Ao longo do nosso crescimento psicanalítico, uma transformação vai gradualmente ocorrendo no nosso estar clínico, resultante do tecer das várias aprendizagens e experiências pessoais e profissionais: da análise pessoal, da formação teórica, da experiência e da supervisão clínica…
Mas, por vezes, acontece uma verdadeira ruptura na nossa forma de estar enquanto analistas… quando um paciente em particular nos coloca perante um conflito que nos leva a compreender que já não podemos estar (e pensar) da mesma forma… Foi o que me aconteceu quando uma paciente silenciosa se deitou no meu divã. Uma paciente que se recusava a partilhar os seus pensamentos, que não me dava nenhum material verbal para pensar, e interpretar. Uma paciente que me obrigou não só a compreendê-la através da linguagem silenciosa da transferência e da contratransferência, mas também a estar de uma forma diferente…
Embora silenciosa, ela passou a ocupar um lugar barulhento na minha mente, fazendo-me perceber as minhas próprias dificuldades com o silêncio, e a mergulhar no pensamento de vários autores ao longo da história da psicanálise, sobre o silêncio e pacientes silenciosos, do seu significado e importância. Nesta viagem com a minha “paciente difícil” encontrei-me com Freud, Nacht, Bollas, que me mostraram outros caminhos… E então senti que gradualmente também algo começou a transformar-se: nela e em mim, com ela e com outros pacientes…
“Não, digo-te o que descobri. O conhecimento pode ser comunicado, mas a sabedoria não. Uma pessoa pode encontrá-la, vivê-la, ser fortificada por ela, operar maravilhas por seu intermédio, tudo menos comunicá-la e ensiná-la. Desconfiei disso quando ainda era novo, e foi isso que me afastou dos
Psicóloga Clínica. Membro Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 25 de Janeiro de 2010. Revisão recebida em 16 de Junho de 2010. Aceite para publicação em 21 de Junho de 2010.
Page 51mestres. Tive um pensamento, Govinda, que igualmente suporás ser uma brincadeira ou uma tolice: em toda a verdade, o oposto é igualmente verdade. Por exemplo, uma verdade só pode ser exprimida e envolta em palavras se for parcial. Tudo quanto pode ser pensado e exprimido por palavras é parcial, apenas metade da verdade; falta-lhe totalidade, integralidade, unidade”
Ao longo da nossa formação psicanalítica, muitos são os tijolos que gradualmente vão construindo o nosso pensamento e estar clínico. Começamos a construir a casa psicanalítica, fazendo uma vistoria à nossa própria casa, aquela que fomos edificando desde o nascimento, e que na sua maioria permanece na obscuridade. A análise pessoal é assim o primeiro pilar no nosso percurso enquanto analistas. Muito podemos dizer sobre a sua importância: da necessidade de nos conhecermos para podermos conhecer o outro, evitando assim que na nossa prática Eu e Outro se enrolem num novelo do qual se perde “o fio à meada”; da possibilidade de nos sentirmos suficientemente seguros nos nossos pilares, para podermos sustentar esse outro que nos pede o holding (Winnicott, 1965) que lhe foi insuficiente.
Mas, ao longo da minha própria análise, compreendi que, para lá da minha reconstrução enquanto ser no mundo, existe uma outra aprendizagem fundamental: o aprender a ser psicanalista, o interiorizar gradual de uma certa forma de estar psicanalítica. Aliás, muitas vezes no início da nossa prática sentimos quase estar a imitar o estilo do nosso próprio analista, tal como uma criança pequena começa por imitar o adulto, até ir tecendo os diversos estilos relacionais com que vai tendo contacto ao longo da vida. Também assim cresce o analista-criança até se tornar o analista-adulto.
Mas talvez aquilo que só anos mais tarde compreendi sobre a minha análise pessoal diz respeito a algo que vai sendo gradualmente, silenciosamente, interiorizado: o funcionamento psíquico do analista, numa verdadeira identificação com a função psicanalítica do analista. É esta que nos fará apreender a possibilidade de pensar analiticamente, de dar nome aos afectos, de ser capaz de tolerar a dúvida e a incompreensão sem nos precipitarmos nas interpretações “falsas” ilusoriamente tranquilizadoras, enfim, a possibilidade de tolerar a dor inerente ao caminho em direcção à verdade…
Depois, já com os alicerces psicanalíticos, vamos colocando os restantes tijolos: a formação teórica dá-nos os constructos que nos permitem pensar sobre o outro; a experiência clínica torna-se o terreno da “experiência empírica” que nos permite consolidar e verdadeiramente compreender esses mesmos constructos. E, por fim, temos a supervisão clínica, a relação com os outros “adultos” analistas que nos vão ajudar não só nos nossos primeiros passos, mas também no contacto com outras, e diversas, formas de ser psicanalista, para além daquela que aprendemos com o nosso pai/mãe analista pessoal.
Mas, à semelhança do que acontece no percurso “normal” de qualquer ser humano, a própria vida encarrega-se de nos proporcionar novos “encontros” que introduzem rupturas na nossa forma de pensar o mundo e nós próprios, encontros com um outro, para o qual o know-how aprendido nas nossas relações anteriores não serve, obrigando-nos a repensarmo-nos e a transformarmo-nos. Assim, o mesmo se passa na vida de um analista. E foi o que me aconteceu ao encontrar uma analisanda silenciosa…
De facto, na nossa prática psicanalítica, crescemos nos paradigmas da compreensão e do significado. A grande novidade que nos trouxe o pai da psicanálise foi a noção de que todo o sintoma encobre um significado inconsciente, sendo através da leitura e respectiva comunicação ao paciente, pela interpretação, que representações (e conflitos) inconscientes se tornarão conscientes, acabando assim com o sintoma-compromisso entre as várias instâncias mentais. Mais tarde, outros autores (e.g. Bion, 1962) realçaram a importância da formação de símbolos na organização da vida mental, na elaboração de conflitos, enfim, na possibilidade de pensar.
A psicanálise é pois uma ciência e uma prática da subjectividade ao encarar a cura como a possibilidade, não só de “empurrar” as representações inconscientes para o consciente, mas também de permitir a construção de significados. O psicanalista está assim numa escuta flutuante, “sem memória, sem desejo, sem compreensão” (Bion, 1962), mas sempre à procura de significados que dêem sentido às ligações que o paciente vai fazendo através da associação livre.
A interpretação (da comunicação do paciente, da transferência e da contratransferência) é, portanto, o motor do tratamento psicanalítico.
No entanto, alguns pacientes obrigam-nos a questionar os paradigmas anteriormente estabelecidos ao colocarem-nos perante um impasse que não parece possível ser solucionado através da técnica habitual. É o
que acontece quando, por exemplo, uma paciente permanece em silêncio, recusando comunicar espontaneamente os seus pensamentos…
Quando uma paciente silenciosa se deitou no meu divã, percebi que a minha “casa analítica” não podia conter esta paciente que se recusava a comunicar os seus pensamentos e sentimentos, que não me dava nenhum material verbal para pensar, e interpretar. Os meus “tijolos” eram feitos de outra massa: na minha análise pessoal, eu não era habitualmente silenciosa, e nunca tivera pacientes silenciosos… E foi assim que esta paciente me obrigou a ir à procura de outros tijolos… Embora silenciosa, ela começou a ocupar um lugar barulhento na minha mente, fazendo-me perceber as minhas próprias dificuldades com o silêncio, e a ir à procura do que outros autores diziam sobre ele. A transferência e contratransferência passaram a ser as minhas ferramentas de interpretação fundamentais, e gradualmente algo começou a mudar na forma de estar no setting, não só com esta paciente silenciosa, mas em mim, em geral, com qualquer paciente.
A Dora é uma jovem de 19 anos, filha única, estudante universitária, de aparência cuidada, respeitando primorosamente a última moda para a sua idade.
Quando a vejo a primeira vez, na cadeira em frente à minha, rapidamente e sem hesitações descreve os motivos que a levaram a procurar fazer análise: gostaria de resolver aquilo que ela identifica como o seu único problema/sofrimento, o afastamento progressivo do pai desde que, por volta dos 10-11 anos dela, lhe foi diagnosticado uma doença progressiva: “o meu pai já não me conhece”. Segundo ela, o pai teria mudado de personalidade, tornando-se egocêntrico, e a partir daí teria mudado a relação entre eles, percebendo eu depois que esta centração do pai sobre ele mesmo teria sido vivida por ela como um afastamento psicológico.
O resto da entrevista centra-se à volta do pai, das memórias da infância, de brincar com ele, de lhe fazer festas na cabeça, pendurada nas costas do sofá, enquanto ele via o telejornal.
E mais nada a Dora parece ser capaz de pensar sobre a sua vida, qualificando a sua adolescência, os amigos, os namorados, como “normais”, sem qualquer outra reflexão sobre isso.
Desta primeira entrevista fica-me uma estranha interrogação: apesar de ter falado do afastamento emocional do pai, não consegui sentir
o seu sofrimento. O que levaria uma rapariga tão jovem, com uma vida aparentemente normal, funcional e satisfatória, a querer fazer análise?
A partir da primeira entrevista, após convidá-la a deitar-se no divã, a Dora muda completamente a sua atitude, remetendo-se para um permanente mutismo, como se já mais nada tivesse a dizer… O silêncio passará a ser a linguagem durante muitos meses (dois anos e meio)… Quando procuro compreender o porquê do seu silêncio, ela invariavelmente me responde que não tem nada para me dizer, porque eu sou uma estranha para ela. Deitada no divã, ela vai assistindo ao desenrolar dos seus pensamentos, mas incapaz de os comunicar, porque, como ela diz: “não me conhece de lado nenhum”. E o silêncio na sala analítica só seria por vezes interrompido por barulhos vindos da sua barriga, numa sinfonia interna sem palavras…
Instala-se um silêncio desconfortável com o qual eu não sabia o que fazer, perante a sua incapacidade de estabelecer a regra habitual da psicanálise – a associação livre.
Assim, a comunicação transferencial que parece instalar-se rapidamente é marcada por aquilo que parece ser uma desconfiança, corroborada com algumas manifestações paranóides: fala da sala à sua volta, chamando atenção para o candeeiro no tecto que parece uma alforreca. Por outro lado, o pouco que consigo saber sobre a sua vida quase parece ser tirado a ferros, num diálogo de perguntas (minhas) a que se seguem respostas (nunca recusa responder) monossilábicas. De resto, o seu comportamento externo permanece “exemplar”: chega sempre à hora; quando falta, avisa.
Interrogo-me perante esta paciente que não me dá palavras para eu significar, que não me dá emoções para eu conter, que não me dá a sua luz para que eu a possa reflectir…
Elabora-se estarmos perante um funcionamento histérico, mas com uma confusão entre o objecto de amor-pai, e o objecto de identificação-pai. Por um lado, ela teria sido o objecto de amor do pai, patente nas memórias libidinais de infância, e simultaneamente objecto de amor narcísico do pai (colocando sobre ela as suas aspirações narcísicas). Estaríamos perante a bissexualidade histérica.
Filha única, vítima de um amor dos dois progenitores centrados nela, não pode decepcioná-los narcisicamente (narcisismo interno dependente do narcisismo dos pais). O descentramento do pai (doença) teria provocado a dor depressiva; a doença do pai seria a amante do pai. Viveria assim no ambiente endogâmico, dentro da família. Individualizar-se seria uma traição. A análise, com a introdução de um terceiro, coloca-a num conflito interno: relacionar-se comigo seria sair do endogâmico para se relacionar com o diferente, seria atraiçoar o amor narcísico parental. O silêncio teria pois este duplo significado: não saber ser e, ao mesmo tempo, não fazer o que espero dela, como forma de se opor ao meu desejo, podendo assim existir novamente nela própria.
Os barulhos na barriga remeteriam para a linguagem sensorial, a linguagem materna, sinal de uma regressão libidinal associada à angústia do estranho: aterrorizada com a pessoa que não conhece, porque só sabe funcionar de acordo com o outro. Este perigo estaria representado na associação candeeiro-alforreca, de valência paranóide – os objectos perigosos, a luz analítica que vai fazer mal.
Estaria assim instalada a ambivalência emocional na relação analítica.
Paralisada com o silêncio-desconforto da Dora, eu busco significados do silêncio, interpretando-o como a sua incapacidade de ser espontânea numa incapacidade de ser ela – self verdadeiro (Winnicott, 1965) perante uma pessoa estranha e neutra, que não lhe indica como ser através de perguntas, que não espera nada dela (ao contrário das suas relações de infância). Seria aquele silêncio, o silêncio da sua prisão interna: não pode falar de banalidades como pode lá fora, porque não é isso que é ali esperado; mas não consegue falar dela, e mais ainda não consegue estar confortável em silêncio, porque sabe que também eu espero que ela fale.
Mas, na minha contratransferência, pergunto-me como deverei reagir ao seu constrangimento. Tranquilizando-a? Interpretando? Como? Por vezes, sem saber o que fazer perante este silêncio que se eterniza, que a ambas intranquiliza, recorro a metáforas: ela seria a lua, que precisa da luz do sol para poder ter a sua própria luz… Ambas teríamos que descobrir uma forma de encontrarmos a sua luz natural…
Nas sessões seguintes (o silêncio continua…) procuro agarrar-me àquilo que agora sei da Dora na sua dificuldade de ser. Ela associa as portas do gabinete ao estar presa “como se não existisse saída”, ao que eu respondo: “como se a Dora sentisse que quero prendê-la e apossar-me dos seus pensamentos” (medo da dependência/necessidade de oposição-autonomia).
Assim, sem mais material para significar, pergunto-lhe sobre os seus pensamentos, ao que ela me responde: “estou a pensar em coisas triviais” (e.g. no fato novo que comprou para ir à discoteca). Interpreto: “para evitar pensar noutras coisas”. Ou pensa no que vai fazer logo à noite. Interpreto: “evita estar aqui comigo na análise”. Perante os seus pensamentos “triviais”, ora procuro fazer uma interpretação didáctica – “o trivial muitas vezes esconde outras coisas importantes… daí a regra da associação livre” – ora me perco no silêncio, e o meu pensamento foge para as minhas coisas triviais (penso nas compras que tenho que fazer no supermercado).
Aos poucos esta necessidade de oposição à dependência analítica é ajudada por uma tentativa de impor as suas regras, pedindo para não pagar quando tem que faltar para estudar, acentuada por atitudes mais ou menos agressivas: “não me apetece falar consigo, não tem nada a ver com isso”. E, curiosamente, o silêncio começa a ser vivido por ela de forma mais confortável e mais consciente: “não me apetece ficar desarrumada, prefiro deixar tudo como está”.
Eu, ao contrário, continuo desconfortável com o silêncio, agora também o meu estômago acompanha os barulhos do seu e, no silêncio, a minha boca enche-se de saliva. Fujo deste mal-estar interpretando e tranquilizando-a(me): ela está com medo de ficar desarrumada porque acha que não vai ser capaz de lidar com isso e, só à medida que se sentir capaz, ela vai permitir deixar-se desarrumar; ela sente que estou a tentar entrar à força na cabeça dela, coloca o desejo em mim: sou eu que quero conhecê-la – à força quero saber os seus pensamentos – e não ela que está à procura de se conhecer.
Oiço a minha contratransferência, o seu silêncio, agora mais agressivo porque menor a necessidade de corresponder ao meu desejo; escuto a sua oposição na relação comigo (desconfiança); assisto ao seu estar em silêncio mais tranquilo, com os seus próprios pensamentos. Mas estou cansada, farta de “puxar a carroça”, e só me apetece também ficar em silêncio…
Aos poucos, a Dora permite alguma abertura na relação comigo. Aparecem alguns lapsos de linguagem; confessa o desconforto que sente na universidade, diferente do ambiente familiar do liceu, a falta de uma
amiga íntima que a acompanhe no dia-a-dia escolar. Eu associo a universidade à análise: em ambas o desconforto de ter perdido o mundo familiar da infância, o medo do contacto com o diferente e estranho, a dificuldade em estar só, precisando de uma amiga-espelho que a ajude a ser. Mas a par de maior proximidade analítica, cresce a oposição: o silêncio mantém-se, procura mudar as horas das sessões, falta, refere a análise como uma obrigação que lhe tira tempo livre.
E o silêncio continua, numa ausência de iniciativa de comunicação de um pensamento ou sentimento, respostas em monossílabos sem desenvolver, ausência de pensamento analítico. Continuo aflita com o silêncio, procuro significados para me agarrar.
Falo internamente com Freud, o pai da psicanálise, que, numa conversa imaginária, me ajuda a encontrar formas de intervir na sua recusa de comunicação espontânea: “pergunte sobre os sonhos”.
Mas quando o faço, ela refere não se lembrar, ou serem sonhos absurdos. E eu continuo na senda da interpretação: “os sonhos absurdos como tentativa de rejeitar a verdade que eles escondem”. E no dia seguinte traz-me (como presente) dois sonhos:
Num primeiro sonho só se lembra da presença da mãe, do tio e da prima. Prima de quem não gosta porque a copiava na roupa e na decoração do quarto, prima que se fez passar por ela, roubando-lhe o código de acesso à Internet, e tendo escrito aos amigos da Dora e criado uma grande confusão…
No outro sonho, montava, com uma mulher mais velha, um cavalo que corria na praia. Depois entrava num hotel escuro com muita gente, rosa vivo escuro. Mas logo refere que este sonho não tem a ver com ela.
Eu, contente por ter finalmente um material mais claro a poder significar, digo-lhe que ela ficou a pensar no que falámos na última sessão (na minha pergunta sobre os seus sonhos), procurando mostrar-lhe como ela está mais envolvida no processo do que se (me) quer fazer querer… O primeiro sonho parece dizer como ela tem medo que eu seja como a prima, que descubra o código de acesso à sua mente, entre nela e lhe roube a individualidade; no segundo sonho ambas montaríamos o cavalo-processo analítico.
Ela parece agora mais próxima, menos resistente, com maior compreensão e aceitação do processo analítico e das minhas interpretações. Mas, ainda assustada, diz estar de cabeça cheia e ter medo que me engane nas coisas que digo sobre ela. E vou prosseguindo na
interpretação da transferência: ela colocar-me-ia em dois extremos, eu omnipotente, capaz de lhe baralhar a cabeça e roubar-lhe a identidade; eu incapaz, podendo dizer coisas erradas sobre ela. Ela também frágil, podendo ficar perdida, sem discernimento para me dizer o que é verdadeiro sobre ela.
Agora, com menos controlo, esquece-se de trazer para a sessão uma declaração para eu assinar a pedido da mãe; esquece-se de trazer a agenda para mudar sessões por causa dos exames; mostra irritação quando não lhe mudo as sessões como ela quer. Aqui aparece a presença/dívida aos pais: como eles pagam, ela não pode faltar, repetindo-se mais uma vez aqui a dívida infantil do investimento dos pais. Eu vou interpretando as resistências, como a análise se tornara uma repetição do que ela vivera na infância, uma obrigação para com os pais e não uma via de libertação deles e, tal como com eles, faz uma parte (é o que esperam dela) e guarda outra, também ali, está fisicamente presente, mas mantém o silêncio.
Gradualmente outras questões começam a emergir ao mesmo tempo que surgem subitamente algumas comunicações espontâneas e esboços de insight: a falta de “base segura” na faculdade, o medo de guiar, que ela descreve como medo do mal que os outros lhe possam fazer, mais tarde associando: “a insegurança não é sobre os outros mas sobre mim, camuflo a minha insegurança com os outros”. Eu aproveito para ligar com a nossa relação, que também a assusta, tal como tem medo dos outros desconhecidos, tem medo que também eu, desconhecida e neutra, lhe possa fazer mal… E vou pensando no seu conflito de autonomia-dependência: guiar, seria ser autónoma, estando presa na ambivalência entre o desejo de conduzir e o antigo desejo de ser conduzida. Assim, na análise, ela recusar-se-ia a conduzir – sem comunicação espontânea – pedindo-me que seja eu a conduzi-la. O medo de guiar seria, portanto, a inscrição do conflito na área do sintoma.
Mas esta promessa de maior compromisso no processo analítico não rompe com o mesmo silêncio, a mesma impossibilidade de associação livre. Ela justifica estar com sono, e eu vou interpretando: o sono seria uma forma de ela se retirar ali, de fechar os olhos para o mundo ali.
Eu, também cansada desta luta, quase adormeço.
No entanto, ao silêncio vem juntar-se um outro sintoma: uma inflamação na garganta, que a obriga a faltar. Eu atribuo um significado transferencial à inflamação na garganta, como uma forma de não falar, que aparece quando ela começa a dizer algumas coisas sobre ela, o silêncio
deixara de ser suficiente para evitar falar. Mas ela logo questiona a interpretação: “está a dizer que fiquei doente para não vir?”
Dentro de mim, e apesar de ir sempre interpretando as suas resistências, a relação comigo, de atribuir significado inconsciente à sua doença, continuo cansada… procuro ficar mais tempo em silêncio, mas não conseguindo mais do que 15 minutos, com medo de quebrar a relação analítica…
Novamente me lembro de Freud em “Repetir, Rememorar e Reelaborar”, e da repetição inconsciente. A inflamação na garganta seria mais um sinal da transferência de um vínculo infantil, repetição de um estilo de relação do passado: tal como as crianças faltam à escola quando estão doentes, ela faltaria à análise, e estaria à espera que eu lhe telefonasse a saber dela. A Dora estaria presa neste estilo de relação endogâmico, repetido nas suas relação exteriores com amigos e namorado, sendo a angústia de base a angústia do estranho – presa num vínculo L – aos pais (Bion, 1962), aprisionante, numa relação absorvente favorecendo a sua dependência. A Dora não teria ainda feito o luto das imagos parentais.
Gradualmente, e à medida que se desenrolava o processo analítico, o silêncio-resistência tornou-se cada vez mais insuficiente para a proteger, somando-se outras formas de resistência. Durante um determinado mês veio somente a 3 sessões, rapidamente justificando à secretária o seu mal da garganta. Quando estava fisicamente presente na análise, mantinha o silêncio, recusando-se a pensar sobre ela. Tudo isto acrescido de uma maior distância emocional e de pela primeira vez se ter esquecido de pagar.
Mas, curiosamente, ocorre uma clara melhoria sintomática: ela passa a ir todos os dias de carro para a faculdade, sente-se melhor por entre os “estranhos” da universidade, e é capaz também de estabelecer algumas associações: medo de se sentir perdida com a análise; o percurso de carro, ela conhece, ali não sabe como vai ser, ao que eu associo o medo do desconhecido, e a sua busca de um mundo familiar. Aproveito para estabelecer o paralelo entre o fora (relações externas) e o dentro (relação analítica): lá fora consegue controlar o que mostra, aqui tem medo de não conseguir controlar, mas começa a deixar-se ir de forma mais espontânea; os problemas lá fora foram agora todos trazidos para aqui, obrigando-a ao silêncio, mas apesar de impedida de falar, algo parecia estar a mudar lá fora…
Além disso, começa a pensar a sua resistência na relação comigo, num esboço de pensamento analítico, ligando o seu evitamento à hierarquia: “estou deitada, não a vejo, você vê-me…”, ao que eu aproveito para interpretar a transferência de uma relação infantil comigo.
Escutando a minha contratransferência, sinto que ela começa a aceitar o trabalho analítico, enquanto que paradoxalmente a resistência atinge o seu ponto mais alto (faltas repetidas). Ela estaria a fazer comigo o que não conseguiu fazer com os pais: oposição à dependência numa busca de autonomia. Mas, apesar da minha “compreensão analítica”, não consigo deixar de sentir irritação, alguma tristeza perante o repúdio que sinto permanentemente nela, a sua frieza emocional. E, curiosamente, perante o meu cada vez maior cansaço de lutar por uma relação que ela parece querer sempre evitar, vou perdendo as forças para interpretar, para associar, para puxar por ela… deixo-me ficar… quase adormeço… E assim consigo aguentar silêncios cada vez maiores… E sinto que é nestes momentos, em que também eu paro de resistir ao seu silêncio, que ela mais se aproxima…
Mas, algum tempo depois, após eu partir duas semanas de férias, a minha ausência aumenta a sua ausência. Diz-me que de qualquer maneira iria tirar uma semana de férias e, quando regresso, telefona porque está novamente doente da garganta. E assim será quase até ao final do mês.
Frustrada, pergunto-me o que estaria eu ali a fazer com ela? O que estaria ela, num processo adolescente de autonomização, ali a fazer comigo? Porquê fazer análise a uma pessoa “sem grande sofrimento”, com dificuldades de confiar no outro, e ainda com dificuldade em pensar sobre ela?
Internamente “fui desistindo” dela, teorizando a sua falta de indicação para a análise: a necessidade de autonomia não permitiria entrar na regressão analítica; a sua “ausência de sofrimento” também não a faria abrandar as resistências e aceitar o “ninho” analítico. Até que, por acaso, a vi na rua. Ao longe conversava com uma amiga, e ao ver-me sorriu… E o seu sorriso ajudou-me a repensá-la dentro de mim: afinal ela teria uma relação investida (afectuosa) comigo, eu também gostava dela apesar da irritação e frustração que tantas vezes me provocava. Mas ela teria medo: medo da relação comigo, da dependência, de perder a sua autonomia… e por isso resistiria tanto quanto era capaz, no silêncio, nas faltas, na inflamação na garganta…
Mas foi também este seu silêncio ensurdecedor que despertou o ruído da minha curiosidade. Procurei ouvir o silêncio na relação psicanalítica e fui constatando como ele, assim como a sua ausência, parecem adquirir significados aparentemente paradoxais, ora levando à intimidade, ora, pelo contrário, sendo formas de evitar essa mesma intimidade.
Lembrei-me de um outro analisando, incapaz de suportar o silêncio, logo preenchido por “palavras-tampão”. Estas mesmas palavras-silêncio davam sono à analista (isto é, levavam ao seu distanciamento face ao paciente), sendo esta mesma contratransferência que permitiu compreender como o sujeito utilizava as palavras para colocar uma distância entre nós/dentro dele. Um silêncio que aproxima, e palavras que separam.
A Dora, ao contrário, incapaz de suportar as palavras, permanecia em silêncio, um silêncio feito de ausência de discurso espontâneo, silenciando por completo a associação livre. A analista não tinha sono, por vezes inquietava-se, outras irritava-se, até finalmente o seu pensamento fugir da sala… Foi também esta sua contratransferência, que a levava a deixar aquela relação, que deu sentido a este silêncio: um silêncio que se destinava a criar uma distância/muro entre nós, e dentro dela.
Portanto, o silêncio liga ou separa, e ambos palavra e silêncio podem servir como um muro na relação psicanalítica, e o silêncio pode ser vivido pelo analista (contratransferência) de forma confortável e desconfortável. Um silêncio confortável, associado à proximidade e à sintonia na relação, ou seja, quando a comunicação se estabelece. Por exemplo, imaginemos um silêncio que se segue a uma interpretação perturbadora e pertinente do analista, que leva ao silêncio do paciente, mas que nós sentimos ser um silêncio cheio de pensamentos e sentir, e onde se pode escutar o trabalho interno de elaboração: o paciente está em escuta e comunicação interna. Ou então, vamos supor este paciente em associação livre, subitamente, ao entrar em contacto com uma emoção profunda (e verdadeira), chora em silêncio. O analista permanece em silêncio, um silêncio-abraço, acolhendo-o num silêncio empático, deixando assim um espaço aberto para sentir, numa profunda escuta emocional, tal como uma mãe que envolve nos braços o filho a chorar.
O silêncio torna-se perturbador (para o analista) quando ele é sentido como ausência de comunicação: o silêncio-agressivo, em que o paciente, desconfiado ou zangado, se recusa comunicar, num movimento de resistência, como mostra o exemplo da Dora; o silêncio-vazio,
psicótico, de um paciente incapaz de pensar e encontrar palavras-significados dentro dele.
Mas porquê o desconforto do analista?
Porque sem comunicação não há processo analítico, porque esta “separação” se torna mais difícil de suportar porque ele, analista, não pode simplesmente ir-se embora, porque aquilo que dele é esperado é exactamente o contrário: estar com o outro, acolhê-lo, ajudá-lo a transformar(-se); e ainda pelas inseguranças do analista-pessoa: “estou a ser rejeitado” ou “não estou a ser capaz de o ajudar…”
Posto isto, restava-me uma alternativa: começar a olhar este silêncio desconfortável como uma forma de comunicação… E mergulhei na “biblioteca analítica” para mergulhar no silêncio da Dora…
A psicanálise foi compreendendo, não só que o silêncio também comunica (compreender o seu significado é compreender o paciente), mas, mais do que isso, descobriu que o silêncio é o terreno onde vai desabrochar a relação psicanalítica, ou seja, é ele que torna possível o trabalho psicanalítico.
Assim, na minha pesquisa na “biblioteca psicanalítica”, apercebi-me que, a par da evolução da teoria e prática da psicanálise, também o silêncio do analisando foi ganhado diferentes significados (Vidigal, 1988).
Com Freud, o silêncio era considerado uma resistência. Na sua concepção do funcionamento mental, o sintoma ou sofrimento psíquico era consequência de ideias e afectos que haviam sido reprimidos, sendo a cura conseguida ao fazê-los emergir na consciência. Era então a palavra – através da associação livre – que permitia este processo. Assim, todo o silêncio era considerado por Freud como uma resistência à associação livre, e ao processo analítico.
Posteriormente, o silêncio foi encarado pela psicanálise como uma forma de comunicação inconsciente, tal como a palavra. O sofrimento psíquico deixa de ser unicamente a resposta ao recalcamento, mas também o reflexo de padrões de relação precoces interiorizados (inconscientes), que se actualizam nas relações actuais (teoria da relação de objecto). O processo psicanalítico utiliza este “reviver das velhas relações” (transferência) como forma de compreensão do paciente, ajudando-o a tomar consciência destes padrões e, gradualmente, a transformá-los no aqui e agora da relação com o analista, possibilitando assim a interiorização de uma nova relação. Esta transferência de padrões relacionais inconscientes
aparece na comunicação verbal e não verbal: o paciente utiliza a comunicação verbal – a palavra –, que está consciente, e a comunicação não verbal, inconsciente – através da entoação, na “música das palavras”, dos silêncios… O analista escuta as palavras – conscientes –, e sente outras coisas dentro dele, não imediatamente compreensíveis: irritação, desconforto, sono…
Ou seja, o silêncio também comunica… Ele faz parte da comunicação não verbal, e reflecte a relação entre paciente e analista, ajudando na compreensão do mundo interno do paciente. Os seus significados são múltiplos: oposição ao analista numa necessidade de separação; repetição de um padrão relacional evitante vivido nas relações precoces; recalcamento de afectos (agressivos ou libidinais) associados à culpa e, finalmente, um processo criativo de elaboração interna.
Ao analista, só lhe resta ouvir (e analisar) a sua contratransferência (sono, irritação, sentimento maternal) à descoberta do significado do silêncio.
Foi isto que procurei fazer com a Dora, mas mantinha-me insatisfeita com o resultado. Agora já sabia que todo o silêncio tinha um significado, que era necessário descobri-lo e transmiti-lo ao paciente, mas não era isto mesmo que tinha feito até agora?
No caminho do silêncio encontrei-me com Nacht, que me abriu outras portas na escuta do silêncio…
Nacht (1964) veio dar ainda mais relevância ao silêncio: este já não seria só uma forma de comunicar, mas sem silêncio não haveria processo psicanalítico… o silêncio como o terreno onde se pode plantar a semente do crescimento psíquico.
De facto, “alguns afectos só nascem no silêncio”… Aquilo que faz da psicanálise uma relação única é o permitir uma comunicação inconsciente, a qual é sobretudo veiculada na comunicação não verbal. Será esta comunicação não verbal que irá possibilitar o acordar de memórias pré-verbais que pertencem a um passado anterior à palavra, durante os primeiros meses de vida, numa fase em que o objecto não é sentido como separado do sujeito, mas sente-se fundido e indiferenciado do objecto, fase esta experimentada na união simbiótica com a mãe.
De facto, a linguagem aparece com a separação do outro, sinal de um Eu separado, ao mesmo tempo que contribui para essa mesma separação. Aliás, muitos pais cujos filhos têm algum atraso na aquisição da
linguagem comentam o quanto a escola é boa ao contribuir para o desenvolvimento da linguagem. Mas na realidade não é a escola, mas a separação dos pais, que torna mais necessário à criança o adquirir da linguagem para criar uma ponte de ligação com os outros! A linguagem é assim utilizada pelo sujeito para recapturar o objecto, para comunicar com ele, no momento em que sujeito e objecto já se encontram separados.
Mas, ainda que frequentemente subsistindo no desejo, como se pode ver no mito da alma gémea, o estado de fusão dos primeiros meses de vida nunca é reencontrado… nostalgia esta que persiste em algumas pessoas esperando voltar a reencontrá-lo. Se alguns sentiram internamente a separação do objecto como libertação e escolheram a separação como forma de relação com o outro, sentindo-a como satisfatória, outros sentem na sua vida um vago sentimento de incompletude (que pode estar associado a uma separação precoce, ou a uma dependência precoce insatisfatória), uma nostalgia que parece estar relacionada com um desejo de fusão com o objecto, a qual eliminaria toda e qualquer diferença, nostalgia que traz consigo um sofrimento permanente e uma insatisfação na relação com os outros.
Para Nacht, esta relação fusional, nascida no silêncio, só poderá ser reexperimentada no silêncio… E só será possível reviver isto na relação psicanalítica, através da relação não verbal que permite atingir um estado de união interna com o objecto-analista.
Será este silêncio duradouro, sem agressão nem ambivalência, que permite ao paciente utilizar o analista como objecto, assim como tudo o que este lhe ensinou e disse, isto é, interiorizar o analista. E será esta interiorização, que conduz à aceitação da inevitável separação, que constitui a boa relação de objecto, separação que até então era sentida como dolorosa.
Será este, segundo Nacht, o papel do silêncio no sucesso do tratamento: o silêncio tem o poder de permitir a integração indispensável para a eficácia do tratamento:
“As interpretações do analista passam agora a ser aceites e sentidas de uma forma totalmente diferente, as intervenções verbais serão recebidas a partir do silêncio interno do paciente, criando raízes no seu ser mais profundo, e produzindo frutos, enquanto antes perdiam-se logo após ouvidas, perdendo-se no remoinho de um pensamento agitado (…) as palavras plantam sementes; assim como as sementes germinam no silêncio pacífico da terra, assim agora em silêncio e paz, o self cresce e desenvolve-se” (Nacht, 1964, p. 302).
Mas, se Nacht me deixou mais tranquila com o meu silêncio, assim não o fez com o silêncio da Dora. Ele falava-me de pacientes com profundas necessidades regressivas e fusionais; eu sentia na Dora, ao contrário, um silêncio para impedir essa maior proximidade…
Foi a leitura da obra de Bollas (1992) e o seu conceito de “objecto transformacional” que me deu um outro olhar sobre o silêncio da Dora, e me transformou a mim, na forma de estar com ela, na forma dela estar comigo e, finalmente, também na forma de escutar outros pacientes.
Bollas (1992) salienta a importância do silêncio para o contacto do paciente com partes do seu self mais profundo, a que ele chamou de “conhecido não-pensado”.
Bollas parte do conceito de Winnicott de “mãe ambiental”: a mãe provê a continuidade do ser, “contém” o bebé num ambiente criado por ela, e facilita o seu crescimento; será a mãe que, através da experiência intersubjectiva com o filho, mantém coesos os rituais da necessidade psicossomática (alimentação, troca de fraldas, acalmar, brincar, dormir), será a mãe como o “outro self” da criança que transforma o ambiente interno e externo do bebé. Assim, ainda não totalmente identificada com um outro, a mãe é experienciada como um processo de transformação, e este carácter dos primeiros tempos de vida perdura em certas formas de busca-do-objecto na vida adulta. Tratando-se de uma identificação que se inicia antes de a mãe ser representada mentalmente como um outro, é uma relação objectal que não emerge do desejo, mas de uma identificação perceptiva do objecto com a sua função: o objecto como um transformador ambiento-somático do sujeito. A memória dessa primeira relação objectal manifesta-se na busca de um objecto (uma pessoa, um lugar, um acontecimento, uma ideologia) que promete transformar o self.
Ao longo da vida adulta, mantém-se o traço da busca deste objecto transformacional, um objecto identificado com a metamorfose do self. Por exemplo, nas crenças religiosas (possibilidade de uma divindade transformar completamente o meio); na vida laica na esperança investida em vários objectos (na ciência, nas ideologias políticas, numa mudança de país, ou numa relação amorosa). É geralmente na ocasião de um momento estético que o indivíduo sente uma comunhão profunda e subjectiva com o objecto (uma pintura, um poema, uma área ou sinfonia ou paisagem natural) e experimenta uma estranha fusão com este,
tornando a evocar um estado do Eu que prevaleceu durante os primeiros tempos da vida psíquica.
Na transferência – que segundo Bollas ocorre mais para o espaço e processo analítico do que para a pessoa do analista – o paciente está a relacionar-se com o objecto transformacional, isto é, experiencia o analista como mãe-ambiental, uma memória pré-verbal que não pode ser percebida num discurso que evoque a experiência, mas somente num ambiente que se assemelha a esta experiência de não-intrusividade e de holding, e num tipo de saber simbiótico ou “telepático”.
Assim, a transferência é, antes de tudo, uma reacção transferencial a uma relação objectal primária e ajuda o analista a observar como o paciente rememora a sua própria experiência daquela relação. Bollas acredita que, na maior parte do tempo, a passividade de um paciente, a sua mudez ou expectativa de que o analista saiba o que fazer não significam uma resistência a qualquer pensamento consciente ou pré-consciente, mas uma recordação do primeiro mundo pré-verbal da criança com a mãe. O analista permite a construção desse mundo pré-verbal através do seu silêncio, do pensamento empático e de uma total abstenção de instruções didácticas…
Por outro lado, é através da regressão à dependência que o silêncio permite entrar em contacto com o conhecido não-pensado. Bollas retoma a ideia de uma “regressão normal” de Balint (1968) e Winnicott (1965), que a pensaram como a necessidade de certos pacientes usarem o contexto e processo analítico para se desfazerem do fardo do falso self e sucumbirem ao self verdadeiro, enfatizando que esta regressão normal não se refere nem a uma regressão instintiva nem a uma descompensação psicótica… De facto, o contexto analítico torna-se um convite à regressão: o deitar no divã, as sensações físicas de ser contido por esse objecto físico, a proximidade física do analista; o conforto e prazer (mesmo no meio de sofrimento) ligado à atenção que o analista dá ao seu self; a experiência de segurança ligada ao tempo (45/50 minutos; três, quatro, cinco vezes por semana, pelo tempo que for necessário); a experiência de protecção em relação aos objectos do espaço analítico; a permissão que é dada para se mergulhar em estados irreais, inconscientes de si mesmo, permitindo sentir o seu ser… relatar o seu self, com o qual tantas vezes o próprio paciente se surpreende.
Assim, quando o analista descobrir no paciente o elemento infantil em busca de um meio continente que permita a evolução tranquila de outros elementos do self (self verdadeiro de Winninott), deverá suspender
a interpretação do conteúdo ou da transferência e, em alternativa, reconhecer a necessidade de diálogo do paciente com o seu conhecido não-pensado…
E o silêncio é fundamental neste processo:
“Durante o silêncio, ele experiencia alguma coisa mais… Ele encontra-se numa espécie de ‘estado crepuscular’: o prazer em estar deitado no divã, escutando os sons do mundo analítico (carros que passam, tiquetaque do relógio, som de vozes do exterior); encontra prazer na presença do analista, nos barulhos do estômago, na respiração, e tudo mais, que são sentidos como tranquilizadores e continentes. Depois de focalizar a sensação física de ser contido pelo divã e sensações acústicas de ouvir os sons do mundo, ele mergulha num mundo em que os pensamentos parecem benignamente inexpressivos. Os pensamentos surgem em resposta aos estímulos sensoriais como os sons ou objectos visíveis da sala, existindo uma transição subtil entre o escutar, ver, ter sensações do mundo externo, e do escutar, ver, e ter sensações e sentimentos do mundo interior. Pode haver uma interacção contínua entre os dois que Winnicott chama de área intermediária do vivenciar” (Bollas, 1992, p. 316).
É depois do estádio de imaginar e sentir que uma pessoa em regressão à dependência pode “perceber” o significado mais profundo de si: a experiência de self-objecto e o respectivo afecto aprofundam a memória, o paciente pode descobrir de repente algo sobre a mãe, pai ou ele próprio, algo que nunca tinha pensado antes e que faz parte do conhecido não-pensado (alguns poderão chorar, outros sentirão uma revelação). É importante que o analista permaneça silencioso, contenha a situação, e não aja de acordo com sua curiosidade. Pode existir necessidade de manter essa experiência em privacidade, como se narrá-la significasse perdê-la. Só depois virá a necessidade de relatar essa experiência ao analista.
Se durante esses momentos o analista perguntar o que se passa na mente do paciente, esse estado de regressão deter-se-á, e o processo terminará. Qualquer pergunta “o que está a pensar”, ou “talvez alguma coisa que prefere que eu não saiba”, é uma invasão.
No entanto, para compreender a regressão à dependência, é importante estabelecer uma diferença entre os usos que o analisando faz do silêncio. Se alguns silêncios são resistências, outros são uma condição necessária para a regressão à dependência:
“É o silêncio como meio pelo qual se experiencia o continente analítico, parecido com o silêncio da criança pequena 10 ou 20 minutos antes
de adormecer que, durante essa transição entre o vivido alerta em relação a objectos importantes e a inconsciência do sonho, fica tranquilamente deitada na sua cama, com os olhos abertos, imaginando a sua vida… A criança olha o foguete e imagina-se o piloto, ou lembra-se do pai que lhe ofereceu o brinquedo, ou pensa no outro menino na escola que tem outro foguete, etc.” (Bollas, 1992, p. 316).
O silêncio é então condição necessária para o “processar” do mundo interno e da realidade externa.
E Bollas transformou a minha forma de estar com a Dora.
Ele legitimou o seu silêncio porque este seria a possibilidade de ela viver o conhecido não pensado, eu seria o objecto transformacional trazendo a possibilidade de ajudar a viver o self verdadeiro da Dora, que tinha ficado suspenso no passado, preso entre a necessidade de cumprir o desejo parental projectado sobre ela, e a necessidade de proteger o seu self verdadeiro, mantendo uma separação na relação com o outro. A sua análise seria a possibilidade de simultaneamente se entregar na relação com a analista, mantendo a sua autonomia. Aprender a ser. O silêncio-oposição seria a forma possível, a ser transformada, de manter o seu espaço.
Bollas deu-me um nome ao que se passava com a minha analisanda: ela repetia a fantasia de ficar prisioneira na relação comigo, quando me dizia: “não conto as coisas que me preocupam porque depois não saberei como resolvê-las quando não estiver aqui”, ao mesmo tempo que esperava que eu transformasse esta relação.
Ele legitimou o meu silêncio, porque este traria a possibilidade à paciente de viver o conhecido não pensado. Eu podia agora descansar… deixar-me ficar no silêncio…
E deu-me um outro olhar sobre a transferência da Dora: ela estaria a repetir ali o desinvestimento vivido na relação com o pai, fechando-se em pensamentos silenciosos, tal como ele se teria fechado nos seus – identificação projectiva de partes do self; e eu seria também a mãe, vivida como intrusiva, ao interpretá-la, ao procurar impedir o seu silêncio, ameaçando a sua autonomia. Ela manteria a sua identidade recusando-se a cumprir o meu desejo de que ela falasse.
Aceitei o seu silêncio, disse-lhe que ele revelava uma necessidade profunda de estar ali em silêncio.
Mas as resistências mantinham-se, falta na última sessão antes das férias de verão.
E foi com o “silêncio das férias” que algo de facto mudou, e que eu me esqueci da psicanálise, de Nacht e de Bollas, enquanto os elaborava “silenciosamente”, finalmente encontrando-me “sem desejo, sem memória, sem compreensão”. Quando regresso, convencida que ela iria desistir, encontro uma outra Dora, mais próxima emocionalmente, mais empenhada na sua análise, menos resistente às minhas palavras, assegurando-me da presença da “melodia” da elaboração psíquica por detrás de todos aqueles meses de silêncio no setting analítico.
Na primeira sessão depois das férias, a Dora, mais próxima, assegura-me, consciente da sua dificuldade em estar ali comigo, que nunca pensou desistir da análise, e como a considerava importante. Mas lamenta-se de não ver mudanças na relação com o pai, relação que se mantinha distante, sentindo-se incapaz de falar nas suas coisas com ele, porque “ele não tem nada a ver com isso”. E foi então que, no meio do meu silêncio tranquilo, sinto um “clique” e digo-lhe: “Já reparou que é também isso que me tem dito a mim?”, ao que ela responde, exclamando: “Sim, é verdade!”. E eu continuo: “Como se estivesse a repetir aqui essa relação com o seu pai”; e ela: “Não consigo perceber como isso acontece, mas tenho que admitir que é verdade. Todas as minhas relações são normais, excepto a com o meu pai e aqui…”.
E os nossos silêncios aumentaram, mas agora mais tranquilos, sem zanga, sem ressentimento, sem frustração, sem oposição.
E um dia, enquanto estávamos as duas num silêncio-tranquilo, sinto a sua respiração a tornar-se cada vez mais lenta, e percebo que adormeceu. Senti-me como uma espécie de mãe a tomar conta do sono da sua filha. Então eu sorri ao lembrar-me de Bollas, quando ele comparava o silêncio transformacional ao bebé que adormece enquanto velado por um adulto.
Algum tempo depois ela conta-me como a relação com o pai mudara, como eles estavam agora mais próximos…
E foi assim que, gradualmente, através de ambas, a aceitação do silêncio e a interpretação da forte e paralisante relação transferencial, o silêncio foi desvendado e trabalhado na relação analítica…
Um silêncio-resistência à minha intrusão no seu mundo psíquico, tal como o objecto materno havia sido vivido. Mãe que procura uma relação dependente e exclusiva com a filha, denegrindo a relação com o pai, mostrando à filha que ela havia sido a única razão pela qual eles se haviam mantido juntos. Um pai, vivido na primeira infância de forma libidinal e edipiana, mas uma relação interrompida na puberdade da
paciente por uma doença do pai, progressivamente diminuído e retirado afectivamente. A Dora teria ficado assim com o Édipo interrompido, prisioneira da relação materna, numa triangulação que na puberdade passaria de 3 para 2+1…
Dora, também filha única, objecto de amor narcísico parental, prisioneira da dívida afectiva para com eles…
E um silêncio-submissão testemunha de uma impossibilidade de uma palavra sua (self verdadeiro; Winnicott, 1965).
Eu analista-mãe, intrusiva, que ela tem que travar com o silêncio; e eu também analista-terceiro, objecto separador da relação dependente materna, que ela não pode aceitar para não trair/perder a mãe.
Silêncio que foi também ele ganhando diferentes vivências e significados à medida que o trabalho analítico progredia: silêncio-desconforto (o desconforto de não poder/mas ter que falar, numa submissão da Dora às minhas expectativas), silêncio-tranquilo porque ela já é capaz de uma oposição na relação analítica, nunca realizada na relação materna; silêncio-impotência, porque está agora consciente das suas dificuldades e defesas; silêncio-culpa/rivalidade no retomar do cenário edipiano.
E, aos poucos, o silêncio foi abrindo frestas e, três anos mais tarde, a palavra surgiu…
Na repetida e progressiva verbalização da relação transferencial materna revivida comigo, esboça-se a separação e, no lugar do silêncio, surge a palavra.
A separação do objecto primário, permitindo uma maior proximidade na relação analítica, e a introdução do terceiro… desobstrui o conflito edipiano suspenso desde a infância, e abre-se um espaço para a linguagem falada…
Gradualmente a “nossa viagem” foi percorrendo vários “portos”, onde o abrandamento da resistência abriu um caminho para o surgir do levantamento do reprimido, e para o sonho, ele próprio lugar de uma profunda elaboração das relações de infância “suspensas”, à espera de uma “objecto transformacional”.
E com o espaço aberto pelo terceiro na mente da Dora, também as suas relações reais e presentes se transformam: sai de casa para ir viver com o namorado, e constrói um relação com a mãe mais adulta e autónoma, enquanto se torna mais capaz de aceitar as falhas paternas (que já não colidem com a estabilidade do objecto paterno estabelecido).
E depois de seis anos de “viagem”, a relação analítica percorria um outro lugar… O lugar onde o silêncio-resistência deixou de existir, dando espaço
para a associação livre, e para a relação psicanalítica como uma nova relação: já não o lugar da intrusão materna, nem da separação materna, mas da relação com a boa distância, lugar onde é possível procurar apoio sem perder a autonomia, onde é possível o “não”, sem perder a relação, enfim o lugar onde a rivalidade se resolve com a identificação, feminina e sexual, com a analista… A liberdade é agora a melodia analítica…
ABSTRACT: Throughout our psychoanalytical growth, a transformation gradually takes place as a result of different learning, personal and professional experiences: personal analysis, theoretical education, clinical experience and supervision… Sometimes, however, one feels a rupture in the way of being analyst because a particular patient places us in conflict: we cannot work as before anymore… That is what happened to me, when a silent patient lied on my couch! A patient who refused to say anything at all about her thoughts, and who did not give me any verbal material to think about and interpret. That patient forced me not only to read her through the transference and countertransference, but also to exist in a different way… Although silent, she started to occupy a noisy space in my mind, to make me try to understand my own difficulties with silence, and to start reading what other authors said about silence and silent patients…its meaning and importance. In this journey with my “difficult patient” I met Freud, Nacht, and Bollas, who showed me another path… And then I felt something started to change in the way of positioning myself in the setting, but not just with this silent patient, but also in general, with every other patient…
KEYWORDS: Silence; Transformational object; Transference; Countertransference.