo fálico freudiano, contrapunha-se a existência de uma feminilidade primária, de ansiedades genitais femininas, não derivadas das angústias de castração masculinas, bem como, também, da existência de uma actividade sexual primária, que inclui a acção e a subjectividade (Gediman, 2005). A feminilidade, assim como a masculinidade, teriam origens pré-edipianas, ideia que hoje é maioritariamente aceite nos círculos analíticos (Person, 2006).
Características específicas da mulher, da feminilidade, são, também, apontadas por Erikson (1968). Para este autor a formação da identidade feminina reflecte, forçosamente, o facto de que o seu plano somático
A “inveja do útero” foi uma das noções introduzidas por Horney, na qual foi acompanhada, por exemplo, por Winnicott, que afirmou que o sentimento masculino de inveja do útero e de temor do domínio feminino era bem mais profundo que a inveja dos homens por parte da mulher (Maguire, 1995, p. 42).
inclui um “espaço interior”5, destinado a carregar os filhos dos homens escolhidos, e concomitantemente, um compromisso biológico, psicológico e ético para zelar pela espécie humana (1968, pp. 267-268). E que a existência desse espaço corporal interno e produtivo, instalado com segurança no centro da forma e postura feminina, tem, seguramente, muito maior relevância que o órgão externo que “falta” (1968, p. 269). Estas conclusões retira-as Erikson das suas observações clínicas, mas também de experiências com crianças entre 10 a 12 anos6, colocadas a brincar com jogos de construções. Os espaços construídos pelos rapazes eram dominados pela altura e pela queda, enquanto os das raparigas eram dominados por interiores estáticos.
Podemos, assim, dizer que Erikson apesar de concluir, ao contrário de Freud, da menor relevância da “inveja do pénis” na construção da feminilidade, acaba, contudo, por dar-lhe, pelo menos em parte, razão quanto à “anatomia como destino” (Freud, 1924, p. 197). Esta perspectiva do “espaço interno” é mantida por diversos autores, nomeadamente McDougall (2004).
Mas não foi apenas na visão do desenvolvimento psicossexual feminino que foram introduzidas novas noções e conceitos.
Até há cerca de três décadas, os estudos psicanalíticos do desenvolvimento masculino organizavam-se, essencialmente, a partir da teoria freudiana do Complexo de Édipo e da ideia crucial de que o rapaz desejava “possuir” a sua mãe (Diamond, 2006). Para conseguir ultrapassar as angústias de castração originadas pela competição com o seu pai, o rapaz iria identificar-se com ele, assim construindo o seu sentimento de identidade masculina.
Mais recentemente a atenção virou-se para o facto de que, antes de querer “possuir” a mãe, o rapaz quererá “ser” a mãe, ou, pelo menos, “estar com” o que ela providencia – os cuidados maternos. Ou seja, passou a identificar-se o período pré-edipiano, quanto às relações estabelecidas entre o rapaz e a sua mãe, bem como o papel do pai nesta tríade precoce, como fundamental para a construção da identidade de género.
Germaine Greer (1996, p. 62) realça que mesmo a noção de “espaço interior” está, muitas vezes, associada a características negativas, relacionadas com imperfeição, vazio, refúgio para a alteridade. Exemplo disso, segundo Ussher (2006, p. 161), é o facto do corpo reprodutivo feminino ser visto como abjecto, como outro, como local de deficiência e doença.
Saliente-se que as conclusões da investigação de Erikson são, também, criticáveis pelo facto de nestas idades (10-12 anos) já muitas influências do meio ambiente serem seguramente responsáveis pelos comportamentos observados.
Nancy Chodorow (1978) funde as teorias psicanalítica, sociológica e feminista. A sua tese é que o cuidado das crianças, por parte das mulheres, proporciona diferentes experiências às meninas e aos meninos. A atenção prestada pelas mulheres faz com que as meninas queiram ser mães, com o que a maternidade se reproduz a si mesma; esses mesmos cuidados, nas crianças do sexo masculino, produzem meninos que dominam e desvalorizam as mulheres (Hyde, 1991, p. 49).
Esta autora defendeu, ainda, que a masculinidade se define em sentido negativo, como não feminilidade. A masculinidade supõe negar o apego maternal feminino, com uma consequente desvalorização das mulheres, pela necessidade de o homem se tornar independente da mãe (e de todas as mulheres) e de definir para o próprio uma identidade masculina.
Os rapazes, no seu processo de desenvolvimento, têm que, simultaneamente, negociar a separação de suas mães e a diferenciação de género em relação às mesmas. As raparigas, habitualmente, mantêm uma identificação de género com as suas mães, pelo que apenas têm que negociar a separação face a elas (Frommer, 2003). Os rapazes necessitariam, por isso, de um processo de des-identificação7 face à sua mãe e de uma contra-identificação com o seu pai, para estabelecer um sentimento normal e saudável de masculinidade (Greenson, 1966, 1968).
Assim, poder-se-ia afirmar que existiria como que uma “masculinização psicológica” (Ross, 1994, p. 12), análoga à androginização fetal. O homem inicia a sua vida emocional na órbita da mulher; os princípios psicológicos masculinos teriam, então, que ser introduzidos na sua experiência e na sua psique, para que eles se sintam como homens mais tarde. O pai teria, por isso, um importante papel no desenvolvimento masculino.
Desta forma, e numa conceptualização paralela à da “inveja do pénis”, há autores que falam em “inveja do útero”, isto é, que o rapaz passará por uma dolorosa ferida narcísica de nunca ser capaz de atingir as capacidades procriativas da sua mãe, e que este factor é importante na procura de uma identificação com o pai (Lax, 2003; Person 2006).
Autores como Diamond (2006) criticam esta expressão, uma vez que, se é notório o afastamento transitório, do rapaz, em relação à sua mãe, não existe aquilo a que se poderia chamar uma des-identificação. Há, isso sim, uma separação e diferenciação do objecto primário externo, o que origina um sentimento de perda que até vai facilitar a internalização de aspectos-chave da sua relação com a sua mãe. Isto não é uma des-identificação com o objecto interno materno, é antes um processo de des-simbiotização.
Saliente-se que autores houve, como Robert Stoller (1968a), que chegaram a sugerir que o estado natural para ambos os sexos era, inicialmente, a feminilidade (uma “protofeminilidade”) construída no inconsciente de ambos os sexos.
Existe, ainda, a identidade atribuída/induzida pelos objectos identificadores e assimilada pelo sujeito – a identificação imagóico-imagética (Coimbra de Matos, 1996) – e a identidade biológica, designadamente a diferenciação sexual do cérebro, por acção da testosterona, pelo terceiro mês de vida extra-uterina, no macho.
A questão da anatomia – o Eu é um Eu corporal (Freud, 1923, p. 39) – tem, seguramente, impacto significativo. Os corpos masculinos e femininos são diferentes morfológica, hormonal, endócrina e funcionalmente. E para o ser humano, no que respeita à diferença sexual, a diferença entre os corpos é percepcionada representacionalmente como uma diferença da capacidade reprodutora (Mitchell, 2004).
A noção de “género” foi introduzida por John Money8 (Money, Hampson & Hampson, 1955a), ao mesmo tempo que criou o conceito de “papel de género”. No seu trabalho com crianças com intersexo, este autor afirmava que o factor mais importante para a sensação da criança crescer sentindo-se membro de determinado sexo é a convicção dos seus pais ou cuidadores primários de que ela pertence a esse mesmo sexo.
Quanto ao papel de género, este autor define-o como “todas as coisas que uma pessoa diz ou faz, para revelar o seu estatuto como rapaz/homem ou rapariga/mulher; e é avaliado pelos maneirismos, conduta e comportamento, tópicos de conversa espontâneos, conteúdo dos sonhos e fantasias, respostas a questionários directos e indirectos ou a testes projectivos e evidência de práticas eróticas” (Money, Hampson & Hampson, 1955b; tradução nossa). A noção que a seguir foi introduzida foi a de identidade de género. Money (1973, citando um seu trabalho prévio, de 1965) define-a como “a similitude (”sameness“), a unidade e persistência da individualidade de cada um como macho (”male“) ou fêmea (”female“), ou ambivalente, em maior ou menor grau, especialmente na
Antes do termo propriamente dito, o conceito de “género” aparece com a obra de Simone de Beauvoir (1949) “O Segundo Sexo” (Roudinesco & Plon, 1997, p. 167; Dimen & Goldner, 2005, p. 105). O argumento de Beauvoir é o de que a mulher tinha sistematicamente sido representada, até então, como o outro, face a uma norma masculina; o outro, face ao homem (Malson & Nasser, 2007, p. 7).
autoconsciência e comportamento; é a experiência privada do papel de género e este é a expressão pública da identidade de género“.
Robert Stoller (1964, 1965, 1968a, 1968b), por sua vez, vai fazer a distinção entre a noção de “sexo” (especificidade biológica, anatómica) e a de “género” (entidade política e cultural, social e psicológica). Na sua contínua investigação em volta deste tema, Stoller vai concluir que a construção da identidade de género resulta da conjugação de vários factores: a anatomia e fisiologia dos órgãos genitais externos (o que inclui a aparência e as sensações da genitália externa, visível e palpável); as atitudes dos pais (ou cuidadores primários), irmãos e pares; e uma força biológica que, apesar de escondida do consciente e pré-consciente, parece providenciar alguma da energia pulsional para esta mesma identidade de género.
Nestes mesmos trabalhos, Stoller afirma que uma identidade de género nuclear (“core gender identity”), traduzível pela tomada de consciência de ser macho ou fêmea, está estabelecida de forma inalterável, no indivíduo normal, aquando da fase fálica. E que esta identidade de género nuclear se mantém inalterada ao longo da vida, ainda que a identidade de género se desenvolva e modifique constantemente.
Trabalhos posteriores deste mesmo autor trazem novidades de relevo. Por um lado, a afirmação de que a vagina é sentida em meninas muito pequenas, ainda que isso não seja de importância fulcral para a feminilidade, e a identificação de sinais de feminilidade bem anteriores às fases fálica e edipiana (Stoller, 1968a). Por outro lado, a explicitação de que a identidade de género é construída à volta do eixo central que é a identidade de género nuclear, ao qual se vão agregar traços de masculinidade e feminilidade, numa mistura característica de cada pessoa (Stoller, 1976). Isto é, que cada um, com uma identidade de género nuclear, vai incorporar traços de masculinidade e feminilidade, em simultâneo, mas em graus variáveis.
Aprofunda, ainda, o seu pensamento acerca dos factores na génese da identidade de género, alargando o leque (Stoller, 1976), afirmando que esta resulta de:
Uma força biológica (de tipo diverso, nomeadamente hormonal);
O sexo atribuído;
As atitudes parentais, particularmente da mãe, acerca do sexo daquele bebé e que influenciam as percepções deste, bem como a sua capacidade de fantasiar;
Fenómenos “biopsíquicos”. Efeitos pós-natais precoces, causados por certos padrões habituais de pegar no bebé – condicionamento, imprinting ou outras formas de aprendizagem que modificam, permanentemente, o cérebro do bebé e resultando em determinados comportamentos;
O Eu corporal. A miríade de quantidades e qualidades de sensações, especialmente a partir dos genitais, que definem as dimensões físicas do sexo de cada um, e ajudam a definir as psíquicas, assim confirmando, para o bebé, as convicções dos pais acerca do sexo do seu filho.
Como se pode perceber, a identidade de género, per se, é algo bem diferente da noção de sexo, sexualidade ou orientação sexual. A identidade de género deve, também, distinguir-se da identidade de género nuclear, que se refere ao sentimento de pertencer a um sexo biológico (“maleness”/“femaleness”). A masculinidade e a feminilidade, como é tratada na investigação posterior, é o equivalente à identidade de género não-nuclear de Stoller ou ao “papel de género” de Money, que, posteriormente, foi utilizado por diferentes investigadores. Este “papel de género” é o sentimento de masculinidade/feminilidade do indivíduo, e, ainda que fundamentalmente construído por identificações precoces, é elaborado ao longo de toda a vida (Diamond, 2006).
E como é que os rapazes e as raparigas chegam à conclusão que são, de facto, rapazes ou raparigas?
Chiland (2003, p. 4) aponta a experiência da vivência do corpo como primordial para tal acontecimento. Um bebé não experiencia o seu corpo como bissexual, mas sim como absoluto em si mesmo. Antes que o bebé consiga estabelecer uma conexão entre a sua experiência e o seu sexo/género biológico, ele já foi olhado, cuidado, encorajado ou desencorajado a fazer “um sem-número” de coisas. Os bebés são moldados pelos seus pais e “bombardeados” com mensagens conscientes ou inconscientes que depois têm que interpretar. Os pais dão reforços positivos e negativos a padrões de comportamentos que consideram masculinos ou femininos. Só mais tarde a criança se torna capaz de estabelecer a conexão entre a sua experiência e a categorização em “rapaz” ou “rapariga”. Apesar de as crianças descobrirem que existem dois tipos de genitais externos entre os 18 e os 24 meses de idade (Roiphe & Galenson, 1981, citados por Chiland, 2003, p. 5), a distinção entre rapaz e rapariga vem de fora do self.
É a identificação com as características masculinas e femininas de ambas as figuras parentais, bem como a identificação com o que a sociedade “indica”, como um todo, que determinam o que é masculino ou feminino, segundo Chiland (2003, p. 6); em síntese, e principalmente, as identificações que os cuidadores fazem com um(a) bebé singular.
A noção da diferença sexual é, também, posta em causa por diversos autores mais recentes, que propõem uma perspectiva pós-moderna da construção da identidade de género (Gediman, 2005). Para autores como Benjamin (1988, 1995), Butler (1993), Chodorow (1994), Coates (1990) ou Harris (1991), por exemplo, nenhuma das teorizações anteriores (monismo fálico e diferença sexual) toma em linha de conta a individualidade do ser humano9. Se é certo que o monismo sexual freudiano define a diferença de sexos e o género psíquico pelo facto de existir, ou não, um pénis, não é menos verdade que a teoria da diferença sexual presume que uma determinada anatomia sexual origina, ou de alguma forma produz, uma determinada psique de género (Dimen & Goldner, 2005, p. 110). No fundo, salientam que quer os defensores do monismo fálico quer os defensores da feminilidade primária se focam, primordialmente, na genitália externa. A feminilidade psicológica da teoria da feminilidade primária seria, assim, uma espécie de contraponto à ênfase no pénis da teoria do monismo fálico (Chodorow, 2005).
Advogam que, da mesma forma que não existe um género inato, também não existem uma feminilidade ou masculinidade primárias. Tais conceptualizações não passariam de falsos binários. Por um lado, porque o género é, então, sempre e apenas, uma construção política, social e psicológica. Por outro lado, porque masculino e feminino são uma polaridade de géneros que existe em qualquer indivíduo, seja qual for o seu sexo anatómico ou a sua identidade de género nuclear (Fogel, 2006).
Nancy Chodorow (2004), um dos expoentes máximos desta corrente, afirma que um indivíduo usa inúmeros componentes para formar o seu género e sexualidade pessoais.
Os primeiros desses componentes são, para esta autora, as experiências corporais. A observação, a excitação, a comparação com os outros e as alterações na configuração corporal – a identificação idiomórfica (Coimbra de Matos, 1996). Desde o nascimento existem transmissões,
Ainda que alguns autores da segunda vaga feminista psicanalítica proponham releituras de textos contemporâneos de Freud, como o de Lampl-de Groot (1928), onde encontram, já, raízes deste pensamento pós-moderno (Harris, 2005a).
subtis e inconscientes, de afectos, sentimentos e fantasias da mãe para o bebé. E todo este conjunto de vivências vai ajudar a formar as precoces experiências corporais, de sentir-se (o) corpo, por parte do bebé (a identificação imagóico-imagética).
Um segundo componente tem a ver com as relações de objecto, ou seja, com o mundo interno de fantasias inconscientes sobre o próprio e o outro (seja ele a mãe, o pai ou os irmãos), objectos totais ou parciais, criadas através de uma história de fantasias projectivas e introjectivas. Da mesma forma que com as experiências corporais, o mundo interno que ajuda a criar o género inicia-se com o nascimento, bem antes da observação e da capacidade de catalogação de diferença genital.
Dois outros componentes de impacto significativo seriam a contribuição da linguagem e da cultura, e a tonalidade afectiva.
A todos estes somar-se-á a criação, individual, de uma “animação prevalente de género”, constelação de fantasias, inconscientes e conscientes, que agrupa estes diferentes componentes numa tonalidade afectiva específica e numa organização destinada a lidar com ansiedades e defesas específicas a cada um.
As críticas ao monismo freudiano, ainda que acertadas, conduziram, não poucas vezes, ao abandono de um dos seus mais interessantes e subversivos insights: a sua teoria de que as identidades sexuais são formadas, não como uma consequência inevitável do sexo biológico, mas sim pela influência da história pessoal e cultural dos indivíduos (Mitchell, 1974, citada por Maguire, 1995)10. Apesar dos diferentes pontos de vista, parece consensual, no momento actual, afirmar que a criança não nasce com uma identidade de género. As características que significativamente contribuem para a sua construção desenvolvem-se a partir de introjecções e identificações com os cuidadores, sejam eles a mãe, o pai, ou outros (Benedek, 1976), mas tal não é tudo, como observado anteriormente. As diferenças associadas ao género são também explicadas por uma multiplicidade de factores: diferenças biológicas, fantasmas originários, fenómenos de aprendizagem, relações de poder, socialização, mitos fecundos e consciência do corpo (Braconnier, 1996, p. 123).
A própria definição de género, no campo da Psicologia Social, é indissociável do meio envolvente: “género é o significado social do sexo” (Burr, 1998, p. 11).
Quanto à importância da sociedade na determinação do que é masculino ou feminino, isto é, no que determina a masculinidade e a feminilidade, está desde longa data evidenciada nos trabalhos de investigação antropológica de Margaret Mead (1948, citada por Chiland, 2004), publicados na década de quarenta do século passado. Nas suas investigações, Mead mostrou que cada sociedade tem um conceito de como homens e mulheres devem sentir e comportar-se, e de como é através do processo educativo e outros procedimentos envolvidos no cuidar do crescimento das crianças que estas se tornam nos homens e nas mulheres que a sociedade espera. Sendo o género vivido, simultaneamente, como público e privado (Harris, 2005b, pp. 101-102), é evidente a importância das influências socioculturais na construção das identidades de género, na teorização psicanalítica actual.
Butler (1990, p. 5) afirma que o género não está sempre coerente ou consistentemente constituído em diferentes contextos culturais, devido à intersecção da noção de género com identidades rácicas, étnicas, sexuais, regionais ou, mesmo, discursivas. Maguire (1995, p. 1) salienta que o significado inconsciente que cada indivíduo dá ao seu sexo biológico nunca é o resultado de meras diferenças anatómicas, mas sim consequência de uma complexa interacção de factores pessoais e culturais. Richard Boothby (2005, p. 143) afirma que é inquestionável que a masculinidade e a feminilidade são, em larga medida, modeladas por forças culturais e sociais, acrescentando que a ênfase do ponto de vista psicanalítico deve ser colocada na sugestão de que essas forças se erigem em fundações profundas de predisposições psicológicas.
O estudo das diferenças entre os géneros é, indubitavelmente, controverso. Enquanto alguns estudiosos exageram as diferenças, outros, pelo contrário, minimizam-nas. Richard Lippa (2005, pp. 44-45) faz uma revisão meta-analítica dos estudos que quantificam as diferenças observadas entre os sexos, nas mais diversas áreas. Por exemplo, homens e mulheres diferem substancialmente em traços de personalidade relacionados com a orientação para a ternura, em vários comportamentos não verbais, em algumas preferências ocupacionais, em orientação para as pessoas versus orientação para os objectos, em algumas formas de comportamentos sexuais e atitudes, em alguns tipos de preferências de pares, em pelo menos uma capacidade cognitiva (rotação mental) e em muitas formas de conhecimento geral. A estas somam-se outras diferenças, como a da prevalência de várias doenças mentais e de problemas comportamentais, que varia significativamente consoante o sexo em questão
(nomeadamente a depressão, a perturbação da personalidade anti-social ou as perturbações da linguagem e da leitura).
Algumas diferenças são visíveis desde a infância, ainda que na maioria dos comportamentos infantis as semelhanças entre os géneros sejam a regra (Hyde, 1991, p. 141).
Numa recente revisão das investigações do desenvolvimento infantil, nas perturbações de género, Susan Coates (2006, pp. 104-106) afirma que a construção do sentimento de género, na criança, se inicia na segunda metade do primeiro ano de vida. Entre os seis e os doze meses, os bebés tendem a olhar mais para imagens de indivíduos do mesmo sexo do que para imagens de indivíduos do outro sexo. Pelos dois anos de idade, quando se lhes apresentam bonecos(as) anatomicamente correctos(as), as crianças conseguem identificar aquele(a) com que se assemelham. Todavia, nesta idade, a construção das categorias “rapaz” e “rapariga” é altamente concreta e determinada por características exteriores como as roupas e o penteado, e não pelo sexo anatómico. Pelos dois anos de idade, com a aquisição da linguagem, as crianças podem utilizar a categoria verbal “rapaz” ou “rapariga” correctamente, quando relacionada com adultos. Meio ano depois já o conseguem fazer em relação aos seus pares e a si próprios. Note-se, contudo, que aos 5 anos de idade mais de metade das crianças ainda não percebeu o importante papel da genitália no estabelecimento da categorização sexual. Só por volta dos 6 a 7 anos de idade é que quase todas as crianças se apercebem que essa categorização é baseada na anatomia, ainda que pelos 3 a 4 anos de idade as crianças já possuam a noção do seu papel de sexo esperado (Maccoby, 1998, citada por Knafo, Iervolino & Plomin, 2005).
O desejo de ser de ambos os sexos não é raro em crianças de 2-3 anos de idade, sendo relativamente frequente co-existirem fantasias de bebés a crescer na barriga e possuir um pénis. Na generalidade, em crianças muito pequenas, a inveja do pénis não é mais comum nas raparigas do que o desejo de ter seios ou de dar à luz, por parte dos rapazes. Muitas crianças experienciam algum grau de sentimento de perda, quando são confrontados com as suas limitações corporais.
Em idade pré-escolar, a categorização sexual é muito fluida, sem constância ou estabilidade, muito baseada na aparência externa, podendo mudar com alterações do penteado ou da roupa. Uma vez atingida a capacidade de, com segurança, fazer essa categorização própria e dos seus pares, é observada uma segregação de género. Os grupos do mesmo
sexo tornam-se poderosos por volta dos 3-4 anos de idade e reforçam a categorização sexual.
Salienta-se, ainda, que a construção, pela criança, da sua identidade de género é um processo lento e gradual, firmemente enraizado nas relações de vinculação da criança, pelo que vai reflectir a história dessas relações e os seus conflitos, incluindo os conflitos geracionais.
Num contexto cultural ocidental, podemos, de alguma forma, resumir os estereótipos de masculinidade e feminilidade, como Fogel (2006) os descreve: uma polaridade bissexual em que o masculino é caracterizado como virado para fora e o feminino como virado para dentro; masculino, por limites, entidades, formas e definições precisas; feminino, como limites, entidades, formas e definições com características fluidas e ambíguas; masculino, como penetração; feminino, como receptividade e contenção; masculino, como desconstrução e cortar a direito; feminino, como construção, criatividade e síntese; masculino, como diferenciação e separação; feminino, como reconhecimento, integração e unificação; masculino, como objectividade e pensamento; feminino, como subjectividade e sentimento; masculino, como representação; feminino, como espaço; masculino, como acção; feminino, como ser.
Richard Boothby (2005, p. 143), por seu lado, afirma que cada ser humano, homem ou mulher, é um compósito psicológico de elementos masculinos e femininos. Apresenta, contudo, características comummente relacionadas com cada um dos sexos. A personalidade masculina, para este autor, é caracterizada por uma “couraça de carácter” mais rígida e defensiva, que separa as funções executivas do Eu de uma camada mais profunda onde se encontram as necessidades emocionais e sensitivas. Esta couraça tem como consequência uma tendência para a adopção de uma postura agressiva face a outrem, que é objectificado. A personalidade feminina, pelo contrário, apresenta características mais indefinidas, flexíveis e adaptáveis, que conduzem a uma tendência para incluir o outro e, mais ainda, para se dar ao outro, muitas vezes em detrimento próprio.
Em suma, não existem evidências de que o estado de género natural (ou original) seja o masculino, como proposto por Freud, o feminino, como proposto por Stoller, ou inato, como proposto por Horney e Jones. Caracteristicamente, a identidade de género nuclear deriva do sexo designado no nascimento e com o que se foi educado. A identidade de género nuclear é não conflitual e é cognitiva e vivencialmente construída. O papel de género, com algumas excepções, é formado a partir
da identidade sexual, estrutura corporal, hormonas, Eu, socialização e relações de objecto com o sexo oposto. Ao contrário da identidade de género nuclear, o papel de género é um fenómeno psicológico, podendo, por isso, ser conflitual (Person, 2006).
De acordo com Butler (1990), o género cria a própria subjectividade, uma vez que é a aquisição de género que torna o indivíduo inteligível. E, embora o género não seja uma identidade ou a essência no cerne de uma pessoa, ele é, ainda, uma experiência essencial que vem a constituir uma identidade (Dimen & Goldner, 2005, p. 107).
SUMMARY: The Freudian theory of psychosexual development is based on an exclusively masculine model. Early, however, other complimentary theories were proposed, and even some contrary to the Freudian theory.
Karen Horney is one of the first authors to emphasize the male bias of the Freudian theory. It is she, who along with Jones and Klein, describes for the first time the existence of a primary femininity, a notion that, somehow, is the basis of the “sexual difference” proposed by the authors that make up the so-called first feminist wave in psychoanalysis.
The existence of a primary masculinity or femininity is questioned by the authors of the second feminist wave as well as by the post-modern psychoanalytic authors: Benjamin, Coates, Harris, Butler, Chodorow, among many others. This line of thought, although with many differences, points to the fact that the theory of sexual difference is, in fact, the confirmation of the anatomy as a destiny, not taking into account the individuality of each human being.
Still in this article, we review the evolution of concepts of gender, identity of gender and role of gender, created by Money and Stoller, with the help of the most relevant authors in the psychoanalytical thinking.
KEYWORDS: Phallic monism; Sexual difference; Feminism; Femininity; Masculinity; Gender.