A relação amorosa é encarada como uma relação de continente/conteúdo mútuo, onde é possível, a cada elemento da relação, a projecção e contenção de aspectos não aceites do self, que ao serem contidos na relação, tornam possível, num movimento de taking-back, a sua reintegração no mundo interno, facilitando assim o desenvolvimento.
No entanto, quando a idealização é muito arcaica e baseada em urgências insatisfeitas e desejos infantis não concretizados, motiva o estabelecimento de relações baseadas num tudo ou nada em que se procura uma completude paradisíaca, ilusoriamente sustentada pela ideia de perfeição. Nestas situações, cada um dos elementos apenas é um receptáculo de projecções, não se estabelecendo uma relação com um outro, mas apenas com as partes indesejadas e inaceitáveis do próprio self, agora colocadas no outro, o qual só poderá responder retaliatoriamente com contraprojecções. Desenvolvem-se relações de casal falso self, em que cada um, desconhecido para o outro, baseia a sua relação em ataques contínuos a tudo o que seja suficientemente bom porque será sempre insuficiente. Ambos desconfortáveis na sua pele psíquica, ficam incapazes de desenvolver uma relação ela própria enquanto envelope psíquico.
Hoje digo que se eu escrever, um dia, um livro sobre o amor, terá 100 páginas, 99 das quais em branco e na última apenas escreverei: a grande vantagem do Amor é que pouco se sabe falar sobre ele e, como tal, andamos sempre dele à procura!
Especialista em Psicologia Clínica. Assistente na Universidade de Évora. Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 11 de Novembro de 2009. Revisão recebida em 12 de Janeiro de 2010. Aceite para publicação em 18 de Janeiro de 2010.
A procura de um objecto de amor parece ser uma característica da condição humana, sendo uma relação amorosa a que mais poderá contribuir para um desenvolvimento do indivíduo, uma vez que o amor fortalece o self e este, fortalecido, é capaz de estabelecer e desenvolver relações verdadeiras e com profundidade. No entanto, muitas pessoas vivem constantemente numa indecisão sobre se mais valerá só que mal acompanhado ou mais vale mal acompanhado do que só.
O amor é uma de entre várias emoções intensas, mas a de mais difícil definição. Somos capazes de saber porque sentimos ódio, ciúmes ou inveja, mas incapazes de explicar porque sentimos amor por alguém. No entanto, esta deve ser a emoção mais transformadora do mundo interno, criando uma necessidade que se mantém ao longo da vida.
A predisposição psicológica para amar está relacionada com a intimidade vivida na relação diádica, originária no estado de dependência da criança, com a idealização dos pais, culminando no complexo de Édipo (Person, 1991, 2007). Assim, de acordo com Rusczynski (2006), as experiências relacionais da infância serão reactivadas em situação de relação amorosa.
Já Loewald (citado por Rosbrow-Reich, 1988) se referira à constante interpenetração entre a realidade presente e passada e a experiência consciente e inconsciente, considerando que a ligação vivida na relação mãe-bebé se mantém ao longo da vida como protótipo da intimidade. Também Soufre & Waters referem que é a experiência de relação precoce que se mantém ao longo do desenvolvimento, a internalização dessa experiência determina que as novas relações sejam procuradas tendo como referência as mais antigas. Na mesma linha, Allingham (citado por Rusckzinky, 2005) refere que, à medida que nos vamos desenvolvendo, nunca esquecemos os modos de funcionamento que aprendemos precocemente enquanto crianças, pelo que mesmo os indivíduos maduros possuem, inconscientemente, modos de funcionamento e de relação com o outro que se reportam à infância.
Mas será em face dessas relações experimentadas que o Eu deverá desempenhar uma função integradora, no sentido de possibilitar a reunião dessas experiências interiorizadas de relação com os vários elementos da família, sendo que quanto mais integradora for, maior a possibilidade de um amor enriquecedor (Bergman, 1995).
Inicialmente, na obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade , Freud deu ênfase aos aspectos da relação amorosa que estão
relacionados com a repetição. Para o autor, encontrar um objeto era apenas reencontrá-lo, e teria a ver com o reviver da excitação e felicidade envolvidas no desejo edipiano proibido. As pessoas escolheriam o objecto de amor, inconscientemente, e essa escolha estaria relacionada com o amor pelo pai do sexo oposto – o primeiro objecto de amor heterossexual.
É ainda nesta obra que Freud, ao se referir aos homossexuais, revela a importância do papel da identificação no amor, ao considerar que os homossexuais se identificam com uma mulher e se tomam a eles próprios como objecto sexual.
Mais tarde, em 1910, em Cinco lições de Psicanálise, Freud refere:
“É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objecto de primeira escolha amorosa. Porém, a libido não permanece fixa neste primeiro objecto: posteriormente apenas o tomará como modelo, passando dele para outras pessoas estranhas (…).” (p. 58)
Salientando que, ainda que seja natural ter os pais como modelos, fará parte do desenvolvimento normal uma transição para outros objectos novos e que possam acrescentar algo ao desenvolvimento. Por outro lado, acrescentamos que ainda que a escolha remeta para o primeiro objecto de amor, a pessoa será livre para escolher dentro de uma série de traços desse objecto da infância, não tendo que escolher precisamente os que são responsáveis por uma relação menos saudável.
Como refere Bergmann (1987), quando a ligação à figura parental é muito forte, a fixação resultará numa neurose, mas quando é suficiente, ela abrirá o caminho para o amor adulto.
Consideramos que o que se procura não é um amor igual ao vivido com os pais, mas sim um novo amor, que seja promotor de mudanças e que responda a exigências actuais do amor adulto. Contudo, muitas vezes o que é procurado, inconscientemente, não é um objecto sexual com o qual se partilha uma sexualidade madura e revigorante, mas sim um objecto parental, na medida em que são sentidas falhas que impedem o crescimento e o atingir da sexualidade madura. Destarte, são relações amorosas que se formam sob o desígnio da parentalidade e não da sexualidade.
Nesta linha de pensamento, Cleavely (2005) refere que muitos dos casais se unem para fugir dos pais e de experiências passadas, descobrindo, contudo, que escolheram parceiros com os quais repetem essas experiências relacionais precoces, sendo a qualidade dominante da sua interacção marital baseada na dinâmica relacional pais-filhos outrora vivida.
A sexualidade madura implica que se possa escolher como companheiro(a) um objecto distinto dos objectos parentais com o qual se possa
estabelecer uma relação de complementaridade e não somente de completação.
Person (2007) refere, na mesma linha de Freud, que o amor implica um reencontro, mas é também a criação de uma nova descoberta, que implica que, mais do que restaurar, promova uma mudança no self. Assim, poderá implicar regressão, mas também progressão, no sentido em que vai possibilitando a maturação do self, constituindo-se como uma experiência mutativa, um acto psicológico profundo e complexo, cujo poder é interno e, ao constituir-se como agente de mudança, conduz os amantes no sentido da criação de envolvimentos diferentes dos antigos.
Na mesma linha, Garza-Guerrero (2000) refere-se à ideia e uma co-construção de experiências libidinais e agressivas, no sentido de uma nova realidade construída em conjunto e não apenas uma mera redescoberta. Deste modo, as relações maduras partem do passado e de necessidades internas, mas transcendem a compulsão a repetir, requerendo muitas vezes a renúncia a muitos aspectos do passado (Garza-Guerrero, 2000).
É certo que já Freud demonstrara entender a existência de uma continuidade na vida emocional que vai da infância à vida adulta, mas que é suposto que esta vá sofrendo modificações benignas ao longo do processo de desenvolvimento.
As memórias e representações psíquicas das relações primárias, especialmente as de influência contínua, vão sendo modificadas e regravadas ao longo do desenvolvimento pela junção de novas experiências perceptivas e afectivas associadas com as do passado. No entanto, são estas influências do passado genético e histórico que vão explicar como é que os indivíduos mantêm a sua integridade ao mesmo tempo que mudam.
De acordo com Ross , o que se procura no amor maduro não é a fusão simbiótica (descrita por Mahler) com o objecto materno ou o reviver da relação com o objecto edipiano, mas sim a vivência de uma união entre duas pessoas definidas e sexualmente diferenciadas, que seja de complementação do self, inevitavelmente incompleto, e que possibilite o seu desenvolvimento.
Contudo, Bergmann (, ) considera que, quando as experiências relacionais com os pais foram muito traumáticas, haverá tendência para repeti-las na relação amorosa. Quanto mais patológicas foram as relações da infância, maior a tendência para procurar relações também elas patológicas, muitas vezes na procura de uma reparação, de se obter o que não se encontrou na relação com esses objetos e que originou uma falha. Bergmann (1982) refere:
“Na vida real muitos pacientes traumatizados apaixonam-se, não pela pessoa que os faz lembrar a si próprios ou aos seus pais, mas pela pessoa face à qual têm a esperança que poderá curar a ferida que os pais infligiram. Apaixonar-se pelo salvador, ou pela pessoa que salvaram é um tema frequente no amor românico. É também uma fonte de amor transferencial” (p. 107). Deveria servir para a pessoa crescer.
O autor cita como primeiro inimigo do amor a impossibilidade de resolver adequadamente o vínculo precoce a uma ou às duas figuras parentais (Bergmann, 1995).
De facto, o intenso desejo evocado pela paixão invoca sempre aspectos das experiências mais precoces. A intensidade da relação amorosa possibilita uma interacção entre duas pessoas a um nível de tal modo profundo que torna possível o contacto, ainda que inconsciente, com experiências relacionais da infância, quer tenham elas sido boas quer más. A natureza da paixão ao desencadear dependência face ao objecto vai sempre evocar a história de dependência face aos outros essenciais (Mitchell, 2002). Acrescendo que todos temos certa tendência para reproduzir as misérias com alguma consistência.
Defendemos que, quanto maiores as privações sentidas na infância, maior dificuldade haverá em abdicar de uma esperança omnipotente de que a relação amorosa perfeita possa compensar todas as falhas originárias nessa fase. Assim sendo, muitas vezes, para que seja possível um comprometimento numa relação profunda, é necessário que sejam resolvidos os conflitos da infância. Mas, como refere Colman (2005), a relação de casal implica que seja possível uma contenção dos aspectos de cada um não modificados – mas eventualmente modificáveis – e os não modificáveis, assim como as insatisfações e os desapontamentos que deverão não só ser contidos como desejavelmente satisfeitos e elaborados (retoma de desenvolvimento suspenso e nova relação sanígena e desenvolutiva; Matos, 2002). Esta contenção está dependente da conjugação de cada um dos elementos da relação e da respectiva capacidade interna para a relação de casal, ou seja, uma competência para tolerar, conjugar e unir os opostos e as diferenças, formando um conjunto de ordem superior com novas propriedades e funções emergentes: o par complementar – a unidade psicossocial verdadeiramente criativa e criadora2.
Toda e qualquer relação humana é virtualmente desenvolvimentista, à relação psicanalítica impõe-se que o seja, a relação de casal é-o algumas vezes (Matos, 2009).
O conflito é inevitável e será útil – se elaborado – para o desenvolvimento, mas está dependente da capacidade do casal para conseguir regular os conflitos em relação ao seu mundo interno individual e partilhado, na medida em que a relação deverá funcionar como um contentor onde os conflitos internos podem ser externalizados e tornados acessíveis no processo interactivo do casal.
Como refere Balint (2005), na interacção, cada um tem o potencial para confirmar os principais medos do outro, ambos revisitam as experiências subjectivas passadas. Se for possível a modificação dos medos e das percepções à luz da realidade actual, se for possível uma modificação de forma a deixarem de ser agidos, torna-se provável a transformação do mundo interno individual e do mundo externo partilhado.
Cleavely (2005) considera que a relação amorosa constitui-se como uma oportunidade para a resolução de conflitos relacionados com as relações da infância, na medida em que muitas vezes cada um dos elementos pode, em certas circunstâncias, funcionar como pai e filho um do outro, não ameaçando o seu self adulto e sexual. É deste modo possível um contacto com o que falhou, abrindo-se a possibilidade de encontrar uma melhor forma de manejar o presente, de tal modo que seja viável o crescimento, para que este não encripte ou estanque.
Também Emde (1988) considera que as pessoas têm a oportunidade de construir e reconstruir novas relações. O que se passa é que, em circunstâncias de má adaptação, as novas relações são caracterizadas pela rigidez, por uma falta de abertura a novas possibilidades. De acordo com o autor, as repetições estarão relacionadas com uma falha na disponibilidade do cuidador da infância, de modo que se formou um self baseado na incerteza e na precaução, que formulará as suas relações posteriores apenas por duas vias: ou mediadas pela retracção ou, muitas vezes, repetindo as más experiências.
Talvez possamos relacionar estes modos de funcionamento na relação amorosa tendo por base a problemática edipiana e pré-edipiana. Deste modo, consideramos que a patologia edipiana, tal como refere Kernberg (, 1995), se traduz, muitas vezes, por funcionamentos mais masoquistas em que, no caso das mulheres, estas se mostram incapazes de usufruir de uma relação com um homem satisfatório, irresistivelmente atraídas por homens que não as compensam. Como refere Kernberg (1995), o que caracteriza as paixões masoquistas é a escolha inconsciente de um objecto que é incapaz de corresponder a um amor. No caso dos homens, estes conflitos parecem revelar-se através da insegurança e
desvalorização face às mulheres, ou através de condutas agressivas que mascarem a insegurança.
No que diz respeito à patologia pré-edipiana, esta tem a ver com aspectos mais precoces da dependência e de confiança básica, manifestando-se muitas vezes nas relações amorosas pela retracção e por funcionamentos mais narcísicos.
Contudo, algumas experiências do passado são de tal modo torturantes que cada nova relação amorosa fica sob a pressão de ter de transformar esse triste passado em algo favorável, com a esperança de que o que não foi suficientemente bom se transforme no ideal. Do mesmo modo, Cleavely (2005) sustenta que quanto mais imperfeitas foram sentidas as experiências precoces, mais esperanças idealizadas são aplicadas nas relações amorosas, sustentando-se a relação na base do tudo ou nada, em que subjaz um ódio partilhado face a relações banais e suficientemente boas.
Neste sentido, as relações amorosas procuradas são da ordem de uma completude paradisíaca, baseadas ilusoriamente no sentimento de que nada faltará e que nada será preciso fazer para se obter o desejado, como se fosse possível auferir de uma relação impregnada de perfeição, não sujeita a desenvolvimentos, aos encontros e desencontros, naturais numa relação de intimidade profunda3.
Assim sendo, quanto mais regressivas as necessidades, mais arcaica a idealização do objecto amoroso, mais distante do objecto real e como tal conduz a maiores desapontamentos nas relações amorosas, porque toda a esperança é depositada no objecto idealizado construído fastasmaticamente sob pressão dos desejos infantis e das urgências insaciadas, de esperanças envolvidas em pressupostos maniacamente formados.
Assim, no amor, uma questão a ter em conta refere-se ao que cada um quer que o amor seja, pois está claro que depende das necessidades, desejos e fantasias de cada um. O estado amoroso desperta desejos e fantasias inconscientes que remetem para a infância; a questão está em se procurar, com o novo objecto, o preencher do que ficou em falta e não aspectos mais maduros correspondentes aos desejos adultos e fantasias mais elaboradas.
Toda e qualquer relação para ser suficientemente boa terá de ser recíproca, mas comporta ajustes, desajustes e reajustes. Mas isto não é propriamente conflito, mas regulação; as relações têm vida e estão a ser permanentemente reguladas – ou então adoecem, ficam cronicamente doentes, moribundas ou morrem. “O amor só dura enquanto produz (mais amor)” (Matos, 2009).
No amor romântico, o amante atribui sempre valores fantasiados ao amado, o qual se torna o receptáculo de ideias de beleza, poder, perfeição. As correntes psicanalíticas sempre olharam para esta idealização como algo de regressivo e defensivo. Claro está que algumas idealizações são mais fidedignas à sua fonte do que outras; a questão é, como referimos anteriormente, que algumas partem da fonte de inspiração e são próximas da realidade, outras são apenas resultado da imaginação e da vida fantasmática do amante, em que o outro é apenas um resultado da projecção das necessidades pessoais.
A imaginação é a fundadora do desejo, o que torna alguém desejável é a idealização, que faz sobressair as qualidades que tornam a pessoa única e especial, distante do comum. No entanto, esta idealização deverá ser próxima do real do amado e não das necessidades infantis do amante, de forma que a relação possa ser mais satisfatória e revitalizante do Eu. É o que distingue a idealização normal e saudável – com valorização do objecto – da idealização primitiva (psicótica) – desmedida e irrealista, e esvaziadora do self – e da idealização neurótica sobrevalorizante do objecto depauperante para o sujeito.
De acordo com Garza-Guerrero (2000), consideramos que muitos dos trabalhos que se referem à projecção do Ideal do Eu e à idealização nas relações amorosas mantêm a visão de Freud de 1914, em que o Ideal do Eu era o substituto do narcisismo perdido da infância, em que o Eu era o próprio ideal. Em nossa opinião, deverá ter ocorrido uma maturação no sentido de que a idealização possa ser o mais distante possível do processo primário e compatível com o desejo de complementaridade. Deverá ocorrer uma passagem do desejo de querer ser como para o desejo de querer estar com.
Designamos de idealização madura a competência para manter em continuidade os aspectos bons e menos bons do objecto e, ainda assim, considerando a existência nele de aspectos que o distinguem de outros e o mantêm como especial. Mas é necessário que o Eu exerça a sua função de teste da realidade (Bergmann, 1995) no sentido de tornar possível a apreciação das reais qualidades do objecto e a análise do futuro da relação.
São estas idealizações maduras que permitem fazer uma renúncia a aspectos do passado, possibilitando a identificação sexual com o objecto de amor e com os seus valores, promovendo a empatia e o desenvolvimento da relação (Kernberg, , 1995; Garza-Guerrero, 2000).
Esta parece constituir uma diferença fundamental entre a idealização nas personalidades borderline e nas neuróticas, em que nas primeiras a idealização tem contornos mais arcaicos e remetendo à posição esquizoparanóide, uma idealização que exige que o objecto desempenhe funções mais de contenção e de organização, de coesão do self.
A idealização da posição depressiva, pela capacidade reparadora de aceitação dos aspectos menos bons do outro, torna-se mais realista e menos exigente.
Muitas vezes, nas relações amorosas, cada nova relação parece ser um antídoto face à anterior, o problema é que na maioria das vezes não é mais do que uma repetição das ligações anteriores. É a repetição da relação que muitas vezes traz consigo a ilusão da reparação e da possibilidade de se receber o que não foi possível, como se nesta “pseudo-nova” relação se reencenasse o que se passou anteriormente e se pudesse modificar o curso da mesma, numa fantasia de resolução dos conflitos originados no passado, na relação com o objeto conflitual da infância.
Mas o que encontramos na prática clínica é a procura do que faltou, mas num reencontro permanente com a falta, numa repetição insistente que não consegue colmatar o que foi deixado por preencher, mantendo-se um ciclo de insatisfação repetitiva, muitas vezes com contornos sadomasoquistas, em que não é possível viver com aquele objecto, nem sem ele. Destarte, escolhem-se repetidamente objectos tão incapazes como o foi o objecto conflitual da infância. Ao mesmo tempo, a relação com um objeto semelhante protege o objeto da infância, que passa a ser visto não como tão faltoso ou agressivo, ficando assim na senda da desculpabilização e encenando-se uma falsa reparação.
Para Bergmann (1980, 1987), a situação apenas será alterada se o Eu intervier de forma a impedir que a escolha siga no sentido da repetição. Mas, segundo este autor, muitas vezes o que acontece é uma contra-seleção: escolhe-se um objeto contrário à imagem daquele com o qual se teve uma relação negativa ou mais conflituosa. Contudo, esta escolha poderá ter um efeito duplo, uma vez que, neste caso, muitas vezes apenas se atende às características do novo objeto que o distinguem do anterior, sem atender à totalidade da sua personalidade. Em nossa opinião, trata-se de uma escolha aparentemente segura e protetora, mas que muitas vezes resulta num vazio, pois é uma escolha pela restrição, não em direção a um objeto verdadeiramente novo que possibilite uma relação nova e criativa, que conduza ao desenvolvimento
do Eu, mas sim a escolha de um semi-objeto, escolhido em função do contrário e não em função das suas características como um todo. Nestes casos, a relação parece apenas ter uma função corretora das falhas sentidas nas relações com os pais da infância, o que enfraquece o amor e o condiciona na sua função revitalizadora e desenvolvimental do Eu e do outro.
Estas são relações com contornos infantis, pois o próprio self que foi impedido de se desenvolver ficou retido e tenta a todo o custo retomar o seu percurso, mas em função da resolução do que o estancou e que diz respeito às relações da infância, agora ilusoriamente substituídas pela relação com um objeto actual, mas desvitalizado na sua condição de novo. Não são estas relações intensas e criadoras, mas sim re-criadoras de um passado relacional perturbador e impeditivo, sem que se possa possibilitar um verdadeiro desenvolvimento do self e uma vivência plena de um amor maduro.
Nestes casos, a relação não se constitui como uma reedição revista e acrescentada do passado, mas como uma tentativa de renúncia ao próprio passado sem que, no entanto, haja a possibilidade de uma mudança intrapsíquica que impeça que esse passado interfira de forma negativa na vivência do presente.
Mesmo quando o parceiro é escolhido por contra-selecção, muitas vezes, o indivíduo tem necessidade de ir à procura de uma relação extraconjugal, essa agora que diz respeito a uma nova repetição. Em alguns casos, pacientes com mães narcísicas e ausentes escolhem parceiras que são calmas e pacíficas, mas acabam por procurar nas suas relações fora do casamento mulheres difíceis, numa tentativa de reencontro com o objeto materno da infância. O mesmo se passa com algumas mulheres.
Já Abraham (citado por Hitschmann, 1952; Bergmann, 1987) se referiu ao facto de alguns homens evitarem mulheres que lhes relembrassem a mãe ou as irmãs, definindo esta escolha como “exogamia neurótica”, escolhendo objectos de amor o mais distantes possível da família, mas no fundo endogâmicos.
No entanto, Kernberg (1991) refere que, mesmo quando o objecto parece ser novo e diferente, o indivíduo, por meio de identificações projetivas, tenderá a induzir características e a desencadear respostas que são idênticas aquelas obtidas na relação com o objeto conflitual pré-edipiano ou edipiano, numa tentativa de reparação das relações patológicas do passado, ao mesmo tempo em que é impelido por um desejo de vingança.
Em certos casos encontramos homens/mulheres que se envolvem com objectos cuja resposta é idêntica à do objecto conflitual, à espera de receberem o afecto que não tiveram, mas quando o recebem, numa atitude vingativa, rejeitam o objecto, o qual apenas é desejado enquanto responde de forma idêntica ao objecto e possibilita a reencenação da relação passada, perdendo o interesse quando se aproxima do objecto ideal. Isto porque não se trata de um objecto em si mesmo apreciado pelas suas qualidades, mas sim porque possibilita uma revivência do passado, uma hipótese reparadora, a qual não acontece porque não se trata do objecto original e porque, por regra, não possui competências contentoras de forma a possibilitar a evolução.
Segundo o autor, quanto mais aspectos agressivos e patológicos estiverem na base das relações objectais internalizadas, mais primitivos serão os mecanismos de defesa, conduzindo ao desencadear no parceiro reacções que reproduzem essas relações objectais ameaçadoras .
Como refere Ken Wright (1996), mesmo face à realidade de não se ter tido um outro suficientemente bom, o self terá de usar o meio de forma a criar para si um meio que seja auxiliar e facilitador do desenvolvimento. Como refere Kohut, quando a relação com os objectos do self primários é deficitária e geradora de traumas, é possível, devido à plasticidade saudável do self, a procura de objectos que sejam compensadores, no sentido da reparação das falhas originadas. A patologia representará uma incapacidade de libertação desses maus objectos e a procura de estilos relacionais que são repetitivos e não transformadores.
Uma condição essencial para a manutenção de uma relação amorosa é, para Kernberg , a integração de imagens do self e de imagens dos objectos com afectos de amor e ódio na transformação de relações de objectos parciais em totais, resultando na possibilidade de constância objectal.
O sentimento de constância objectal será conseguido na relação com uma mãe atenta e previsível, que proporcionou cuidados adequados e uma dedicação contínua, possibilitando a formação de um sentimento de segurança interna que permite evocar a memória do objecto na sua ausência, de forma a proporcionar a separação (Solnit, 1982). Para além desta constância objectal, é necessário o desenvolvimento de um sentimento de constância do amor do objecto, o que contribuirá para a segurança em relações amorosas futuras.
É a integração de relações parciais em totais que assinala o início da constância objectal e a constatação de que o objecto sobrevive aos ataques mais agressivos, mantendo-se disponível e contentor.
Chamamos-lhe constância objectal do objecto predominantemente bom, com continuidade entre os aspectos bons e menos bons, sendo então agora possível o desenvolver do que Winnicott (1963) designou como capacidade de preocupação com o outro, resultante da possibilidade de reparação na posição depressiva, a qual substitui a culpa e gera um sentimento de bem-estar com o próprio e com o outro. De salientar que, já em 1948, Balint se referia ao sentimento de ternura como relacionado com o sentimento de preocupação com o outro e com a gratidão, embora considerando que este se formava na fase pré-genital.
De acordo com Kernberg (1995), esta preocupação e ternura para com o outro têm a ver com a integração da agressão com o amor, que ocorre nas primeiras relações objectais, e, segundo Winnicott (1969), com o reconhecimento de que o objecto se mantém disponível apesar dos ataques mais agressivos, tornando-se assim usável.
Kernberg (1995) considera que é a integração das representações de self e de objecto, amorosas e odiosas, com os afectos, na transformação de objectos parciais em totais (constância objectal), que se constitui como uma exigência básica para o estabelecimento de uma relação amorosa estável.
Quando estes aspectos não são conseguidos, existe uma tendência a experimentar várias relações, pela dificuldade de separação, bem como pela dificuldade em sentir segurança no amor do objecto e pelo desejo permanente de a encontrar, saltando de objecto em objecto na esperança de conseguir um lugar para ficar em confiança. A acção passa a substituir o sentimento, as condutas agidas sexualmente revelam um empobrecimento da capacidade para mentalizar a relação e para o uso do outro enquanto objecto mais do que da relação, um objecto disponível para ser usado enquanto objecto real, com as suas competências e necessidades.
Se não foi possível transformar o objecto de relação em objecto usável, isto é, um objecto que não se constitui apenas como um resultado da projecção, então, as relações amorosas futuras serão dominadas por esta impossibilidade de ter um outro real, domina a idealização primitiva e consequentemente a constante desilusão porque o objecto – sede de projecções – é sentido como insuficiente na sua resposta e no seu talento para dar.
Estabelecem-se, deste modo, relações de casal falso self (Fisher, 2005), em que cada um, desconhecido do outro, apenas é um receptáculo das projecções mútuas, mas com desfavor de um dos elementos que deverá desempenhar o papel que o outro lhe impõe. Um dos elementos do casal tem de anular a sua espontaneidade em função dos desejos do outro, impostos de forma tirânica. Forma-se, deste modo, um conluio com esboço sadomasoquista em que o enaltecimento de um implica a subjugação do outro, fechando os parceiros numa relação tipo claustro (Morgan, 1995), em que a única maneira de responder às projecções intrusivas é respondendo retaliatoriamente com contraprojecções.
Nestes casos, como não há consciência dessas projecções, está anulada a possibilidade de taking back, isto é, de voltar a tomar para si o que foi projectado e que, após ser elaborado, poderá ser reintegrado, agora com outra forma, no mundo interno, permitindo o crescimento e o desenvolver da relação. Mas isto só é possível se ambos se sentirem bem na sua pele psicológica e, se quisermos, na pele contentora da relação, como se esta relação se formasse enquanto envelope psíquico, que possibilita a contenção de aspectos projectados, passando assim, de acordo com Winnicott, esta relação a ser um meio holding.
Sabemos, no entanto, que se a actividade projectiva é muito intensa, poderá conduzir a uma debilitação da personalidade, e enfraquecimento das fronteiras do self, conduzindo a um sentimento de confusão entre o próprio e o outro. No extremo, cada parceiro não está em relação com um outro separado, mas sim em relação com partes indesejadas do self, projectadas e identificadas no outro. O que, em nossa opinião, constitui uma explicação para as relações de agressão violenta.
A relação madura implica que aspectos não desenvolvidos e não aceitáveis possam ser contidos pela relação ou pelo self mais maduro do outro parceiro, o que possibilitará o afastamento de funcionamentos mais narcísicos e da identificação projectiva omnipotente, sendo que as partes projectadas podem voltar a ser ganhas, permitindo uma maior integridade de ambos e uma interacção mais madura entre os elementos do casal.
Fisher (2005) considera que é a falha na gestão das ansiedades edipianas que conduz a uma ausência de um espaço emocional para se pensar, para se ser diferente, que possibilite pensar a relação e ter consciência das projecções efectuadas para que possam ser manejáveis e reintegradas no espaço mental.
Trata-se de uma falha do desenvolvimento do Eu-realidade, descrito por Freud, que implica que nas relações seja possível uma intimidade
emocional partilhada, de forma que é possível reconhecer a realidade emocional de cada um, uma tomada de consciência do que pertence ao próprio e do que pertence ao outro.
Segundo Britton , o complexo de Édipo fica resolvido através da elaboração da posição depressiva e, por seu turno, o atingir da posição depressiva depende da elaboração do complexo de Édipo. Mas, em sua opinião, será esta constante resolução, ao longo da vida, que possibilita que se estabeleçam relações íntimas e vigorosas. A não aquisição desta posição tridimensional, a incapacidade de tolerar a existência de um terceiro, é um dos aspectos que perturba o funcionamento do casal (Balfour, 2006), conduzindo ao dilema claustro-agorafóbico (Rey, 1991; Balfour, 2006), com receios de abandono quando existe ameaça de separação e angústias de engolfamento face à proximidade, o que dá a ideia de uma posição a meio caminho entre a posição esquizoparanóide e a posição depressiva.
A elaboração edipiana implica a capacidade para aceitar que é possível abdicar da relação dual e que existem benefícios em se relacionar com vários outros, nascendo a possibilidade de olhar para uma relação da qual não se faz parte, mas em que se tem uma relação especial e diferenciada com cada um dos elementos da mesma. Esta constitui uma passagem do narcisismo para a capacidade de estar em relação. Segundo Fisher (2005), é esta passagem que faz surgir a competência para o casamento, a possibilidade de desenvolver uma atenção especial, não só ao próprio, mas ao outro, e à relação entre ambos, em que é possível suportar as tensões, ultrapassando a fantasia de fusão entre duas pessoas ou de isolamento, típicas das posições narcísicas.
Também Holmes (2006) afirma que o bom funcionamento nos casais depende da capacidade que revelam para olharem e refletirem sobre a sua relação como um terceiro, como uma entidade em si mesma, separada dos dois indivíduos que a constituem. Na mesma linha, Colman (2005) sustenta que, quando os casais falam da sua relação, vêem-na como uma imagem, algo que existe independente deles, em que cada um tem o seu contributo, funcionando esta como um continente, como o resultado criativo da união de casal, com o qual ambos se podem relacionar. Designamos de metaposição esta competência para olhar para dentro da relação, independentemente de cada um e ao mesmo tempo envolvendo cada elemento que nela participa. Morgan (2006) designa de casal criativo, um estado mental em que é possível que cada um se coloque numa terceira posição, de modo a se poder auto-observar na relação de casal,
poder pensar os próprios sentimentos, bem como os do parceiro. Em resumo, este casal criativo é um espaço psíquico em que é possível estar como separado e independente numa relação de profunda intimidade. Na mesma linha de pensamento, Rusczynski (2005), refere-se ao triângulo marital, representando os parceiros e a própria relação como uma entidade própria, em que, tal como a criança que observa os pais numa relação na qual ela não participa, também os parceiros de uma relação deverão olhar para esta como uma entidade, tendo de abdicar muitas vezes de desejos próprios, interesses, ainda que de forma ambivalente, mas que faz parte de um processo de desenvolvimento.
De facto, é uma conquista desenvolvimental o conseguir ter noção da sua própria verdade e de tolerar a verdade do outro, bem como a possibilidade de tomar para si a experiência do outro sem perder o seu sentido próprio, o que possibilita o estabelecimento de relações amorosas criativas e até mesmo curativas.
Existe assim a possibilidade ao longo da vida de se estabelecerem relações, de tal modo vigorosas e transformacionais, que permitam que aspectos menos aceites do próprio que são projectados possam ser contidos na relação, de modo que é possível um amadurecer, um crescimento do self, criando-se a possibilidade de suplantar esquemas patogenicamente criados.
Em todos os relacionamentos amorosos existem processos de introjecção e projecção, quando existe alguma flexibilidade mental, quando cada um dos elementos se sente confortável na sua pele psíquica, e quando é possível um sentimento de segurança na pele continente do casamento (Cleavely, 2005), é possível cada um manejar os próprios aspectos projectados e tomá-los de volta para si, agora elaborados.
Assim, formam-se relações da ordem do continente/conteúdo, mútuo, em que cada elemento projecta e contém elementos do outro, numa dança desenvolvimental sintonizada, ainda que com desafinações pontuais, que torna possível a alegria e a satisfação na interacção estabelecida.
ABSTRACT: The love relation is a mutual container/contained for each element, where projected and contained unacceptable parts of the self can be tolerated, in a taking back movement making possible the re-owning of that projected aspects.
However, the presence of archaic idealizations, unpleased urgencies and infantile desires leads to adult relations based in an “everything or nothing” function, searching for a paradisiacal completeness, sustained by the illusion of perfection. In this situation, each member is only a receptacle of projections. There isn't a relation to another but
simply a relation with unacceptable aspects of the self, where the partner can only respond with counterprojections. These false self couple relations, where each other are unknown to the other, are sustained by attacking everything that seems to be good enough, always not enough.
With discomfort in their psychic skin, they are incapable to transform their relation in a psychic envelop relation.
KEYWORDS: False self couple; Mutual container-contained; Three-dimensional position; Paradisiacal completeness; Counterselection; Marriage skin container.