O título que escolhi para esta breve nota, Fluctuat Nec Mergitur, é a divisa latina que está integrada nas armas da cidade de Paris. Poderá traduzir-se por “agitada pelas vagas, não se afunda”. Quando em 1914 Freud escreveu “Para a História do Movimento Psicanalítico”, escolheu esta divisa como epígrafe para o seu trabalho (Freud, 1914, p. 7).
Esta escolha é muito significativa do estado de espírito do autor ao pensar na história do movimento que criara, e nas dificuldades e incompreensões que tinha encontrado e continuava a encontrar. Estava bem consciente da novidade, da complexidade e da importância da proposta que apresentava ao mundo científico. Mas, apesar dos conflitos que muitas vezes perturbavam o caminho da sua invenção, estava certo de que ela não deixaria de fazer o seu caminho.
Tinha definido um método de investigação do fenómeno humano que permitia construir uma teoria do funcionamento mental. O próprio processo de investigação deveria trazer a cura dos problemas neuróticos. Tendo partido, como se sabe, da investigação laboratorial, esse novo método abria-se decididamente à causalidade psíquica, de uma forma que parecia chocante para os meios científicos da época. E, ainda hoje, creio que em certos meios há a tendência para desvalorizar este estudo da “mente”, tendendo a considerar só como interessante e cientificamente válido o estudo do “cérebro”. Parece que, para alguns, reduzir o mental ao neurológico representaria um desejável alívio. Alívio de quê? A pergunta impõe-se, mas a resposta seria excessivamente longa para este momento. Deixá-la-ei à elaboração de cada um e direi, apenas, que essa ideia me parece esconder a esperança ilusória de se poder assim resolver o problema da dor mental.
Psicanalista. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Para se compreender a ousadia intelectual de Freud, lembrarei que no século XIX se tinha desenvolvido um conceito de doença que ligava os sintomas a uma lesão orgânica, sendo os sintomas considerados como sinal dessa lesão. Freud trabalhou em Viena no laboratório de Brücke, onde predominava esta maneira de pensar. Os investigadores da época procuravam identificar as bases físico-químicas dos fenómenos da vida, considerando que aí se poderiam encontrar as soluções procuradas, já que as modificações fisiológicas seriam a causa dos elementos psicológicos. Como se compreende, esta concepção levava à subordinação do “mental” ao funcionamento orgânico e fisiológico.
Foi lenta e dolorosa a elaboração pessoal que levou Freud à descoberta do seu método e à elaboração da sua teoria. Foi também um processo solitário que acentuou a percepção de que se tratava de uma conquista científica pessoal.
De todo este processo deixou-nos claras indicações nos seus vários escritos.
Logo desde o início de “Para a História do Movimento Psicanalítico” (Freud, 1914, p. 7) quer deixar clara a sua posição:
“A psicanálise é uma criação minha. Durante dez anos eu fui a única pessoa que se preocupou com ela e todo o desagrado que o novo fenómeno provocou nos meus contemporâneos foi manifestado sob a forma de críticas à minha pessoa. Embora desde há muito tempo eu já não seja o único psicanalista, considero justificado afirmar que, mesmo hoje, ninguém pode saber melhor do que eu o que é a psicanálise, de que modo ela difere das outras maneiras de investigar a vida da mente, e dizer com precisão o que é que se pode chamar psicanálise e o que se deveria, preferivelmente, designar com outro termo” (Freud, 1914, p. 7).
Mais tarde, no seu estudo autobiográfico, acentua a mesma ideia: “Durante mais de dez anos a partir da minha separação de Breuer não tive seguidores. Estive completamente isolado. Em Viena eu era ignorado. No estrangeiro ninguém reparava em mim. À minha Interpretação dos Sonhos, publicada em 1900, quase nenhuma atenção foi dada pelas publicações técnicas” (Freud, 1925, p. 48).
Meltzer descreve-nos de forma lapidar o choque que se verificou: “Partindo do concreto, e com a sua extraordinária abertura de espírito e abordagem não moralística da sexualidade, cortou com a comunidade e tornou-se um marginalizado, que propunha uma teoria da mente como
um fenómeno evolutivo, cujas unidades eram pensamentos e não neurónios, cujas energias eram impulsos com finalidades que procuravam objectos, cujos deslocamentos produziam ansiedades, cujos traumas não podiam ser apreendidos descritivamente, mas só em relação a um estado da mente momentâneo” (Meltzer, 1978, p. 11).
Ao longo da vida, foi sempre clarificando as suas posições e reivindicando o direito de defender a qualidade da sua concepção como um todo, para o que se tornava necessário garantir também a sua integridade. Assim, em 1923, no primeiro dos dois artigos que escreveu sobre a psicanálise, (Freud, 1923, p. 235), esclarece bem a evolução do seu pensamento, referindo o seu trabalho com Charcot, em Paris, e depois conjuntamente com Breuer, e que levou à publicação dos “Estudos sobre a Histeria”, e à descrição do procedimento terapêutico então designado como “catártico”. Isto parece-lhe necessário para descrever sem qualquer possibilidade de equívoco aquilo a que chamou a transição para a psicanálise e o abandono da hipnose (Freud, 1923, p. 237). A utilização da associação livre e o estabelecimento daquilo a que chamou a regra fundamental, levou à criação da psicanálise como “arte interpretativa” (Freud, 1923, p. 239).
Na descrição deste percurso criativo menciona, como não podia deixar de ser, a sua obra fundamental sobre a interpretação dos sonhos, fazendo a seguinte afirmação fundamental para a compreensão da originalidade da psicanálise: “A importância teórica da conformidade entre os sonhos e os sintomas é esclarecedora. Uma vez que os sonhos não são fenómenos patológicos, o facto mostra que os mecanismos mentais que produzem os sintomas da doença estão igualmente presentes na vida mental normal, que a mesma lei uniforme abrange quer o normal quer o anormal, e que as descobertas produzidas pela investigação sobre os casos de neuroses e psicoses não podem deixar de ter significado para a nossa compreensão de uma mente saudável” (Freud, 1923, p. 242).
Continuando a enumerar os pontos importantes da sua descoberta, fala, depois, da importância do simbolismo, do significado etiológico da vida sexual, do desenvolvimento da libido, do processo de procura do objecto e do complexo de Édipo e do desenvolvimento bifásico da vida sexual.
Mais adiante, resumindo, define os pontos fundamentais em que assenta a psicanálise. São eles “o reconhecimento de que há processos mentais inconscientes, a aceitação da teoria da resistência e do recalcamento, a devida avaliação da importância da sexualidade e do complexo de Édipo” (Freud, 1923, p. 247).
Faço estas breves referências que todos conhecem para documentar a preocupação de Freud com a definição clara da sua descoberta e com a defesa da sua integridade. Ao trabalhar com o inconsciente dinâmico ele tinha bem consciência da acção fragmentadora que a resistência exerce sobre a integridade da teoria e sobre a concepção da técnica. Conhecia bem a sofisticação e a complexidade do conjunto que eu descreveria como “teoria da prática e prática da teoria” e sabia que era precisa grande coragem para aceitar e manter a complexidade desse conjunto. Estava nele bem viva a memória do longo e doloroso trajecto que tivera de fazer para chegar ao ponto em que se encontrava. E desse trajecto fazia parte, certamente com extraordinária intensidade, a sua auto-análise, experiência íntima e discreta, mas com certeza decisiva.
Depois de ultrapassado o período da sua solidão, sentiu as dificuldades que a sua descoberta representava para muitos dos que se lhe tinham juntado, e foi-se confrontando com o aparecimento da dissidência de alguns, que pretendiam ter uma concepção diferente das coisas. De um modo geral, penso que as dissidências em psicanálise vão sempre no sentido de uma simplificação, afastando os pontos pessoalmente mais difíceis e pretendendo dar atenção apenas a alguns aspectos.
Não há dúvida de que estes conflitos foram extremamente dolorosos para Freud, ao ponto de chegar a escrever que o tempo em que estava só podia, afinal, ser visto como um tempo áureo.
E aqui surge com gravidade o problema de garantir a sobrevivência da psicanálise como tal. Reconhecendo honestamente as dúvidas que é permitido levantar quanto ao valor do seu trabalho, mostra-se, no entanto, convencido de que foi vítima de grande incompreensão. Diz-nos: “mesmo hoje, é-me evidentemente impossível prever qual o juízo que a posteridade irá dar sobre o valor da psicanálise para a psiquiatria, a psicologia ou as ciências da mente em geral. Mas imagino que quando se escrever a história da fase que nós atravessámos, a ciência alemã não terá razões para se orgulhar daqueles que então a representavam” (Freud, 1925, p. 49).
É toda esta ordem de preocupações que está na base da criação da Associação Psicanalítica Internacional. As críticas dirigidas contra a psicanálise levaram os analistas a procurar uma maior proximidade entre si. “No segundo Congresso, que se realizou em Nuremberga em 1910, constituíram-se, de acordo com uma proposta de Ferenczi, numa Associação Psicanalítica Internacional, formada por um certo número de sociedades locais mas sob um Presidente comum” (Freud, 1925, p. 50).
Apesar das esperanças que tinham acompanhado esta decisão, logo pouco tempo depois “nos anos de 1911-13 deram-se dois movimentos dissidentes da psicanálise, conduzidos por dois homens que anteriormente tinham tido um papel importante na jovem ciência, Alfred Adler e C. G. Jung. Ambos os movimentos pareciam muito ameaçadores e rapidamente conseguiram um grande número de aderentes. Mas a sua força estava não no seu próprio conteúdo, mas na tentação que ofereciam de se libertar daquilo que era sentido como sendo as repugnantes concepções da psicanálise, mesmo que o material em que se baseavam não fosse posto em dúvida. Jung tentou dar aos factos da análise uma nova interpretação, de carácter abstracto, impessoal e não histórico, procurando assim evitar o reconhecimento da importância da sexualidade infantil e do complexo de Édipo, bem como da necessidade de qualquer análise da infância. Adler parecia afastar-se ainda mais da psicanálise. Negava inteiramente a importância da sexualidade e fazia derivar a neurose e a formação do carácter apenas do desejo do homem pelo poder e da necessidade de compensar as suas inferioridades constitucionais” (Freud, 1925, p. 53).
As dissidências são uma constante da história da psicanálise. A preocupação de Freud ao fundar a IPA não foi, obviamente, impedir o progresso científico de quem quer que fosse. Desejava apenas, convicto do valor da sua teoria e da sua prática, preservar o nome e a integridade da sua construção, para que não fosse dado o nome de psicanálise a outras coisas. Cada um é livre de a aceitar ou não, mas espera-se que, no caso de escolher outro caminho, use outro nome para designar aquilo que faz.
Freud entendia que a psicanálise só fazia sentido como um todo, e que não se lhe podia tirar uma das suas partes sem desvirtuar o sentido do conjunto.
A este propósito é muito esclarecedor deste sentimento um artigo já antigo de F. Pasche, intitulado justamente Le Génie de Freud (Pasche, 1956), em que é defendido cuidadosamente um ponto de vista semelhante. Mais de meio século passado sobre a altura em que foi escrito, é um testemunho importante para compreendemos como a coisa foi sentida no passado.
Esta insistência na herança de Freud e no estudo da sua obra poderá ser sentida como uma certa forma de culto da personalidade ou ainda como uma “freudologia saudosista”. Justificava-se, a este propósito, um esclarecimento desenvolvido, que não me é possível fazer aqui. Mas remeto para o primeiro capítulo do livro de Meltzer acima citado,
intitulado Why History?, que aborda justamente esta questão e a esclarece de um modo que considero convincente (Meltzer, 1978, p. 4 ff.). Faço algumas breves referências ao seu conteúdo.
A primeira razão para se manter o estudo de Freud é vista na própria essência da ciência, ou seja, no facto de que ela é verdadeiramente racional na sua história e portanto formada a partir de um percurso de necessidade lógica. O desenvolvimento da teoria psicanalítica faz-se “através de uma cadeia de proposições logicamente necessárias” (p. 4).
A segunda razão, de acordo com Meltzer, para estudar a obra de Freud é que ele nos deixou uma documentação do seu pensamento e experiência absolutamente excepcionais.
Para além destas razões, “a psicanálise ensina-nos que o reconhecimento do passado como alicerce do presente é o único meio de tornar o conceito de ‘futuro’ sujeito à razão. Faltando este reconhecimento da continuidade, o conceito de ‘futuro’ perde significado e torna-se apenas equiparado a ‘desejo’ ou ‘intenção’. Do mesmo modo, cada estudante de psicanálise deve atravessar, na sua ontogenia, a história deste tipo de ciência que é a nossa. Cada um de nós fez a sua formação num ambiente de cujos valores, métodos e aspirações precisamos para irmos, a pouco e pouco, conquistando a nossa liberdade, de modo a aprender, utilizar e fazer descobertas através do método psicanalítico” (Meltzer, 1978, p. 8).
Muitas têm sido as contribuições valiosas trazidas à psicanálise pelos continuadores de Freud, que não se limitaram a repetir o que o Mestre dissera, contribuições que foram sendo integradas num património comum que evoluiu e continua a crescer. Apesar das diferenças reconhece-se nelas uma base comum, como acontece com os antepassados, fazendo com que os vários ramos que foram crescendo sejam sentidos como pertencendo a uma mesma família.
Considero que o essencial da obra de Freud continua a ser a referência importante, mantendo a capacidade de ser fonte de inspiração para prosseguir a caminhada comum. Como exemplo significativo entre tantos outros possíveis, refiro o que nos diz Christopher Bollas (2007) sobre a importância de respeitar e promover a associação livre do paciente, no seu livro “The Freudian Moment”. Conceito genuinamente freudiano que continua a ser elemento fundamental do método psicanalítico.
A IPA completou cem anos de existência em 2010. Durante este século de vida teve que se confrontar com inúmeras dificuldades, mas soube prosseguir o seu caminho sem soçobrar. Apesar de muitas dissidências, manteve-se como ponto de referência e força de agregação da comunidade
psicanalítica. E não obstante as críticas que se lhe possam fazer, devemos reconhecer que conseguiu preservar o essencial do depósito que lhe foi confiado e que a evolução do dinamismo iniciado por Freud teria sido bem diferente se ela não existisse.
Para assinalar um século de existência, a IPA pediu a cada uma das sociedades que a compõem um relato da sua própria história. O conjunto vai ser publicado em volume que será divulgado dentro em breve.
Dezembro de 2010.